Novo clima

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Após primeiro ano da pandemia, início da vacinação trazia perspectivas positivas para a retomada da economia, mas agravamento da crise sanitária traça novo cenário

Décima economia do estado e 23ª do país, Ribeirão Preto sentiu os efeitos da pandemia de Covid-19 no mercado, principalmente por conta da desaceleração no consumo de produtos e serviços. O município, que tem o varejo com participação de 69% no Produto Interno Bruto (PIB), segundo o IBGE, fechou 2.380 postos de trabalho nos segmentos do comércio e serviços em 2020, depois do início da crise sanitária, segundo o Ministério da Economia.

Por outro lado, o mercado mostrou reação com a criação de alternativas. Também segundo dados do governo federal, a abertura de empresas no município cresceu 4% em 2020 e, mesmo nos meses mais críticos da pandemia, 41 empresas foram registradas por dia, em média, em Ribeirão Preto. A maioria dos novos negócios, 93%, são de microempreendedores individuais (MEIs) do varejo buscando saídas para a crise. “Ribeirão Preto possui, hoje, pouco mais de 120 mil empresas, figurando entre as principais cidades de negócios do país. O comércio representa aproximadamente 35% desse total, abaixo apenas do setor de serviços. Isso demonstra o quão importante o varejo é para a manutenção econômico-social e reflete a urgência para que voltem a funcionar em plenitude. Enquanto isso não ocorre, inovação, gestão de custos, renegociação de dívidas e atendimento por meios digitais são alguns tópicos que merecem maior atenção”, afirma o economista Diego Galli Alberto, pesquisador e coordenador do Centro de Pesquisas do Varejo (CPV), do Sindicato do Comércio Varejista (Sincovarp).

No primeiro bimestre de 2021, com o início da vacinação, as perspectivas positivas para essa volta do mercado local cresceram. Segundo o Caged, apenas em janeiro, 1.138 vagas de emprego foram abertas na cidade — 57% delas no setor de serviços. Já a abertura de novas empresas cresceu 14% no primeiro bimestre do ano, em relação ao mesmo período de 2020, e 17% a mais em relação ao primeiro bimestre de 2019, quando não havia qualquer sinal da pandemia.

Contudo, o lento processo de vacinação e o agravamento da pandemia, com uma segunda onda causada por novas variantes da Covid-19, impactaram nos ânimos do mercado. “Cada vez que temos um agravamento da doença, a economia entra em marcha lenta, com pequeno crescimento”, avalia o economista e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP Ribeirão Preto (FEA-RP/ USP) Edgard Monforte Merlo.

Nesse cenário, as previsões passaram a ser revisadas e, mesmo com estimativa de crescimento econômico em torno de 2% em 2021, há desconfiança dos diferentes setores. “Começamos o ano com uma perspectiva de retomada da economia. Entretanto, com a segunda onda da pandemia do novo coronavírus, a perspectiva é de que a economia fique estagnada, principalmente se o auxílio emergencial não provocar o efeito esperado e não houver um novo pacote de benefícios e créditos para as empresas”, explica a economista Carla Valdevite, professora do Centro Universitário Moura Lacerda.

SETORES EM DESTAQUE

Ainda segundo economistas, setores como construção civil, indústria e agropecuária devem seguir em evidência no processo de retomada econômica, que deve acontecer de maneira mais sólida a partir do segundo semestre, caso a vacinação avance e a segunda onda da doença seja controlada. “Ribeirão Preto, apesar de todas as dificuldades, deve se destacar, mas vai depender de quanto tempo será a quarentena deste ano. A cidade é um polo comercial que atrai pessoas de várias regiões. Se o comércio ficar fechado, a cidade com certeza será impactada. Por outro lado, o etanol e o açúcar estão com preços em patamares elevados, o que favorece bem o setor sucroalcooleiro, forte na região”, pontua Eliseu Hernandez, sócio e head de renda fixa da BlueTrade.

Como a Covid-19 trouxe consequências negativas para os trabalhadores e empresários de forma geral, problemas estruturais que perduram há décadas na economia do Brasil foram agravados, segundo o economista Sergio Sakurai, o que exige medidas estruturais. “A reforma da previdência foi um passo importante, mas há outras. A eleição também está próxima e precisamos de um governo federal que pense não só nos problemas de curto prazo mas, também, no que será do Brasil nos próximos 50 ou 100 anos”, analisa.

