Novo modelo de gestão
Reitor da USP, Marco Antonio Zago, pretende modernizar a gestão, aumentando a coesão interna e a interação com a sociedade

Formado pela Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (FMRP), o médico e pesquisador Marco Antonio Zago (à esquerda na foto) atuou na saúde durante boa parte de sua carreira. Ao completar 50 anos da sua chegada à cidade, Zago assumiu a reitoria da USP por quatro anos (2014-2018), em um momento de festa, pelos 80 anos da instituição, e de cautela, pelas restrições orçamentárias que a Universidade vivencia. Ao lado do vice-reitor Vahan Agopyan, está implantando um novo modelo de gestão, que privilegiará a administração compartilhada entre os dirigentes da instituição, que está entre as 200 melhores do mundo.
Criada em 1934, a USP possui 42 unidades de ensino e pesquisa, e oferece 246 cursos de graduação e 273 programas de pós-graduação a uma comunidade acadêmica de mais de 92 mil alunos matriculados, número superior ao de habitantes de muitas cidades do Estado de São Paulo. Entre os principais desafios e compromissos do cargo, a gestão de Zago tem três princípios norteadores: modernização, aumento da coesão interna e fortalecimento da interação com a sociedade.
Uma importante vertente diz respeito ao compromisso com a graduação, com especial atenção à redução da evasão, ao fortalecimento da avaliação e à inclusão social. Segundo o reitor, é preciso ter um ensino mais moderno, voltado às necessidades da sociedade e com currículos mais flexíveis. Também serão aperfeiçoados os programas que atendem a alunos com dificuldades socioeconômicas. Para equacionar metas e realizações, o reitor estima contar com um orçamento em torno de R$ 4,5 bilhões, limitado diante das necessidades da Universidade. Em 2013, o comprometimento da receita com a folha de pagamento chegou a 99,8%. “Temos de adotar uma gestão de recursos parcimoniosa, até que a evolução das receitas e das despesas mostre um cenário mais favorável”, avalia Zago.
A revisão do sistema de acesso do aluno à USP também está entre as metas da nova gestão. Para isso, o reitor considera que os professores, principalmente aqueles da graduação e o pró-reitor de graduação, terão que se empenhar muito. Apesar de classificar o vestibular da Fuvest como de boa qualidade e funcionalidade, Zago admite que um exame único não é a principal ou a melhor maneira para selecionar talentos para a universidade. “É diferente de um processo seletivo de uma pequena universidade de qualidade nos Estados Unidos, por exemplo, que pode passar o ano todo fazendo o processo seletivo, visitando até a família do interessado. Não temos condições de fazer isso aqui”, reforça.
Além de mudar o sistema de entrada, é necessário criar na USP a cultura de que é essencial ter acesso à informação. Na Instituição, não há, por exemplo, um sistema regular de avaliação da graduação. “Não temos dados objetivos a respeito do que acontece com nossos alunos durante ou depois de formado. Onde estão esses alunos? Não sabemos se eles estão trabalhando na área, se são bem-sucedidos, se isso se deve à qualidade da USP”, aponta o reitor, lembrando que a evasão de alunos varia de acordo com os cursos.
Para Zago, o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) poderia servir como um elemento de informação. Hoje, a Instituição só tem informações sobre a pós-graduação, que vem pela avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão ligado ao Governo Federal. “Precisamos ter dados, informações, parâmetros e medidas para que possamos fazer uma gestão eficiente. Não há maneira de gerenciar sem ter dados, sem saber para aonde estamos indo”, aponta o reitor.
Outra importante medida é acompanhar e reduzir a evasão. Uma análise preliminar mostrou que a desistência dos alunos tem duas razões principais. A primeira é relativa a problemas de ordem econômica e social, ou seja, o aluno entra na USP, mas não consegue se manter. A segunda causa é a incompatibilidade do aluno com o curso escolhido. Zago entende que, ao fazer um esforço para reduzir a evasão, estará trabalhando para melhorar a qualidade do curso e usando, de forma mais eficiente, os recursos públicos. Se igualarem a taxa de evasão ao nível das boas universidades mundiais, sem abrir novas vagas, formarão, além dos 10.000 alunos atuais, mais de 1.500 alunos por ano.
