O bem como missão
Em entrevista à empresária Tomie Sakamoto, o Padre João Rípoli conta sobre o papel que exerce na sociedade e reforça a missão de fazer o bem
Os passos curtos e o olhar sereno entregam que o homem que abre a porta de sua casa tem uma longa história de vida. Aos 75 anos, padre João Rípoli, carrega uma bagagem de intensa atuação nos trabalhos sociais da Arquidiocese de Ribeirão Preto e também na instituição beneficente que fundou há 25 anos, Fraternidade Solidária São Francisco de Assis (FRASOL). Além disso, exerce um longo e duradouro trabalho na coordenação da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Ribeirão Preto.
Sertanezino, João concluiu Filosofia em Aparecida e teologia em Debuque, nos Estados Unidos, mas foi em Ribeirão Preto que a maior parte de sua história foi escrita — e onde também ajudou a escrever a história de muita gente. Foi aqui que a empresária Tomie Sakamoto o conheceu, ainda menina, e começou a nutrir por ele uma admiração que mantém até hoje. Foi esta admiração que a levou a querer saber um pouco mais nesta entrevista, acompanhada pela jornalista Máisa Valochi.
Tomie: Quando o senhor decidiu ser padre?
Padre João: Eu tinha 15 anos, em Sertãozinho. Fiquei órfão de mãe aos três anos e três meses e logo depois de pai. Depois que um tio morreu, nosso pai nos entregou um para cada tia e cada um foi viver para um lado. Cresci na igreja católica, fiz catecismo e decidi ser padre. Sempre fui muito apoiado.
T: Em algum momento pensou em desistir?
PJ: Não. Um pouco antes de tomar a minha decisão, pensei bastante. Na época, talvez eu não tivesse tanta consciência do que é ser padre. Hoje, depois de 49 anos e de todo o meu trabalho nas várias comunidades, eu tenho. Vejo que ser padre é uma missão. E, em relação à missão, ou você é coerente ou você não é nada, é melhor desistir.
T: O senhor se destaca muito na área social. Já entrou para o seminário pensando em ajudar os outros?
PJ: Não. Foi o tempo que me mostrou isso, através de algumas situações. Antes, eu não tinha uma ideia muito clara do que era trabalhar na área social. Desde que cheguei em Ribeirão Preto, na Vila Seixas, quando trabalhei com a Casa das Mangueiras, com as paróquias, lidando com crianças e com adolescentes, fazendo o trabalho de alfabetização, essas ações foram me levando para o caminho da área social.
T: Como foram os primeiros anos da sua vida em Ribeirão Preto?
PJ: Eu cheguei na Vila Seixas e os seus pais são testemunha da primeira reunião que fizemos lá, no dia 27 de julho de 1964, na antiga casa de Dom Alberto José Gonçalves, primeiro bispo de Ribeirão Preto. Ali ficava a nossa capela, tínhamos que construir uma paróquia, mas não havia dinheiro. A minha única experiência era como seminarista. Colocamos a mão na massa e, no dia 7 de setembro daquele ano, fizemos a primeira procissão, começando o nosso trabalho. Em 1967, foi criada a paróquia, com a vinda da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Todos ajudaram na construção. Ali fiquei por doze anos e meio. Nesse mesmo período, estudei Letras no Centro Universitário Barão de Mauá e comecei a dar aulas de inglês, época em que fui seu professor. Mas não dava para fazer os dois trabalhos e voltei a me dedicar, exclusivamente, à paróquia.
T: O senhor já construiu várias igrejas. Prefere levar a igreja ao povo do que chamar o povo à igreja?
PJ: Eu já construí sete igrejas, todas simples, mas que abrigam o povo. O atual papa fala de uma igreja voltada para o pobre, recebendo a todos, claro, inclusive o pobre. Hoje, não estou mais construindo igrejas porque estou voltado para outro trabalho, mas sou de uma igreja missionária. Ser missionário é ir ao encontro do povo. Essa consciência foi crescendo e o povo foi nos mostrando isso. As janelas da igreja se abriram mais, mas, apesar de tudo, muitas coisas voltaram atrás também.
T: Hoje, qual a sua atuação na sociedade?
PJ: Eu trabalho na linha da criança e do adolescente. O ideal não é ser assistencialista, mas a gente acaba sendo porque o povo ainda nos ajuda com muitas coisas. Porém, foco meu trabalho no sentido de ajudar a pessoa a descobrir seu valor, sua dignidade e realmente crescer nisso. O Núcleo Fraternidade Solidária São Francisco de Assis vai completar 25 anos. Nesse tempo, conquistamos credibilidade. Hoje, temos capacidade para atender 143 crianças e adolescentes, de 6 anos a 14 anos e 11 meses. Desse total, 5 ou 6 vagas são reservadas para casos enviados pelo Conselho Tutelar e há lista de espera. Atendemos em dois turnos.
T: Quem é atendido pelo Frasol?
PJ: Os menores infratores. O meio, às vezes, corrompe as pessoas. Temos meninos que continuam os estudos, que trabalham, alguns morrem no meio do caminho, outros continuam no mundo das drogas e tem aqueles que vão parar nas cadeias. Trabalhamos com a combinação núcleo, escola e família. Eles ficam no Núcleo quatro horas por dia. Da nossa parte, é um trabalho bem feito. Esperamos que os beneficiários cresçam na vida. Precisaríamos ter um trabalho além, de continuidade, mas não temos condições.
T: Como a instituição é mantida?
