Novo ano, novas contas
Em entrevista, Guilherme Augusto Malagolli dá dicas para quem deseja passar 2021 sem dívidas
Texto: Marina parada
Pular ondas, vestir branco, comer romã e começar com o pé direito não são práticas suficientes para encarar um novo ano. Em 2021, além dos cuidados necessários em relação à pandemia do novo coronavírus, a disciplina orçamentária é essencial para manter um equilíbrio nas contas e passar o ano "no azul". O coordenador dos cursos de gestão EaD da Escola de Negócios do Centro Universitário Barão de Mauá, Guilherme Augusto Malagolli, explica como deve ser a organização para manter as contas em dia e com o mínimo de preocupação com as dívidas vindas do ano velho.
No início do ano, espera-se, naturalmente, algumas contas como IPTU, IPVA e DPVAT. Como se organizar para conseguir pagá-las? Ao olharmos para o calendário, é importante perceber que temos características de gastos diferentes em cada mês. Por exemplo, é fácil perceber que gastamos mais nos meses do final do ano, por conta da Black Friday, em novembro, e das festas de final de ano, em dezembro. Contudo, a partir de janeiro, começam os impostos, mais adiante já vem o Imposto de Renda, e assim por diante. É preciso estar preparado para isso. Portanto, essas contas tradicionais devem ser levadas em consideração com antecedência. Uma maneira de fazer esse planejamento pode ser, por exemplo, resgatar os gastos do mesmo período do ano anterior. Ao se identificar o total de gastos tido no último mês de janeiro, há uma boa noção do montante mínimo a ser reservado para o pagamento das próximas contas, levando-se em conta os reajustes.
Quais os cuidados que devemos ter em relação ao cartão de crédito e ao cheque especial?
O cheque especial é um crédito disponível na conta corrente para utilização em situações emergenciais, por períodos curtos. Ao se considerar que o cheque especial também é uma forma de crédito, devemos ter em mente que isso sempre vai acarretar juros — e, no Brasil, são juros altos. Apesar da taxa básica de juros (Selic) estar no patamar mais baixo da história, as taxas cobradas no cartão de crédito e no cheque especial ainda são elevadas. Em janeiro de 2021 entraram em vigor novas regras para o cheque especial, como a cobrança da tarifa de 0,25% mensal para clientes que tenham o limite superior a 500 reais. Esta tarifa só poderá ocorrer a partir de junho em casos onde o crédito já está aprovado, mas é cobrada de imediato em caso de novos clientes. Outra mudança é que os bancos terão um limite de juros no uso do cheque especial de 8% ao mês. São medidas importantes, mas ainda são taxas de juros altas. O uso frequente do cheque especial ou o não pagamento integral da fatura do cartão de crédito contribuem para o aumento da inadimplência.
É melhor pagar os impostos do começo do ano, à vista, ou parcelar?
É preciso muito cuidado ao tomar essa decisão. Devemos fazer uma comparação das despesas ao longo do ano e do total de gastos acumulados no mês. Por exemplo, quando falamos da matrícula dos filhos na escola, devemos prever que não vamos gastar apenas com a matrícula em si, mas também com material escolar e uniforme. Quando se trata dos gastos com o carro, além do IPVA, devemos prever a renovação do seguro que virá nos próximos meses. E assim por diante. Além disso, gastos imprevistos ocorrem naturalmente ao longo do ano e podem pesar no orçamento. Faça uma relação dos gastos que você já sabe que terá ao longo do ano, incluindo despesas fixas como água, aluguel, energia elétrica, celular, internet, condomínio, serviços de streaming, entre outras, ou seja, faça um acompanhamento cuidadoso das contas mensais para decidir se compensa parcelar. Por outro lado, o pagamento à vista pode proporcionar descontos interessantes, e isso também deve ser considerado. Se houver recurso disponível, pagar à vista deve aliviar os gastos mensais no restante do ano.
Como saber quais contas precisam ser priorizadas?
Os serviços essenciais garantem a nossa qualidade de vida e, portanto, devem permanecer sempre em dia, mas sempre chamo a atenção para o cartão de crédito, por causa da elevada taxa de juros desse tipo de conta. Se a situação financeira exigir a seleção de algumas contas, priorize o pagamento das contas do cartão de crédito para evitar o pagamento de juros altos. A ideia é sempre evitar que uma conta se torne uma “bola de neve” e vá aumentando muito por conta dos juros. Se o montante a ser pago aumentar muito e não houver um aumento de renda garantido, será cada vez mais difícil quitar a dívida. É evidente que o ideal é que todas as contas sejam pagas no período correto, mas, se o momento exigir, veja quais contas podem ser renegociadas.
Por conta da pandemia do novo coronavírus, vivemos um grave cenário econômico do país. Quais cuidados financeiros devem ser tomados para manter um equilíbrio?
A disciplina com o orçamento e com os gastos é essencial em qualquer período, especialmente em épocas de crise, como agora. Ter disciplina exige muito esforço e dedicação, mas é o melhor caminho para conseguir superar as dificuldades. Existem alguns cuidados que devemos nos habituar a ter, independente de pandemia ou de crise econômica, como o planejamento orçamentário. Uma sugestão pessoal é: faça uma reserva de emergência. Com um planejamento anual bem feito e com o acompanhamento rigoroso mês a mês, é possível iniciar uma reserva que vai te deixar em uma situação financeira mais confortável quando as grandes contas chegarem.
Em 2020, o dólar oscilou e atingiu patamares elevados. Isso afeta as contas do ano?
Sem dúvida, a cotação do dólar aumentou nos primeiros meses de 2020 até atingir um pico em maio de 2020 e, desde então, oscilou bastante no restante do ano. A variação do dólar provoca efeitos distintos na economia. Essa variação é sempre negativa para alguns grupos de interesse e positiva para outros. Os setores que trabalham com produtos importados, seja vendendo ou utilizando como matéria prima, terão um aumento de custos e tenderão a repassar este aumento para o consumidor. Caso a alta do dólar seja prolongada, o aumento no preço dos produtos importados pode provocar um aumento da inflação no Brasil. Alguns produtos básicos e que dependem do mercado internacional, como a gasolina, por exemplo, têm uma grande influência nesse cálculo. Deve-se considerar, também, o caso das empresas que têm dívidas em dólar e a receita em reais, ou seja, vão ter de gerar mais receita para saldar a dívida. Entretanto, a alta do dólar incentiva a exportação de produtos brasileiros. Com o dólar mais caro, os nossos produtos se tornam mais competitivos lá fora, favorecendo os exportadores. O aumento do preço dos produtos importados pode ser um estímulo à indústria nacional que concorre com estes produtos de fora.