O espetáculo tem que continuar
Com verbas escassas e iniciativas isoladas, a cultura de Ribeirão Preto experimenta períodos de altos e baixos.
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Entre as pastas que compõem a administração pública, a Cultura está entre as que recebem menos verba no orçamento municipal, girando em torno de um 1% do total que a Prefeitura arrecada. Para o exercício de 2014, a Secretaria da Cultura dispõe de 22 milhões, contando com a verba própria e a vinculada de projetos do Governo Federal e Estadual. A maior parte deste valor é empregada na folha de pagamento dos funcionários e na continuidade de projetos já em andamento da Secretaria. Com verba tão reduzida, alguns equipamentos culturais do Município estão, há anos, sem investimento e a falta de estrutura, muitas vezes, atrapalha as atividades culturais. Esses são os principais problemas enfrentados, segundo o secretário de Cultura, Alessandro Maraca.
Porém, aos poucos, os problemas são contornados. O Museu do Café, o Museu Histórico e o Centro Cultural Palace, por exemplo, receberam câmeras de segurança e os museus devem receber revitalização, além de passar por processo de modernização, com integração on-line de acervo. Maraca comemora, também, o CEU das Artes, um centro social e cultural que deve atender mais de 250 mil pessoas na zona leste. A situação atual da Cultura reflete o que vem acontecendo no decorrer dos anos: períodos de altos e baixos, sempre equilibrados na linha fina de uma verba beirando ao irrisório,
mas que, com muita arte, coleciona algumas conquistas que podem ser sintetizadas no título recebido, em 2010, como Capital Brasileira da Cultura. Ribeirão Preto foi a primeira cidade do Estado de São Paulo a receber essa denominação. Se os problemas existem, as soluções também entram em cena, sendo frequentemente debatidas e — na maior parte das vezes, mesmo que através de iniciativas isoladas — alcançadas. Afinal, o espetáculo tem que continuar.
A partir de então, o tema se tornou recorrente na revista, principalmente através da apresentação de artistas locais. Porém, a situação da cultura não era tão favorável na época. Na sua quinta edição, em 1987, a capa da Revide estampava como título: “Ribeirão: hoje não tem espetáculo”. A matéria interna, assinada por Luis Henrique Trovo, jornalista que faleceu recentemente, evidenciava um cenário de poucas expectativas. A cidade passava por um momento de apatia nas atividades culturais, sem peças de teatro em cartaz, com raríssimos shows de música, nenhum grupo de dança se apresentando, uma única e corriqueira opção de teatro e escassas exposições. A área mais deficiente era o teatro, com três espaços em reforma e outros três em condições inapropriadas. Dos 12 grupos de teatro, apenas quatro vinham desenvolvendo trabalhos permanentes. Na época, a esperança estava nas artes plásticas, que, apesar de pouco conhecida pela população, vinha se mostrando como um mercado rico. Alguns talentos iam sendo reconhecidos: Bassano Vaccarini, Odila Mestriner, Pedro Manuel Gismondi, Vânia Castaldelli, entre outros.
Aos poucos, a área foi retomando fôlego e o panorama mudou. Em 1993, comemorava-se a qualidade dos artistas da terra, fato noticiado pela Revide em uma edição especial. Um respeitável núcleo de escritores contava com Luiz Puntel, Júlio José Chiavenatto, Rubem Cione e o estreante Isaías Pessotti. As artes plásticas festejavam uma safra igualmente atraente, com Bassano Vaccarini, Odila Mestriner e Francisco Amêndola, trio que participou de várias edições da Bienal Internacional de São Paulo. A Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto nunca havia tido tanto público em seus concertos como nos últimos anos e pelo menos quatro grupos teatrais estavam em atividade constante: Fora do Sério, Grupo Universitário de Teatro, Agnus Art e Teatro Universitário da USP, além da atuação da Companhia de Ópera Minaz. Na dança, Marissol Esteves e Elydio Antonelli davam passos decisivos para a Ginastrada Mundial na Alemanha. Nos bares da cidade, Bia Mestriner, Dedé Cruz, Evandro Navarro e Simone Guimarães, ao lado de outros intérpretes, levavam ao público diversos estilos musicais.