Segundo Alberto Borges Matias, diretor do Inepad, o avanço da tecnologia em setores estratégicos, como a agricultura e indústria, deve contribuir com a retomada. “Temos dois cenários: antes da vacina e após a vacina. A previsão de crescimento do PIB para este ano é de até 3% para 2021 e 2022, sendo que a atividade industrial deverá crescer mais, cerca de 5% neste ano de 2021. Grandes desafios nos esperam, vamos a eles”, destaca.

Para Ricardo Donegá, coordenador do curso Administração Unaerp, a economia também será influenciada pelos setores ligados à exportação ou que podem criar modelos de negócio que atraiam investimentos em moeda estrangeira. No entanto, segundo ele, é preciso ter cautela com as previsões. “Toda estimativa feita atualmente é um conjunto de análises combinadas de critérios supostamente objetivos, mas a interpretação requer cuidados. É quase consenso que o país deverá crescer acima dos 3,5% na atividade econômica. Importante é entender que não há equilíbrio nesse crescimento. Por exemplo, a alta no consumo agregado das famílias é fortemente puxada pelas classes mais altas, que notadamente movimentam economia em tempos de crise. Esse crescimento não reflete as camadas mais humildes da população, que se inserem na economia mediante fundos assistenciais, reduzidos em 2021 se comparados a 2020”, avalia.

Nas entrevistas a seguir, os sete economistas convidados analisam cenários e discorrem sobre as perspectivas para a economia no país e em Ribeirão Preto, além de detalharem a situação de setores específicos do mercado e os novos rumos econômicos.

 

Diego Galli Alberto Economista

Pesquisador e coordenador do Centro de Pesquisas do Varejo (CPV), do Sindicato do Comércio Varejista (Sincovarp)

Qual a sua perspectiva para a economia neste ano de 2021, diante do cenário que vivemos hoje, no Brasil e, também, em Ribeirão Preto?

Períodos econômicos turbulentos não são tão incomuns. Há pouco o Brasil enfrentava a recessão de 2014, com o fim da alta dos preços das commodities, escândalos de corrupção e medidas do governo iniciadas em 2011. Pouco tempo de recuperação, nova turbulência. A crise iniciada em 2020 (queda de 4,1% do PIB) tem a pandemia como fator principal e, sendo assim, a solução vai ao encontro do controle da doença. O crescimento previsto para 2021 segue em 3,2%, algo positivo para o momento. A economia regional seguirá atrelada a essas condições.

 

Será, novamente, um ano difícil para o setor do varejo e comércio em Ribeirão Preto?

Apesar do otimismo de que as atividades voltariam à normalidade brevemente, empresas continuam a ter de fazer e refazer planos para acompanhar a evolução da pandemia. Esses ajustes, por si só, são um obstáculo a mais no dia a dia dos gestores. Além da pandemia, política fiscal, agenda econômica, dólar alto e inflação também estão na pauta de 2021. Certamente já não está sendo um ano fácil.

 

Quais são os segmentos do varejo que poderão sentir de forma mais dura esse segundo ano de pandemia?

Dentre os segmentos do setor, o de bares e restaurantes tem sofrido ainda mais, especialmente as empresas nas quais é imprescindível o atendimento presencial, como casas noturnas, rodízios, etc... De qualquer forma, todos os segmentos estão sofrendo danos, direta ou indiretamente, e isso persistirá até melhor controle da crise.

 

Qual o impacto no setor das medidas necessárias para conter a disseminação do vírus, como as mais restritivas do Plano São Paulo e o lockdown?

Um dos aspectos mais afetados em meio a tantas mudanças e incertezas é o planejamento. Acrescido a isso, limitações operacionais sobre o período de funcionamento, quantidade de clientes atendidos e canais de vendas trazem enormes prejuízos. Pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas do Varejo (CPV), órgão vinculado ao Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto (Sincovarp) e à Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL Ribeirão Preto), identificou redução de 11,25% nas vendas do varejo local nesse 1º bimestre em relação ao mesmo período de 2020. Essa queda é anterior ao recente lockdown. O principal impacto nos negócios está em seus resultados negativos recorrentes.

