O início da vida
Psicóloga e Doula, especialista em desenvolvimento de bebês durante o primeiro ano de vida, Ludmilla Dell’Ila salienta alguns dos principais desafios das mamães nessa fase, período de evoluções
Assim como a formação em Psicologia, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o mestrado em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP/USP), com foco em desenvolvimento de bebês no primeiro ano de vida, foi uma escolha natural na vida de Ludmilla Dell’Isola, que, atualmente, realiza doutorado, na mesma instituição, com foco nas práticas de cuidado e educação no primeiro ano de vida.
A proximidade com esse universo intensificou-se durante a graduação graças aos estágios realizados e virou objeto de estudo depois que, recém-formada, conheceu mais de perto o trabalho do Centro de Investigações sobre Desenvolvimento Humano e Educação Infantil (CINDEDI), instalado na USP de Ribeirão Preto. O trabalho como doula — responsável por prestar assistência e apoio às mamães, especialmente no momento do parto — completou a lista de atividades que a tornaria definitivamente vinculada ao mundo das mães e dos recém-nascidos. De lá para cá, são muitos estudos e aprendizados, que se intensificaram depois do nascimento de Benjamin, há pouco mais de três anos.
Por que decidiu direcionar os estudos, dentro da Psicologia do Desenvolvimento Humano, aos bebês no primeiro ano de vida?
Toda escolha é um processo, e assim aconteceu comigo. Além do genuíno interesse pela maternidade e por crianças, uma sucessão de coincidências durante e depois da minha graduação foram me aproximando desse universo e segui as oportunidades. Ao olharmos para o primeiro ano de vida de um ser humano, é impossível não se deixar envolver, uma vez que se trata de um período de ouro para a criança. Em 12 meses, o bebê passa por um enorme crescimento em todos os sentidos: aumenta em tamanho, adquire diversas habilidades e conquista inúmeros aprendizados motores, sociais, afetivos, cognitivos, comportamentais, entre tantos outros. Em um ano, deixa o estado de dependência total para manifestar suas necessidades. Justamente por essa evolução mais do que significativa — provavelmente este seja o período de maior desenvolvimento durante a vida inteira — é que os cuidados recebidos no primeiro ano de vida são tão importantes.
Quais são os principais aprendizados desse período?
Diria que mais importante é o conjunto de aprendizados adquiridos. É nessa fase que o bebê aprende a se alimentar, a se comunicar, a se locomover — apenas para citar alguns exemplos. Tudo isso é possível porque o recém-nascido tem uma enorme capacidade de se conectar com os estímulos recebidos e de se adaptar. Por isso, podemos afirmar que a forma de cuidar desse novo ser possibilita que ele construa significados e sentidos sobre si mesmo, as pessoas e o mundo.
Esses aprendizados também atingem aspectos emocionais?
É difícil mensurar, mas dá para afirmar que, quando nasce, todas as capacidades dos bebê estão voltadas para chamar a atenção do adulto. Enquanto pequeno, o sistema límbico do cérebro, responsável pelas emoções, é, de fato, mais ativo. À medida que a mãe, o pai ou o cuidador mais próximo atende as expressões emocionais do bebê, ele começa a fazer conexões entre o que ele faz e as reções dos adultos. Nos primeiros meses de vida, acontece um grande desenvolvimento da parte frontal do cérebro, responsável pelo raciocínio, o que ajuda a estabelecer essas associações. Isso ajuda a compreender, mais uma vez, o tamanho da responsabilidade do cuidador desse bebê.
As pessoas — mães, pais e cuidadores — têm essa consciência?
Intuitivamente, sim, sabem da importância de seu cuidado, mas, na prática, não costumam ter a dimensão disso. A simples maneira de tocarmos os bebês, por exemplo, ensina ritmo: se esse toque é sempre rápido ou apressado, estamos passando a mensagem de que a vida precisa acontecer a uma velocidade mais intensa. O contrário também é verdadeiro. Portanto, cada troca de fralda, banho ou mamada estão carregados de informações e ensinamentos. As mamães, os papais e os cuidadores devem, assim, dar importância a todos esses momentos, pois disso é feita a rotina do bebê e seu desenvolvimento.
Durante a gestação, quais são as principais dúvidas das mulheres?
Boa parte das questões trazidas a mim pelas gestantes está relacionada ao parto — pouquíssimas mulheres perguntam sobre o pós-parto e os cuidados com o bebê. Elas querem saber como funciona o processo, se sentirão muita dor, como ter assistência de parto e nascimento humanizada, entre outras dúvidas.
Existe, de fato, um interesse crescente em torno do parto natural?
