O legado de um empresário

O legado de um empresário

O empresário Rui Flávio Chúfalo Guião aceitou o convite da jornalista Isabel de Farias para uma entrevista. Confira!

Segundo suas próprias palavras, Rui Flávio Chúfalo Guião seguiu a direção ditada pela vida. Apesar de ter nutrido o sonho de se tornar diplomata e seguir uma carreira no exterior, aceitou assumir as responsabilidades surgidas das circunstâncias e das relações familiares. Dessa forma, construiu uma extensa família e se tornou um dos responsáveis pela permanência no mercado e pela expansão de um dos maiores e mais antigos grupos de concessionárias de veículos do interior do país, o Grupo Santa Emília.

Hoje, o Grupo atua em oito municípios do interior paulista e mineiro, representando seis grandes montadoras do segmento. Para manter a média de 1.200 a 1.500 veículos vendidos mensalmente, a Santa Emília conta com 450 funcionários, comandados por executivos capacitados e inovadores, entre eles, três, dos cinco filhos do presidente do Grupo. Além de relatar, com orgulho, de que forma alia trabalho e família, foi para revelar um pouco mais sobre seus valores e suas paixões que Rui Flávio aceitou o convite da empresária e jornalista Isabel de Farias para um bate-papo, acompanhado pela jornalista Luiza Meirelles.

Bel: Quando você saiu de Ribeirão Preto para cursar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco pretendia retornar à cidade?
Rui: Eu me formei em 1964, aos 23 anos, e sempre pensei em seguir carreira internacional, em ingressar na ONU, em ser diplomata, mas a vida trabalha a gente. Quando me formei e voltei para Ribeirão Preto, meu pai tinha um escritório de advocacia, já estava com uma certa idade e comecei a ajudá-lo. Havia uma combinação entre vontade do que fazer e responsabilidade familiar. Comecei a advogar no Grupo Diederichsen e acabei sendo convidado para participar do grupo pelo senhor Manoel Pena, que tinha acabado de perder dois genros por doença no mesmo ano. Então, abandonei a ideia de ser diplomata.

Bel: Como você avalia o trabalho em família, ao lado da esposa e dos filhos?
Rui: A grande maioria das empresas no Brasil é de natureza familiar, que tem uma grande vantagem: a ligação das pessoas com a empresa. Por isso, a família tem um envolvimento no futuro e na realização das metas da empresa. Mas também tem um problema sério: o relacionamento afetivo. No nosso grupo, se pesarmos os dois lados, acho uma grande vantagem trabalhar com meus filhos e minha mulher. Quando cheguei aos 60 anos, percebi que estava na hora de passar o negócio para os filhos. Convivendo com alguns amigos que tiveram dificuldade para fazer essa transferência, verifiquei que o principal problema era o sucedendo, não o sucessor. É preciso entregar, abrir mão de certos poderes. Para isso, fizemos um programa de transição, começando pelas decisões operacionais. Hoje, a empresa mantém três, dos meus cinco filhos, na gestão e já temos uma grande quantidade de executivos profissionais, pois as exigências vão aumentando e é preciso modernizar. Acho positivo esse trabalho. De vez em quando acontecem atritos, mas acredito que com bom senso e boa vontade, é possível.

Bel: Você teve uma grande preocupação em fazer com que teus filhos tivessem uma atuação profissional antes de entrarem na empresa da família.
Rui: Pois é. Eu tinha muito medo de que meus filhos pensassem que Ribeirão Preto fosse o centro do mundo. Sempre quis que eles estudassem e se formassem numa boa universidade, morassem fora — todos eles fizeram intercâmbio — e trabalhassem em uma empresa antes de voltarem para a nossa. Acho que deu certo. Os três, quando voltaram, assumiram suas responsabilidades sem problemas de adaptação.


