O Jornalismo On-line
Há cinco anos a Revide está presente na web e, com o Portal Revide, que vem ganhando destaque, oferece as principais notícias de Ribeirão Preto e região aos internautas, 24 horas por dia
Desde o início da Revide, em 1986, as mudanças na forma de se fazer jornalismo foram enormes: telefones ficaram mais acessíveis, o celular passou a permitir o contato com a fonte em qualquer lugar do planeta, os computadores facilitaram o processo de edição e a internet deixou a troca de informações muito mais rápida. Nesse processo de mudança de plataforma, a Revide tem se destacado na produção de notícias diárias e a quantidade de acessos e usuários da plataforma cresce diariamente. Para comemorar os 30 anos da revista e sua reinvenção no mundo digital, a equipe do Portal Revide entrevistou os diretores da empresa, Isabel de Farias e Murilo Pinheiro. O destaque do bate-papo foram as transformações na forma de transmitir informação ao longo de três décadas.
Há 30 anos, quando a revista nasceu, a maneira de produzir conteúdo era outra, assim como as dificuldades. Quais são os principais desafios para a atualidade?
Isabel: Produzir conteúdo nunca foi diferente em nenhum momento da história. O que mudou foi a maneira de levar isso para a rua, de publicar a informação, mas, produção de conteúdo é produção de conteúdo. A primeira edição da revista trouxe uma pauta diferenciada do que era praticado em jornais. Não tem uma reportagem que fizemos na revista há 30 anos que não poderíamos fazer hoje. A história da derrubada da mansão Junqueira Lobato, por exemplo, capa da primeira edição, continua atual. Quantas casas históricas não são derrubadas hoje em Ribeirão Preto? A diferença é a produção gráfica para colocar essa notícia na rua. Não tínhamos computador, precisávamos “pestapar” a matéria. “Past up”, um processo manual de editar graficamente a página a ser impressa, hoje, é um termo desconhecido para as novas gerações de jornalistas. Cada página que publicávamos tinha que ser montada numa lâmina, através de recortes. Dali, uma chapa era gravada para imprimir a revista. A qualidade da impressão gráfica das primeiras revistas era horrível, nesse aspecto, existe uma diferença brutal. Vocês, que estão no Portal, vão para a rua todos os dias porque jornalismo se faz na rua, é o olhar que se tem do fato. Isso, para mim, continua igual há 30 anos. Hoje, dizem que está mais fácil, mas, se não tiver o olhar, o jornalismo terá uma qualidade duvidosa.
Murilo: O que mudou foram as formas de captar a notícia. Houve três fases nessa mudança. Há 30 anos, o telefone não era tão comum, quase todas as entrevistas eram ao vivo. Assim, era possível estabelecer uma conversa mais rica, interpor perguntas e ver a expressão do entrevistado a cada questionamento. Isso era um fator limitador, uma vez que era impossível entrevistar pessoas de lugares distantes. Com a popularização do telefone fixo, o acesso às pessoas ficou facilitado. Com o tempo cada vez mais escasso nas redações, a entrevista ao vivo foi substituída pelo contato telefônico. No jornalismo atual, embora o contato pessoal e o telefone ainda sejam utilizados, predomina o uso do e-mail como principal ferramenta para as entrevistas. Isso confere rapidez, abrangência, mas também tem uma limitação de conteúdo. Você manda perguntas, o entrevistado responde o que quiser. Se quiser aprofundar, você tem que enviar outro e-mail e falta tempo para isso. A pressa é própria da vida hoje, tornando tudo mais superficial, rápido e sem muito questionamento.
Mesmo tendo contato com a fonte em alguns casos, como há 30 anos, não muda a linguagem, a narrativa, para chegar ao leitor hoje?
