O bem como missão

O bem como missão

Prestes a completar 75 anos, o empresário Elie Horn, fundador do Grupo Cyrela, participou de evento em Ribeirão Preto, onde incentiva a cultura da doação

Dono de uma fé inabalável, Elie Horn, natural de Alepo, na Síria, compartilha com empresários sua missão de vida, que é a doação. O caçula de uma família de sete filhos chegou ao Brasil ainda menino e, já no colégio, começou a praticar o bem. Quando jovem, começou a trabalhar com os irmãos em uma construtora na cidade de São Paulo, adquirindo experiência nos negócios imobiliários. Formado em Direito e após duas décadas dedicadas à empresa, fundou a Cyrela Brazil Realty, hoje uma empresa de capital aberto, considerada expoente do setor imobiliário no país.

Listado entre os 70 maiores bilionários do Brasil pela revista Forbes, Elie seguiu o exemplo dos pais e optou em fazer o bem como missão de vida. Em 2015, doou 60% de sua fortuna para causas sociais, sendo o primeiro e único brasileiro a ingressar na organização filantrópica The Giving Pledge, da qual fazem parte outros megaempresários, como Bill Gates e Warren Buffett. 

Acabar com a violência e a prostituição infantil está entre as metas de Elie, que tem, no bem-estar do outro, sua maior preocupação. Em visita a Ribeirão Preto, o empresário desafiou o empresariado da cidade a destinar 1% do faturamento anual a projetos sociais voltados aos funcionários. Em bate-papo com a Revide, ele explicou a importância de disseminar a cultura da doação e seus benefícios, que, segundo sua concepção, vai muito além da vida terrena. 

Orquestra Sinfônica de Heliópolis é um dos projetos atendidos por ElieComo surgiu o desejo de fazer o bem?

Surgiu ainda menino. Meu pai doou 100% do que tinha para obras assistenciais. Meu avô, que eu não conheci, na Primeira Guerra Mundial ajudou crianças órfãs a sobreviver às atrocidades da luta armada. A cultura à qual pertenço faz muitas obras assistenciais — ou melhor, de justiça, porque nada mais justo do que fazer o bem. Essa questão sobre doação sempre mexeu com a minha cabeça. Caso tenha algo a dar e não dá, o que acontece depois da morte? Como a vida é eterna, a alma é eterna e Deus também é eterno. Se o rico não doa em vida, após sua morte ele estará pobre no outro mundo. Por isso, é preciso fazer uma poupança para a vida eterna, assim como o faz pensando na velhice. Tudo que se faz de bom nesse mundo, na realidade, acaba fazendo para si mesmo, pensando na vida no outro mundo. Eu acredito na alma e na eternidade e não consigo deixar de pensar nisso.

O senhor acredita que temos obrigações uns com os outros?

Sem dúvida. Estou lendo o livro “O mundo como está, tem sentido?” e me pergunto o que é o mundo? Eu o vejo como uma cobaia para nossas ações. Antes de tudo, é preciso entender que fazemos parte da mesma alma e, se estamos juntos, é porque temos uma obrigação um com o outro. Não há coincidência. Tudo o que existe é porque já estava destinado a ser e cabe a nós ter as ações adequadas para realizar tudo isso. Uma pessoa inteligente deve lucrar, no bom sentido, e, com isso, sempre fazer o bem.

Sua missão é fazer o bem. Isso o realiza?

Sim, tenho a filantropia como missão de vida e a realizo desde o colégio. Aos 14 anos, pegava dinheiro dos meus amigos e ajudava o pobre da esquina da escola. Aos 20, dava uma parte do que recebia ao meu pai, para que distribuísse a quem precisasse. Nunca deixei de dar, mas faz 20 anos que isso aumentou muito, em especial depois da morte dos meus pais. Isso porque, pensei que deveria fazê-los felizes no outro mundo, pois quem morre não consegue fazer nada, fica preso e só consegue subir pelas boas ações de seus parentes. Pensei em fazer melhor para poder elevá-los ainda mais e decidi doar em vida 60% do que eu tinha. Este é o dinheiro mais bem investido que tenho, porque é eterno, tem juros e correções. Orações também ajudam os antepassados, mas o bem ajuda muito mais.

Que tipo de projetos, ações ou ONGs ajuda?

Todas, em especial as que atuam nas áreas da educação, do combate à prostituição infantil e no ensinar a doar. E isso acontece por meio de palestras, de eventos que participo, onde tento esclarecer aos empresários a cultura da doação. Também solicito que doem mais dinheiro para obras sociais.

A que o senhor credita o desinteresse no país pela filantropia?

O empresário não está convencido. Tenho feito algumas palestras por mês e, bem ou mal, isso repercute. Se eu conseguir salvar uma vida humana por palestra seria muito bom. 

Contagiar os empresários é uma missão difícil?

Não vejo como uma missão difícil, falta persistência. Se tiver um empresário não convicto, a culpa é dos convictos que não conseguiram convencê-lo. 

Como um líder social, qual o maior desafio?

Fazer o bem no mundo não é um desafio e, sim, a maior meta, para que haja Justiça e que não tenha miséria, prostitutas, meninas estupradas, assassinatos ou violências. 

A educação é uma das chaves para isso?

