O destino fora do país
Apesar do fluxo de brasileiros legais no exterior ter caído, especialmente para países tradicionais, é crescente a migração qualificada de cidadãos seguindo definitivamente para outros países
De acordo com um levantamento do Itamaraty baseado nos dados de 2013, mais de 3,1 milhões de brasileiros vivem no exterior. A estimativa tem como fonte os relatórios consulares enviados anualmente, que consideram dados oficiais fornecidos por autoridades locais, censos oficiais, número de eleitores registrados na jurisdição, número de matriculados nos consulados, sondagens junto à comunidade, solicitações de passaportes, entre outros. De acordo com os números oficiais, a maioria dos brasileiros está nos Estados Unidos — quase 1,4 milhão. Depois, sucedem-se Paraguai, Japão, Portugal e Espanha.
Apesar de ainda concentrarem grande parte da comunidade brasileira no exterior, esses países vêm perdendo espaço para outros destinos, assim como está mudando o perfil de pessoas que deixam o Brasil em busca de novas perspectivas. De 2010 a 2013, a queda total no fluxo de brasileiros que seguem legalmente para o exterior chegou a 28%, puxada pela crise internacional do final dos anos 2000. Pelo mesmo motivo, verificou-se o regresso de muitos cidadãos brasileiros — eles passaram a representar 65% dos imigrantes para o Brasil no mesmo período.
Ainda assim, muitos brasileiros persistem na busca pela realização dos sonhos nos Estados Unidos e em diferentes países da Europa. Há diversos ribeirãopretanos entre eles. Mariana Neves Macedo, por exemplo, acabou de embarcar, pela segunda vez, para a Espanha. A primeira experiência no país começou em 2008, quando ingressou em um programa de intercâmbio entre sua faculdade de jornalismo e uma instituição localizada em Madri. “Inicialmente, ficaria uma breve temporada, mas depois de três meses me sentia totalmente adaptada e, quando surgiu a possibilidade de permanecer lá durante todo o curso, resolvi arriscar”, relembra a jornalista que, agora, tem como meta cursar um MBA em Diretivo de Comunicação Organizacional, que começa em novembro deste ano. “Dessa vez, chego melhor estruturada, uma vez que vou morar com meu namorado, que é espanhol”, conta Mariana.
A jornalista conheceu Álvaro na primeira estada no país, e o namoro já soma seis anos. Nesse período, o arquiteto passou um tempo no Brasil, mas, por causa das oportunidades de trabalho, decidiu retornar. “Depois de ir e vir algumas vezes, resolvemos que era hora de partir para lá outra vez. Quando saiu minha aprovação para o Máster, não tive mais dúvidas e resolvi voltar”, explica a jornalista.
As expectativas para esse novo momento são as melhores possíveis. “Vamos morar em Sevilha, onde já existe uma
estrutura, inclusive familiar, o que certamente tornará tudo mais fácil”, revela Mariana. Para ela, o melhor da primeira experiência em terras espanholas foi a convivência com pessoas de variadas culturas; agora, espera se preparar para construir uma carreira e uma família na Espanha. “Claro que sentirei saudade de quem ficou no Brasil, mas a tecnologia ajuda a amenizar esse sentimento. Além disso, estar longe nos ensina a, quando perto, aproveitar cada momento, o que traz mais qualidade à convivência”, observa. Mariana embarcou para o novo país no início de abril.
A Itália foi o país escolhido por Talita Meira para viver. O motivo que a levou a atravessar o oceano foi o namoro com Murilo, seu atual marido, que já vivia na Europa por causa de um curso. “Morar longe do próprio país é um desafio, mas gosto de ser desafiada. Vim por causa da relação com meu atual marido, mas já nutria o desejo de viver essa experiência”, revela Talita, que resolveu todas as pendências em praticamente um mês. Segundo ela, procurou não pensar muito em todas as transformações que a mudança causaria para não ser vencida pelo medo, o que deu certo. “Na Itália, já passamos por vários lugares: Sestri Levanti, Gênova e Roma. Hoje, moramos há 25 minutos da capital, e espero não ter que me mudar tão cedo”, brinca.