Murilo: Muda. Diminuiu o espaço para questionamento, réplica, olhar no olho, ver se o entrevistado está mentindo ou falando a verdade. Tem uma série de situações que você, como jornalista, está correndo o risco e não tem como perceber. O entrevistado manda alguma informação e você, teoricamente, tem que aceitar. É muito difícil desvendar algo à distância. Claro que tem fontes de notícia, antes inacessíveis, que agora podem ser contatadas facilmente. Já não faz diferença onde a fonte está fisicamente. Dá para fazer matérias mais abrangentes, usar fontes variadas, porém, tudo tem ônus e bônus: perde-se em qualidade, em conteúdo e consistência em uma série de fatores.
Com relação à transmissão ao vivo, hoje, as novas tecnologias permitem o envio instantâneo de materiais. Por exemplo, durante um protesto, o jornalista envia fotos e vídeos diretamente à redação. O que vocês acham disso?
Isabel: Isso é uma vantagem, mas porque você consegue fazer isso? Porque você está lá. Então, talvez haja uma grande questão, que imagino que tenha se solidificado nos anos 2000: ficar restrito ao escritório, à redação. Por isso, sair à rua é um grande diferencial. Mesmo com essa pressa pelo instantâneo, pelo conteúdo produzido e consumido pelo celular, é preciso estar na rua. Hoje, a grande dificuldade da geração de vocês é de perder um pouco a postura de ficar na redação. Vivemos um momento em que não tínhamos as ferramentas para isso. Depois, a geração seguinte tinha as ferramentas, mas era mais preguiçosa. A geração de vocês, que está mais na rua, buscando o inédito, ainda não conseguiu achar o tom. Como produzir esse conteúdo, que é também produzido por qualquer pessoa? Qualquer cidadão pode filmar, produzir conteúdo e compartilhar, sem nenhum tipo de comparação, de análise, só mesmo a reprodução de um fato. Todo mundo virou jornalista hoje? Para mim, o que precisa ser feito é usar toda essa experiência e as ferramentas atuais para trabalhar melhor a informação, entregar um conteúdo diferenciado. A geração de vocês pode fazer isso, mas de que maneira? É isso que estamos descobrindo. Hoje, há uma internet potente, por meio da qual podemos colocar todas as informações à mão e à hora.
Com a rapidez da informação, o chamado “deadline”, prazo final para entregar a notícia, mudou. Como isso influencia na produção jornalística?
Murilo: A resposta integra o mesmo contexto. Hoje, o que vale é quem noticia primeiro, não quem informa melhor. Você vê uma manchete grande num portal, um fato relevante. Vai ler, tem cinco linhas, 10 linhas de informação, mal tem um parágrafo. Isso acontece porque alguém apurou aquilo superficialmente e postou rapidamente para ser o primeiro. Depois o repórter pode acrescentar informações para nova versão. O que os jornalistas têm falado é que, hoje, a matéria nunca termina. A matéria poderá ser atualizada, mas com tanta pressa o jornalismo ficou mais raso, as notícias não são
aprofundadas como deveriam. Não se telefona mais de uma vez para um entrevistado para checar a informação com segurança. A pressa de antigamente não tinha a urgência de hoje. O prazo do deadline encurtou, antes era semanal, de turno em uma TV, mas hoje a cada momento tem um deadline.
Isabel: Jornais nacionais de TV dificilmente saíam com algum plantão, a não ser com algo muito catastrófico, morte de autoridade, uma tragédia. Hoje, por qualquer motivo, você está no ar e ao vivo, em qualquer canto do mundo. Isso é uma realidade porque não existe mais aquele padrão, tudo quadradinho. Hoje, o repórter está em todos os lugares, da maneira que for, com câmera, celular, com agilidade para passar informação. Uma realidade bem diferente do que vivemos agora.
Murilo: Esse é o desafio para quem está trabalhando hoje, de conseguir ser rápido sem ser superficial. Todo veículo, hoje, vai cobrar da empresa e dos profissionais a rapidez. No nosso caso, mais ainda, no Portal. Em contrapartida, já que está todo mundo sendo superficial, publicando tudo, na verdade, quem vai se diferenciar, no futuro, é quem produzir um conteúdo diferenciado de melhor qualidade.
