O mágico da ilusão

O mágico da ilusão

Com curadoria de Pieter Tjabbes, a mostra “Experiência Escher” convida o público a um mergulho na instigante obra do artista


Os répteis que escapam do papel fazem um percurso em volta da imagem e retornam ao desenho, retomando à forma original de ser bidimensional; o menino que observa a lateral olha para cima ou para baixo, dependendo da perspectiva do observador; um ladrilhamento em que pássaros se transformam no espaço em que os peixes nadam e esses se transformam no espaço em que os primeiros voam, numa metamorfose quase imperceptível, deliciosa de saborear.

Quem conhece a obra do artista holandês Maurits Cornelis Escher sabe o quanto ela pode ser inquietante, instigante e viajante. Para as gravuras de Escher, não basta um olhar: o admirador atento perceberá que quanto mais tempo dedicar à obra, mais será seduzido por ela, por sua profundidade, pelas perspectivas e pelas brincadeiras que o artista propõe aos sentidos do apreciador.

O que a mostra “Experiência Escher”, inaugurada no dia 14 de março, traz de inusitado é justamente a possibilidade de interagir com a obra, de experimentar a ilusão criada pelo artista, compreender melhor como o mundo mágico criado por ele ganha vida no papel e se torna tão vívido para quem observa.

Nascido em julho de 1898, Escher faleceu em 27 de março de 1972. A carreira começou na Itália, onde viveu muitos anos e se desenvolveu como artista gráfico, fazendo xilogravuras, litogravuras, e desenhos, esses últimos como um método para lembrar situações que observava.

O curador da mostra, Pieter Tjabbes, conta que Escher costumava dizer que a paisagem era tão maravilhosa, que não precisava inventar nada, o que, segundo Pieter, não é bem verdade — uma vez que um artista interpreta, não consegue reproduzir exatamente o que é. “Ao registar a paisagem, Escher dava um destaque, um contraste a mais ou a menos e, dessa forma, moldava a realidade. Ele foi além porque brincava com a perspectiva, uma característica que, mais adiante, tornou-se sua marca registrada, mas, já nessa fase, quando representava as paisagens, percebia-se mais de um ponto de vista”, conta.

Ao conhecer a Espanha, o artista se impressionou com as construções mouras e foi influenciado pela arte islâmica, que proíbe o uso de pessoas ou animais em uma imagem e se baseia em motivos florais e geométricos que se encaixam, com padrões que sugerem profundidade. “Ele ficou com isso na cabeça, pensando como poderia usar esses padrões, no futuro, para construir um preenchimento do plano que sugerisse profundidade e encaixasse formas, mas incluiu seres humanos e bichos nessa mesma condição”, explica Pieter.

O artista foi descoberto nos anos 60 pelos americanos. Algumas imagens de sua obra foram publicadas em uma revista, em um artigo sobre a Holanda. No dia seguinte, a embaixada da Holanda nos EUA recebeu inúmeros telefonemas de gente que queria saber como encontrá-lo. A partir daí, começou a grande procura por sua obra e o artista acabou descoberto, também, pelos críticos. Foi feita uma grande exposição, no final da vida de Escher, que o consagrou totalmente. Hoje, ele é, possivelmente, um dos artistas mais conhecidos do mundo, não pelo nome, mas pelas obras bastante difundidas na Internet.

A mostra já passou por São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente, em 2010 e 2011, sendo que, neste último ano, consagrou-se como a mais visitada do mundo, uma surpresa para o curador. “Eu achava que seria um sucesso, mas não tão grande”, ressalta. Inédita fora de espaços museológicos, Pieter ressalta que a ideia era justamente dessacralizar a obra de arte, expondo-a em um ambiente de grande circulação, sobretudo de famílias, pois Escher é interessante para todas as idades.

De fato, é difícil não se deslumbrar ao mergulhar no universo do artista. “Escher é um mágico, dá um toque diferente a cenas que já vimos, consegue esconder as brincadeiras de uma forma quase casual. É um mágico porque leva os admiradores a uma viagem: se você deixar, você se perde, não sabe mais a que plano você pertence na construção que ele desenhou”, conclui Pieter.

Quando: até 17 de abril, de domingo a sexta-feira, das 12h às 20h,
sábados das 10h às 22h
Onde: Piso Superior do Shopping Iguatemi Ribeirão Preto
Quanto: gratuito

Texto: Carla Mimessi | Fotos: de arquivo e Ibraim Leão

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