O caminho para longevidade
Tecnologia inédita desenvolvida em Ribeirão Preto pode evitar tratamentos agressivos e cirurgias desnecessárias em pacientes com câncer de próstata
Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam 68.000 novos casos no Brasil em 2018. De evolução lenta e silenciosa, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens — atrás apenas do câncer de pele não-melanoma. É considerado um problema relacionado à terceira idade, uma vez que cerca de três quartos de casos acontecem depois dos 65 anos de idade. O aumento na incidência desse tipo de tumor entre os brasileiros é explicado, segundo o INCA, ao aumento da expectativa de vida, à evolução dos métodos diagnósticos e à melhoria na qualidade dos sistemas da informação disponível no país. Há tumores que crescem de forma acelerada e outros se desenvolvem lentamente, levando cerca de 15 anos para atingir 1 cm.

Apesar de ainda existir certa resistência entre os homens para diagnosticar ou tratar a doença, vale ressaltar que as evoluções na Medicina tornaram o diagnóstico e o tratamento da doença mais eficaz, com novas tecnologias incorporadas que estimulam a qualidade de vida dos pacientes. De acordo com Erick Franz Rauber (CRM: 159.580), médico radioterapeuta do Centro de Tratamento em Radio-Oncologia (CTR), vários fatores devem ser levados em consideração antes de definir o tipo de tratamento para cada indivíduo, como idade do paciente, comorbidades (doenças coexistentes), estado clínico da doença e, em certas situações, a vontade do paciente.
A cirurgia pode ser arriscada em indivíduos que possuem mais de uma doença e, nesses casos, a radioterapia é necessária. “Ribeirão Preto já dispõe de radioterapia de alta tecnologia, como a Radioterapia com Intensidade Modulada (IMRT), que permite maior precisão no tratamento e menor radiação dos órgãos adjacentes, traduzindo em menor efeito colateral. Há também a técnica de Arcoterapia Volumétrica Modulada (VMAT), que reduz o tempo de cada fração para menos de 5 minutos, aumentando a precisão e o conforto do paciente. Em breve, estará disponível uma forma de reduzir o número de aplicações de 40 para 20, mantendo a segurança e a eficiência do tratamento”, comentou o profissional.
Tratamento focal
O tratamento focal para câncer de próstata (HIFU), utilizado nos Estados Unidos e na Europa, já está disponível no Brasil. Embora esse tipo de ferramenta já exista há alguns anos, não obteve sucesso porque as máquinas eram antigas, ineficientes e a glândula era tratada com uma cirurgia radical. Durante o 6º Simpósio do Grupo Onclínicas, que ocorreu nos dias 26 e 27 de outubro, o tema foi amplamente discutido entre especialistas da área oncológica brasileira e internacional. Segundo Arie Carneiro, urologista do Centro de Oncologia do Hospital Albert Einsten e coordenador de terapia focal, a técnica consiste em tratar apenas a área doente da próstata. “Tratávamos a glândula inteira, o que gera muito efeito colateral, como impotência e incontinência. O tratamento focal cuida apenas a região doente da próstata. O procedimento é simples e leva em torno de duas horas, não precisa ficar internado e não há necessidade de cirurgia”, completa o especialista.