Bel: Qual a sensação de ver esses filhos tornarem-se homens de negócios, vê-los fazer a empresa crescer?
Rui: Para mim, é muito gratificante. Primeiro porque cada um tem sua personalidade, mas, felizmente, todos são responsáveis, trabalhadores e mantêm os valores do nosso grupo. O que caracteriza uma empresa são seus valores, que podem se manifestar de maneira diferente com o passar do tempo, mas o princípio é imutável. Eles conseguiram absorver nossos princípios. Eu continuo presidente do Grupo e a única vantagem que tenho sobre meus filhos é a experiência. Já eles têm soluções muito melhores, são mais ligeiros. Acho a mistura entre a experiência e a juventude muito importante.

Bel: Como você vê Ribeirão Preto hoje?
Rui: Ribeirão Preto tem uma grande vantagem: é uma cidade de estrangeiros. Quando a empresa foi fundada, em 1903, a maioria da população era estrangeira. Ribeirão Preto se beneficiou da experiência dos mais competentes. Isso é um dos segredos da cidade. Outro segredo é que a concentração de renda não é muito grande. Nossa classe média sempre foi bastante expressiva. Vejo a cidade com um grande potencial, sede de uma região extremamente rica do ponto de vista agrícola e de serviços, especialmente de saúde, comércio e educação. Ribeirão Preto continua crescendo. Temos uma série de problemas porque planejamos pouco nos últimos 20 anos. No meu ramo de negócios, uma coisa interessante é que, até 20 anos atrás, o automóvel era status. De repente, virou um instrumento de trabalho e deixou de ser elitista, principalmente na nossa cidade. Se, no Brasil, há um carro para cada sete habitantes, na nossa cidade há um carro para menos de 1,5 habitante. Sinto, também, que todos são bem-vindos em Ribeirão Preto. Isso é bom para todos.

Bel: Todos que te conhecem sabem da sua paixão pelos vinhos. Como surgiu?
Rui: Tenho um sobrenome italiano, o Chúfalo. Meu avô bebia vinho regularmente. Então, eu sempre admirei essa bebida. Mas entrei nessa história por acaso. Num Natal, ganhei duas garrafas de vinhos alemães que vinham com um papelzinho dizendo “escreva para nós para receber a história do vinho alemão”. Eu escrevi, recebi o material, comecei a ler e achei muito interessante. Assim ingressei no mundo do vinho. Há 10 anos, o André Maculan abriu a World Wine e convidou um grupo de mais ou menos 30 pessoas para constituir uma confraria. Dos 30, hoje somos 14 e nos reunimos mensalmente. Acho que o vinho é mais do que saboroso para beber, tem cultura, história.

Bel: Isso tem a ver com a sua paixão por viagens também?
Rui: Sempre gostei muito de viajar – não só para passear. O melhor é conhecer novos mundos. Quando os meninos estavam na idade escolar, montei com o Abib Cury uma empresa de viagem para conseguir descontos nas passagens. Assim mandamos os filhos viajarem para conhecer o mundo. Ultimamente, eu tenho viajado e visitado vinícolas. É muito interessante.


Bel: Continua assim, a viagem como um momento de aprimoramento pessoal?
Rui: Agora eu estou numa fase de trabalhar com os meus netos. Em maio desde ano, por exemplo, a minha neta — eu tenho duas netas dinamarquesas — vai fazer a confirmação, que na religião protestante corresponde à crisma. Perguntei o que ela queria de presente e ela pediu alguns dias em Veneza. Já montei o programa, já li bastante. Vivo muito a viagem antecipadamente, não chego num lugar sem antes ler o possível a respeito.

Bel: Falando em netos, como é sua convivência com essa geração?
Rui: Tenho 11 netos, sete mulheres e quatro homens. Dois moram em São Paulo e duas moram na Europa. Portanto, são sete aqui. Logo quando começaram a nascer os meninos, chamei a minha mulher e disse: “avô estraga neto, quem educa são os pais”. A gente pode ajudar, contar umas histórias, tentar passar certos valores. Mas em nenhum momento procuro substituir pai. A convivência é muito agradável porque eles têm uma visão completamente diferente. Mais ou menos um ano atrás, comecei a ter problemas para ver meus netos por causa dos compromissos de cada um. Resolvemos a questão abrindo, todos nós, uma conta no Skype (risos).