 

A volta do auxílio emergencial, a retomada do programa de redução de salários e o anúncio de programas de crédito do Estado podem ajudar a melhorar o cenário para os empresários? Apesar da redução no valor, o auxílio contribui para que empresas mantenham um nível mínimo de operação. O benefício emergencial de preservação do emprego e da renda ajuda o empresário a estabilizar seu quadro de colaboradores, prevendo redução da jornada de trabalho e salário ou suspensão do contrato ao mesmo tempo que garante a manutenção do emprego e salários cobertos pelo governo. Por fim, as linhas de crédito do estado podem auxiliar nas dívidas de curto prazo, funcionando como um empréstimo.

 

Edgard Monforte Merlo

Economista, doutor em Administração e professor da Faculdade de Economia Administração e Contabilidade da USP Ribeirão Preto (FEA-RP/USP)

Qual a sua perspectiva para a economia neste ano de 2021, diante do cenário que vivemos hoje, no Brasil e, também, em Ribeirão Preto?

As perspectivas para o primeiro semestre sofreram grande piora, em função do ritmo lento de vacinação e da segunda onda de Covid-19. Cada vez que temos um agravamento da doença, a economia entra em marcha lenta, com pequeno crescimento. Existe a perspectiva de que o processo de vacinação contra a doença avance mais no segundo semestre, o que facilitaria a retomada da economia. Se isso ocorrer, pode ser que consigamos fazer a economia crescer em torno de 2% em 2021. Ribeirão Preto deve continuar a ter um desempenho bom no setor agrícola e sofrível em relação ao comércio e serviços, principalmente, no primeiro semestre.

 

Em relação ao comportamento do consumidor, o que esperar deste ano? Afinal, ao mesmo tempo que temos o início da vacinação, também chegamos ao ponto mais crítico da pandemia.

O consumidor está se adaptando rapidamente a essa nova realidade, os aplicativos e as novas formas de venda e entrega se desenvolveram muito nesses dois últimos anos. A vacinação necessita ter uma cobertura maior para começar a produzir efeitos concretos na economia. O percentual da população vacinada ainda é muito pequeno (atualmente cerca de 5%). Os efeitos positivos devem começar a aparecer quando nos aproximarmos dos 50% da população vacinada. Existem notícias de que serão ampliadas a produção de vacinas em São Paulo e no Rio de Janeiro a partir de abril. Se isso de fato ocorrer, poderemos ter uma ampliação no número de vacinados. A experiência internacional tem mostrado que, com a maior cobertura vacinal, a economia tende a retomar os níveis anteriores ao da pandemia, o que, comparativamente ao momento atual, já seria um grande avanço.

 

De que forma medidas como o lockdown e até os movimentos negacionistas impactam nesse comportamento de consumo?

O lockdown, de certo modo, impõe mudanças acentuadas na forma de consumir e na prestação de serviços. Os setores de comércio e serviços que são intensivos em mão de obra sofrem uma pressão negativa muito forte. Ribeirão Preto tem um setor de comércio e serviços que gera mais da metade dos empregos da cidade. Com o lockdown, o faturamento do setor se reduz, o número de funcionários diminui e temos uma redução global na renda gerada na cidade. Nesse sentido, cidades como a nossa sofrem de maneira mais acentuada com o lockdown que outras, onde a presença do setor industrial é maior.

 

Ribeirão Preto, por ser uma cidade polo de consumo de produtos e serviços, deve sentir forte impacto com a nova onda de medo e insegurança dos consumidores em relação à pandemia?

Sim. Ribeirão Preto exerce uma influência sobre cerca de 3 milhões de consumidores do que chamamos de uma região ampliada de consumo. Com a pandemia e o lockdown, esses deslocamentos se reduzem, as pessoas reduzem suas compras por mercadorias e serviços e o impacto será inevitável. Infelizmente, não existe um plano alternativo a ser adotado nesse momento. A questão central passa por atenuar os efeitos da pandemia para termos a recuperação efetiva. |

 

Eliseu Hernandez

Economista, sócio e head de renda fixa da BlueTrade

Qual a sua perspectiva para a economia neste ano de 2021, diante do cenário que vivemos hoje, no Brasil e, também, em Ribeirão Preto?