PJ: Hoje, temos parcerias com o Banco do Brasil, o HSBC, as Mulheres Unimedianas e outras arrecadações vêm através de promoções, de boletos, da Nota Fiscal Paulista, do Imposto de Renda (IR). Temos também o Conselho de Direito da Criança e do Adolescente. O IR seria um dos caminhos de arrecadação mais eficientes, mas recolhe-se muito pouco. As pessoas poderiam se conscientizar mais em relação a isso. Enfim, esse é o modo como nos sustentamos.
T: As pessoas de Ribeirão Preto são sensíveis às causas sociais?
PJ: Elas poderiam ser mais. Na verdade, o que se arrecada é pouco em relação ao que poderia ser. Veja o caso do IR, por exemplo. É um trabalho de despertar essa sensibilização, de conscientização. É um trabalho lento, mas que vai acontecendo. Temos que valorizar todos os esforços feitos. As organizações, sejam elas católicas, espíritas ou evangélicas, fazem trabalhos muito bons pelo bem das pessoas. É importante valorizar o que de bem está se fazendo. Eu acredito na corresponsabilidade das pessoas. Temos um grupo muito coeso no nosso trabalho e por isso tem ido para frente. São muitas pessoas que nos ajudam. E sempre me lembro da dona Antonieta, que fundou o FRASOL junto comigo. O sonho dela era fazer tudo por essas crianças e ela deu a vida por esse trabalho. Ela sempre acreditou nas pessoas também.
T: O senhor citou outras igrejas. Como vê a atuação delas?
PJ: Embora não haja, da parte de muitas igrejas, uma visão ecumênica, temos que olhar muito mais para aquilo que nos une do que para aquilo que nos divide. Com relação a determinadas igrejas, depende da honestidade de consciência dos pastores, seja da nossa igreja ou da igreja evangélica. A responsabilidade com o povo é muito grande. É preciso tratar os indivíduos como pessoas humanas para ver o que é possível ser feito, independente de sua opção. Porém, também não se pode ser conivente com tudo.
T: Em relação ao papa Bento XVI, a renúncia dele foi um ato de coragem, de franqueza ou de amor?
PJ: Eu acho que ele abriu um caminho bom. Nós não negamos os problemas que a Igreja Católica tem hoje, mas acredito que não seja apenas por causa disso que ele decidiu renunciar. Com tudo que se disse em torno dele, penso que Bento XVI percebeu que suas forças não davam mais, então, ele consultou sua consciência e tomou essa atitude. Eu quero acreditar nesta versão.
T: E o novo papa, Francisco, o que o senhor espera da gestão dele?
PJ: Ele começou bem. Francisco pediu uma audiência 16 vezes aos Kirchener e não conseguiu. Cristina Kirchener foi a primeira a ser recebida por ele. Tinha toda uma amarração da família dela contra ele. Mas o papa perdoou, seguindo o exemplo de Jesus. Acredito que ele vá fazer um bom trabalho. Precisamos de um bom trabalho. Ele mesmo disse aos jovens: “não deixem roubar a esperança”. No Domingo de Ramos, esta foi a sua última palavra para a juventude.
T: O senhor é ou já foi simpatizante de algum partido político?
PJ: Nunca fui simpatizante de nenhum movimento, nem ao capitalismo nem ao marxismo. Já dizia Dom Aloísio Lorscheider, que o nosso caminho é o do evangelho. O evangelho oferece soluções que não precisa de nenhum dos “ismos”. Eu já fui atacado como subversivo e agitador. Respondi por ser contra a ditadura, mas não tinha uma posição contra. Pelas minhas opções, acho que deveria estar sempre voltado às pessoas, para os pobres, embora os pobres não se ajudem muito no sentido de levantar a sua dignidade. Há muitas histórias tristes dessa época. O exército era terrível. Eu me lembro bem, estava trabalhando, todo sujo, na horta da Vila Seixas, quando eles foram me buscar. Pedi para tomar um banho antes de ir. Eles passaram em frente ao palácio episcopal e aquela figura profética de Dom Felício de Vasconcellos, arcebispo de Ribeirão Preto, desceu as escadas e veio falar comigo. Ele disse: “fique em paz que eu estou com você”. Não tanto pela excomunhão que foi levantada, talvez não seja uma medida que hoje deva ser usada, mas valeu a pena o gesto dele naquela ocasião. Ele protegeu os estudantes, barrou a polícia na frente da catedral.
T: Qual é a sua missão? O senhor acredita que já a cumpriu?
PJ: Eu me lembro de um verso do poeta americano Robert Frost, quando estava nos Estados Unidos, que diz que a missão é inacabada. Escreveu assim: “The are many miles to go”. Em termos de igreja, João Paulo II falava assim: a missão está sempre começando. Há outra frase, da pregação de São Pedro, que diz que Jesus passou fazendo o bem. E eu acredito que a nossa missão é passar fazendo o bem. E o bem tem vários aspectos.

O caminho do bem
“O meu respeito pelo padre João é bem antigo. Lembro-me quando ele, bem jovem, chegou à Vila Seixas, que tinha só uma pequena capela e ele, cheio de energia, logo iniciou a construção da igreja, num terreno próximo. Todo mundo ajudava, mas o padre colocava a mão na massa, literalmente. Era pedreiro, jardineiro, etc. Além disso, ele sempre esteve comprometido em tirar os meninos das ruas para que eles não fossem envolvidos na delinquência, não cheguassem às prisões, onde o padre também atua. Totalmente desprendido dos bens materiais, ele faz de tudo para ajudar a quem precisa e o caminho é sempre este: fazer o bem. A minha família tenta seguir os seus ensinamentos, tomando isso como base. Padre João não tem só a minha a admiração, também possui o respeito da sociedade de Ribeirão Preto.”
Tomie Sakamoto, empresária