Diria que, no Brasil, foi iniciado há alguns anos um movimento que visa à retomada do parto natural, o que depende de uma ampla mudança de comportamento, não só das futuras mamães, mas, principalmente, dos profissionais de saúde envolvidos no nascimento. Trata-se de uma transformação cultural. Pesquisas mostram que boa parte das gestantes sempre manifestou desejo pelo parto normal, mas mudou de opinião durante o pré-natal em função de conversas com médicos e de informações absorvidas. Quando a hora do parto se aproxima, essa gestante acaba passando por uma cesárea eletiva. Hoje em dia, há mais informações disponíveis sobre diferentes tipos de parto, o que é muito positivo. Outro ponto a considerar é a assistência recebida pela gestante durante o nascimento do bebê: há um número cada vez maior de profissionais dispostos a respeitar e apoiar o parto humanizado, seja domiciliar ou hospitalar. Eu mesma já acompanhei experiências maravilhosas em Ribeirão Preto, inclusive, por meio do Sistema Único de Saúde.
Para a mãe e o bebê, essa vivência faz realmente diferença?
Várias pesquisas já comprovaram a importância do trabalho de parto, tanto para o bebê quanto para a mãe — mesmo que aquele processo termine em uma cesárea. O simples fato de passar por um período em trabalho de parto faz bem à saúde, especialmente do bebê. Existe um amplo coquetel de hormônios envolvido nesse processo, que resulta em melhor vínculo entre mãe e bebê, amamentação facilitada e menor incidência de depressão pós-parto, entre outros benefícios.
Quais são os principais benefícios?
Durante o parto, há dois acontecimentos muito importantes em andamento. Um diz respeito à mulher e à sua experiência feminina e sexual do parto; a outra é o nascimento do bebê, que vive ativamente esse processo. Os efeitos desse rito de passagem para os dois lados são inegáveis. Pesquisas já mostraram que bebês que nascem de parto normal têm menos tendência a alergias. Outros estudos relacionam o tipo de parto à obesidade infantil, entre tantos outros temas.
O nascimento de um novo membro na família significa muitas mudanças. As pessoas se preparam para elas?
Nossa sociedade mudou muito. Algumas décadas atrás, os arranjos familiares propiciavam, especialmente às mulheres, maior proximidade com as experiências de gestação, parto e cuidado de crianças pequenas. Os parentes costumavam morar próximos uns dos outros e, assim, todos ajudavam a cuidar dos recém-nascidos. As famílias eram mais numerosas e os filhos mais velhos tinham responsabilidades com os mais novos. Os cuidados com os pequenos, portanto, eram compartilhados. Nessa modalidade de funcionamento social, a preparação para a chegada de um novo bebê acontecia naturalmente. Hoje em dia, isso mudou: as famílias são menos numerosas e vivem apartadas. Muitos casais à espera de um bebê não tiveram contato com outros nascimentos e moram em cidades diferentes dos pais, em apartamentos que não favorecem o encontro com outras pessoas. Por isso, contar com uma rede de apoio é mais difícil. Diria, então, que o nosso contexto social não favorece a preparação para a chegada de um filho. Além disso, a valorização profissional leva muitas mulheres a adiarem os planos da maternidade e a se desconectarem desse universo por muito tempo. Dessa forma, elas se sentem menos preparadas quando decidem aumentar a família.
Como driblar a falta de preparo?
Muitas pessoas buscam informações na internet e em cursos on-line ou presenciais, que podem ser bons caminhos para tornar a chegada do bebê mais familiar. No entanto, nem todo mundo pensa nisso antes de ter seu filho no colo, imaginando que, quando chegar a hora, saberão o que fazer. De fato, a experiência ensina muito mais do que qualquer lição, seja on-line ou pessoalmente. Eu recomendo que as pessoas se informem antes para não se surpreenderem além da conta após o parto. O puerpério, como é chamado esse período, não costuma ser fácil, uma vez que traz muitas novidades, dúvidas e inseguranças. Claro que esses desafios não serão totalmente eliminados com aulas e que cada mãe e pai vão encontrar a maneira mais adequada ao seu dia a dia para conduzir os cuidados com os filhos, mas conhecimento pode auxiliar muito nesse processo.
Como cuidar para que a adaptação a essa nova fase seja a mais tranquila possível?
