O contador de histórias
Confira o bate-papo entre Nicola Tornatore, jornalista, autor de “Crimes na Pequena Paris”, e José Mário Souza, fotojornalista e idealizador do Jornal Enfim
A proposta de ser uma espécie de “voyeur” de um bate-papo entre admiradores não poderia ser mais tortuosa. Primeiro pela dificuldade de resistir a perguntar, já que o entrevistador é um convidado — neste caso, José Mário Souza, figura conhecida do meio jornalístico pelo trabalho como fotógrafo, jornalista e professor. Segundo, pela necessidade de encerrar uma “prosa” tão boa como a do encontro dos colegas de profissão, que aconteceu na casa de Nicola, no Monte Alegre, e durou toda a tarde de uma terça-feira. Verdadeiros adoradores de uma boa história, ambos revelam um olhar muito peculiar sobre a história de Ribeirão Preto.
Ribeirãopretano de nascença, Tornatore formou-se muito cedo e construiu uma carreira de mais de 20 anos dedicados ao jornalismo. Anamnese, ficará claro para o leitor na entrevista a seguir, não está no seu dicionário. Autor de obras de cunho histórico, fundamentadas em anos de pesquisas, o jornalista acaba de lançar seu primeiro livro de “contos reais”.
Zé Mário: Lembro-me de você novinho, quando começou no jornal A Cidade e cobria de tudo. Como foi essa escolha?
Nicola: Quando cheguei à Unicamp, com 16 anos, e olhei a grossura do livro de cálculo, voltei para Ribeirão Preto e disse ao meu pai que faria Direito, e não Engenharia. Quando ele descobriu, no segundo ano, que havia trocado para jornalismo, eu já até trabalhava no jornal. Seu Orestes (Lopes de Camargo) estava lá: era um tipo de condução familiar que sinto saudade, era diferente. O Juracy (Lopes de Camargo) era uma figura humana fantástica.
Zé Mário: Ali estavam sempre as grandes figuras, as “eminências” de Ribeirão Preto. Quem fosse se aventurar na política, marcava para falar com seu Orestes primeiro.
Nicola: Para você ver o tamanho poder do jornal, o Palocci se elegeu com o apoio aberto, declarado, do A Cidade. O Jura me chamou e disse: “olha, quero uma matéria por dia falando bem do Palocci e mal da administração”, que, na época, era o Gasparini.
Zé Mário: Isso foi em 1992, para tomar posse em 93...
Nicola: Só pra concluir, depois de eleito, passados dois ou três dias, o Palocci apareceu lá e pediu para chamar o Jura. Eles se abraçaram, eu estava perto e fui saindo, mas o Jura pôs a mão no meu ombro: “fica” (ele não gostava de conversar nada sem testemunha). O Palocci também foi claro: “olha, vim aqui te agradecer e perguntar se quer indicar alguém para o secretariado”. O Jura respondeu no ato, desse jeitinho, “não, obrigado, mas não vou indicar ninguém para poder te criticar depois”. E o Palocci deu aquela risadinha.
Zé Mário: De fato, não tinha um deputado que não passasse por lá quando vinha a Ribeirão Preto. Aliás, deputado, governador, Ulisses Guimarães, entre outros.
Nicola: Ele influenciava muito. O que mais me deixou surpreso foi que eu era do Partido Comunista, então, pensei: “Tô na casa do inimigo”, afinal, o Orestes foi presidente de honra da Arena. Um belo dia, Jamil Murad, do PCdoB, veio fazer uma visita. Pensei que ele tivesse errado de endereço, devia estar procurando o Correio, mas, de repente, desce o Jura do elevador, “How”, e abraça, aperta e tal. Assim, fui entendendo que, com ele, não tinha esse negócio de esquerda ou direita, mas sim, honesto ou desonesto, e ponto final. O Jamil era comunista, mas era alguém que ele conhecia e gostava, por isso, fotografava e saía no jornal. Assim, por não ter essa dicotomia de “esquerda ou direita”, ele foi me conquistando. Para ele, era o certo ou o errado.
Zé Mario: Você entrou lá em que ano?