De acordo com os estudos da XP Investimentos, vemos um PIB com crescimento de 3,2%. A Selic deve terminar o ano em 5%, como consequência de uma inflação maior na casa dos 4,90% e por causa do risco fiscal. Ribeirão Preto, apesar de todas as dificuldades, deve se sair melhor, mas vai depender de quanto tempo será a quarentena deste ano. A cidade é um polo comercial que atrai pessoas de várias regiões. Se o comércio ficar fechado, a cidade com certeza será impactada. Por outro lado, o etanol e o açúcar estão com preços em patamares elevados, o que favorece bem o setor sucroalcooleiro, forte na região.

 

Qual o impacto para o mercado financeiro das medidas necessárias para conter a disseminação do vírus, como as regras mais restritivas do Plano São Paulo e até mesmo lockdown em algumas cidades, como Ribeirão?

A economia cresce com a interação de pessoas. Se essa interação é restringida, a economia sofre. Com o crescimento mais baixo, a capacidade do país de honrar dívidas diminui, logo, nossa taxa de juros sobe, pois ficamos mais arriscados. A Selic já subiu para 2,75% e deve finalizar o ano em 5%, que ainda é considerado um patamar baixo. Isso favorece ativos de renda fixa pós-fixados, apesar de ainda estarem em desvantagem contra outros tipos de investimentos. Na parte de ações, o mercado deve penalizar empresas que dependem de circulação e favorecer bancos e varejo eletrônico.

 

A volta do auxílio emergencial, a retomada do programa de redução de salários e o anúncio de programas de crédito do Estado também podem impactar no mercado? De que maneira?

A redução de salário e programa de crédito são para evitar demissões. Já o auxílio emergencial é para injetar renda direto em quem precisa. Ainda não dá para medir o impacto, porém, se for semelhante ao impacto do ano passado, haverá aumento de consumo do setor de alimentos em domicílio e a inflação continuará pressionada. Em um cenário como o de hoje, existe algum tipo de investimento que tende a crescer nos próximos meses? O mais adequado é sempre ter uma carteira diversificada em vários tipos de investimentos: uma em reserva de emergência, outra em ações, outra em pós-fixado, em pré-fixado e outra em inflação. Dessa forma, o investidor está protegido e, se um ativo desempenhar melhor que outro, o portfólio vai captar.

 

Como está a reação da bolsa em relação a todo esse momento de crise sanitária, econômica e política no Brasil?

Quando olhamos para as demonstrações financeiras das empresas da bolsa, vemos um bom desempenho no último trimestre do ano passado. O desempenho da bolsa no longo prazo é lucro das empresas. Quanto mais rápido ocorrer a vacinação e o quanto mais rápido as pessoas puderem interagir, melhor será o desempenho da bolsa. Em relação ao dólar, há alguma sinalização de queda em um cenário de avanço da vacinação mundial e o início da campanha no Brasil? O que levou o dólar aos patamares atuais foi o diferencial de juros para um país com risco fiscal como o Brasil. O investidor estrangeiro começou a sair do país por causa disso. Ao fazer esse movimento, a demanda por dólar e a oferta de real aumentam. Isso faz com que o câmbio deprecie. Com a Selic subindo e o país voltando a pagar juros reais positivos, deve diminuir essa pressão no câmbio. Porém, não quer dizer que veremos câmbio a R$ 4 novamente.

 

Sergio Sakurai

Doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP/USP)

 

Qual a sua perspectiva para a economia neste ano de 2021, diante do cenário que vivemos hoje, no Brasil e, também, em Ribeirão Preto?

Infelizmente, as perspectivas econômicas para 2021 não são as melhores, seja para o Brasil como um todo, seja especificamente para Ribeirão Preto. A Covid, por si só, trouxe uma série de consequências negativas para os trabalhadores e empresários de forma geral, mas esses danos tomaram proporções maiores no Brasil pelo fato de nossa economia sofrer de problemas estruturais que perduram há décadas e que até agora não foram devidamente sanados. A Reforma da Previdência foi um passo importante, mas há outros. A próxima eleição para presidente está bem próxima e precisamos de um presidente que pense não só nos problemas de curto prazo, mas, também, no que será do Brasil nos próximos 50 ou 100 anos.