Apesar de existir desde 2013, a máquina capaz de realizar este tipo de aplicação chegou ao Brasil somente este ano. Apenas o Hospital Albert Einsten e outros dois no país inteiro dispõem da nova tecnologia. “Um programa como esse custa U$ 1 milhão, ou cerca de R$ 3,3 milhões. É mais barato do que a cirurgia robótica e não exige grande infraestrutura. Ainda é um desafio levar esse tratamento para o Sistema Público de Saúde, mas nós já propusemos um estudo ao Ministério da Saúde, que pode sair no ano que vem, para avaliar custo-efetividade no SUS. Propor uma nova tecnologia sempre envolve questões complexas, mas este é um grande avanço e vai mudar muitos paradigmas nos próximos anos no que se refere ao tratamento de câncer de próstata”, acrescentou Arie.
Conhecido pela sigla HIFU, o aparelho de ultrassom usa ondas sonoras para criar a energia térmica que destrói as células malignas. “Essa técnica ainda não foi comparada a tratamentos convencionais (cirurgia e radioterapia), portanto, seu benefício ainda é incerto”, argumenta Rauber. Segundo Saulo Brito Silva (151.962), oncologista do Instituto Oncológico de Ribeirão Preto (InORP), os métodos focais de alta frequência são promissores no tratamento de câncer de próstata inicial. Isso porque combatem focos bem localizados na glândula, poupando cirurgias e radioterapias externas. Contudo, o médico enfatiza que os tratamentos cirúrgicos e radioterápicos diminuem a importância de adotar esses métodos.
A Radioterapia com Intensidade Modulada (IMRT) também trabalha com altas doses de radiação de forma mais precisa, diminuindo os efeitos nos órgãos adjacentes. “Isso é possível através de um aparelho de acelerador linear, que possui mais de 100 lâminas milimétricas no local de saída da radiação e que se movem constantemente, enquanto giram ao redor dos pacientes. Essa técnica é bastante utilizada hoje em dia, está disponível em Ribeirão Preto e é o tratamento de escolha para a maioria dos pacientes”, enfatiza Rauber.
Nova medicação
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a inclusão da indicação terapêutica do Xtandi (enzalutamida) para o tratamento de homens com câncer de próstata não metastático resistente à castração. Ele poderá ser comercializado em cápsulas gelatinosas, com concentração de 40 mg. O medicamento é de uso oral e acredita-se que pode diminuir a proliferação e induzir as células de câncer de próstata à morte, com consequente redução do volume do tumor. Estudos realizados pela indústria mostram que o Xtandi apresentou melhora na sobrevida livre de metástases. Testes indicaram que o medicamento reduziu em 70,8% o risco de agravamento da doença quando comparado ao placebo (qualquer substância sem propriedades farmacológicas), além de ter aumentado a mediana da sobrevida livre de metástases de 14,7 meses (no grupo placebo) para 36,6 meses no grupo da enzalutamida.
Algoritmos em ação
Este é um exame inédito no Brasil que pode evitar tratamentos agressivos e cirurgias desnecessárias. A tecnologia, que utiliza biologia molecular e a inteligência artificial, é capaz de detectar com precisão a agressividade do câncer de próstata. Desenvolvido por pesquisadores da start up Onkos Diagnósticos Moleculares, incubada no Supera Parque de Inovação e Tecnologia de Ribeirão Preto, o novo exame tinha previsão para chegar ao mercado ao final de 2018, porém, a mudança de local da empresa e a saída de um dos pesquisadores acabou adiando esta data. Segundo Marcos Tadeu Santos, fundador da Onkos e biólogo molecular, a meta é que o projeto esteja finalizado entre seis meses e um ano.

Santos explica que, hoje, o paciente com câncer de próstata passa pela cirurgia para a retirada da glândula ou por radioterapia para tratar o tumor. “Quando os tumores são pouco agressivos, há ferramentas clínicas para avaliar os indivíduos. Contudo, elas levam em consideração parâmetros subjetivos. Chega-se também ao ponto de tomada de decisão, onde o médico decide entre manter a chamada vigilância ativa ou partir para um tratamento mais agressivo”, elucida o profissional.
Os pesquisadores utilizaram amostras de pacientes em tratamento no Hospital de Amor, de Barretos. Foi desenvolvida uma pontuação de risco, baseada em perfil de microRNAS. Com um painel de 19 moléculas, foi identificado seu comportamento em pacientes que desenvolveram e que não desenvolveram metástase por seis anos. “Temos um dado interessante. Atribuímos uma pontuação clínica, de baixo a alto risco, a 173 pacientes. Aplicamos nesses indivíduos nosso escore e percebemos que 65% do total foi reclassificado para baixo risco, com 95% de precisão. Isso quer dizer que, se o paciente fizer nosso teste e tiver classificação baixa, pode ser encaminhado à vigilância ativa, pois tem um tumor com perfil de expressão similar a não agressivo. A ideia é incentivar essa vigilância e diminuir tratamentos desnecessários”, completa. O projeto, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), visa a baratear os custos do tratamento e fornecer informações que deem suporte à tomada de decisões mais precisas pelo oncologista. “Economiza-se verba para fonte pagadora e melhora a qualidade de vida do paciente”, complementa. A expectativa é de que o exame custe em torno de R$ 3.000.

No tratamento de câncer de próstata, discute-se muito as formas de tornar esse tratamento menos agressivo e mais tolerável aos pacientes. Para alcançar esse objetivo, a tecnologia é fundamental. “A grande barreira para tornar essas técnicas acessíveis para todos é o custo, que torna muito difícil a implantação em larga escala desses tratamentos”, frisa Rauber. É inegável que novas tecnologias vêm transformando os cuidados com a saúde, bem como a maneira com que os médicos se relacionam com os pacientes. “Os avanços tecnológicos envolvendo câncer de próstata também se estendem para o descalonamento do tratamento, ou seja, para a melhor seleção daqueles que podem realizar tratamentos menos invasivos e com menos efeitos colaterais”, lembra Saulo.
Texto: Bruna Romão
Fotos: Júlio Sian