O jeito de nascer

Parto normal, cesárea ou natural? Para ajudar quem terá que fazer essa escolha, Elen, Ana Paula, Cintia e Thaiane contam suas experiências

Mais do que carregar durante nove meses o bebê no ventre, as mamães, junto com os futuros papais, têm uma decisão muito importante a tomar:  decidir como a criança virá ao mundo: através do parto normal, natural ou cesárea.

Essa discussão sobre a melhor opção para cada gestação ganhou destaque depois da febre de partos naturais, preferência inclusive de muitas atrizes famosas como Gisele Bündchen, Jessica Alba, Juliana Knust, entre outras. As passeatas a favor da escolha geraram dúvidas entre médicos, mães e a opinião pública. Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a taxa de cesáreas no Brasil é a maior do mundo com média de 44%. O número é muito alto, considerando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece que apenas 15% dos partos podem ser operatórios.



Contrariando essa tendência, os partos naturais estão se tornando a opção de muitas mães.  Desde o começo da gestação, Thaiane Guerra Caetano queria  vivenciar um parto fisiológico. Para realizar o sonho, buscou informações e profissionais que realizassem com segurança o nascimento de seu filho. “Percebi que em Ribeirão Preto não temos enfermeiros, obstetriz e pediatras que acompanham esse tipo de parto. Queria ter o Nicolas em casa, no conforto e vi que era algo seguro. Descobri profissionais em São Carlos e tive meu bebê de maneira natural e humanizada”, lembra a mãe que ficou em trabalho de parto por sete horas e meia, em um hospital modelo de parto natural da cidade. Thaiane descreve o momento como maravilhoso e intenso. “Desde os primeiros sinais dele no mundo, já acariciei e não me separei mais”, complementa a mãe.

De acordo com Eleonora Moraes, coordenadora do Despertar do Parto, Psicóloga, doula (assistente de parto) e instrutora de yoga, os partos naturais humanizados não colocam em risco a saúde da mamãe e do bebê. Eleonora conta que para ser realizado é necessário uma equipe com enfermeira, enfermeira obstetriz ou obstetra, pediatra, doula e os acompanhantes da mãe. Além disso, o local do parto deve ser, obrigatoriamente, a 20 minutos de um hospital. A equipe conta com equipamentos de apoio, em caso de intercorrência médica, como reanimador neonatal e medicação para conter algo que saiu fora do planejado. “É importante ressaltar que os remédios são apenas para casos de urgência, para fazer a transferência da mãe ou do bebê para o hospital e lá eles serem atendidos. Entretanto, os índices de ocorrência são mínimos, pois o parto natural humanizado tem muitas restrições. Ou seja, somente mulheres com gravidez de baixo risco podem fazer. Mesmo assim, durante o nascimento é feito o controle da escuta fetal e dos batimentos vitais da mãe”, conta Eleonora.

Ana Paula Masson pesquisou muito sobre o assunto quando engravidou de Teresa. Para a química, o parto natural era o realizado nos hospitais. Depois de muita conversa, sentiu que o parto normal não era o método que queria para receber a filha, já que optou por um nascimento sem nenhum tipo de intervenção. “Li vários relatos de partos naturais e me senti segura para realizar. Indicaram-me uma profissional competente e durante várias semanas tive o acompanhamento da médica que trouxe Teresa ao mundo. Paralelamente,  participei da oficina de parto para preparar o corpo e driblar os incômodos e as dores”, lembra a mãe que ficou 11 horas em trabalho de parto. Ana Paula conta que a dor não existe, pois ela se transforma em uma emoção muito diferente. “O apoio humanizado dá muito força, todos ao redor torcem junto e ajudam com outras posições, massagens relaxantes e conforto para o momento”, recorda a mamãe, que teve o apoio do marido no momento do parto.

Apesar do grande aumento em partos domiciliares, é preciso cautela. A médica Silvana Maria Quintana, ginecologista e obstetra (CRM-SP 67.715), professora associada do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e diretora geral do Centro de Referência da Saúde da Mulher de Ribeirão Preto (Mater) salienta que o planejamento é fundamental para que o desfecho desta escolha obtenha sucesso. “A Organização Mundial de Saúde recomenda que as mulheres com gestações de baixo risco escolham o local dos partos. Entretanto, esta discussão deve ser realizada no decorrer da assistência pré-natal. A decisão pelo parto domiciliar só deve ser tomada após assegurar-se que receberam assistência pré-natal de qualidade e que são consideradas gestantes de baixo risco. A assistência doparto no ambiente domiciliar será realizada por uma equipe qualificada para identificar problemas na evolução do parto e fazer intervenções de emergência em casa, sempre com a retaguarda de uma equipe de hospitalar para o caso de uma transferência eletiva ou de urgência”, explica.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece como profissionais habilitados para prestar assistência no parto o médico, a enfermeira obstetra e a obstetriz (profissionais que fazem curso superior de Obstetrícia). Em países desenvolvidos, as avaliações realizadas com mulheres que escolheram o parto domiciliar não demonstraram maior risco de morte materna quando comparado com partos hospitalares. “Caso não seja possível cumprir estas orientações, o parto não deverá ser realizado no ambiente domiciliar, pois aumenta o risco de complicações para o bebê e para mãe”, complementa a ginecologista. Apesar da grande procura por partos sem intervenção, neste momento, Eleonora não concorda com o estímulo da prática do parto domiciliar. “Não acredito que estejamos preparados para prestar assistência com toda a segurança recomendada pelas evidências. Entretanto, acredito que estamos participando de um importante momento da assistência obstétrica. Ao invés de criticar as mulheres que escolhem ter um parto domiciliar, todos os profissionais envolvidos na assistência obstétrica devem refletir e discutir estratégias para aumentar a segurança e a satisfação das mulheres em qualquer tipo de parto”, complementa a médica.

