O lugar do aconchego

O lugar do aconchego

Para testar a reação das pessoas a um gesto de carinho, o abraço, ato que acolhe e conforta, foi posto em prática pelo urbanista José Antônio Lanchoti em pleno centro da cidade



Difícil quem não conheça o Calçadão de Ribeirão Preto. Cedo ou tarde, em algum momento, as pessoas passam por lá e, quem o faz, sabe que uma via borbulhante de acesso como essa escancara realidades. Basta olhar ao redor para perceber mendigos, comerciantes, trabalhadores, microempresários, ambulantes — vidas completamente distintas, que, ainda que por minutos, dividem o mesmo cenário. Para o bom observador, a região é o melhor termômetro social: denuncia divergências, mostra antagonismos e revela contradições contidas em qualquer cidade.

Numa manhã rotineira, um cidadão comum, atento a essa ambientação, percebeu um mendigo cuja “caneca de doações” estava presa a um poste e protegida por uma tela, por onde só passavam moedas ou alguma cédula — um recipiente, aparentemente, à prova de gatunos. Então, ele pensou: “Será que já roubaram o rapaz que pede esmolas?”. Percebeu o abandono daquele homem, completamente invisível aos olhos da maioria, em meio aos pedestres, e se perguntou o que aconteceria se, ao invés de dinheiro, o mendigo pedisse um pouco de atenção, uma palavra de conforto ou um abraço. Propôs, então, a pauta: caracterizar-se para não ser reconhecido, misturar-se à multidão e pedir abraços.
Esse cidadão é o urbanista José Antônio Lanchoti, que, na tarde do dia 28 de novembro, caracterizado como um simpático senhor, acompanhado por um fotógrafo e por uma jornalista, posicionou-se em meio aos transeuntes do Calçadão, abriu os braços, abordou pessoas e pediu abraços, aleatoriamente, diante do espanto que quem passava pelo local.

Inicialmente, Bruna Andrean de Souza se assustou com a atitude de Lanchoti. “Fiquei agoniada, com medo. Sou de Pontal e lá as pessoas não chegam com os braços abertos pedindo abraços. Pensei: meu Deus, e agora? Só reagi”, conta a estudante. Segundo Tânia Gonçalves, se ver pessoas desconhecidas se abraçarem pelas ruas fosse uma coisa normal, a atitude do urbanista não assustaria. “Normalmente, as pessoas estão estressadas por conta da correria do dia a dia. Talvez fosse bom que elas se abraçassem mais. Não me assustei devido à imagem dele, que me pareceu extremamente receptivo, mas se fosse outra pessoa, teria sido muito assustador”, reconhece a universitária.

Quando chegou ao calçadão, Lanchoti achou que dificilmente alguém atenderia ao pedido. “A equipe da revista e eu imaginávamos que a maioria das pessoas iria desviar, sem dar a mínima atenção ao meu personagem idoso. Esse pensamento surgiu por uma questão simplista de imaginar o ‘pré-conceito’ dos usuários do Calçadão em relação aos demais, uma visão egoísta”, comenta o urbanista.

No entanto, o resultado foi bem diferente do esperado: apenas três pessoas não retribuíram o abraço, das 12 que foram abordadas por Lanchoti. Dessas três, duas alegaram pressa e apenas uma seguiu adiante sem conversar nem justificar a negativa ao pedido.

O urbanista ficou extremamente surpreso com o resultado. “Ficamos imaginando o que se passava na cabeça deles ao verem um estranho, no meio da rua que, de repente, vinha em sua direção, abria os braços dizendo ‘Posso lhe dar um abraço?’. Imaginávamos que sentiriam medo desse estranho e a dúvida em relação ao que, de fato, ele deveria querer  com o abraço supostamente inofensivo. Mas a ideia de que as pessoas não se importam com as outras desmoronou com essa  vivência”, conta.

Lanchoti ainda não sabe se sua forma de encarar a humanidade mudou após a experiência, mas a impressão que tinha de descaso do homem com o próximo foi modificada. Conforme o urbanista, o verdadeiro descaso do qual o ser humano é vítima é o dele em relação a ele mesmo — cada um é responsável por se manter distante dos problemas alheios porque vive correndo, não tem tempo para mais nada, nem para olhar para o próximo. Vale destacar que isso não significa que a pessoa seja má ou que deseje que ps outros desapareçam do caminho.

