O herói da vida real

O herói da vida real

Histórias de homens que possuem superpoderes para cuidar dos filhos com muito amor e carinho

Diferentemente do que acontece no mundo dos quadrinhos e dos filmes de ação, eles não usam capa, máscara e nem qualquer outro tipo de armadura que os identifique. Tampouco possuem poderes sobrenaturais, como a força descomunal, a visão de raio-X, a invisibilidade ou a capacidade de voar, por exemplo. Mas quem foi que disse que eles precisam de todos esses requisitos para serem admirados? Enquanto a ficção cria personagens destemidos e invencíveis, que possuem recursos mágicos para enfrentar as situações mais adversas, inclusive batalhas épicas contra perigosos vilões, é o fator humano que faz com que os pais sejam verdadeiros super-heróis aos olhos dos filhos.

Na infância, período em que a imaginação e a criatividade ainda são muito fortes, esses dois universos se confundem de um jeito encantador. Para Bernardo, de 6 anos, o advogadoHenrique Sandoval é o Buzz Lightyear, o boneco astronauta que faz sucesso na série de filmes da Pixar, “Toy Story”. Já o irmão caçula, Lourenço, de 4, acredita que ele é mais parecido com o Homem Aranha. Os pequenos transferem, automaticamente, as características marcantes de seus ídolos favoritos para o pai. Assim, ao lado dele, tanto a diversão quanto a proteção estão garantidas. Porém, a lista de habilidades especiais de Henrique é um pouco diferente. Segundo os filhos, em vez de viajar para o espaço e escalar paredes através de uma teia, ele faz cócegas, lê histórias, vê filmes, brinca e joga futebol muito bem.

A mãe dos meninos, Sofia, é testemunha dessa relação repleta de carinho. “Durante a semana, o trabalho exige muita dedicação do Henrique. O Bernardo e o Lourenço ficam esperando ansiosamente que ele volte para casa. Não querem jantar e nem dormir antes do pai chegar. Quando escutam o barulho do portão, saem correndo para recebê-lo ainda na garagem e, geralmente, a bagunça começa ali mesmo. Apesar de estar cansado, ele consegue reunir energia para dar toda a atenção às crianças. O tempo compartilhado é curto, mas de uma qualidade imensa. Aos sábados e domingos, eles ficam mais juntos e se esbaldam”, ressalta Sofia. Ela comenta que os três são melhores amigos e grandes parceiros na hora de fazer arte.

O próprio Henrique confessa que faz de tudo para ver um sorriso no rosto dos filhos. “A emoção que senti quando descobri que seria pai é algo indescritível. Desde o início, sempre fiz questão de ser presente e participativo. Dou banho, troco a roupa e coloco para dormir. A melhor parte do meu dia é estar com essa turminha. Tenho curtido cada fase e fico apreensivo ao notar o quanto eles crescem rápido”, revela. O advogado não se vê como um super-herói, mas sabe que suas atitudes servem de modelo para Bernardo e Lourenço. “Os meninos me olham como um espelho. Reproduzem a minha maneira de falar, de agir e até de me vestir. Por isso, sempre penso antes de agir na frente deles. A figura paterna é fundamental na formação dos filhos. Essa função demanda uma enorme responsabilidade. Empenho-me ao máximo para ser um ótimo exemplo para eles”, enfatiza.

Com o passar dos anos, esse sentimento vai mudando naturalmente. Na maioria das vezes, é o início da adolescência que marca o distanciamento da fantasia e o começo da vida real. Uma fase de muitas descobertas e também de alguns pequenos conflitos, como a hora de voltar para casa depois das festinhas e o andamento das tarefas da escola. Esses são os dilemas enfrentados por Renato Cavalheiro Garcia, pai de Maria Gabriella, de 12 anos. “É um período de adaptações, que exige carinho e compreensão dos dois lados. Não existe mais aquela relação puramente contemplativa, em que o pai é uma figura perfeita e inabalável. Somos passíveis de falhas e nossos filhos, nessa idade, conseguem enxergar isso. A Maria Gabriella é inteligente e cheia de opinião. Se acha que eu estou errado, não hesita em falar. Eu escuto e pondero, pois os filhos também nos ensinam preciosas lições”, afirma Renato.

A adolescente assume que é um pouco teimosa e diz que o pai é linha dura nas negociações. Ele, por outro lado, confessa que faz marcação cerrada, mesmo que de longe, acompanhando cada passo para orientá-la no decorrer do caminho. “Sei que meu pai não é como os personagens que vejo nos livros, nos gibis e na TV. Para mim, ele é muito melhor. Tenho orgulho de ter o meu herói particular, que está sempre disposto a me ajudar no que for preciso”, garante Maria Gabriella. Um dos resultados positivos dessa intervenção do pai é o gosto que a garota desenvolveu pela leitura. Há um certo tempo, ela fugia dos livros. Como incentivo, Renato passou a ler ao lado dela, mostrando que a atividade poderia ser interessante e divertida. A iniciativa funcionou e, hoje, Maria Gabriella é apaixonada pela narrativa de diversos autores.