Embora ambos sejam realizados sem cirurgia, há muita diferença entre o parto normal e o parto natural. Conforme explica a doula Eleonora de Moraes, o parto natural só tem intervenção quando realmente for necessário. A empresária Elen Zoriki optou pelo parto normal hospitalizado para ter Alice. Desde quando descobriu a gravidez, Elen decidiu que a cesárea só seria usada em caso de total necessidade. “Somos em quatro irmãos em casa, todos nasceram de parto normal. Desde criança cresci com esse modelo e adorei a experiência. Foi emocionante acompanhar todos os momentos do nascimento de Alice”, conta a mamãe que chegou no hospital à 1h da manhã e teve seu bebê às 4h da madrugada.

Conforme explica Silvana, o parto normal apresenta menos riscos que a cesárea, pois se trata de uma evolução fisiológica e natural para sobrevivência da espécie. A profissional acredita que o grande caminho para a medicina seja a humanização dos partos. “Parto humanizado, ao contrário do que muitas pessoas pensam e proclamam, não é diminuir a luz da sala de parto e colocar música suave. Humanizar o parto é devolver a parturiente o controle deste momento, incluir a participação da família, compartilhar e respeitar as decisões da mulher, enfim a humanização é o retorno da participação da parturiente como protagonista da gestação. No parto humanizado, os profissionais de saúde estarão ao lado da mulher respeitando a evolução natural do processo da parturição”, explica. A mãe Elen conta que a participação do marido, o apoio do ginecologista e da família foram fundamentais.  

Já a cesárea, de acordo com Silvana, é um procedimento cirúrgico que tem como principal indicação interromper a gestação para preservar a saúde da mãe e/ou de seu filho em situações bem definidas. “Vários estudos já demonstraram que taxas de cesárea superiores a 20% não resultam em diminuição da mortalidade materna e neonatal e podem aumentar os riscos para a mulher e para o seu filho. Entre os riscos da cesárea, destacam-se, principalmente, as intercorrências anestésicas e as complicações infecciosas”, complementa a profissional. A introdução de modernas técnicas anestésicas, da antissepsia e a descoberta de antibióticos tornaram mais seguro realizar a cesárea, mas não é possível eliminar 100% dos riscos.

Mãe de dois filhos, Cintia Fernandes Nabeiro passou por duas cesáreas. A empresária sempre quis parto natural, mas por conta da estrutura de seu corpo e do peso de Luigi e Clara, o médico recomendou a cirurgia. De acordo com Cintia, a primeira experiência foi tranquila, já a segunda traumática. “No nascimento de Luigi, tudo correu bem. Com a Clara, tive muita dor no pós-operatório, desmaio e outros problemas, como incômodo no corte e abdômen”, lembra a mãe que recomenda a cesárea apenas em caso de necessidade.

De acordo com Silvana, no Brasil existe uma diferença na assistência suplementar (convênio e particular) e a assistência na saúde pública. A assistência obstétrica no Sistema Público de Saúde se caracteriza pelo excesso de intervenções como episiotomia, analgesia e parto instrumental (fórceps e vácuo-extrator), tornando o parto uma experiência traumática para um grande número de mulheres. Na saúde suplementar, observam-se elevadas taxas de cesárea. “Temos maus e excelentes profissionais nos dois segmentos, mas não concordo que o médico seja o único culpado pelo elevado número de intervenções obstétricas, especialmente a cesárea. Fora do ambiente acadêmico (hospitais-escola), o obstetra realiza a assistência pré-natal e, ao entrar em trabalho de parto, a paciente deseja o médico ao seu lado, mas ele tem o consultório e outros compromissos. A cesárea  é a forma mais rápida de prestar o atendimento”, observa a médica, acrescentando que a remuneração pela assistência ao trabalho de parto e parto, na maioria das vezes, não é adequada. Em Ribeirão Preto, em 2011, segundo o Sistema de Coleta e Análise de Estatísticas Vitais (SICAEV-RP), ocorreram 3.425 partos normais  e 4.949 cesáreas.


Texto: Mariana Secaf
Foto de capa: Julio Sian
Produção: Marcela Versiani e Pamella Turatti
Fotos: Carolina Alves, Ibraim Leão, Julio Sian e Luiz Cervi
Agradecimento: Baby Center

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