O feminino que reflete

O feminino que reflete

a mulher tem conquistado avanços na sociedade; no entanto, segundo a professora Giulia Crippa, que concedeu uma entrevista sobre o tema à jornalista Renata Carvalho, ainda há um longo caminho

É possível afirmar que a sociedade possui uma latente necessidade de estabelecer parâmetros: certo e errado, bem e mal, bom e ruim são conceitos corriqueiramente utilizados para demonstrar um posicionamento diante das mais diversas questões — ainda mais em tempos de redes sociais. Entre os assuntos que costumam polarizar opiniões está o papel da mulher na sociedade: de um lado, há quem defenda que as mulheres podem, e devem, ocupar o espaço que elas quiserem dentro do contexto social; para outros, não há a menor possibilidade de vê-las ocupando, em pé de igualdade, o lugar deles, já que sempre haverá a diferença de gênero em jogo e, com ela, uma série de particularidades. 

Independentemente da mensagem embutida de um lado ou do outro dessa questão, o que não se discute é que o papel da mulher na sociedade está em constante transformação, com indiscutíveis conquistas rumo à maior liberdade de escolha dela. As brasileiras, inclusive, dão sinais de fortalecimento comparadas às de outras nacionalidades. Mais empreendedoras, escolarizadas e, muitas vezes, tendo a família sob seu poder de decisão, elas têm muito a comemorar. Porém, não dá para ignorar que ainda existe um longo caminho pela frente.

Foi justamente este o tema da entrevista da jornalista, apresentadora de TV, professora convidada e coach Renata Carvalho com a professora universitária Giulia Crippa, que é graduada em Lettere Moderne pela Universitá degli Studi di Bologna, com doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo e experiência em estudos culturais. As duas concordam que a vida da mulher não deve ser colocada em pauta apenas no dia 8 de março e que, em algumas ocasiões, a liberdade da mulher passou a escravizá-la. 

Renata: Quais foram os caminhos profissionais que a trouxeram até o ponto atual?
Giulia:
Nasci, vivi e me formei na Itália. Minha vinda ao Brasil aconteceu em 1995, quando cheguei para um doutorado. Naquele momento, a Itália passava por uma crise e eu buscava uma vida de universitária eterna. Depois de concluir o doutorado, comecei a trabalhar e acabei vindo para Ribeirão Preto, em 2003. Passei por várias universidades particulares. Logo prestei um concurso e ingressei na USP, onde atuo até hoje. Sempre amei estudar e compartilhar meus conhecimentos, o que me levou a buscar a carreira universitária. Em algum momento, comecei a fazer exatamente o fazia na Itália, que era participar de um ponto de vista — lá era político e aqui, de natureza cultural. Nessa busca por deixar um legado como mulher,  descobri alguns estudantes curiosos e interessados nesse tema. Assim, passamos a construir nossos próprios percursos através de leituras e de discussões, o que tem resultado em um recorte acadêmico sério, capaz de pensar o mundo não de um ponto de vista que finge ser neutro, mas de um ponto de vista feminino, que reflete suas potencialidades. 

Renata: Quem é a mulher de 2016? 
Giulia:
Acredito que não dá para elevar a mulher ao status do absoluto, com uma única definição, porque somos muitas, de tipos diferentes, em Ribeirão Preto, no Brasil e no mundo. Essas mulheres possuem histórias de vida próprias, mas com muitos elementos comuns. Felizmente, nos dias atuais, as mulheres já conversam bastante umas com as outras e, assim, descobrem que vivem experiências parecidas, apesar das particularidades individuais. 

Renata: As mulheres sabem realmente quem elas são ou têm dificuldade de se mostrarem para o mundo?
Giulia:
As mulheres não podem saber o que são porque a essência é algo impalpável. Elas se constroem de uma colagem daquilo que percebem que é desenhado para elas, escolhendo em quais ou em quantas “caixinhas” se enquadram. Mulheres são apenas aquelas que se tornam mães? Não, esse papel é um aspecto da mulher — que pode ser determinante, mas é uma das possíveis realizações. Ser mulher é indefinível; difícil encontrarmos uma essência única entre figuras tão dispersas sem passar por um caminho ruim, afinal, muitas são sobreviventes.