Estímulo ao empreendedorismo
A separação entre a universidade e a sociedade está em franca reversão, principalmente, na última década. Uma mostra disso foi a criação da Agência USP de Inovação, que trabalha ativamente junto a empresas e empresários, além de estimular, dentro da USP, a pesquisa aplicada. Uma das consequências do fortalecimento dessa agência é que a Universidade é, hoje, a instituição brasileira que mais deposita patentes. Outro exemplo são os cursos realizados em 2013, de empreendedorismo para os alunos da graduação e de gestão de inovação, feito em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e aberto a empresários, do qual participaram 250 dirigentes.
Para promover a pesquisa e a inovação tecnológica e estimular a cooperação entre instituições de pesquisa, a USP e o Governo do Estado inauguraram, no dia 26 de março, o Parque Tecnológico de Ribeirão Preto. Instalado em uma área de 300 mil m² no campus local. O empreendimento foi viabilizado graças à intermediação da Agência USP de Inovação, da Pró-Reitoria de Pesquisa e de um grupo local de acadêmicos, da Fundação Instituto Polo Avançado da Saúde de Ribeirão Preto (Fipase) e da Prefeitura de Ribeirão Preto. O projeto exigiu R$ 11,2 milhões em investimentos, divididos entre a USP e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, com o apoio do Executivo Municipal.
Localizado no Monte Alegre, o Parque possui 1.585,81 m² de área construída e abrigará um centro tecnológico e a rede de serviços da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica (Rede SUPERA), instituição direcionada a empresas de equipamentos médico-hospitalares, biotecnologia, fármacos, cosméticos, bioenergia e tecnologia da informação e comunicação (TIC). “A iniciativa representa um grande avanço para a Universidade e para Ribeirão e região, por meio do fortalecimento da indústria local de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos. Também será um forte atrativo para empresas e um estímulo ao surgimento de start ups, empresas fundadas a partir de ideias inovadoras”, observa Zago.
Considerado um marco para o fortalecimento das indústrias locais e de outros negócios relacionados à pesquisa em universidades e institutos da região, o Parque irá, como salienta o reitor, incentivar a criação de novas empresas de base tecnológica; o fornecimento de soluções científicas e tecnológicas nas áreas de saúde, biotecnologia e tecnologia da informação e da comunicação (TIC), além de impulsionar o crescimento do setor produtivo local e o desenvolvimento econômico regional.
Em relação à ampliação de vagas ou de novos cursos para o Campus em Ribeirão Preto, o reitor revela que o momento exige cautela. Segundo Zago, a expansão é limitada pelos recursos e pela própria gestão de um grande número de pessoas. “Faremos uma expansão limitada às nossas possibilidades, sempre buscando o melhor benefício para a sociedade. Junto com isso, seguiremos na tentativa de reduzir a evasão dos alunos, garantindo o maior número possível de formandos”, completa.
Descentralização
Defensor da descentralização acadêmica e administrativa da Instituição, que mantém oito campi, Zago propõe dissociar as atividades relacionadas, por exemplo, à graduação. A ideia é que cada unidade possa tomar suas próprias decisões sem a necessidade de passar pela Reitoria. Essa medida passaria pela gestão de orçamento, de pessoal ou por licitações. “As descentralizações administrativa e de poder andam juntas. Prova disso é que, na USP, temos mais de 40% de servidores administrativos nos 33 órgãos centrais, embora existam mais 56 unidades e órgãos, entre faculdades, escolas, institutos, centros, museus e hospitais”, relata.
O reitor explica que essa concentração de servidores na reitoria acompanha a concentração de poder, a decisão e a execução centralizada. Esse tipo de modelo exclui os docentes e os diretores, mesmo os mais qualificados, da maioria das decisões. Com o passar do tempo, começou a excluir também, em grande parte, o próprio Conselho Universitário. “Por isso, a descentralização promoverá a desconcentração de autoridades e contribuirá para a reforma do poder e da governança da universidade, concretizando, em parte, aquilo que é a ambição de muita gente, que é a democratização da USP”, conclui Zago.
Perfil
Natural de Birigui, Marco Antonio Zago é formado em Medicina, com ênfase em Hematologia. Professor titular da USP desde 1990, atuou em pesquisas com foco em bases moleculares das neoplasias e células-tronco adultas e coordenação do Centro de Terapia Celular local. Foi presidente e diretor científico da Fundação Hemocentro e diretor clínico do Hospital das Clínicas, ambos de Ribeirão Preto, e presidente do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), de 2007 a 2010, quando assumiu a pró-reitoria de Pesquisa da USP.
Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves
Diagramação: Lucas Chaibub