Bel: Você está conseguindo passar para eles os valores que transmitiu para os filhos?
Rui: Gosto muito de contar história e procuro, nas histórias, dar uma lição de vida. Acho que essa é a função do avô: ensinar valores familiares, respeito pelos pais, importância do estudo, disciplina — isso a gente consegue transferir em historinhas. Dificilmente, eu chamo para dizer que isso ou aquilo está errado. Procuro dar exemplo na base da história.

Bel: Como é sua relação com a fé? Você acredita em Deus?
Rui: Eu sou ateu. Já fui bastante católico, mas depois de uma certa idade... Acho que quando se morre, está acabado, não há mais nada. Mas quando a religião prega que a alma é imortal, ela está certa. Para mim, a alma é o DNA que passo para os meus filhos e que eles passam para os filhos deles. Mas acho que não deve haver um criador do mundo, eu não acredito. Só tenho uma dúvida: por que é tudo muito bem ordenado? Se você começar a pensar no universo, nós somos um planetinha de quinta categoria. Como começou? O Big Bang. Mas como foi? Será? Isso eu não consigo entender muito bem, mas não acho que realmente existe uma pessoa, um Deus, um ser supremo.


Bel: No que você acredita?
Rui: Acho que temos a responsabilidade de desenvolver as outras pessoas, sejam nossos filhos, nossos netos ou nossos companheiros de trabalho. Se a vida é breve, as obras são eternas. A história da humanidade é uma construção em constante evolução e cada geração tenta ser melhor do que a outra. Isso é o que eu falo para os meus filhos: quero que vocês sejam melhores do que eu e estimulem seus filhos a serem melhores do que vocês. É assim que a humanidade cresce e evolui. Tenho um profundo respeito pelas pessoas. Acredito nesse relacionamento e, fazendo isso, estou cumprindo meu papel.


Bel: Que balanço faz do que você construiu?
Rui: Li não sei onde uma história dizendo que o bom semeador não é aquele que, no fim do dia, olha para trás para ver o quanto arou e semeou, mas o que olha para frente para ver o que tem a fazer. Eu não me arrependo do que fiz e acho que poderia ter feito mais. Mas também não fico me lamentando. Estou com 71 anos e acho que dá para viver um bom tempo ainda. Tenho um amigo que diz: melhor idade é aquela que você tem – se você tiver certeza disso, você é feliz.

Bel: E o futuro?
Rui: Vamos declinando, mas eu não gostaria de perder minha capacidade mental, minha inteligência. Meu avô paterno, João Rodrigues Guião, que foi prefeito de Ribeirão Preto, na véspera de morrer em um desastre, aos 96 anos, dizia que tinha muito medo de ficar velho (risos). Ele era uma pessoa perfeita: tocava piano, lia jornal, escrevia. A gente tem que envelhecer com qualidade de vida. Todas as idades são bonitas, tem vantagens e desvantagens.

Bel: Então, hoje, você está na sua melhor idade?
Rui: Estou na minha melhor idade. Não pode ter outra, né? (risos).

Desde o início
“Conheci o Rui Flávio e a Cecília em 1986, quando, ainda na Faculdade de Jornalismo, trabalhava, ao lado de um grupo de pessoas, no projeto de uma revista em Ribeirão Preto, a Revide. Nossa turma precisava de alguém que servisse como interlocutor junto ao universo empresarial e eu era quem tinha mais facilidade para a função. Naquele momento, o rádio era o meio de comunicação mais forte no município e ainda não havia nenhum veículo no formato que estávamos propondo. Assim, fui em busca de apoio para a ideia. Desde o primeiro contato, o Rui mostrou ser uma pessoa extremamente culta, educada e elegante, além de ser um empresário bem posicionado e, ainda assim, ter grande preocupação com questões sociais e relativas à cidade. Como empresário, nunca abandonou a parceria com a Revide e se tornou, assim como toda a família, um grande amigo.” Isabel de Farias, jornalista e empresária

  

 

 


Assista o vídeo da entrevista:



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