Naquela época, o percentual de participação da Secretaria da Cultura havia dobrado, passando a corresponder por 2,4% do orçamento municipal, o que representava US$ 1,92 milhão, para o exercício de 1994. A maior parte da verba seria direcionada à restauração do Theatro Pedro II. Até a finalização das
obras, seria necessário um valor cinco vezes maior. Inaugurado em 1930, o principal cartão postal da cidade havia passado por um curto circuito que incendiou parte das estruturas do prédio em 1980. Onze anos depois, foi iniciado o processo de reforma e restauração, finalizado cinco anos depois. Em agosto de 1996, a cidade recebia de volta seu mais grandioso teatro. Enquanto as obras estavam em andamento, em setembro de 1993, a Revide lançou uma edição especial com as reportagens pautadas exclusivamente no Theatro Pedro II, contando, em três atos, a trajetória do espaço e trazendo o depoimento de personalidades ribeirãopretanas sobre sua importância da preservação artística.
No ano em que a cidade recebia de volta o Theatro Pedro II, a Revide lançou um livro comemorativo, estruturado em dez atos, registrando a história cultual da cidade diante de seu palco mais imponente. O jornalista Murilo Pinheiro fez um resgate do passado e ressaltou que uma nova cidade nascia a partir daquele momento, em que a expressão cultural ganhava a possibilidade de retomada com o Pedro II de volta à ativa. Em 2010, a empresa foi a responsável pela elaboração de um segundo livro “Theatro Pedro II: palco da cultura de Ribeirão Preto”. Nas 140 páginas da publicação, fotos impactantes se misturavam aos textos de Matilde Leone, contando em detalhes a história de um dos mais belos teatros de ópera do país.
Em meio a essa grande conquista, problemas com a verba destinada à pasta refletiam novamente nas opções oferecidas à população. Em 12 de março de 2000, a matéria de capa da Revide tratava sobre o tricampeonato da Escola de Samba do Complexo Aeroporto no Carnaval de Ribeirão Preto. Junto com as comemorações do título conquistado, a reportagem trazia a notícia de que aquele seria o último desfile das escolas de samba a contar com a ajuda financeira da Prefeitura. A partir de 2001, as escolas teriam que entrar na avenida com recursos próprios. Na época, o ex-prefeito Luiz Roberto Jábali havia liberado uma verba de R$ 7 mil para cada uma das três escolas. Dois meses depois, na edição de 14 de maio, uma boa notícia no cenário cultural era o tema de capa da revista, que, desta vez, trazia a conquista do mais cobiçado prêmio literário por Menalton Braff. Depois de 24 anos sem publicar um livro, o escritor, radicado em Serrana, lançou “À
Sombra do Cipreste”, da Editora Palavra Mágica, de Ribeirão Preto. Este era o segundo prêmio Jabuti na região. Em 1994, Isaías Pessoti havia trazido o prêmio para Ribeirão Preto com “Aqueles Cães Malditos de Arquelau”. A ação desses e diversos outros autores locais demonstrava que havia produção literária fora dos grandes centros.
O ano 2000, em que a Revide trouxe diversas capas culturais, na primeira fase de sua periodicidade semanal, foi marcado pela primeira edição da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que, anos mais tarde, seria considerada a segunda maior feira do livro a céu aberto do país. A Feira é realizada pela Fundação Feira do Livro, juntamente com a Prefeitura Municipal e conta com o apoio do setor público e privado nacional. Com uma programação totalmente gratuita, a estrutura do evento evoluiu com o passar dos anos e, na última edição realizada, em maio deste ano, ofereceu ao público mais de 600 atrações que contemplavam diversas formas de cultura em 14 endereços diferentes. Para Fatu Antunes, presidente do Conselho Diretor da SOLEBRARP/Biblioteca Padre Euclides e coordenadora da Oficina Cultural Candido Portinari, a Feira do Livro é o maior patrimônio imaterial que Ribeirão Preto possui hoje. Ela também faz questão de citar a centenária Biblioteca Padre Euclides que, embora particular, a sua história tem um papel marcante na história de Ribeirão Preto. Especialista em organização e em gestão de eventos, Fatu percebe um movimento bastante positivo por parte de representantes do setor cultural e dos diversos segmentos artísticos, no sentido de articular e sedimentar propostas que efetivamente estimulem a produção e o consumo de bens culturais na cidade. Para que a cultura evolua de forma realmente consistente, a
coordenadora acredita que sejam necessários mais programas de formação e capacitação em gestão cultural, produção e na área da economia criativa.
