O expressionismo do artista

O expressionismo do artista

O artista plástico Waldomiro Sant'anna é o entrevistado de Heliana Palocci

Com uma declaração de carinho foi iniciada a entrevista entre a consultora pedagógica Heliana Palocci e o artista plástico Waldomiro de Freitas Sant’Anna, conhecido também como Mirinho. A admiração e o respeito são mútuos entres os amigos — que, durante a descontraída conversa reviveram momentos e compartilharam a bela história do pintor. Nascido em Itápolis, no interior de São Paulo, tendo vivido toda a infância e a adolescência em Santa Rita do Passa Quatro, Waldomiro é dono de um currículo incrível, com diversos cursos e trabalhos reconhecidos nacional e internacionalmente. O artista participou de exposições coletivas e individuais em vários estados brasileiros e em países como França, Portugal, China e França, além de possuir obras em acervos particulares e galerias mundo afora.

Apesar do merecido reconhecimento, o artista esbanja simplicidade e sorrisos por onde passa, encantando os apreciadores das artes e refletindo a alegria e a esperança que podem ser facilmente vistas em seus quadros. Waldomiro foi apontado muitas vezes pela crítica como “pintor de silêncios”, segundo Enio Squeff, e comparado a artistas como Di Cavalcanti, Portinari e Chagall. É também tido como dono de uma obra que remete a “um sopro leve de ar puro que chega à longínqua paisagem do sonho, da vida, da lembrança”, nas palavras de Pedro Manuel, e autor de traços sutis, facilmente encontrados em quadros como “A namorada do pianista”, “Jazz café”, “Um outro olhar da varanda”, “São João no vilarejo”, “Encontros”, entre outros. No entanto, Waldomiro parece não se exaltar com os elogios. Durante a entrevista, o artista revela à Heliana sua paixão pela música, os segredos de suas obras, suas viagens ao exterior e seu desprendimento ao vender os quadros. Ressalta, ainda, que um misto de sentimentos é a receita que dá vida às suas obras. Entretanto, o resultado final, aos seus olhos, é produzir quadros ao alcance de todas as pessoas.

Heliana: Waldomiro, conte-me um pouco da sua vinda de Santa Rita do Passa Quatro para Ribeirão Preto.
Waldomiro: Nasci em Itápolis, no interior de São Paulo, mas passei minha infância e adolescência em Santa Rita do Passa Quatro. Aos 17 anos fui para São Paulo cursar a Faculdade de Belas Artes e, depois disso, vim para Ribeirão Preto. Nessa época, era muito amigo do Leopoldo Lima, estávamos expondo em Piracicaba e o então prefeito, Francisco Rossi, estava passeando por lá e nos convidou para fazer um trabalho cultural em Osasco. A ideia era expor nossas obras em cada praça da cidade durante um final de semana e, em troca, recebíamos moradia e alimentação.  Depois de algum tempo, a situação começou a ficar muito confortável para nós, então, decidimos criar a Vila dos Artistas em uma escola municipal abandonada, junto a uma favela. Aos poucos, organizamos o local, com a ajuda da Prefeitura e, assim, a escola se transformou em um centro de utilidade pública, onde muitas pessoas interessantes viveram. Passados alguns anos, o Leopoldo voltou para Ribeirão Preto e eu, como ia me casar, passei em um concurso da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e me mudei para a cidade paranaense. Voltar para Ribeirão Preto depois de tanto tempo foi um ótimo acontecimento na minha vida. Essa cidade sempre foi meu ponto: apesar de eu ter meu ateliê em São Paulo, meu lugar é em Ribeirão Preto. Foi a cidade que escolhi para chamar de minha.

Heliana: Você tem uma abrangência cultural maravilhosa e uma visão política interessante. Na sua opinião, essa vivência o influencia na hora de pintar?
Waldomiro: Acredito que tudo ao nosso redor influencia de alguma forma. Na época da repressão, fazíamos uma arte que chamávamos de engajada. Hoje, vemos que tudo está conectado, não conseguimos separar nada. Ao menos eu, quando estou pintando, vejo as coisas naturalmente. Posso dizer que a minha pintura é alegre, cheia de esperança — não que eu seja assim o tempo todo. Eu poderia ser tão alegre e tão esperançoso quanto os meus quadros, mas não sou. Eles são muito mais leves do que eu. Portinari falava o seguinte: “você deve pintar algo que agrade o espírito e os olhos”. É assim que eu trabalho, tento fazer algo que seja de reflexão, alegria, saudade. Minha psicanalista falava que eu deveria ter tido uma infância muito feliz, que estaria sempre retratada nos meus quadros.