De acordo com a publicitária, a vida no exterior não é fácil, mas tem muitas vantagens, todas relacionadas à qualidade de vida. “Alimentação, preço de tudo e segurança são algumas dessas vantagens, assim como as belezas natuarais e o acesso à cultura”, elenca Talita, afirmando que o lado positivo ainda supera o negativo, mesmo em tempos de crise e altas taxas de desemprego. A saudade de quem deixou no Brasil não a incomoda, pois prefere pensar que este sentimento é sinal de que as relações e as vivências foram boas. “Mesmo assim, aqueles ciclos que costumamos formar no Brasil — a turma da faculdade, da pós, do trabalho, etc — dão muita saudade”, acrescenta, mesmo reforçando que voltar para o Brasil ainda não faz parte dos seus planos.
A vida em Londres
Retornar ao país nesse momento também não está nos planos do casal Felipe Pitt Campos Peres, ou apenas Pitt, e Beatriz Diniz Junqueira, a Bea, que vivem na Inglaterra há quatro anos. “Somos muito inquietos e tínhamos vontade de ‘sair por aí’. Mesmo no Brasil, já havíamos morado em várias cidades além da nossa, Ribeirão Preto. Enfim, sentimos que era hora de arriscar algo no exterior”, conta Bea, que havia feito intercâmbio para os Estados Unidos na adolescência e passado alguns meses na Inglaterra anteriormente. Já Pitt, cujos pais moram no país do Big Bang desde 2007, morou em terras inglesas na infância. Londres foi escolhida como destino por muitos motivos, entre eles, por se tratar de uma cidade vibrante, enorme, com uma incrível mistura de culturas e idiomas.
A língua, como se pode supor, não era um problema para o casal, que embarcou nessa jornada em junho de 2012, logo depois do seu casamento, em maio. “Tenho dupla nacionalidade, o que nos ajudou muito, mas, mesmo assim, a burocracia de uma viagem como essa é trabalhosa. Ainda mais porque estávamos trazendo o Bartô, nosso vira-lata que hoje está com nove anos, pois jamais seríamos capazes de deixá-lo para trás”, destaca Pitt, que faz questão de ressaltar que o terceiro membro da família os acompanha a todos os lugares.
Os dois salientam que é preciso ter consciência de que viver no exterior não tem nada a ver com turismo. “O começo é marcado pela empolgação da chegada, a expectativa de novas experiências, os novos lugares e o novo idioma. Logo se faz necessário procurar trabalho, fazer amigos, arriscar. Para nós, as impressões daqui foram maravilhosas”, acrescenta Bea. Pitt completa que, no caso da Inglaterra, o clima é um complicador importante. “O inverno é muito severo, a chuva é constante e o verão é curto. Não é uma maravilha enfrentar tudo isso, mas compensa”, garante o jornalista que, atualmente, dedica suas horas de trabalho a um café londrino, além de escrever diariamente — além das poesias que assina, está trabalhando no segundo dos cinco contos que pretende reunir em um livro futuramente. Já Bea atua como relações públicas para moda em um escritório de North Greenwich. “Estou realizando um sonho. Logo que cheguei, trabalhei como garçonete e procurei estudar. Fiz uma série de cursos na Central Saint Martins, que recomendo, nas áreas de design, fashion e arte”, lista a profissional, que também se ocupa com a organização de eventos em Hackney Wick, bairro onde mora, conhecido por ser uma verdadeira galeria de arte aberta. Das ruas vem parte da inspiração que o casal utiliza na Troncho Modas, marca conceitual de roupas que está lutando para lançar. A saudade do Brasil — da família, dos amigos, do sol e do calor — os levam a pensar em voltar um dia. “Agora estamos bem felizes em Londres, inclusive o Bartô, em seu passeio por terras europeias”, brinca Bea.