Dá para prever como estará o Portal Revide em 30 anos?
Murilo: Três décadas é um tempo impossível de prever. Os 30 anos que passaram da Revide já tiveram grandes mudanças. Estamos em plena transformação de uma mídia impressa para digital. É impossível prever como será o mundo daqui a 30 anos. Em 1980, também não podíamos imaginar que haveria celular e internet. Lembro quando a Revide teve seu primeiro computador. Era o máximo salvar a matéria num disquete e levar para outra pessoa colocar em outra máquina. Era o fim de longas décadas da máquina de escrever. Perto das possibilidades que existem hoje, isso virou um recurso menor.
Não é fácil rentabilizar o on-line, mas, por outro lado, o veículo que não estiver on-line hoje não tem perspectiva de futuro. Esse é um desafio grande para as empresas?
Isabel: O impresso deve permanecer, para que você possa fazer o trabalho chegar a mais pessoas, mas a tendência, em termos de custo, é que ele fique menor. De que maneira isso vai acontecer, quanto tempo vai durar, é difícil saber.
Murilo: Difícil saber como será essa nova equação das mídias. Houve uma época em que a TV chegou a ter 70% da audiência, o que hoje não acontece mais. A TV não é dominante, mas todas as mídias continuarão existindo no futuro. A TV não acabou com o cinema ou com o radio. Todas elas, no entanto, terão um peso diferente do que possuem hoje. A televisão deixou de ser a rainha soberana da audiência, das verbas e dos anúncios. Hoje, acirrou a disputa com outras mídias. Se você fizer uma análise da questão econômica atual, a internet acabará se impondo em razão do custo inferior. Agora, em quanto tempo isso acontecerá, não há como saber.
Isabel: Quando você pensa nos grandes jornais do Brasil, já percebe que alguns deles têm a mesma quantidade de assinantes digitais e impressos. Então, à medida em que as pessoas não forem mais comprar o jornal impresso, podem comprar a versão on-line. Ainda há outra questão: a possibilidade de ter, de graça, a mesma informação na internet. Assim, muita gente se pergunta: por que pagar?
Como a instantaneidade influencia a produção da revista impressa?
Isabel: Muito pouco. Usamos a internet para dar mais visibilidade ao que está impresso. Isso também faz parte de um processo. Produzimos conteúdo na Revide e disponibilizamos tudo na plataforma digital. Essa disponibilidade traz um leitor que, às vezes, é o mesmo da impressa, mas que quer ver antes. A revista chega aos leitores na sexta, mas, na quinta-feira, a versão on-line está disponível. Hoje, é comum as pessoas comentarem, já na quinta-feira, que a revista está bacana.
Murilo: O fato de essa mudança estar em curso não significa que o papel esteja morto e sem futuro. Muitos leitores continuarão acompanhando tudo no papel. É muito difícil que as pessoas, pelo menos por ora, abram mão da leitura dos livros. O papel continuará existindo e a Revide manterá o que conquistou: um público leitor fiel, que há 30 anos cultivou o hábito de ler a revista. Isso continua tendo seu peso, mesmo nesse novo cenário.
A participação do leitor, mais ativa, também é bem diferente na internet. O fato de poderem opinar, instantaneamente, e comentar, é um benefício ou um prejuízo?
Isabel: O leitor sempre pôde fazer isso. Na minha concepção, essa mudança é quase uma falácia. De uma maneira geral, dá um anonimato meio covarde. As pessoas sempre puderam falar e se pronunciar. A possibilidade do “compartilhar” dá às pessoas a chance de serem autoras. Elas querem ser protagonistas do que estão falando, ganhar visibilidade.