Heliana: Você costuma unir a música e a pintura — muitos de seus quadros possuem músicos retratados. De onde surgiu a ideia de associar essas artes?
Waldomiro: Não vi meu avô tocar violão, mas sei que ele tocava no conjunto do Zequinha de Abreu — músico, compositor e instrumentista brasileiro de renome. Ele foi o último do conjunto a falecer. Santa Rita do Passa Quatro tinha, na minha época, a semana do Zequinha de Abreu, quando eram promovidas serenatas diariamente. Sempre gostei de música e minha mãe cantou no coral do Zequinha de Abreu, sempre relacionei meu trabalho à música. Agora, com a facilidade da internet, escuto rádios de todo o mundo e, por isso, ouço música o tempo todo. Além disso,  na Vila dos Artistas havia muitos músicos mais alternativos, que não se preocupavam tanto com o lado comercial. Eu conversava bastante com eles e, muitos, são meus amigos até hoje.

Heliana: Na sua obra também é possível notar a predominância das cores. Essa ascendência é uma escolha pessoal, como isso acontece?
Waldomiro: Tenho um amigo, pintor e crítico de arte, que diz que meus quadros têm cores outonais. Já tive muitas fases, mas em todas elas os tons terrosos predominam em meus quadros.  O pintor começa pintando as coisas puras e, depois, vai tentando matizar essas cores, num tom mais rebaixado. Quando ele atinge certa experiência, adquiriu uma maneira singular de elaborar as cores de uma forma que elas não fiquem tão cruas. Vejo que minhas obras têm um pouco do passado, remetem a uma cor mais sépia, mesmo que seja algo atual. Além do mais, ao colocar um quadro em um ambiente usado com frequência como, por exemplo, a sala da casa, algumas cores mal elaboradas podem criar certa desarmonia, ficando até difícil conviver no dia a dia.

Heliana: A mulher que aparece em vários quadros, quem é ela?
Waldomiro: É a mesma mulher desde que comecei a pintar e eu ainda não a descobri. Essa mulher é um amor platônico de infância, acredito (risos). Mas não sei te apontar especificamente quem seja, espero que seja a mesma mulher que Chico Buarque canta quando pergunta “quem é essa mulher?”. Aproveitando o ensejo, uma coisa que eu gosto muito, e citando a música de Chico Buarque, ressalto a proposta desse cantor, que é a música de extremo bom gosto, de qualidade e, ao mesmo tempo, acessível, tanto para um trabalhador braçal quanto para um intelectual. Sem comparações, é exatamente essa a linha que sigo quando pinto. É emocionante quando desço meus quadros para uma exposição e percebo que os funcionários da galeria olham e admiram meu trabalho. Faço minha arte com o coração, sem seguir modismos. Vejo muitos artistas que se preocupam exageradamente com a moda e acabam se perdendo. Meu desejo nunca foi fazer algo com uma proposta comercial. Faço meu trabalho, procuro retratar a alma nos quadros e sobrevivo disso.

Heliana: Como fica esse desapego pela venda dos quadros? Afinal, qual a sensação que você tem quando suas obras estão prontas e são vendidas?
Waldomiro: Quando eu lecionava na Universidade Estadual de Londrina (UEL), resolvi ser apenas pintor. Na época, eu era muito novo, pintava durante a madrugada inteira e ia trabalhar no outro dia. Com o passar dos anos, o cenário foi mudando e eu resolvi me entregar totalmente aos quadros. Quando fiz essa opção já pensava que ira ter que me desprender. É igual ao texto que escrevi no ateliê “quando pinto convido minha alma para vir comigo, ser meu guia. Quando vendo meu quadro deixo meu coração de lado”.  Se o quadro vai para uma casa que conheço, sei que vou vê-lo e, mesmo vendo pouco, sei que está lá. Mas, às vezes, você entrega os quadros numa galeria e nunca saberá quem levou.

Heliana: Atualmente, você se divide entre Ribeirão Preto e São Paulo. Quem quiser conhecer sua obra, onde ponde encontrá-la?
Waldomiro: Em breve, vou inaugurar um espaço para mostrar meus trabalhos aqui em Ribeirão Preto, no prédio onde funcionará o novo escritório de advocacia do meu amigo Dr. Eduardo Velocci, que fica na rua Floriano Peixoto, 2435. Se eu não estiver aqui, todos podem ficar à vontade para conhecer a minha arte. Por enquanto, as pessoas que quiserem conhecer meu trabalho podem ligar diretamente no meu celular (16) 99961.3107, que terei o maior prazer em atender. Caso eu esteja em meu atelier em São Paulo, com certeza, serão muito bem atendidas também.