Ao contrário, Lanchoti percebeu que as pessoas estão prontas para ajudar, mas apenas quando são procuradas. “Não nos damos tempo para perceber se o dia está bonito, apenas reclamamos que vai chover e que saímos sem guarda-chuva ou que o sol está forte e não passamos protetor solar. Não nos damos tempo para ver os amigos, apenas aceitamos os convites para um chope ou para uma festa quando dá. Não nos damos tempo para ver nossos filhos crescerem, somente nos limitamos a comentar que cresceram rápido demais. Posso dizer que me encaixo em todos estes indivíduos apressados que citei”, comenta.

Apesar de se tratar de uma época propícia, o urbanista não acredita que o resultado positivo seja decorrente dos apelos de final de ano — tem convicção de que os abraços continuariam vencendo o descaso em qualquer momento do ano, pois a surpresa do pedido seguida de um sorriso demostrou que as pessoas correspondiam com prazer, não apenas por caridade, e que se sentiram felizes ao receberem o abraço, apesar da situação inusitada e incomum.

Morador da pequena e simpática Brodowski, Lanchoti não se sente assustado com a violência das cidades. Para o urbanista, esse medo passa, também, pelo descrédito da sociedade nas instituições, que faz com que o temor aumente: não se sabe quem é o outro ou o que ele pretende fazer — as pessoas apenas se sentem reféns dessa condição.

Na rua, entretanto, as impressões de Lanchoti em relação às pessoas foram muito positivas. “São amáveis se procuradas. Quando saí da situação passiva e me comportei como um solicitador de abraços, fui bem aceito e isso me deixou feliz, pois percebi que as pessoas não têm tanto medo das outras quanto se imagina”, ressalta o urbanista, concluindo, também, que as instituições são respeitosas e merecem confiança. O problema, segundo ele, é que elas são compostas por pessoas, cujos atos constroem ou destroem a sociedade.

Apesar do aparente distanciamento de quem caminha apressado pelo Calçadão, Lanchoti reconheceu no ribeirãopretano, por meio dos abraços sinceros, um ser caloroso, atencioso e, principalmente, receptivo. O urbanista destaca que saiu diferente da experiência e refletiu sobre o porquê dessa falsa impressão de que a sociedade é distante. A conclusão foi de que não se tratava de medo, pois algumas pessoas se assustaram muito mais com o tipo de pedido do que com o abraço em si: davam um sorriso de estranheza, mas olhavam em seus olhos para dizer “sim”.

Para Lanchoti, foi impressionante receber tantos “sins” diante de um pedido tão simples e tão íntimo, um contato físico com aquele estranho, aceito com prazer. “Fiquei muito surpreso, esperava outra reação, o ‘não!’. Por isso, talvez, possa dizer que saí mais feliz com essa vivência, pois provei que tinha um pensamento equivocado: os passantes do Calçadão gostam de carinho, mesmo que de um estranho, com certeza”, enfatiza o urbanista.

 UM SINAL DE ESPERANÇA

O resultado da experiência do urbanista no Calçadão de Ribeirão Preto surpreendeu psicóloga Maria Fernanda Lopes, porque pressa e medo são companheiros inseparáveis das pessoas no mundo pós-moderno. Inúmeras demandas sociais, pessoais, agenda cheia e preocupações, conforme a especialista, impedem que o homem fique atento aos detalhes mais importantes. “Esse resultado positivo mostra que a fraternidade está viva na maioria das pessoas, mas adormecida. Havendo a oportunidade de praticar o afeto, a semente desabrocha. Os Beatles já diziam: tudo do que precisamos é o amor”, afirma.

A psicóloga ressalta, ainda, que a vivência mostrou que a possiblidade do contato, do prestar atenção no outro, do ouvir o que está sendo pedido existe e é um começo, um sinal de esperança para uma sociedade aparentemente tão desorientada. “O abraço é essencial porque nos desperta para o nosso lado amoroso, criativo e construtivo. No abraço acolhemos, recepcionamos e amparamos o outro”, define Maria Fernanda.

As pessoas abertas a esse tipo de experiência — pedir um abraço a um estranho ou acolher o pedido e retribuir — estão mais perto de serem felizes, conforme a psicóloga. “São pessoas que estão em plena vivência, arriscando ainda que seja para quebrar a cara; que são capazes de aceitar a vida, de vivê-la intensamente e de reconhecer que existe o outro lado. Favorecer, buscar estímulos para oferecer ao outro essa energia relacional é o que propicia a vida”, conclui Maria Fernanda.