Renata: Essas escolhas a que você se referiu são conscientes ou inconscientes?
Giulia:
Essas decisões são assumidas plenamente pela consciência, mas é difícil ultrapassar algumas barreiras, mesmo que invisíveis, quando tudo conspira para que determinados caminhos estabelecidos sejam seguidos. A maneira como esses caminhos devem ser trilhados também vem definida. Então, essas escolhas são conscientes até certo grau, mas se tornam inconscientes na medida em que encaramos como naturais certos aspectos culturais pré-estabelecidos.

Renata: As crenças de cada uma de nós podem limitar as projeções para o futuro? Há uma maneira de mostrar à mulher que ela pode ser a mudança que ela tanto quer ver?
Giulia:
É preciso acreditar em si mesma. Hoje, ninguém diz que as mulheres são o sexo frágil, mas ainda afirmam que, “coitadas, elas têm TPM”. As mulheres embarcam nessa teoria e não percebem que se deixam dominar por ela.  Há 25 anos não se ouvia tanto falar em TPM, apesar de um certo mal estar , dependendo do período do mês. Hoje, a questão chega a ser motivo de piada, que nos reduz a seres incapazes durante um bom tempo. Existem outras maneiras de encarar o que acontece com o nosso corpo, sem nos reduzir a seres instáveis e nervosos. Esse é um exemplo banal, mas pense em quantas vezes ouvimos referências a esse período, tanto por parte dos homens quanto das mulheres. As ideias são fortes, e muitas mulheres acreditam nisso, colocando-se em uma posição complicada. É preciso reavaliar como o nosso corpo se desenha em relação ao que acreditamos ser natural e/ou cultural. Para trabalharmos no eixo cultural, que nos coloca no mesmo patamar do resto do mundo, é preciso recorrer a diversos discursos, palavras e imagens, porque assim também se constrói novas crenças, que podem ser inúmeras. 

Renata: No caso das mulheres, o termo “empoderamento” está sendo muito utilizado ultimamente. O que realmente ele significa e de que maneira a mulher pode se empoderar?
Giulia:
“Empowerment”, ou empoderamento, significa atribuir poderes de autonomia, de escolha, de decisão à mulher no que diz respeito à sua vida e aos seus planos. Se falarmos que é necessário empoderar as mulheres, o pressuposto é que, até agora, elas não têm tanto poder assim. Então, é evidente que, se existem campanhas para empoderar as mulheres, no panorama geral, ainda falta autonomia para elas — mesmo para aquelas que foram para frente, mas ainda recuam perante alguns poderes. Esse empoderamento não é somente no plano do poder. Ingressar na política, por exemplo, é uma forma de empoderamento e, sem dúvida, a mais visível de todas, porque é o espaço público por excelência. Na mídia, por exemplo, qual é a entrada das mulheres nos cargos de grande responsabilidade? Quem decide qual é a figura, a postura e até a gestualidade que a mulher deve adotar? Fica a reflexão.

Renata: A questão estética está muito enraizada hoje e, entre seus trabalhos. Você resgatou a concepção do corpo feminino da antiguidade até hoje. Na sua visão, como as mulheres foram se moldando para chegar à concepção de que o estético tem que seguir determinado padrão?
Giulia:
O corpo feminino é objeto de discussão em todas as épocas, libertárias ou não. A mulher encarnada sempre incomodou de alguma maneira: porque é desvestida ou porque é vestida, é alta ou baixa, é magra ou gorda ou porque é um vaso de pecado ou a inspiradora absoluta. A concepção do corpo vai se transformando ao longo das épocas e, hoje, continua no centro de tudo. Estamos em uma época em que se busca a perfeição, o que permite imaginar que as mulheres jovens são desejáveis, enquanto as idosas não servem mais. A ideia é que ela seja um objeto de encantamento, onde só as partes do corpo entram em análise. O aspecto intelectual não tem o mesmo valor e fica subjugado pelo rostinho bonito. As várias questões ao redor da mulher nos remetem, invariavelmente, ao corpo. Somos construídas para que nossa definição passe pelo corpo estetizado, embelezado e envelhecido. 

