O balé deles

O balé deles

Clássico ou contemporâneo, o balé também está presente no universo masculino

Billy Elliot, personagem do filme de mesmo nome, enfrentou o preconceito do pai e do irmão, pendurou as luvas de boxe e se dedicou ao balé. Com três indicações ao Oscar, o longa-metragem inglês transmite muito mais do que um bom enredo, demonstra que quando a dança se torna uma paixão e a dedicação é de corpo e alma, o medo desaparece e a coragem surge para derrubar os próprios limites.

Há quem acredite que balé clássico e balé contemporâneo sejam coisas do universo feminino, mas muitos homens também se dedicaram às sapatilhas e arrancaram aplausos do mundo todo através dessa expressão leve e ao mesmo tempo dura, denominada balé. E neste mundo envolvente de saltos, exercícios e piruetas, os homens do balé vão mais a fundo e encaram de peito aberto o fascínio pela dança e, muitas vezes, o preconceito.

Amante do balé clássico há cinco anos, o bailarino Rony Leão conta que, antes mesmo de se dedicar ao balé, fazia dança de rua. Hoje, aos 20 anos de idade, conta que foi convidado para fazer balé por uma amiga de escola e acabou se apaixonando por essa arte. “Quando eu danço, tenho a sensação de liberdade. Para mim, dançar balé é como uma terapia; eu danço, esqueço de tudo e vivo só o momento”, explica.

Seja balé clássico ou contemporâneo, a escolha dos homens em qual estilo seguir é muito relativa. Muitos rapazes optam pela dança contemporânea pelo fato de haver grandes possibilidades de carreira profissional, porém, para se dedicar a qualquer modalidade que seja, é importante e necessário que se tenha uma base clássica. O balé traz, sobretudo, ensejos de conhecimento e faz com que jovens e adultos se tornem mais disciplinados, além da dança produzir o efeito de adquirir mais sensibilidade nas questões práticas.

Gabriel Cardoso, de 20 anos, explica que a paixão pelo balé surgiu aos poucos. “Primeiro fiz balé clássico para conhecer os movimentos e as técnicas, para então, fazer balé contemporâneo”, conta o bailarino, que há três anos se dedica à dança. Gabriel ressalta também que o balé é, de fato, uma profissão, e que se doar à dança de seis a sete horas por dia, durante cinco dias na semana, é um trabalho árduo, mas compensador. “Quando subo no palco, me sinto dessa forma, me sinto completo”, afirma.

O balé abraça a história de outros períodos, da cultura clássica e, junto a expressões corporais e atos ensaiados, cinge uma peça teatral. Durante um espetáculo, cada movimento do corpo funciona como uma fala. É o que explica o professor de dança contemporânea Bruno de Oliveira. “Quando danço, tenho uma sensação de expressão. Tento ser o mais claro possível, pois é como se eu estivesse conversando através da dança”, relata o bailarino.

O jovem Ariel Vinícius dos Santos Cândido tem apenas 13 anos e há um se dedica vividamente à arte da dança. O estudante afirma que ao se deparar com o balé, foi amor à primeira vista. “A mãe de uma aluna aqui do colégio (Santa Úrsula) me convidou para fazer balé. Hoje, danço balé clássico por uma hora e meia, duas vezes na semana, além das aulas de alongamento”, explica o estudante.

Novato no mundo dos bailarinos, Ariel ainda explica que, até o momento, o passo mais difícil da dança é a pirueta, que consiste em girar a cabeça e o corpo ao mesmo tempo, mas em velocidades distintas, ao passo que uma perna sustenta todo o peso enquanto a outra permanece dobrada até a altura do joelho. Salvo as dificuldades, ele assegura: “Adoro dançar balé. Sinto leveza, me sinto livre”.

Outros destaques ribeirãopretanos no balé são os jovens Marcos Luis da Silva, de 16 anos, e Diego Pradella, de 23. Marcos Luis iniciou o balé clássico e não parou mais. O bailarino conta que em julho de 2009 participou do 27º Festival de Dança de Joinville, em Santa Catarina, e foi lá que conheceu a Escola de Teatro Bolshoi do Brasil. “Fiz o teste em outubro do mesmo ano e fui selecionado entre 600 candidatos do país. Foi muito gratificante para mim, e sem o apoio da minha família e das minhas professoras, eu não teria conseguido nada disso. Sou eternamente grato a elas”, responde Marcos, que hoje é bailarino no Teatro Bolshoi do Brasil.

O bailarino Diego Pradella é mais um nome em evidência no universo masculino do balé. Dedicado e muito focado na profissão, Diego explica que sempre desejou dançar fora do país quando participou de um concurso internacional de dança de Brasília. “Lá existem olheiros para dar oportunidade aos bailarinos e eu fui um deles entre 500. Havia dez bolsas de estudos e eu consegui uma para o Canadá”, relata. O bailarino conta também que foi o único homem dentro de sua categoria a ganhar uma medalha de prata.

Aos olhos de quem enxerga o balé como uma expressão semelhante tanto para homens quanto para mulheres, o aprendizado que envolve essa dança tem algumas diferenças entre os sexos. Segundo a professora Adriana Mazza, do Centro de Cultura e Dança do Colégio Santa Úrsula, há um método que é mais exclusivo dos homens, o que difere bem das atividades femininas. “Existe uma técnica específica para eles, para que se possa desenvolver todo o virtuosismo que o balé traz para os homens. Não é todo o tempo que é diferente, pois os passos que se aprendem são os mesmos, mas quando é necessário, tem que haver um exercício para os rapazes e um para as moças”, explica Adriana.

Para a professora, o que mais chama atenção num homem dançar balé é o virtuosismo masculino. “O homem gira como um peão, ele salta bem próximo ao céu, além de fazer com que a bailarina flutue sobre seus braços. Sem dúvida, é brilhante”, afirma.

Entretanto, para muitas pessoas, o balé não é considerado uma profissão e está associado literalmente ao mundo feminino. Numa sociedade que ainda se impõe sobre as atitudes de seus integrantes, o preconceito existe. Adriana Mazza conta que o preconceito melhorou, mas que ainda está longe do ideal. “O rapaz que realmente quer seguir essa arte tem que se impor perante as dificuldades e vencer essa grande barreira chamada ‘preconceito’”.

Para o bailarino e professor de balé, Maicon Coutinho, o preconceito está presente em todo o canto, mas afirma nunca ter sofrido esse tipo de intolerância. “Não sofro preconceito, pois sempre fui eu mesmo e minha família também me apoia. Anteriormente, o povo não tinha muito acesso ao balé, mas hoje é um assunto que está mais acessível e o preconceito está mudando”, garante o bailarino.

Jovens como Rony, Gabriel, Bruno, Ariel, Marcos, Diego e Maicon souberam como encontrar o caminho da paixão pela dança e expressão artística, e bem mais que isso, eles souberam também como se dedicar a um amor único que, tantas vezes, se torna raro encontrar “A dança é feita com a alma. A música traz leveza ao ser. A partir do momento que o bailarino realiza a dança por paixão, ela deixa de ser um hobby e se torna um vício maravilhoso”, finaliza Adriana Mazza.

Revide On-line (Colaborador Fernando Belezine)
Fotos: Carolina Alves e arquivo pessoal

 

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