Com certeza e incentivo muitos projetos na área. O homem que possui um bem maior e que tem vários sócios deve ter dez causas e uma delas é ensinar a cultura de doar. Eu não tenho limitação, nem barreiras. Em breve, um novo grupo formado por pessoas do mais altíssimo gabarito vai se reunir voluntariamente para pensar em como fazer ainda mais o bem no país. Vão pensar e dar ideias e essa iniciativa deve começar daqui a um mês, mais ou menos.

E a filantropia é o caminho para reduzir a desigualdade na humanidade?

Sempre. A doação em vida não é esmola, é Justiça: faça teus iguais fazerem o mesmo que você. O empresário tem uma responsabilidade com o meio em que vive. Quanto mais dinheiro se tem, maiores são a responsabilidade e as obrigações, pois já nascemos com dívidas pagáveis.

O tempo seria um problema para o convencimento?

Acredito que sim, pois falta tempo para convencer. Eu sou cara de pau, já não tenho mais vergonha e não me nego a falar, mas nem sempre foi assim. Há uns quatro anos, eu era tímido, não falava nunca. Até que o nosso diretor do Instituto Cyrela me chamou a atenção e praticamente me obrigou a falar para terceiros. Hoje , sempre que posso, falo sobre o tema.

Como pretende impactar os empresários de Ribeirão Preto e região?

Mostrando resultados positivos das doações. Por exemplo, no evento [realizado na cidade no dia 13 de março], trouxemos quatro pessoas importantes. Duas bailarinas cegas, alunas da Associação Fernanda Bianchini, e duas instrumentistas da Orquestra Sinfônica Heliópolis (OSH), da favela Heliópolis em São Paulo. Elas mostraram que, se eles ajudarem, colherão resultados parecidos, pois dando oportunidades, colhemos excelentes frutos. Estas são algumas das instituições que ajudamos. O bem contagia! Os empresários precisam ter ciência de que por a mão no bolso custa, mas esse custo a mais é evolução. Quanto mais você abre a mão no bolso, mais evolui. Nesse mundo da matéria, o dinheiro é importante, mas o bem é maior que tudo. Ele encanta.

Além da filantropia, o que mais gosta de fazer?

Trabalhar e trabalhar. Eu gosto de trabalhar, é um prazer. Eu só me sinto bem doando e fazendo o bem. Se não trabalho, como terei dinheiro para doar? Trabalhar, ganhar e doar é meu lema. Aos 39 anos eu quis me aposentar, estava bem de vida e queria estudar muitos temas, como a cabala, mas logo fui desestimulado pelo guru, que me orientou a estudar uma hora por dia, a trabalhar dez e seguir em frente. A minha missão não é estudar, é trabalhar e ler, pois sem leitura, não teria conseguido evoluir a espiritualidade, por exemplo.

O mal acabará um dia?
 

O mal é o bem disfarçado. Se não tem mal, não tem bem. Infelizmente, ele é um instrumento necessário para que o bem apareça e seja visto. O homem é o único ser do planeta que tem a opção de fazer o bem ou o mal — isso é o livre arbítrio. Infelizmente, no mundo da matéria e do prazer, Deus não está na moda e acabamos nos afastando dele.

Acredita que o ser humano está afastado de Deus?

Estar com Deus não é fanatismo. Fanatismo é um extremismo irreal e irracional. Deus é uma realidade que existe por si, que é boa por definição e que vive para fazer o bem. Temos que ter noção da nossa origem, do poder da nossa existência, do porquê de estarmos vivendo e da nossa missão. Senão, teremos de voltar em outras tantas vidas. 

Como gerencia suas doações?

Temos, aproximadamente, oito pessoas trabalhando em tempo integral nas instituições que criamos para isso: o Instituto Cyrela, o Liberta, o Bem Maior e o Meu mundo. Não dá para fazer isso sozinho e acabo misturando o trabalho com a filantropia, onde gasto, em média, mais de seis horas por dia. Para exemplificar nossas ações, por exemplo,  1% do lucro líquido da Cyrela é doado para o Instituto.

Em 2017, a família optou pela diversificação dos negócios. Por que a área da saúde?

E porque não a saúde? O setor foi o primeiro a chegar para nós. É o ramo, aparentemente, com crescimento linear constante. Conhecemos a saúde e entramos. Aconteceu naturalmente e gostamos do ramo. Mantemos a gestão interna e não externa.

A ideia inicial era adquirir oito hospitais, isso se concretizou?

Ainda não, mas estamos a caminho, priorizando unidades ligadas diretamente ao hospital ou a sua assistência. Diversificar não é objetivo.

Ao lado de Dr. Pedro Palocci, o empresário Elie comemora os resultados da parceria com o Grupo São LucasEm Ribeirão Preto a opção foi pelo Grupo São Lucas, por quê?

Pela simpatia, foi uma feliz coincidência. Essa associação é muito boa, harmoniosa e cívica. A relação administrativa dessas unidades ficou a cargo da Hospital Care, na pessoa do seu presidente, Rogério Melzi. Os investimentos superam a marca dos R$ 40 milhões para modernização das unidades hospitalares do grupo.

O que faz para se manter ativo?

Tenho Parkinson e isso me enche. Mas se Deus me mandou essa doença por alguma razão, ele sabe o que faz, e apenas acato. Fiquei com medo de ficar demente e não estou. O físico é muito bom. Eu vou lutar até o dia em que puder lutar. Não vou sucumbir, não vou enfraquecer, não vou parar. Até o dia da minha morte pretendo produzir o bem. Não vou parar por definição. 

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