Renata: Quando a mulher tem a oportunidade de mostrar seu lado intelectual, em detrimento da estética?
Giulia:
Trabalhando muito. Quando se diz que a mulher, muitas vezes, tem dupla jornada, a afirmação ainda fica aquém da realidade porque, além do trabalho — seja dentro ou fora de casa —ela ainda precisa mostrar muito mais. Na percepção do que não é feito, e naquilo que eventualmente pode vir a fazer, é que se forma o preconceito. Outra questão ainda pouco admitida é a escolha de não ser mãe, que ainda é vista como um desvio.

Renata: Homens têm medo de mulheres poderosas: esta frase é verdadeira ou falsa, e por quê?
Giulia:
Pura verdade. Na realidade, eles têm medo, não da mulher poderosa, mas da insubmissa, daquela que pensa autonomamente. Isso porque, na medida em que constrói um pensamento autônomo, ela é capaz de dizer que discorda do pensamento deles, colocando-se no plano de negociação, e não de aceitação. Por não terem esse costume, os homens passam a ter medo. 

Renata: Existe muito equívoco em torno do termo feminismo? 
Giulia:
Foram construídos muitos mitos negativos sobre essa questão. Na verdade, esse termo deveria refletir a decisão da mulher que escolheu seguir uma vida digna, com liberdade, acesso ao estudo e ao mercado de trabalho, sem espaço para violência doméstica e outros ingredientes inaceitáveis, que ainda fazem parte da vida de tantas pessoas. Diante disso, há até quem diga que não é feminista, mas, na essência, é. Com essa base colocada, é claro que há avanços, retrocessos e divisões, mas a essência é uma só. Muitas pessoas associam o feminismo a mulheres descuidadas, mais preocupadas a atacar o sexo masculino, mas esse é um desenho muito caricato. É importante frisar que o machismo e o feminismo não são opostos. O primeiro surge a partir de um conjunto de exigências e de reivindicações sociais e políticas; já o segundo é simplesmente a forma sob a qual se construiu uma determinada sociedade, baseada no “pai” de família, que transmite a ideia do homem como provedor e das mulheres cuidando da prole. Agora, chegamos à sociedade da informação e do espetáculo, o que permite supor que manter tudo como era antigamente não funciona mais. A questão não é se queremos mudar ou não, pois a sociedade já mudou. No entanto, ainda é preciso explicitar essas mudanças. 

Renata: A mulher já avançou muito em relação a direitos, cargos e posicionamentos sociais. Qual é a tendência daqui pra frente? 
Giulia:
Para mim, são os desafios de conquistar uma maior representatividade no espaço público como pessoas autônomas e capazes de decidir, ou seja, empoderadas. É importante construir imagens que apresentem outros conceitos das mulheres. 

Renata: Na sua opinião, como a mulher se vê? 
Giulia:
Em pedaços. Primeiro o rosto, que tem rugas ou não, se adequa aos novos óculos, etc; depois, a barriga, que já não está tão sequinha quanto antes, e assim sucessivamente. Nossa integridade se forma na união, com muito esforço, de todos os caquinhos, que começam pelo corpo.  Nós, mulheres, somos muitas coisas, podendo nos ver de muitas maneiras, mas, infelizmente, em muitos casos, conseguimos olhar para nós mesmas apenas de forma fragmentada, não apenas fisicamente, mas também em relação ao aspecto psíquico. 

A mulher plural

“Além de todo o aprendizado, o bate-papo com a Giulia foi muito divertido. Falar sobre as mulheres, em todos os aspectos, é fundamental a qualquer tempo, uma vez que ainda é preciso mostrar mais confiança diante das pessoas e do mundo. Descobri, com este encontro, que sou feminista, sim, e com muito orgulho. Como é bom saber e aceitar essa posição. Vale observar como Giulia se posiciona, sendo uma mulher poderosa: com amor próprio, aceitação e autoconfiança, características imprescindíveis para mulheres vencedoras.” Renata Carvalho, jornalista.

Giulia Crippa e Renata Carvalho.
Texto: Pâmela Silva Fotos: Julio Sian

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