Com o conhecimento e a experiência adquiridos ao longo da vida, os adultos ainda são capazes de se deixar contagiar pelo lado lúdico e acreditar que o pai é um ser humano superpoderoso? Para Daniel e Fábio, de 25 e 22 anos, respectivamente, a resposta é sim. “Thomas Edison disse que o gênio consiste em 1% de inspiração e 99% de transpiração. Tenho que concordar com ele, pois, sem trabalho, de nada adianta o talento, como nos ensina a fábula ‘A Lebre e a Tartaruga’. Para descrever o meu pai, um gênio do entretenimento musical, preciso fazer uma adaptação. Ele é 100% amor, um sentimento tão genuíno pela família que o motiva a fazer o que for necessário por ela, até mesmo sacrifícios. Isso explica porque todo trabalho feito por ele é de enorme qualidade: em tudo, existe o cuidado e a dedicação daquele que conhece o amor, ama e sabe como amar”, declara Daniel.

Fábio também dá o seu depoimento. “Meu pai é aquela pessoa com quem sempre pude contar, que estava comigo nos momentos difíceis e me apoiou quando tive que tomar decisões importantes, como a escolha da minha profissão. Compartilhamos lembranças de muita alegria. Até hoje, ele se faz presente nos mais variados aspectos da minha vida, perguntado como vai a minha saúde e me dando conselhos sobre o trabalho. É um grande exemplo de pessoa guerreira e feliz. Com certeza, é o meu herói”, conclui. O pai em questão é Rodrigo Laguna, da banda Rod Hanna.  Depois de formar os dois filhos e vê-los assumindo a direção da própria vida — Daniel é concursado e mora em Brasília, enquanto Fábio está baseado em São Paulo e integra a equipe de uma das maiores empresas de software do país — ele e a esposa, Nora Hanna, tiveram uma grata surpresa.

Lucas chegou inesperadamente. Não estava nos planos, mas veio na hora certa. Ainda havia um espaço a ser preenchido no coração da família. Com apenas nove meses, o bebê já revolucionou a vida de Rodrigo. Diminuiu o ritmo e mudou a rotina para ficar com o pequeno. “Gosto de pegar no berço assim que acorda e ficar juntinho até na hora dele dormir. O que vivenciei com o Daniel e com o Fábio me deu bagagem, referências. Fiquei sabendo que seria pai pela primeira vez com 17 anos. Foi um choque. Demorou para cair a ficha. Parecia que tinha ganhado um irmão mais novo. Aos poucos, fomos nos entendendo e criando uma relação muito especial. Com o Fábio, três anos depois, todo o processo foi mais tranquilo, pois estava preparado. Foram anos maravilhosos ao lado deles. Quando saíram de casa, senti muito, mas sabia que isso um dia iria acontecer. É o ciclo normal. Aí, recebemos de presente o Lucas, um lindo recomeço”, finaliza Rodrigo.

Ilusão x realidade

Assim que a gestação é descoberta, inevitavelmente, a mulher se torna a protagonista da história. Durante nove meses, é ela que vai gerar, dentro de si, a nova vida. Estabelece-se um elo biológico, um laço realmente incomparável entre mãe e filho. Então, qual seria o papel do pai nesse contexto? Alguns diriam que de um simples coadjuvante, excluído do enredo principal. Segundo o médico psicanalista, membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto (SBPRP), Paulo de Moraes Ribeiro, as ações do pai podem até ser feitas discretamente, no anonimato. Porém, isso não diminui em nada a sua importância. A ele, cabe oferecer todo o suporte, nos mais diversos aspectos, para que a mulher esteja plenamente concentrada no cuidado com o bebê, tanto durante a gravidez quanto depois do nascimento.


O especialista explica que, somente em um segundo momento, quando a mente da criança já está preparada, é que o pai deve, com sensibilidade, inserir sua presença nessa relação, até então, dual. Isso deve ocorrer lenta e gradualmente. “A criança vai ganhando mais referências e identificações com o universo ao seu redor e, com base nisso, vai descobrindo suas características pessoais como indivíduo único. Consequentemente, a mãe vai retomando outras funções, de esposa, de profissional, entre outras”, esclarece Paulo. O psicanalista afirma que essa interação é positiva para a família toda.

É justamente desse vínculo simbólico que se forma entre o pai e os filhos que surge a associação com o super-herói. “Enquanto o bebê está em um processo de continuidade com a mãe, a entrada do pai é sentida como sobrenatural. Se o pai faz isso com amor e prazer genuíno, ele vira um super-herói”, justifica Paulo. Esse toque lúdico é fundamental para o desenvolvimento emocional e físico da criança. Porém, Paulo alerta que o bom pai-herói deve exercer sua função por tempo limitado. “À medida que a criança cresce e amadurece, a tarefa heroica será demonstrar para ela a dor e a delícia de ser apenas humano, que é a nossa condição essencial. O pai deve se distanciar da ilusão e preparar os filhos para encarar a vida da melhor maneira possível. A admiração não acaba; ela se transforma. Sai do campo fictício e vem para a realidade. Se, por vaidade, o pai não fizer isso, pode criar filhos dependentes, infantis e infelizes, que não confiam em si próprios”, conclui o psicanalista.

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Carolina Alves, Julio Sian e Ibraim Leão
Produção: Marcela Versiani
Modelo: Lucas Bóvi
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Tel.: (16) 3446.5742.
Agradecimentos: Full Store e Sônia Roveri Aluguel de Fantasias.

* Publicado em 08/08/2014
 
 

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