Nicola: Em 1987. O Jura chamou o Divaldo (Silva), mas ele tinha acabado de montar uma empresa e não podia. O jornal precisava de alguém urgente e fui indicado. O Jura disse: “serve, se você está falando que é bom, manda ele aqui”. No dia seguinte cheguei para trabalhar e Divaldo me mandou para o jornal. Perguntou: “Você tem diploma”? “Não”, respondi. “Então diz lá que tá saindo”, orientou. E assim passei dois anos fingindo que o diploma estava saindo e a dona Jandira, fingindo que acreditava.
Zé Mario: E quando você começou a pesquisar o arquivo do jornal?
Nicola: O arquivo é maravilhoso. Imagina um jornal diário, de 1905 em diante, guardado, encadernado. Tem a história de Ribeirão Preto toda reunida. Eu escutava falar dele, e vinha muita gente querendo pesquisar, mas a Dona Jandira não deixava — ela tinha noção do valor daquilo. Acontece que, na década de 70, veio um PhD famoso fazer uma pesquisa para um livro sobre a época do café e, ao que parece, punha a régua e rasgava o que interessava. Depois disso, nunca mais Dona Jandira deixou ninguém pesquisar. De vez em quando, a Justiça pedia alguma coisa e, como eu era o mais novo, era eu quem ia pegar, pois ninguém queria ir até lá por causa da poeira. Foram-se os anos, passou a década de 90 inteira e, cada vez mais, fui entendendo a coleção. Levei alguns meses para colocar tudo em ordem e terminei me apaixonando por ela.
Zé Mário: E quando foi o início da coluna?
Nicola: Já havia pensado em fazer a coluna, mas foi só em 2006, com a aquisição da EPTV e a entrada de João Garcia e Rosana Zaidan na chefia, que ela aconteceu. Por sorte minha, João adorava coisa antiga e me deu toda liberdade do mundo. Fizeram o espaço que eu havia pedido na reforma gráfica e assim nasceu “A Cidade há um século”. Esse período foi o mais interessante porque, pela primeira vez, investiram na coleção.
Zé Mário: Quando começou a fazer a coluna, você passou a ser considerado o historiador de Ribeirão Preto.
Nicola: Foi, e isso me trouxe um pouco de transtorno. Quando comecei a coluna, lia sempre o mesmo jornal do dia anterior de cem anos atrás. Mas comecei, sem a intenção, a desmentir fatos importantes descritos por Rubem Cione, até então o grande nome de referência histórica que tínhamos, embora ele não fosse historiador, pois não tinha preocupação acadêmica, era um memorialista. Mas como só ele havia escrito, isso foi sendo reproduzido. Uma inverdade que passou décadas sendo repetida e a prova estava na minha frente, não resisti. Não sei se fiz mal.
Zé Mário: É que você estava com a prova na mão, não podia deixar passar.
Nicola: Vou dar dois exemplos. Ele contou que o Alberto Santos Dumont foi o primeiro a fazer a viagem de São Paulo a Ribeirão Preto de carro. Próximo de completar 10 anos do episódio, foi feita uma festa para celebrar o feito, trouxeram Santos Dumont e descerraram uma placa para comemorar a primeira viagem terrestre. Ela existe, está lá no museu. Sabendo disso, fiquei esperando a data e imaginei: “oba, dá uma matéria legal”. Mas, de repente, quatro dias antes da data, aparece uma notinha: “Chegou ontem de São Paulo, de carro, Antônio Prado Junior, acompanhado de Washington Luiz”. Ora, se vieram de São Paulo até aqui de carro e daqui iriam a Batatais, então, eles foram os primeiros.
Zé Mario: Claro.
Nicola: Pois é, e a turma do Rubem Cione não gostou. Outra que virou comentário foi a história do primeiro avião que veio para Ribeirão Preto. A foto do rapaz e do avião, que está no livro dele, saiu até em documentário. Todo mundo reproduzindo e, de repente, quando olho no jornal, não é a mesma foto. Pensei: “agora o Zé Arnaldo me mata”. A foto dele é de um avião que esteve por aqui anos depois, um bimotor. O primeiro foi um amigo de Santos Dumont, um francês chamado Louis Blériot, que tinha inventado um monoplano. Essa história vale a pena dividir, é rápida. As matérias antigas do jornal são de três a quatro edições inteiras, contando como foi. O francês veio, fez alguns contatos, e o Major Quirino Alves (o primeiro banqueiro do bicho de Ribeirão Preto) preparou uma pista de pouso em uma grande chácara onde hoje é a Vila Tibério. Cercaram o lugar e colocaram até seguranças para ninguém invadir porque venderam ingressos. Blériot fez o primeiro voo e, na hora de pousar, ficou assustado com a multidão, que correu para vê-lo. Por isso, acabou batendo e quebrando a ponta da asa. O jornal tem foto dele e do avião. O problema é que todo mundo contava a história de outro cara e outro avião, completamente diferente, de anos depois. Eu, com a prova na mão, não podia deixar de corrigir.
