O desafio de administrar

O desafio de administrar

Em entrevista ao jornalista Chico Ferreira, o professor André Lucirton Costa analisa a gestão de diversas áreas de Ribeirão

Em um momento em que a população ribeirãopretana convive com problemas relacionados ao transporte público, à mobilidade urbana, à saúde, à falta de água em diversos bairros, entre outras, duas figuras notórias se encontram: o jornalista Chico Ferreira, chefe de jornalismo da Record Ribeirão Preto, e o professor André Lucirton Costa, livre docente da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA), da Universidade de São Paulo.

Com grande experiência na área de Administração, sobretudo em Administração da Produção, André atua em organizações de saúde; sistema de saúde; operações; logística e processos e Tecnologia da Informação. O estudioso também demonstra grande interesse por questões relativas à qualificação da gestão em empresas públicas e privadas e nos reflexos que isso pode gerar na produtividade.

Engajado em questões de interesse da cidade, está envolvido em um projeto de ciclovias para o Município e liderou o grupo que analisou o contrato de concessão do transporte público municipal, embora sua linha de pesquisa seja mais voltada à gestão de organizações de saúde — tanto que desenvolveu um estudo bastante completo sobre gestão dentro do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

É com essa bagagem que André concedeu a entrevista a seguir a Chico Ferreira, e a conduz, com sua análise direta e concisa, aos meandros da administração pública, um terreno movediço, em que a palavra gerir ainda está muito longe de ser sinônimo de solucionar.

Chico: O senhor, na condição de coordenador do MBA da Fundace e da USP, como analisa o perfil do empresariado em relação à profissionalização da gestão?
André: Os empresários, de maneira geral, estão num movimento de melhoria da eficiência desde que a inflação foi extinta. Houve uma mudança pela estabilidade econômica e a questão da eficiência tornou-se pauta nas empresas, com a concorrência das multinacionais e dos produtos externos. Por isso, os empresários acabaram se qualificando. Na FEA de Ribeirão Preto, desde 1997, recebemos executivos da região, de outros estados e até do exterior que vieram fazer o curso aqui, na tentativa de melhorar o sistema de produção brasileiro. Primeiro, foi o pessoal da indústria e, depois, do comércio que lotou nossas salas de aula. Não quero dizer que não tenha que melhorar, há  muito a fazer ainda. A profissionalização das empresas familiares está em pauta no país, muitas delas precisam passar por isso para fazer a sucessão, de forma economicamente saudável, com melhoria da eficiência, cumprindo o papel de agente econômico, ofertando emprego, entregando produtos à sociedade. Em relação às empresas, temos muito a melhorar no sistema produtivo. Percebo que ainda existe uma preferência de emprego dos alunos de graduação da FEA pelas empresas multinacionais, o que não quer dizer que as nacionais não sejam boas. Mas a questão da profissionalização, de ter estrutura de cargos e salários, de proporcionar treinamento constante é muito mais presente nas multinacionais do que nas empresas familiares.

Chico: Isso não dificulta um pouco a profissionalização da gestão, uma vez que quem busca essa especialização tem preferência pelas multinacionais? 
André: Acho que é conjuntural, não uma estrutura definida, mas uma questão cultural, que está melhorando bastante. Temos problemas culturais significativos que dificultam um pouco esse movimento, mas o país e, principalmente, o sistema econômico melhoraram muito. Eu, que venho da época da inflação, enxergo uma crescente profissionalização. Hoje, as empresas têm uma estrutura administrativa que busca eficiência, qualidade e  formalização. A quantidade de empresas que fornecem nota fiscal antes que se peça é muito maior do que no passado. Agora, essa pauta está no setor público, que não entrou no movimento de melhoria da eficiência, como ocorreu com as empresas.