ALÉM DOS HOLOFOTES

No fim da experiência, por uma ironia do destino, fui abordado por um jovem chamado Daniel, quando me dirigia ao carro para ir embora. Ele se aproximou e disse: “Moço, não precisa ter medo, eu só queria a sua ajuda. Não quero dinheiro, o senhor não paga uma coisa para eu comer?” Foi impressionante: depois de pedir um ato de carinho, um abraço, uma pessoa me pedir outro ato de carinho: comida.

Levei o rapaz, de aproximadamente 20 anos, até o bar da esquina e lhe paguei alguns salgados, um refrigerante e um chocolate. Conversando com ele, relatou que havia acabado de sair da Penitenciária de Serra Azul, depois de três anos detido, e queria ir embora para Hortolândia. Falou-me de sua vida e do quanto gostaria de recomeçar a viver. Queria voltar para casa, ver sua mãe e começar a trabalhar.

Depois da conversa, saímos do bar, dei-lhe o dinheiro para pegar o ônibus e, ao final, perguntei se poderia lhe dar um abraço, e ele disse que sim. Pena que o pessoal da Revide já tinha ido embora, pois este rapaz simbolizou tudo aquilo que quis demonstrar no Calçadão, porém, em uma situação real.

Fiquei feliz com os abraços que pedi, mas o melhor de todos foi este, que dei no desconhecido ex-presidiário. Tenho motivos de sobra para ser uma pessoa triste, mas essas ações me reanimam e me encorajam a acreditar na justiça, no carinho que existe no coração das pessoas, mesmo que guardado.

Gosto de repetir aos meus alunos um texto lido em uma lápide, que dizia mais ou menos assim: “Eu fiz o que pude”. Olha que maravilha: fez o que pode! Mais não fez porque não pôde fazer. Porém, o mais importante é que não fez menos do que podia. É isso que precisamos fazer no nosso dia a dia: o máximo que pudermos para nós e para o próximo. Só assim conseguiremos atingir a felicidade completa que buscamos. Agradeço muito por essas experiências. Como neste momento não há como pedir, faço questão de mandar um grande abraço a todos!
José Antônio Lanchoti, urbanista

NOSTALGIA DOS TEMPOS FRATERNOS

Apesar de inicialmente assustador devido à violência urbana, o apelo do abraço feito por Lanchoti foi correspondido pela maioria das pessoas abordadas e acabou desencadeando certa nostalgia de dias mais fraternos

“A aproximação dele não me assustou, senti muita energia boa. É o que está faltando hoje, um ‘bom dia’ ou ‘boa tarde’. Ganhar abraço é melhor do que ganhar presente: um presente a gente compra, um abraço transmite um astral bom”. 
APARECIDO DAS GRAÇAS FERREIRA



“As pessoas, hoje, são muito estressadas, preocupadas e não se lembram de dar um abraço, de dizer uma palavra amiga. Estava pensando no monte de coisas que tenho que fazer quando ele pediu o abraço. Só por ter desviado meu pensamento, foi ótimo. As pessoas deveriam se abraçar mais, é tudo de bom”.
MARIA APARECIDA DE SANTANA BALIEIRO


“Achei estranho, normalmente tenho medo da violência, mas o achei confiável. As pessoas deveriam praticar mais isso. Trocar abraços é bacana, faz bem às pessoas, passa confiança e carinho, mesmo quando a pessoa é desconhecida”.
MÔNICA MORTARI



“No começo, achei que era graça, mas olhei nos olhos dele e vi que não era uma pessoa má, por isso dei o abraço. A primeira reação diante do pedido não é boa, teria que acabar com a insegurança e com a violência para mudar isso. Falta respeito e carinho com as pessoas”.
RITA PACHECO



“Olhei para ele e vi que era uma pessoa séria. Nem me passou pela cabeça que quisesse me fazer algum mal. Foi bacana porque, geralmente, as pessoas olham para a gente e querem passar longe”.DIEGO RUFINO DE OLIVEIRA



Texto:
Carla Mimessi
Fotos: Ibraim Leão
Foto capa: Julio Sian
Modelos: Guilherme Boaron e Nicolas Faleiros (formodels.com.br - tel.: (16) 3441.4004)
Bermudas: Cotton & Cia. (Fiusa Center - tel.: (16) 3329.5177)
Agradecimento: Brechó de roupas usadas Dona Cida
Tel.: (16) 3635.1395

 
 
 
 
 

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