 

Será novamente um ano com juros em baixa? Ou já há sinalização de alta na taxa básica de juros? Qual a importância dessa mudança?

Em função do comportamento recente da inflação, a taxa Selic sofrerá aumento em 2021. Na última reunião do Copom, realizada em 17 de março, não só já houve uma elevação de 0,75 pontos percentuais (de 2,00% para 2,75%), mas também a sinalização de que a taxa deve continuar subindo ao longo do ano. Essa elevação dos juros tende a gerar uma série de consequências para o país. O consumo das famílias, que já caiu 5,5% em 2020 em relação a 2019, tende a diminuir, especialmente dos bens de consumo duráveis, que são comumente adquiridos via crediário. A Formação Bruta de Capital Fixo, que mensura o investimento das empresas e que já sofreu retração de 0,8% em 2020 relativamente à 2019, também tende a cair em função do encarecimento do crédito. Ademais, o financiamento da dívida do governo, que é bastante alto, também se torna mais custoso.

 

O que podemos esperar da inflação para este ano?

Atualmente, segundo a pesquisa Focus do Banco Central, a expectativa é que o IPCA feche 2021 em 4,60%, uma elevação diante das expectativas vigentes em setembro de 2020, quando a taxa esperada para 2021 era de 3%. Esse quadro se torna mais delicado quando se leva em conta que o IPCA de 2020 foi de 4,52% e o INPC, que mensura a inflação das famílias de renda mais baixa, foi de 5,45%.

 

Em relação ao dólar, há alguma sinalização de queda em um cenário de avanço da vacinação mundial e o início da campanha no Brasil?

A expectativa do mercado é que a taxa de câmbio atinja R$ 5,30 por dólar ao final de 2021 — há seis meses, esperava-se que taxa de câmbio atingisse R$ 5,00 por dólar. Há vários fatores que explicam esta mudança de expectativas, mas um deles passa pela piora das expectativas quanto à entrada de investimento externo direto no Brasil: atualmente, a expectativa é de que entrem US$ 52,50 bilhões no país em 2021. Em setembro de 2020 e em março de 2020, a expectativa para 2021 era de entrada de US$ 65,48 bilhões e US$ 83,75 bilhões, respectivamente. Assim, houve piora das expectativas para 2021 quanto à abertura ou ampliação de negócios no Brasil feita por estrangeiros.

 

Carla Valdevite

Mestre em Economia Aplicada pela USP, especialista em análise de mercado e professora do Centro Universitário Moura Lacerda

 

Qual a sua perspectiva para a economia neste ano de 2021, diante do cenário que vivemos hoje, no Brasil e, também, em Ribeirão Preto?

Começamos o ano com uma perspectiva de retomada da economia. Entretanto, entramos na segunda onda da pandemia do novo coronavírus e a perspectiva é de que a economia fique estagnada ou até mesmo entre em recessão caso o auxílio emergencial não provoque o efeito esperado e não haja um novo pacote de benefícios e créditos para as empresas. Com isso, espera-se uma diminuição da renda total e um aumento do nível do desemprego tanto no Brasil quanto para a região de Ribeirão Preto.

 

Quais são os setores que mais devem sofrer neste ano na cidade, com o agravamento da pandemia?

Os setores que mais devem sofrer são os setores de serviços e, principalmente, o comércio. Assim como ocorreu no início da pandemia no ano passado.

 

Qual deverá ser o impacto das medidas necessárias para conter a disseminação do vírus, como as mais restritivas do Plano São Paulo e o lockdown?

O impacto com as medidas mais restritivas do lockdown é uma redução da renda total da região, principalmente em virtude da queda do comércio e de serviços.

 

A volta do auxílio emergencial, a retomada do programa de redução de salários e o anúncio de programas de crédito do Estado podem ajudar a melhorar o cenário?