Chico: O que dificulta o processo: a política, as leis que regulamentam ou a questão cultural?
André: Acho que os três aspectos. Somos um país que tem uma democracia jovem. A democracia é importante porque cria o império da lei, dos tribunais, forma toda a estrutura jurídica do país. Ela está trazendo questionamentos à tona, o que não acontecia no passado. Um exemplo é o papel que o Ministério Público exerce sobre questões políticas extremamente importantes. Tem havido no Estado uma diminuição do número de cargos de confiança, exigindo que sejam ocupados por concursados, o que é extremamente positivo, já que leva à profissionalização. Talvez, o que esteja faltando no setor público seja uma medida de controle de eficiência, de resultado, como o setor privado tem. O setor privado tem o lucro: se deu lucro, tudo bem; se não deu, tem algum problema que precisa ser resolvido. O setor público não tem essa medida de eficiência, apesar das tentativas, mas começa a ter indicadores para a saúde, para a educação, e passa a sofrer uma pressão da população, que compara o serviço do setor privado com o do setor público.

Chico: O senhor entende que a população preferiria ter mais um gerente municipal do que a figura do prefeito tradicional?
André: A classe política tem um papel importante, mas precisa mudar sua forma de fazer política. É preciso ter mais profissionalização: são tomadores de decisão e têm que passar pelo crivo da população, um fundamento que é extremamente importante. Não adianta ter um gestor público tão à frente da sociedade se esta não vem junto — esse é um aprendizado que todos precisamos ter: para mudar o político, tem que haver uma pressão, seja do Judiciário, seja da população. Nesse sentido, o setor público ainda carece de preparação, de buscar formas. Não precisa ser necessariamente como o setor privado, mas um movimento de melhoria e eficiência para fazer mais com menos e valorizar ao máximo o imposto pago pelo cidadão. Esse movimento, quase não se vê no setor público; no setor privado, isso é quase uma obsessão. Os movimentos que ocorreram em julho do ano passado mostram a falta de legitimidade do setor público, que não está correspondendo às expectativas que a sociedade. Para não perder o controle, é preciso buscar melhoria e eficiência.

Chico: O senhor teve uma experiência recente de participar da análise de concessão do transporte público. Foi difícil entrar nesse meio?
André: Não digo fácil ou difícil, mas importante, porque é um tema que a sociedade demandava e, particularmente, acho que é papel da universidade dar bases técnicas, buscar na literatura e na ciência medidas para tentar resolver os problemas. Nosso princípio era tentar transformar o que a sociedade produz para benefício próprio. Foi interessante porque fizemos uma reunião na FEA da qual participaram o Ministério Público, vários professores, o Movimento Passe Livre, a Transerp e empresários, com absoluta civilidade, apesar de o clima do país estar bastante tenso. Em relação aos princípios formais, o contrato estava bastante razoável: tinha como base um estudo; um trabalho de engenharia; uma proposta de melhoria do transporte público, desde a implantação de GPS para acompanhar o ônibus on-line; o sistema de bilhetagem eletrônico, com previsão de displays computando o tempo estimado de chegada, informações sobre o itinerário, entre outros elementos vistos em cidades europeias; havia previsão de reformas de todos os pontos de ônibus, que teriam coberturas.

Chico: Esse contrato é exequível?
André: É, porque quando fazemos esse estudo, realizamos um levantamento financeiro.