No dia do retorno, se pudessem, trariam com eles a segurança, o transporte coletivo, o sistema de saúde e todos esses serviços importantes que deixam a desejar no Brasil. Importariam a liberdade que marca o dia a dia londrino, assim como a diversidade e o respeito, de um modo geral. Também trariam um pouco mais de arte de rua, de verdade, para as ruas. “Também levaria a ideia de ocupação dos centros urbanos ou das construções paralisadas para ações artísticas. Encontros alternativos de arte, música, literatura, cinema, dança e festas, ou seja, mais apelo cultural, com diversão, é claro”, elenca Pitt.
Novos rumos
Com um número expressivo de cidadãos morando no exterior, não é difícil encontrar brasileiros nos mais diferentes países, de todos os continentes. No entanto, novos destinos estão ocupando a preferência dos emigrantes. Canadá e Austrália, que possuem programas de incentivo bastante eficazes — elaborados para suprir a falta de mão de obra qualificada específica e para engordar a fatia da população geradora de riquezas, em equilíbrio ao notório envelhecimento da população — merecem destaque na nova rota dos brasileiros. Esses emigrantes têm, também um novo perfil: são profissionais mais qualificados, com perspectivas de permanecer fora do Brasil por mais tempo, quando não, ficar definitivamente. Uma prova disso é observar o número crescente de Declarações de Saída Definitiva do Brasil que, segundo a Receita Federal, cresceu 67% de 2011 para 2015. Isso significa que aumentou a partida de pessoas com bens e conscientes da necessidade de não deixar pendências fiscais no país — não estão nesse rol, por exemplo, os imigrantes ilegais ou aqueles que não possuem bens ou rendimentos.
Com a intenção de ficar, pelo menos, dois anos, o analista de sistemas Adriano Nucci embarcou para o Canadá, em outubro de 2015, com a família toda — a esposa Fabiana e a filha Marina. “Esse é um sonho antigo. Sempre quis morar no exterior por um período, mas, até então, por estar sempre trabalhando, nunca havia tido a oportunidade. Decidi investir nesse projeto quando fui desligado do meu último trabalho, em meados de fevereiro do ano passado”, relata Adriano. O fato de o mercado brasileiro estar passando por um mau momento o impulsionou a concretizar o projeto de morar em um país de “primeiro mundo”.
O Canadá foi escolhido por conta das ótimas referências. “Meu filho Vitor, do primeiro casamento, já morava no Canadá — em Halix, leste do país. Além dele, diversos amigos que passaram por aqui recomendaram o destino”, explica o analista, que também levou em consideração a significativa diferença cambial em relação ao dólar americano e ao euro. Foram quatro meses até que toda a documentação estivesse pronta. Assim que desembarcou em Vancouver, a família se encantou pela linda cidade, cuja paisagem é marcada por contrastes: praia e montanha, sol e neve, entre outros. “Entre as vantagens, sem dúvida, a segurança é a maior delas. O transporte público e a
variedade de culturas presente nas ruas, facilitando nossa adaptação, também devem ser destacados”, enumera Adriano.
Segundo ele, havendo disponibilidade de tempo e de dinheiro, essa experiência que decidiu viver e proporcionar à família é única e engrandece a todos. “Depois desses primeiros meses no Canadá, acho que seria capaz de morar em qualquer outro país que possibilitasse as boas condições que encontramos aqui. A qualidade de vida é incomparável”, avalia o analista de sistemas.
Já a Austrália foi a escolha de Adriano Segalla na hora de embarcar para o exterior. “A vontade de aprender inglês e de encarar os grandes desafios de viver fora do país me impulsionaram a procurar uma viagem como essa”, revela Segalla, que vive no país desde 2007. Segundo ele, a beleza natural australiana, com suas lindas praias e cidades limpas e seguras, além do clima parecido com o brasileiro, pautaram sua escolha. “Meu projeto foi totalmente gerenciado pela equipe AC Australian Centre, desde a escolha da cidade, passando pelas questões burocráticas, até as acomodações e o transporte quando cheguei foi coordenado por eles, o que me deu uma segurança maior”, aponta Adriano.