Sim. Essas medidas auxiliam na manutenção da renda mínima das pessoas. O programa de redução dos salários evita o aumento da taxa de desemprego e o auxílio emergencial auxilia na manutenção da subsistência das pessoas atendidas estimulando o comércio e a venda de alimentos. Entretanto, vale ressaltar que essas são apenas alternativas paliativas e que o cenário só deverá melhorar com o controle da pandemia e a consequente retomada da economia.

 

Na sua opinião, quais são as alternativas que os pequenos empresários têm para passar por esse cenário?

Pequenas e médias empresas são as que mais sentiram os impactos do novo coronavírus em seus negócios. Isso porque elas não detêm recursos suficientes para manter seu capital de giro e sua sobrevivência. Uma alternativa nesse momento é reinventar seu negócio. Buscar atender seus clientes por meio de diversos canais (como as redes sociais, por exemplo). Outra alternativa é a realização e o controle do orçamento da empresa em que consiga verificar todas as suas receitas e os seus custos e, assim, definir o que pode ser cortado e o que deve ser mantido, além de auxiliar no controle do fluxo de caixa. Ou seja, é controlar cada centavo e garantir que o mesmo esteja sendo utilizado da melhor forma possível.

 

E os consumidores, o que as famílias podem fazer para equilibrar as contas e conseguir superar as dificuldades desta situação?

A questão do orçamento vale para as famílias, também. Comprar somente o necessário e não se financiar comprando bens não necessários. Em último caso, tentar renegociar as dívidas existentes.

 

Alberto Borges Matias

Diretor do Inepad, conselheiro de Administração, financista e estrategista de negócios e professor da USP

 

A inflação deve voltar com mais força neste ano? Quais os segmentos devem impactar mais na alta de preços?

A desvalorização do real fortalece a produção nacional e cria um novo programa de substituição de importações para o Brasil. A previsão do mercado financeiro para o IGP é de uma elevação de cerca de 11% para 2021 e 4% para 2022. Esta inflação deverá ser decorrente de aumento de commodities agrícolas e minerais, por demanda internacional, e por crescimento do mercado imobiliário, com falta de insumos. Já para o IPCA, a previsão do mercado financeiro é de uma elevação de preços ao redor de 4,5% ao consumidor, em razão, ainda, de alimentos e bebidas, o início de atividades escolares e de compras no comércio em geral.

 

Qual deverá ser o impacto das medidas necessárias para conter a disseminação do vírus, como as mais restritivas do Plano São Paulo e o lockdown, nos negócios de Ribeirão Preto?

 As medidas restritivas, dentre as quais o lockdown, prejudicam notadamente o emprego nas pequenas e microempresas — bares, restaurantes, lojas de rua, shoppings, eventos, serviços correlatos e artísticos, além dos negócios de locação de imóveis, notadamente comerciais. O emprego apresentou, no curto prazo, mudança radical para home office, situação na qual as empresas de Ribeirão Preto podem empregar colaboradores não residentes em Ribeirão Preto. Irão pagar pelo serviço e os colaboradores não irão gastar em Ribeirão Preto. Por outro lado, colaboradores residentes em grandes centros irão se mudar para cidades de maior qualidade de vida, como Ribeirão Preto. O município deve retomar gradativamente na maioria de seus negócios em comércio e serviços, com alterações visíveis, como o e-commerce. Os negócios industriais, em sua maioria, estão atuando em níveis elevados de faturamento, bem como o comércio supermercadista.

 

Entre as indústrias do município de Ribeirão Preto, que têm grande força na área médica, deverá haver impacto nos negócios por conta desse atual cenário político e econômico?

O segmento de indústria e serviços em saúde é forte em Ribeirão Preto, e conta com um núcleo também forte de pesquisa e desenvolvimento. A intensa demanda de produtos, e seus preços, que existe em Ribeirão Preto deve se arrefecer. No entanto, a demanda por serviços médicos deve crescer fortemente após esta pandemia de Covid-19.

 

O que esperar do agronegócio da região para 2021?