Chico: Entre todos esses itens que citou, está faltando muito para ser cumprido.
André: Está. Parece que agora há um acordo com o Ministério Público, um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) que está para ser assinado. Há uma negociação do Ministério para que mude o cronograma do contrato, que tem que ser cumprido. Há uma demanda por parte dos empresários, alegando que o número de passagens pagas foi menor do que o previsto. Isso gera discussão jurídica porque os tribunais estão considerando que o risco de demanda é um risco do empresário, que tem que buscar a demanda. Acredito que se a qualidade for boa, terá demanda. Há alguns pontos de controle em que a Transerp precisa atuar, e aí está a questão da profissionalização. A Transerp não está preparada, tecnicamente, para uma estrutura de controle. Hoje, na bolsa de valores, que são empresas privadas, há mecanismos contábeis e de sistemas administrativos de gestão que são necessários para controlar uma empresa para fazer parte da Bolsa de Valores. Eu gostaria muito de vê-los reproduzidos dentro da Transerp para controlar o sistema de bilhetagem, por exemplo. A autarquia tem a obrigação jurídica de responder se o sistema é auditável, de garantir que as informações estão corretas. Se for criado um sistema de informação que garanta, a partir dos princípios da lógica, a transparência das informações, fica fácil atestar. Mas não vejo que a Transerp preparada para isso, tecnicamente ou em termos de estrutura administrativa. Nesse sentido, podemos extrapolar para os outros órgãos da administração pública. José Everaldo Vanzo, aluno do nosso curso, foi diretor do interior da Sabesp e era o gestor da unidade de Franca. Ele tirou ISO 9000, fez uma norma de laboratório para aferir a qualidade da água. O nível de desperdício de água tornou-se baixíssimo. Em Ribeirão Preto, há uma diferença de mais de 50% do hidrômetro de um lugar para outro. Em Franca, essa discrepância é de 20% a 25%. Eles fizeram manutenção na rede e combateram as fraudes. A gente percebe que alguns órgãos públicos, não só em Ribeirão Preto, ficam correndo atrás do rabo, apagando incêndio e só dão respostas à sociedade quando têm problemas.

Chico: A prefeita Dárcy Vera, em entrevista à TV Record, disse que os problemas da falta de água na cidade ocorreram porque a primeira licitação feita para a compra de bombas não deu certo: os preços foram muito baixos e o fornecedor não conseguiu entregar os equipamentos necessários. Portanto, teve uma segunda licitação para conseguir as bombas adequadas. É um problema de gestão?
André: Um dos princípios de gestão é o planejamento. É possível fazer o planejamento no setor público, apesar do tempo de compra ser muito grande. Se acontecer algum problema com o processo de licitação, faz-se um contrato de emergência. Portanto, há saída. O planejamento precisa ser acompanhado para que seja executado. Não adianta acreditar que o planejamento vai dar totalmente certo porque em nenhum lugar dá. Nas empresas, tem uma central de inteligência para fazer tudo funcionar. Deve ter sido esse o motivo, mas provavelmente havia alternativa para resolver esse problema. 

Chico: Qual a sua opinião sobre a licitação sempre pelo valor mais baixo, em detrimento da qualidade?
André: Há uma lei federal que disciplina o sistema de licitação, e esse é um dos grandes problemas do país. É muito difícil para o gestor público fugir ou não respeitar os procedimentos previstos pela lei de licitação, apesar das aberturas que falei. Se um processo de licitação não foi até o fim por algum problema, é mais do que uma justificativa para não deixar a população sem água. Aí é feito um contrato de emergência, mantendo aquele fornecedor e prorrogando o contrato dele. A lei de licitação é muito amarrada para comprar pelo menor preço, por isso, é muito difícil fugir disso. Isso está acontecendo com os resíduos sólidos: o contrato já venceu. Como não se conseguiu fazer outra licitação por uma série de entraves políticos no processo, prorroga-se o prazo. Saída tem.