Murilo: Vejo como um grande benefício, porque acabou o monopólio do jornalismo. Antes, se alguém fosse organizar uma passeata para o próximo domingo, era preciso contar com a divulgação dos veículos para convocar as pessoas. Havia até muita polêmica e reclamação, caso os veículos não divulgassem o evento. Hoje, isso acabou. As manifestações são convocadas independentemente da divulgação feita pelos veículos de comunicação. Isso acabou com os monopólios da informação. Já que todo mundo pode ser disseminador de informações, os jornalistas precisarão ser melhores provedores de conteúdo do que as outras pessoas. Estarão na passeata não mais sozinhos como produtores de notícias, mas ao lado de muita gente que está postando ao mesmo tempo. O repórter terá que buscar algo diferente, melhor. Para mim, isso é positivo. Fora essa questão que a Bel mencionou. Infelizmente, algumas pessoas aproveitam esse novo espaço para agredir e ofender. Isso é uma distorção.
Como a Revide tem inovado nesse mercado, justamente, em função de haver uma abundância de informações e muito conteúdo parecido? Como o Portal da Revide se diferencia?
Murilo: Um diferencial que criamos é o receber as notícias no celular que se consolidou como a mais importante ferramenta do ser humano. Há alguns anos, isso seria inimaginável para um veículo que começou mensal e virou semanal. Hoje, disponibilizamos duas sessões de informação, de manhã e à tarde, diariamente. O que parecia impensável até para os leitores, hoje é uma realidade. O Faceboook da Revide é outra importante fonte de conteúdo. São muitas as possibilidades. Temos que achar novas formas, encontrar maneiras de superar a concorrência que aumentou. Já ouvi elogios de pessoas do mercado que perceberam o nosso crescimento na plataforma digital.
Isabel: O que conta nessa concorrência é o talento. Hoje, temos no Portal Revide um grupo talentoso, que faz a diferença de forma totalmente independente da Revide impressa. É uma produção que, apesar de ter o nome Revide, segue outra concepção. Isso é releitura, isso significa se reposicionar no mercado: tem o nome e tem uma pegada que talvez tenha sido a nossa de 30 anos atrás, mas adequada a um momento diferente.
Lá no início da trajetória da Revide, o mercado publicitário de Ribeirão Preto resistia ao impresso, preferia a TV e o rádio. A revista, de certa forma, quebrou isso?
Isabel: Sim, e talvez a gente possa fazer isso com o Portal, mostrando que é possível. Como fazer? Estamos descobrindo o caminho. Há 30, 20, 10 anos, trabalhamos para conquistar uma parte das verbas publicitárias e
conseguimos. Conquistamos o respeito do mercado e as empresas passaram a anunciar na Revide. Isso foi fruto de uma luta grande. Lembro que, no começo da revista, ouvi muito que as pessoas não faziam mídia aqui, faziam média, relacionamento. Há 10 anos, o mercado reconheceu o peso de um veículo construído com credibilidade e isso fez com que nos tornássemos uma mídia obrigatória. Acredito que o Portal pode se tornar uma mídia de referência para o mercado, mas, para isso, precisa de tempo. Isso não acontece de uma hora para outra. Justamente por causa disso, o Murilo diz que há muita gente fazendo o mesmo. Conquistar o reconhecimento e se sobressair leva tempo. É o que a gente começa a escutar hoje, que estamos fazendo um trabalho diferenciado. Isso já é sair do lugar comum, mostrar que fazemos algo diferente. Quanto tempo vai levar para fazer isso? Não sei, mas já estamos trilhando esse caminho.
Atualmente, muitas pessoas têm produzido conteúdo, gratuitamente, para a internet e para as redes sociais. Como gerar receita com produção de conteúdo, levando em consideração o cenário atual?
Isabel: No começo da sua caminhada, a Revide também enfrentou inúmeras dificuldades. Em 30 anos, desbravamos um mercado inóspito e difícil, onde os únicos que recebiam investimentos na cidade eram o rádio e a TV. Trinta anos depois, estamos em outra luta, também para desbravar, para achar caminhos. É a mesma dificuldade que tinha o jornal da época e a rádio que não era a líder de audiência. Só não existia essa concorrência, que nos força a isso: buscar os diferenciais, fazer algo que ninguém fez ou algo que alguém já fez, mas que pode ser feito de um jeito diferente. Acho que estamos conseguindo.