Heliana: Como foi produzir um livro com suas obras? Sei que foi uma edição muito cuidadosa.
Waldomiro: A marchand Nair Barbosa, dona da Galeria Jardim Contemporâneo, fez um trabalho muito importante para Ribeirão Preto e região durante anos, Em parceria com seu filho, sócio da editora Decor, que só publica livros de arte, foi feito um livro com vários pintores brasileiros — eu estava nessa lista. Depois, a sociedade foi encerrada e o atual dono da editora fez mais dois livros, um dos artistas brasileiros apenas figurativos e outro dos abstratos. Com o sucesso das publicações, o dono da editora teve a ideia de fazer um livro por artista, incluindo a mim. Aprovado pelo Ministério da Cultura, o livro levou três anos para ser elaborado, entre fotografar os quadros e escrever. O resultado foi surpreendente. A publicação foi muito bem distribuída em diversas livrarias do Brasil.  

Heliana: Como foi expor na sala dos espelhos no Theatro Pedro II?
Waldomiro: Foi maravilhosa, pois aquela sala valoriza qualquer obra e, junto com a Feira do Livro, ficou ainda melhor, reunindo um público enorme. O Theatro é belíssimo e eu ainda tive o privilégio de expor e dar uma saidinha para assistir a várias palestras. Além disso, muitos palestrantes subiam para ver a exposição, foi único. Passei pela Feira e tive a certeza de que tinha valido a pena a cada adolescente que eu encontrava lendo um livro. A Feira é, definitivamente, um evento grandioso.

Heliana: Como é expor no exterior, sair do Brasil e levar sua obra para outro universo, com outra cultura?
Waldormiro: Em Portugal, expus na divisa com a Espanha, numa cidade do século IV, um lugar maravilhoso em um hotel que era um castelo, chamado Chaves. Foi muito bom. Nas Ilhas Canárias, também foi muito interessante com um grande número de pessoas. Na época que fui, lembro que eram pessoas do mundo todo. Na França, também fiquei muito feliz em expor, pois foi o ano do Brasil naquele país, em 2005. A exposição foi muito visitada. Durante esse evento, uma comissão do local visitava os lugares para ver se aquele trabalho poderia incluído no Calendário Oficial do ano do Brasil na França. Eles visitaram a minha exposição, conheceram o meu trabalho e viram que ele poderia fazer parte disso. Expor no exterior é sempre gratificante, existe um respeito muito grande pelo pintor. Mas as coisas mudam um pouco. Hoje, existem algumas dificuldades para levar o nosso trabalho para outro país. Agora estou com uma perspectiva nos Estados Unidos, vamos ver o que acontece.

Heliana: Você é um bom cidadão. Na sua visão, o Brasil está caminhando bem?
Waldomiro: Acho que está indo bem, apesar de toda a reação contra. Acredito que o país nunca esteve tão bem, não estou dizendo que está uma maravilha, temos muito que aprender, mas hoje, a classe que antes não podia consumir está consumindo, e isso é bom. Melhorou para os menos favorecidos, com acesso a itens como moradia, maior qualidade de vida e diversos bens de consumo. As pessoas também começaram a ter mais acesso à cultura como um todo. Falta educação e saúde ainda, mas, na minha opinião, já melhorou.

Uma vida dedicada à arte
“Escolhi ter essa conversa com o Waldomiro pela beleza de sua obra e pela pessoa especial que ele é. O Waldomiro é um artista que, além de possuir obras maravilhosas, também é culto e engajado nos conflitos da sociedade contemporânea. Hoje, é um artista de renome nacional, com várias exposições internacionais. Tal abrangência não o impede de ser simples, atencioso e gentil. Escolhi o Waldomiro também porque admiro seus quadros, as cores que ele utiliza, os detalhes que tornam as telas leves e profundas. Realizar esta entrevista foi mais do que um prazer, foi uma oportunidade de registrar  a trajetória de um artista quase de Ribeirão Preto, pois, sendo de Santa Rita do Passa Quatro, escolheu Ribeirão como cidade para morar. Nas obras de artes perpetuamos a história de um tempo, contamos as histórias de muitas vidas e, sobretudo, registramos ideias, observações e sabores dos espaços. O Waldomiro faz isso de forma extraordinária.”
Heliana da Silva Palocci, diretora da Escola do Amanhã e da HSP Consultoria Pedagógica

Texto: Pâmela Silva | Fotos: Julio Sian

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