Chico: A mobilidade é outra questão das administrações municipais. Como fazer para o trânsito fluir melhor em Ribeirão Preto?
André: Esse é um problema mundial. No caso do Brasil, temos uma indústria automobilística responsável por, aproximadamente, 20% do PIB industrial do país, um número alto. Por isso, não pode parar de vender. Essa indústria tem dado várias contribuições além do carro. Há uma série de conceitos que nasceram da indústria automobilística. Mas a necessidade de venda está esbarrando na estrutura urbana. Estamos chegando a um momento em que não basta criar ou alargar avenidas. Há a questão ambiental do combustível fóssil, que é outro problema; o Brasil ainda tem o álcool como alternativa; vários países estão desenvolvendo tecnologias para substituir o motor à combustão; você tem uma fonte que é a vertente da alternativa tecnológica para melhoria ambiental, que compreende, inclusive, a vivência urbana, pois o carro traz um estresse. Hoje, em São Paulo, o ônibus demora menos da metade do tempo que o carro. O mundo inteiro está buscando alternativas. A Europa tem uma estrutura de transporte coletivo histórica; em Lisboa e Viena, há bonde.  Temos que inovar. A bicicleta é quase um alienígena no Brasil, mas, em boa parte da Europa, é comum. Na Holanda e na França, a bicicleta faz parte da estrutura de mobilidade urbana do país.   O Japão e a China têm um modelo de transporte coletivo baseado no trem. Há várias alternativas.

Chico: Ribeirão comporta isso?
André: Acredito que sim, Ribeirão Preto poderia usar as linhas da antiga estrada Mogiana e acabar com os vazios urbanos, que são um problema. Uma das críticas ao plano da estrutura do ônibus é essa: o transporte coletivo no Município foi feito para ônibus, mas há alternativas. Precisamos inovar, sair da mesmice, senão, ficaremos presos no trânsito.

Chico: Falando sobre saúde privada, o cidadão reclama que o plano está cada vez mais caro e de difícil acesso. O senhor acredita em uma falência ou na readequação do sistema de plano de saúde?
André: Várias operadoras terão dificuldade, mas o sistema está melhorando a eficiência. Apesar de mais caras, as coberturas estão sendo mais universalizadas e os planos têm sido obrigados a cobrir determinados procedimentos que antigamente não atendiam. O que o Brasil precisa é fazer o SUS funcionar.

Chico: O Sistema Único de Saúde falha de ponta a ponta?
André: Falha na atenção básica e talvez um pouco na atenção especializada. Aqui, o Hospital das Clínicas, hoje, faz procedimentos de saúde que o setor privado não faz, como boa parte dos transplantes de alta complexidade. Há centros de excelência, em muitos hospitais ligados às universidades. Boa parte dos centros de excelência está no setor público porque são muito caros. Se esses procedimentos forem migrados para a saúde privada, ficará cada vez mais caro ter plano de saúde. Então, o setor público contribui, significativamente, com o sistema de saúde como um todo, sendo centro de excelência. O que não funciona é a atenção básica. A população não enxerga os programas de saúde da família como deveria, acaba indo ao pronto-atendimento, que lota, forma fila e o médico atende um paciente a cada cinco minutos. O sistema é bem montado, mas sua operação falha.


ELO COM A SOCIEDADE

“O professor André coordenou um raro encontro entre representantes do meio acadêmico, judiciário, políticos e empresários de Ribeirão Preto. A pedido do Ministério Público, organizou, com a ajuda de uma equipe multidisciplinar da USP, um profundo estudo sobre o contrato de concessões para o transporte urbano da cidade. O trabalho esmiuçou preço, demanda de passageiros, traçado das linhas e uma série de outros itens com o objetivo de clarear o horizonte: afinal, o serviço prestado pelas empresas de ônibus é satisfatório? Com base na série de compromissos assumidos pelos empresários, a partir desta reunião, a resposta é: não, mas deve melhorar. Já está mais do que discutido o fato de que a academia tem que preservar pesquisadores em sua essência, com tempo, verba e estrutura necessários à publicação de trabalhos científicos em revistas internacionais. Mas há que se reconhecer o trabalho de acadêmicos como o professor André, que levam a universidade para além dos muros do campus. A sociedade agradece o conhecimento científico para a solução de dores de cabeça tão prosaicas como o ato de entrar num ônibus e ir com segurança, conforto e pontualidade de casa até o trabalho.”  Chico Ferreira, jornalista

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Carolina Alves


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