Nove de julho

Nove de julho

Em combate que durou 87 dias, o Estado de São Paulo, posicionando-se contra ascensão de Getúlio Vargas, enfrentou milhares de militares “Getulistas”

As batalhas travadas entre a sociedade civil paulista e o governo provisório de Getúlio Vargas, que chegou ao poder após o golpe de estado em 1930, resultou em um significativo conflito militar da história brasileira do século XX e é lembrada, desde 1997, como o feriado estadual da Revolução Constitucionalista de 1932.

O conflito, que terminou na morte de mais de 600 paulistas, possibilitou algumas mudanças na política brasileira, como a participação das mulheres na eleição de 1933. Porém, nessa época, iniciou-se também o período ditatorial brasileiro.

O coordenador do curso de pós graduação em História, Cultura e Sociedade, do Centro Universitário Barão de Mauá, Carlo Monti, ressalta que a principal mudança no campo político, gerada pela revolta dos paulistas no início da década de 1930, que durou 87 dias, foi a mudança do perfil da política coronelista, presente durante a “República Velha”, para a política populista, instaurada por Getúlio Vargas.

Ainda na opinião do coordenador, o feriado é importante como uma preservação da memória coletiva paulista e regional. “Pelas histórias que meu pai e meu avô contavam, muitos se lembram das conquistas daquela época. E a comemoração desse feriado é importante por este motivo”, ressalta.

A data foi oficializada como feriado pelo Projeto de Lei nº 710/1995, do deputado estadual Guilherme Gianetti. Aprovado pela Assembleia Legislativa, o projeto virou Lei Estadual nº 9.497, de 5 de março de 1997, sancionada pelo então governador Mário Covas.

Para Carlo Monti, a criação do feriado fez-se necessária, pois o estado de São Paulo, na década de 1990, atravessava um momento de queda na economia, déficit na educação e aumento da criminalidade e violência. “A criação do feriado foi importante para a motivação dos paulistas”, analisa.

História
De 1889 a 1930, o Brasil foi governado por lideranças que se revezavam entre os Estados mais ricos daquela época: São Paulo, considerado a “locomotiva do país” e Minas Gerais. Em 1930, o então governante, Washington Luís, nomeando como seu sucessor o governador do Estado de São Paulo Júlio Prestes, contrariou a ordem vigente. A decisão de Washington Luís, na época, resultou no fim da aliança entre São Paulo e Minas Gerais, terminando assim com a “política do café com leite”. Em reação à decisão do governante paulista, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente de Minas Gerais, apoiou a candidatura do gaúcho Getúlio Vargas.

Com o fim da aliança, o período, que ficou conhecido como “República Velha”, começou a ruir quando, após um golpe de estado, realizado em 1930, em uma aliança entre os estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, para tirar a hegemonia de São Paulo do governo Federal, nomeia Getúlio Vargas para a liderança do país.

Com Vargas no poder, os paulistas aguardavam por uma nova eleição para definir o destino do governo provisório e a promulgação de uma nova constituição. Sem mudanças, em 1931, começa a crescer a insatisfação paulista contra o atual governo. Por outro lado, crescia também, mesmo em São Paulo, o grupo que era favorável à permanência de Vargas no poder: os “Tenentistas”, como ficaram conhecidos.

Para o historiador Carlo Monti, os acontecimentos de 1932 podem ser considerados como uma revolta, contra a tomada de poder, que antes era revezada entre paulistas e mineiros. No entanto, não pode ser chamada “revolução”, como é considerada atualmente. “Uma revolução é quando há uma mudança a ponto de mudar o cotidiano das pessoas. E, na verdade, isso não aconteceu. Nota-se que, quem se posicionou contra Vargas, em Ribeirão Preto, por exemplo, não foi o grosso da população, mas foram as pessoas envolvidas ou influenciadas pela elite paulista e, não toda a população”, explica o historiador.

O início da revolução
No dia 23 de maio de 1932, os manifestantes Euclides Bueno Miragaia, Mário Martins de Almeida, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Americo de Camargo Andrade foram mortos em conflito com a guarda de Getúlio Vargas, membros do clube “3 de Outubro” e da “Legião Revolucionária”, na Praça da República em São Paulo.

As mortes de Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, hoje símbolo da Revolução de 1932, foram o estopim para a guerra civil que resultou na alteração da Constituição Brasileira e na morte de aproximadamente 1.000 paulistas.

Apesar da derrota militar, os paulistas conseguiram que, em 3 de maio de 1933, fossem realizadas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, período em que, pela primeira vez, as mulheres puderam votar durante uma eleição de âmbito nacional.

Continuando com as reformas na política brasileira, Getúlio Vargas promulga, em 16 de julho de 1934, uma nova Constituição. A Constituição Brasileira de 1934, segundo o próprio preâmbulo, foi redigida  “para organizar um regime democrático, que assegure à Nação, a unidade, a liberdade, a justiça e o bem-estar social e econômico”, contudo, foi a que menos durou em toda a história do Brasil, vigorou oficialmente por apenas um ano.

Mesmo estando em vigor por pouco tempo, a Constituição de 1934 é considerada progressista para a época e instituía o voto secreto, estabelecia o voto obrigatório para maiores de 18 anos, propiciava o voto feminino, previa a criação da Justiça do Trabalho, a criação da Justiça Eleitoral e a nacionalização das riquezas do subsolo e quedas d’água no país.

Para Carlo Monti, a constituição de 1934, não tinha ligação com uma conquista do lado paulista, mas sim, uma manobra política de Getúlio Vargas, que tinha interesse de se reconciliar com o estado mais rico do país, naquela época. “Tratava-se de uma reconciliação de Getúlio Vargas com os paulistas. A criação da USP, por exemplo, é resultado dessa reconciliação, dentre outras medidas”, aponta Monti.

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Texto: Bruno Silva
Fotos: Divulgação

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