O agronegócio na região de Ribeirão Preto é forte na produção de álcool e açúcar, amendoim, soja, papel e carne bovina, com forte exportação para China e Estados Unidos. Essa demanda continuará aquecida. O setor passa por grandes avanços para a agricultura 4.0, com tecnologia biodinâmica, agricultura de precisão e forte desenvolvimento científico. No lado internacional, teremos grande confronto com países como França e Estados Unidos, no tocante à questão ambiental, que na verdade esconde a questão da difícil competitividade desses países com o preço dos produtos brasileiros, notadamente após a forte desvalorização cambial ocorrida.

 

Ricardo Donegá

Graduação e Mestrado em Administração pela FEA-USP e coordenador do curso Administração da Unaerp

As crises sanitária e econômica causadas pela pandemia do novo coronavírus envolvem questões como ansiedade, insegurança, medo... De que maneira esses comportamentos impactam no mercado e nos resultados?

A pandemia, quando analisada com racionalidade e objetividade, reflete muito mais uma crise moral que econômica. Desgoverno, crenças infundadas e falta acesso a bases fundamentadas de informação geram sensações que minam o bom ânimo e a esperança. Entretanto, alguns setores sentiram mais que outros. Principalmente, o comércio tradicional, que seguia sem modificações e adaptações, ignorando tendências já consolidadas há muito tempo. A pandemia fez vir à tona um problema antigo no Brasil, que é sistêmico: a falta de preparo de muitas operações em se adaptar ao novo.

 

Na sua opinião, qual a postura que as empresas precisam adotar em momentos como esse? Mesmo sendo uma situação inédita, há caminhos a serem seguidos para driblá-la?

Esse é o problema. Não existe uma receita. É como querer aprender a nadar com o barco afundando em alto mar. A situação é inédita em termos de abrangência, mas não é nenhuma novidade. Perceba que nossos modelos de negócio, ensino e convivência são os mesmos há muito tempo. Hoje, forçosamente aprendemos a higienizar as mãos antes de entrar no supermercado. Mas, por que não fazíamos isso? Falta de conhecimento? Não. Despreparo. Meu conselho é adotar coletivamente uma postura de longo prazo, perene, imune a modismos oportunistas. Empresas devem voltar aos fundamentos, independentemente de porte e setor, sem inventar moda. Análise, planejamento e execução fundamentada na qualificação e profissionalização proverão ferramental decisório ágil e capacidade de resposta aos desafios em cenários futuros.

 

O universo digital ganhou muita força com o isolamento social. No entanto, a expansão das vendas e negócios on-line também mostrou que muitas empresas ainda não estavam preparadas. Como você avalia esse cenário? Como as empresas podem se consolidar nesse segmento?

O universo digital ganhou força, no mundo, há pelo menos duas décadas. Deve-se refletir que é muito mais uma orientação estratégica da empresa como modelo de negócio para gerar valor, do que um modismo. O despreparo das empresas traz consequências nesse momento delicado. Preparar-se para o universo digital não é criar um perfil no Instagram. Os meios e ferramentas são orgânicos, evoluem, adaptam- se e até morrem, mas a orientação estratégica que a empresa assume confere agilidade quando a mudança é necessária. O universo digital democratizou o acesso desde plataformas de gerenciamento das relações com os clientes a campanhas de comunicação eficazes, mas é preciso investir para ter retorno. Não me refiro simplesmente ao investimento financeiro, mas à mentalidade. Muitas pessoas em cargos decisórios insistem em ignorar as mudanças e se apegam a modelos ultrapassados justificando um capricho existencial. Mudar é preciso. Pensamento e atitude.

 

Quais as principais mudanças que toda essa situação pode trazer para as empresas e o mercado, em geral? Você acredita que é uma espécie de “caminho sem volta”, que tudo que estamos vivendo vai mudar comportamentos e empresas?

De forma prática, percebeu-se que trabalho remoto, aulas on-line, delivery e atendimentos usando mídias sociais podem ser realizados e tornar tudo mais produtivo. Os que enfrentaram, e ainda enfrentam, dificuldades, já apresentavam problemas nas relações pré-pandemia. Nossa atual situação apenas evidenciou. Se utilizarmos nossa inteligência para realmente aprender com tudo isso, teremos um cenário de grandes transformações, considerando economia, política e relações sociais. 16 Revide

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