Apesar da saudade, o brasileiro não tem planos de voltar por enquanto. “Além do aprendizado de uma segunda língua, aqui há uma intensa troca cultural com pessoas de outros países. Também dá para dizer que viver fora aumenta a confiança e a autoestima, devido à superação de grandes desafios, aumenta a empregabilidade ao voltar para o país de origem e melhora a conscientização e a visão sobre o seu papel social”, argumenta.
Gerente da AC Ribeirão Preto e da AC Online, Fernando Comar viveu por dois anos na Austrália, antes de se tornar um especialista em intercâmbios para o país e para a Nova Zelândia. De acordo com ele, além do aumento da procura por esses destinos de forma geral, é possível notar, atualmente, o crescimento do número de pessoas interessadas em programas de intercâmbio de maior duração. “São pessoas já formadas aqui no Brasil, mas em busca de uma qualificação profissional internacional, por meio de programas de pós-graduação, mestrado e doutorado”, exemplifica Fernando, que também salienta a presença de casais e de famílias inteiras entre os interessados. A AC Ribeirão também representa uma das principais empresas de agentes imigratórios registrados pelos órgãos oficiais australianos, o que permite suporte completo a profissionais que desejam aplicar ao programa de visto de residência e se mudar definitivamente para o país.
Independentemente do destino, Fernando ensina que, antes de mais nada, é preciso identificar o objetivo do viajante. O próximo passo é definir quais países oferecem a oportunidade buscada e quais são as documentações e os outros requisitos exigidos. “Muitas pessoas que buscam programas de intercâmbio, principalmente por períodos mais longos, precisam ou desejam trabalhar. Para isso é importante escolher um país que ofereça essa permissão, por exemplo”, continua o especialista. Junto com isso, pesquisar todas as possibilidades e destino levantar os gastos envolvidos afinam, e muito, a lista de opções. Como são muitos os detalhes geralmente envolvidos, contar com suporte especializado pode fazer toda a diferença.
A aplicação para o visto de entrada é a parte mais delicada do processo, pois todo o projeto depende desse retorno positivo. “Austrália e Nova Zelândia possuem programas de imigração que buscam profissionais qualificados para atuar no mercado de trabalho. As principais áreas em destaque, nos dois casos, são engenharia e tecnologia”, acrescenta Fernando, explicando que quanto mais demorada for a permanência no país, mais longo poderá ser, também, a finalização dos preparativos para a viagem. Outo ponto forte dos dois países, de acordo com o consultor, é que eles possuem uma população jovem e multicultural, o que os torna muito receptivos aos estrangeiros.
Procura em alta
A busca por informações sobre intercâmbios de maior duração para o exterior, de fato, parece ter aumentado em Ribeirão Preto. Essa é a percepção de Júlio César Soncini, diretor de Relações Internacionais da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP). A entidade, que mantém relacionamento com diversos consulados, destaca maior proximidade com representantes de países como Alemanha, Espanha, Reino Unido, Itália, Portugal e Estados Unidos. “Acredito que as dificuldades atuais da economia brasileira provocaram o crescimento do interesse por informações relativas a outros países. Além disso, há muito benefícios para empresas nacionais que desejam se instalar em outras partes do mundo”, explica Júlio.
Cada destino tem uma estrutura e uma política próprias, assim como diversas peculiaridades, mas a proximidade cultural e do idioma com países como Portugal e Espanha costumam levar os negócios ribeirãopretanos com frequência para lá. “A globalização e a internet já têm encurtado muitas distâncias. O Brasil, em comparação com outros países da América Latina, ainda precisa vencer muitas barreiras, pois nossos governos ainda não deram a devida atenção à nossa participação nos mercados do exterior”, afirma Júlio. Ainda assim, o diretor defende que experiências fora do país são sempre bem-vindas, desde que bem planejadas.
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Júlio Sian e arquivo pessoal