Mesmo com um cenário aparentemente favorável, a cultura sempre apresentou alguns pontos polêmicos, que foram abordados em outra edição especial, em maio de 2009. Os problemas apontados giravam em torno do gerenciamento de verbas, da utilização dos espaços públicos, das formas de incentivar novos talentos e de como consolidar Ribeirão Preto como polo cultural. Adriana Silva, secretária da pasta naquele momento, apontou, ao lado de outros especialistas no assunto, algumas soluções: a solicitação junto à Prefeitura por um aumento que projetaria de 0,95% para 1,28% a parcela destinada à cultura, adequação de espaços utilizados pela cultura, pressão nos órgãos públicos sobre a importância da cultura na formação do cidadão e reivindicação de investimentos para a capacitação de formadores, além da adoção de métodos criativos na educação para possibilitar a formação cultural.
Na visão de Fatu, para proporcionar à população uma programação mais rica, diversificada e frequente, o
poder público deve melhorar e ampliar os programas de incentivo à pesquisa e à produção artística; estimular o debate em torno de políticas públicas não só com o setor, mas também com a sociedade civil, e consolidar parcerias com equipamentos culturais já existentes na cidade. A ação da iniciativa privada também é muito importante. “Os esforços estão sendo feitos de forma muito tímida. A iniciativa privada,
via de regra, tem dado preferência a projetos de retorno imediato de mídia e visibilidade, em detrimento a projetos que passam pela formação humana, que vão compor um determinado tipo de público e não apenas a formação de plateia”, avalia.Por ser uma área que envolve diversas modalidades, muitas vezes, determinadas expressões artísticas se sobressaem às demais. Enquanto o poder público direciona seus esforços no fomento à leitura, no incentivo à música e ao teatro, além da preservação do patrimônio histórico em museus, cabe à iniciativa privada as ações mais efetivas relacionadas às artes plásticas e à dança. Em outros momentos, os papéis se revezam. E é desta forma que a cidade mantém uma programação pouco consistente, porém bem diversificada, como pode ser conferido semanalmente no Guia Cultural da Revide, que, desde outubro de 2008, tornou-se uma editoria fixa da revista. Além da agenda cultural e artística de Ribeirão Preto, desde fevereiro de 2013, a programação de São Paulo também foi incluída nas páginas da publicação, tornando o guia ainda mais abrangente. Além de manter este caderno, a Revide prestigia a cultura através de entrevistas, matérias especiais e reportagens de capa.
ATITUDES ISOLADAS
“Sempre que se pensa em Dom Quixote, metáfora do lírico visionário, ele é desenhadocom lança erguida, intrépido paladino dos sonhos difíceis de atingir. O Quixote deste depoimento, lamento, está com sua lança hasteada a meio pau, imagem broxante, metáfora de luto de uma luta em que ele luta para continuar vivo. Fazendo o apanhado da sinopse do resumo da cultura da cidade em 800 toques, desde 1986, quando da primeira publicação de Revide, e quase dez administrações municipais depois, pouco se tem a comemorar sobre as políticas públicas de incentivo à cultura. O que temos, e isso é fato, são ações isoladas de dedicados quixotes que sempre terçaram lanças, seja na iniciativa pública, seja na iniciativa privada e de movimentos populares, que ainda lutam contra os moinhos da falta de verba e da mediocridade cultural.”Luiz Puntel, escritor
MEMÓRIAS CULTURAIS
“Em 1986, eu tinha oito anos. Lembro que a grande novidade foi o violão que ganhei no Natal. Em casa,
tínhamos um trato: para fazer aula, tinha que estudar; então eram 30 minutos diários de violão mais 30 de leitura. Nesta época, eu lia Monteiro Lobato e a coleção Vagalume. ‘Açúcar Amargo’, de Luiz Puntel, era um dos meus livros prediletos. Fora de casa, nosso programa cultural eram as peças infantis no Teatro Municipal e no Teatro Auxiliadora, o Museu do Café, circo e passeios no bosque e na Praça XV. De lá para cá, creio que o maior ganho tenha sido a reforma do Theatro Pedro II, com estrutura capaz de receber espetáculos de todos os portes, além de ser uma casa à altura da Orquestra Sinfônica, que lembro ter assistido pela primeira vez com minha avó, patrona durante sua vida toda. Outra importante conquista é a Feira do Livro, que certamente ajuda a alçar a cidade ao posto de maior polo cultural da região e um dos maiores do país.”