Pesquisas prévias na internet e cursos são válidos porque ajudam as mulheres, no mínimo, a entenderem que essa fase vem acompanhada de diversos sentimentos e emoções, muitas vezes contraditórios entre si.. Mais importante do que isso é viver essa fase cercada de outras mulheres. Dividir a experiência com uma amiga, com a irmã ou com outras pessoas que estão vivendo o mesmo momento pode ajudar muito. Ter uma rede de apoio é extremamente importante. Sempre aconselho as gestantes a pensarem em quem gostariam de ter por perto depois do parto e a pedirem ajuda antecipadamente. Convidem as pessoas a participarem desse momento e, de preferência, digam como esperam que elas ajudem. É muito comum que a chegada do primeiro filho venha acompanhada de um enorme desejo de dar conta de tudo sozinha — afinal, nosso mundo tem funcionado assim. No entanto, não dá para cuidar de um recém-nascido, lavar a roupa, cozinhar e cuidar de si mesma, tudo ao mesmo tempo. Ao tentar fazer isso e perceber que não é possível, geralmente, aparece a sensação de culpa e um cansaço excessivo que somente prejudica a mulher e o bebê.
Isso gera depressão pós-parto?
A depressão pós-parto tem várias dimensões. Seu diagnóstico depende de fatores hereditários, sociais e traços da personalidade da mãe, entre outras variáveis. Somando as dificuldades do período aos demais fatores, podemos identificar um quadro de depressão, que pode se tornar ainda mais grave se estamos sozinhas nesse momento. O chamado “baby blues” não chega a ser uma depressão, mas traz tristeza, insegurança e dificuldades. Poucas mães passam pelo pós-parto sem sentir, eventualmente e em intensidades diferentes, esses efeitos depois de terem filhos, especialmente o primeiro.
Como o pai e as pessoas ao redor podem ajudar?
É importante estar atento e ligar o sinal de alerta quando essa mulher apresenta choro persistente, descuido com o bebê e consigo mesma e está sempre indisposta ou cansada. Os adultos em torno dela vão perceber que há algo errado. Caso as pessoas não percebam, os sintomas podem se prolongar por mais tempo e essa mulher acabará achando que sentir aquele peso é normal. Pode acontecer, ainda, dos sintomas depressivos chegarem com grande intensidade, o que deixa a própria mulher preocupada. Em todos os casos, é muito importante procurar ajuda profissional.
Qual a hora certa para isso?
Na verdade, essa resposta depende do limiar de cada mãe e da intensidade dos sintomas. Há mulheres que aguentam conviver com esses sintomas por um período e entendem que aqueles sentimentos são passageiros. Logo, a tristeza vai embora, o cansaço ameniza e a vida segue. Já outras precisarão de suporte médico e psicológico para se livrar do choro e do cansaço extremo. O mais importante é a mulher não ignorar os próprios sentimentos e que as pessoas envolvidas reconheçam que ela precisa de cuidado e apoio.
É possível afirmar que experiências vividas pelo bebê no primeiro ano de vida estarão refletidas no comportamento mais adiante?
Acreditamos que sim, mas é importante lembrar que nosso desenvolvimento é contínuo e o aprendizado também. Experiências em instituições de acolhimento, familías acolhedoras e creches mostram que o bebê se adapta bem a diferentes contextos, especialmente se o cuidado oferecido for de qualidade. Independentemente das pessoas ao redor, os pequenos vão criar vínculos e encontrar meios de se desenvolver, mas isso não diminui a importância dos cuidados direcionados a eles no primeiro ano de vida.
Como foi a sua experiência com a maternidade?
Minha experiência tem sido repleta de descobertas e desafios. Ainda que eu trabalhe com gestantes e desenvolvimento de bebês, enfrento, constantemente, situações em que não sei o quê fazer. Por isso é um processo intenso de grande transformação. Precisei mudar a minha forma de lidar com o tempo, a rotina e as prioridades da vida. Aprendi que o amor imenso que eu sinto pelo meu filho não exclui o cansaço e as dores de ser mãe. É bom saber lidar com esses vários lados da maternidade, ainda que, muitas vezes, não seja fácil. Minha gestação aconteceu em meio a muitas transformações, como o casamento recente e a mudança de cidade, mas não acredito que existe uma condição ideal para ter filho; esse momento aconteceu e nós - eu e o Rafael - estávamos abertos para viver essa experiência.
O que você diria às mulheres que estão prestes a se tornar mães?
Em primeiro lugar, recomendo conectar-se consigo mesma, ouvir, respeitar e dar voz aos próprios sentimentos e desejos. Afinal, é com o que somos, e não com o que sabemos, que nos tornamos mães. Esse é um processo contínuo, repleto de alegrias e dores, descobertas e aprendizados, e a experiência pode ser melhor e mais rica quando temos apoio de qualidade. Por isso, recomendo buscar informações e criar uma boa rede de apoio. Não vale a pena tentar se comportar como super-heroína e achar que vai dar conta de tudo sozinha. Peça ajuda e aproveite cada instante, porque o desenvolvimento daquele pequeno ser acontece, realmente, muito rápido.
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Ibraim Leão