Zé Mário: Você trabalhou nessa coluna até quando?
Nicola: Até sair do jornal, em 2008. Já havia feito, em 2005, o livro comemorativo dos 100 anos do jornal A Cidade, que assinei junto com a Dona Jandira, e tinha gostado. Recebi a encomenda de um livro comemorativo dos 10 anos do Novo Shopping. Vi aí um nicho de mercado.
Zé Mário: Então foi assim que virou contador de história em Ribeirão Preto?
Nicola: Mais ou menos. A Rosana Zaidan adora história e somos próximos até hoje. Ela gosta muito do meu jeito de contar histórias e sugeriu: “Não existe isso em livro e você tem tudo”. Fiz aquela série “Boa História” para o jornal. Era de uma página, e escrevi 60, até que chegou uma hora que não tinha mais de onde tirar. Bem ou mal, fiquei 20 anos no A Cidade. Rosana cobrou e cobrou e, como odeio televisão, estou sempre lendo ou escrevendo. Por isso, o livro saiu.
Zé Mario: É, você não tem televisão aqui na sala.
Nicola: Pois é, então, fui escrevendo, escrevendo, almejando publicar um livro, só que tenho um trauma. Há 20 anos, antes da internet, tentei escrever uma obra. Tive um trabalhão, gastei dinheiro para enviar cópias para editoras e nunca tive resposta. Depois de seis meses, recebi apenas uma cartinha padrão dizendo “agradecemos, mas não se enquadra na política”, e assim por diante. Um belo dia, li uma matéria na internet sobre uma onda de sucesso nos Estados Unidos que estava chegando ao Brasil: o autolançamento. Era 19h quando entrei no site e, às 22h, uma prima minha, de São Paulo, comprou o meu primeiro livro. O negócio é muito profissional, o site leva a interagir e fui obedecendo cada passo proposto. Em determinado momento, pede para colocar o nome do livro, escolher quanto você quer receber de direito autoral, o sistema faz um cálculo automático pelo número de páginas e chega ao valor do livro. Achei legal e fui fazendo. Escolhe foto para capa, texto, converte arquivo para PDF, etc. Embaixo tinha lá: “Publicar”.
Zé Mário: Acabou?
Nicola: É, cliquei e pronto, voltou para a página de abertura do site com o meu livro à venda. Para completar, tinha o Facebook. Fiquei bobo quando meu moleque chegou em casa dizendo: “pai, que legal, você publicou um livro”. Eu nunca na vida tinha lançado um livro e, no mesmo dia, três horas depois, minha prima tinha comprado um exemplar. Até assustei. Fiz o negócio meio sem querer, vendeu mais de 100 exemplares (é o mais vendido da seção crimes verídicos). Por causa disso, a MultiFoco, uma editora do Rio de Janeiro, entrou em contato comigo e vai lançar o livro em janeiro de 2015. Estou contente porque estão apostando na possibilidade do livro ser vendido em outras regiões.
Zé Mário: Interessante porque você acabou fazendo tudo por acaso: virou pesquisador, historiador e, agora, escritor. Hoje, vivo, você é a pessoa que mais tem a história de Ribeirão Preto registrada. Muita gente tem, como eu, na cabeça, mas organizada, como você fez, não. Como ninguém mais resgatou, muito se perdeu. Por isso, acho seu trabalho muito positivo. E também acho que você precisa escrever a história política da cidade.
Nicola: Pouca gente sabe, mas, além do champagne e do charuto, rolou muito ópio e cocaína por aqui nas décadas de 20 e 30. Era comum a turma entrar numa “viagem”, jogar querosene e tocar fogo por aí. Tenho seis casos em que a pessoa fazia isso e saía correndo. E tem a história do Junqueira que “entrou numa noia” e matou a filha do Abílio Sampaio achando que ela o traía. Tem um monte de histórias que o passar dos anos foi abafando. Essa você conhecia, Zé?
Zé Mário: Não, essa não conhecia.