Verônica Ferriani, cantora
PRODUÇÃO CONSISTENTE
“No cenário artístico local, nas últimas três décadas, destaca-se a criação do Museu de Arte de Ribeirão
Preto (MARP) Pedro Manuel-Gismondi, instituição pública que há 22 anos desenvolve um trabalho consistente, que coloca Ribeirão Preto em posição de destaque no cenário artístico brasileiro. O museu viabiliza importantes parcerias com instituições da capital, como Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu Afro Brasil e Museu Lasar Segall, através do Sistema Estadual de Museus (SISEM). Nossa cidade também conta, desde 2011, com o Instituto Figueiredo Ferraz (IFF), uma iniciativa exemplar de tornar pública uma importante coleção privada. Nesse período, a produção artística ribeirão-pretana se mantém consistente, sempre se renovando e os artistas se profissionalizando, diante de um cenário cada vez mais exigente, competitivo e multifacetado.”
Nilton Campos, diretor do MARP
UMA GENEROSA CONTRIBUIÇÃO
Em 1984, residia em Campinas, cursando regência no Instituto de Artes da Unicamp, e viajava para Ribeirão Preto toda semana para dar aula de canto. Na época, Ribeirão Preto ainda tinha ares de cidade pequena e a produção cultural era tímida, apesar da existência de grandes artistas. Fundamos a Companhia de Ópera Minaz em 1990 e, em 1992, mudamos, definitivamente, para cá, pois além do início da reforma do Theatro Pedro II, tínhamos vozes excelentes aqui. A cidade cresceu em quantidade de espaços, teatros, oficinas, músicos, atores e artistas plásticos, assim como aumenta, a cada dia, o número de instituições voltadas à arte e à educação e a qualidade da produção cultural. De nossa parte, além da criação do Teatro Minaz, fizemos a cidade se tornar um polo de ópera, reconhecido em todo o Brasil e em países do exterior. Pretendemos ampliar cada vez mais esse trabalho de formação de público e novos profissionaispara ópera.”
Gisele Ganade, maestrina
MUITO A SER FEITO
“Cultura é produto de uma sociedade consciente e participativa. Em 1986, eu trabalhava na Unaerp como chefe do departamento de música e o ensino das artes era intenso. Nesse ano, formamos o Duo de Acordeons Gilda Montans e Meire Genaro. Muitas mudanças foram processadas no cenário da formação artística. Hoje, contamos com a Faculdade de Música da USP-RP, importante centro de formação musical. Em 1986, a Orquestra Sinfônica estava a caminho de dar seu grande salto: tornar-se uma das maiores orquestras do Brasil. Começava a restauração do Theatro Pedro II, que hoje reina absoluto e majestoso no coração de Ribeirão Preto. Nessa época, as academias estavam em expansão. Agora, além da produção literária, temos a Feira do Livro, que é uma das maiores a céu aberto do Brasil. Existe cultura para todo tipo de público. Crescemos, porém há muito ainda a ser feito. Mãos à obra, artistas, poder público e poder privado de Ribeirão Preto.”
Gilda Montans, acordeonista
* Publicado em 28/08/2014