O drama da dependência
Associação de Parentes Amigos de Dependentes Químicos de Ribeirão Preto busca apoio para criação de clínica pública de tratamento
Obrigados a vivenciar cenas reais de desespero e, muitas vezes, violência por parte de entes queridos — vítimas do vício de drogas —, parentes e amigos desses dependentes químicos resolveram criar uma associação em Ribeirão Preto, para acolher e dar apoio às famílias que vivem esse drama, afinal, o sofrimento causado pelas drogas não se limita ao usuário, ao contrário, se estende a todos os seus familiares e amigos.
Desde sua fundação, em julho de 2011, a Associação de Parentes e Amigos de Dependentes Químicos de Ribeirão Preto (APADQRP) já atendeu várias famílias, promovendo o encaminhando e a internação de dependentes em comunidades terapêuticas e clínicas de reabilitação (de acordo com a disponibilidade de recursos financeiros da associação, provenientes de doações de empresas, profissionais liberais e pessoas físicas), e também organizando reuniões periódicas de familiares para ajuda mútua e resgate da autoestima.
“Nossa missão é ser um referencial de apoio às famílias ribeiraopretanas. Queremos promover prevenção e tratamento ao uso e abuso de drogas lícitas e ilícitas; acolher com respeito e carinho a todos, resgatando as famílias do desespero e da dor, através de acompanhamento durante e após o tratamento, com atendimentos psicológicos, psiquiátricos e terapêuticos (firmados através de parcerias com profissionais) e orientar, fortalecer e preparar todos os envolvidos na dependência química para a nova vida, que se inicia a cada dia na sobriedade”, explica Márcia Marisa da Silva Macei, presidenta da associação.
Mãe de um usuário, a empresária afirma não desejar para ninguém sofrimento semelhante ao de ver um filho destruído pelo vício. “Fora da droga ele é um ótimo filho. Se precisar, dá a roupa do corpo para outra pessoa. Mas na ‘fissura’ ele já chegou a me agredir, pegou dinheiro do caixa da empresa para comprar droga, saiu de carro em movimento e até pulou do telhado”, conta.
A vivência dos familiares de dependentes químicos são tão destrutivas quanto as do próprio usuário, podendo levar à ruína financeira e emocional. “Antes de participar do Amor Exigente (grupo de apoio e ajuda mútua em Ribeirão Preto) vivíamos em função da dependência química de um dos meus filhos. Fazíamos tudo por ele e esquecíamos os outros. Eles até entendiam essa diferenciação, mas aprendi que não tem que ser assim. Temos que ser realistas. Hoje, o que gasto com um em uma clínica, gasto com os demais em bem estar”, afirma o representante comercial Antônio Marcos de Oliveira.
Direito a tratamento
Ssegundo a presidenta da associação, apesar de estar assegurado pela Constituição, o direito de tratamento da dependência tem sido sistematicamente relegado pelas autoridades. Isso, mesmo com o aumento no número de usuários de drogas lícitas e ilícitas que, de acordo com ela, só de Crack (em Ribeirão Preto) já ultrapassa nove mil. “O dado que temos é que, até dezembro de 2011, a fila de espera por tratamento pelo SUS era de 400 pessoas. Mas a droga não espera. Um usuário não pode passar longos períodos na fila da regulação das UBDS. Por isso, estamos pleiteando a construção de uma clínica pública de tratamento”, alerta.
Recuperação
Apesar de considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença ‘incurável, progressiva e fatal’, há casos de dependentes químicos que estão “limpos” (referência que se faz a quem não está utilizando nenhum tipo de droga) há bastante tempo.
Um exemplo é o psicólogo Fabiano Duarte de Souza, que sem nenhum constrangimento conta que já foi usuário de cocaína e crack, mas está limpo há 18 anos. “Recebi ajuda e hoje, graças a Deus, não tenho mais fissura por nenhum tipo de droga que altere meu humor. Não tomo nem cerveja e parei de fumar. Estou tentando desenvolver minhas potencialidades, minhas habilidades como ser humano de forma saudável”, afirma.
Motivado pelo desejo de ajudar, uma vez que ele próprio já vivenciou esse sofrimento, Fabiano começou a atuar voluntariamente na área, a aprofundar os estudos sobre a dependência e construiu uma carreira de 15 anos de trabalho com dependentes no Projeto Sara. Agora em setembro, vai inaugurar uma clínica particular, em Bonfim Paulista, o Instituto Luz, onde pretende oferecer tratamento biopsíquico e espiritual para pessoas que queiram se curar. “Esse é o primeiro passo no tratamento da dependência química, pois o viciado precisa querer se livrar da droga, e não apenas a sua família desejar isso por ele”, explica o psicólogo.
O segundo passo, segundo Fabiano, é escolher um tratamento adequado, avaliar onde o dependente vai ficar e, se possível, até passar um dia na clínica conhecendo os profissionais e tirando dúvidas. Como falta regulação e fiscalização, há muitas irregularidades relatadas pelas próprias famílias, envolvendo desde cláusulas extorsivas de contratos até maus tratos.
“Registramos casos de clínicas que recebem antecipado pelo tratamento, depois mandam embora o residente por algum motivo, e não devolvem o dinheiro. Outras mantém internos à revelia, até sem condições técnicas, e muitas estão mais preocupadas em ganhar dinheiro do que em recuperar o dependente. Infelizmente, onde falta o poder público entra o oportunista”, afirma Edson Ferreira, Cordenador do grupo Amor Exigente há 12 anos.
“É muito triste chegar ao ponto de pensar que vai perder seu filho para a droga. É difícil imaginar que existem pessoas enriquecendo às custas da vida do seu filho, tanto os que vendem a droga quanto os que se propõem a tratar e não o fazem. Parece que não são seres humanos”, lamenta Márcia Macei.
Para ajudar a APADQRP com qualquer quantia:
Banco Itaú
Agência 1635
Conta corrente 01995-1
Revide Online
Texto: Yara Racy
Fotos: Ibraim Leão e divulgação