Nicola: Essa é um capítulo do livro, mas tem muitas outras. Outra que você também não deve conhecer foi rápida, mas é muito importante, tanto que a Revista de História da Biblioteca Nacional, não sei como, soube do meu livro e entrou em contato pedindo um artigo. O governo proibiu a imigração subvencionada por causa de denúncias de maus tratos e o pessoal daqui, desesperado porque não podia mais usar mão de obra negra ou italiana, inventou de trazer gregos. Trouxeram 460 gregos, incluindo casais com bebês de colo, e puseram em fazendas de Ribeirão Preto e Jardinópolis. Veio até o cônsul, que deu entrevista para o jornal A Cidade dizendo que estava muito satisfeito com a solução. Duas semanas depois, eles se rebelam, saem das fazendas e se reúnem ao lado da estação, em Bonfim Paulista. Passam dois dias ao relento, assaltam carrinho de leite para dar aos bebês que estão chorando e o jornal noticia desesperado “Homens esfomeados, armados, não sabemos o que podem fazer”. Até que eles impedem a passagem do trem que levava o café para o porto de Santos. Aí houve reação. De imediato, veio um trem de São Paulo com a guarda para levá-los. Não existe uma linha escrita sobre a “Revolta dos Gregos” que, por serem culturalmente diferentes, não aceitaram as condições de trabalho por aqui.
Zé Mário: Você pesquisou o que pouca gente investigou: a história de Ribeirão Preto e das cidades da região. Por isso, gostaria de saber: Dárcy Vera, Gasparini, Jábali e qualquer prefeito que passe, se não dá certo, a cidade continua. A Prefeitura fica quebrada, a economia parece ir mal, mas ao andar pela cidade, leva-se até susto. Tem quem abra um negócio em cada canto, você pensa que é mais um doido, “com essa crise, onde já se viu” e, quando vai ver, o lugar está lotado. Por que Ribeirão é assim, parece andar sozinha?
Nicola: Essa pergunta é profunda. O Álvaro Neto comentou sobre isso comigo uma vez. Disse que “o melhor prefeito de Ribeirão é aquele que não atrapalha, porque a cidade anda sozinha”. Eu não saberia explicar, mas a sensação que tenho é que a classe média alta por aqui é muito acima do que é em outras cidades, e isso faz a economia andar, apesar dos pesares e de prefeitos ruins, porque não tem outra explicação, já era pra ter quebrado faz tempo! O pesar que tenho é que Ribeirão Preto tem uma história linda, mas nenhum cuidado em preservá-la, aqui se perde tudo. Se não for cada um de nós, no sentido de guardar e revelar, nada se preserva por aqui.
Crimes na pequena Paris, de Nicola Tornatore
A célebre cena noturna, os cabarés e bordéis, com centenas de prostitutas europeias, renderam a Ribeirão Preto o apelido de “Petit Paris”, ou “Pequena Paris”. E não era só champanhe que corria pela noite da cidade. Drogas, escândalos e assassinatos também faziam parte do cotidiano. “Crimes na Pequena Paris” é uma coletânea de casos verídicos, criminosos ou pitorescos, ocorridos no interior paulista entre as décadas de 1880 e 1950, contados a partir do noticiário dos jornais da época. O livro está disponível para compra na internet:
editoramultifoco.com.br/loja
Boa prosa
“O Nicola é um grande papo. O conheci quando dava aulas no Curso de Jornalismo da Unaerp. Era uma aluno interessado, lia muito e perguntava tudo. Tínhamos o hábito de ‘esticar’ a aula e continuar a conversa com os alunos. Não demorou muito para ele se declarar interessadíssimo em entrar na área naquele momento, mesmo sem qualquer experiência, o que era muito positivo. Foi assim que ele veio trabalhar no Jornal Enfim, na época, feito por mim e pelo Carlo Narcizo Severino, que faleceu precocemente há alguns anos. Hoje, muitos anos depois, revejo o Nicola e, mais uma vez, ele me surpreende. Primeiro pelo convite carinhoso e segundo por ter uma fé inabalável nas coisas e na vida. Depois de tudo, depois de muitos anos, inventa um jeito de publicar seus livros e de contar suas histórias. Estou surpreso com o vigor do grande Nicola Belonzi Tornatore.”
José Mário Sousa, jornalista
Texto: Yara Racy | Fotos: Ibraim Leão