O músico do povo

O músico do povo

Versatilidade do músico paulistano chamou a atenção de outros artistas

Nascido e criado no subúrbio paulistano o cantor, compositor e multinstrumentista Marcelo Jeneci pode ser considerado um dos músicos mais versáteis da atualidade. Antes de lançar o seu trabalho autoral “Feito para Acabar”, considerado pela crítica especializada como um dos melhores albuns de 2010, o paulistano era instrumentista de músicos como Chico César, Vanessa da Mata, Arnaldo Antunes, entre outros. Sempre criativo e muito peculiar na sua maneira de tocar, o compositor chamou a atenção também por suas letras.

Como compositor, Jeneci fez músicas com a cantora Vanessa da Mata (“Amado”), Zé Miguel Wisnik e Paulo Neves (“Tempestade Emocional”), Luiz Tatit (“Por Que Nós?”) e Arnaldo Antunes (“Quarto de Dormir”). Teve ainda sua música “Longe” gravada por Arnaldo Antunes e Leonardo. Zélia Duncan também cantou suas músicas em seu último disco, em que Jeneci participou tocando piano, acordeon e guitarra. 

“Me lembro de estar tentando cercar as pessoas que eu considerava interessante. Num outro momento eu já não sabia se eu é que as estava cercando ou elas é que me cercavam. O que eu tinha a oferecer como instrumentista trabalhando nas bandas de alguns artistas era uma coisa muito minha. Eu estava tentando inventar e tentando criar, mais do que tentando reproduzir o que estava no disco e de algum modo isso foi chamando a atenção das pessoas que queriam isso e assim apareceram convites tão legais quanto esse de tocar na banda do Arnaldo[Antunes] e desde que a gente se conheceu ele percebeu que existia ali em mim uma sede e uma vontade de explorar o universo da canção e de algum modo ele me guiou”, lembra o compositor que vive de música desde os 15 anos.

Filho de mãe paulista e de pai pernambucano, que trabalhava consertando equipamentos eletrôonicos e instrumentos musicais. Foi através dele que Jeneci aprendeu música, influenciado por Roberto Carlos e trilhas de novela. Por essa forte influência o músico se considera um integrante da música popular brasileira e tenta, musicalmente, devolver ao seu local de origem, tudo o que produz. “Minha música é muito mais popular do que sofisticada. É muito mais ligada ao povo, que é de onde eu venho, e é pra onde eu tento devolver as coisas que faço. O que me interessa é isso, retornar para o lugar de onde eu venho, que é a periferia de São Paulo, através das minhas canções, agregando a elas todas as camadas que me foram apresentadas e o que a vida está me trazendo de interessante, tanta coisa difícil, mas legal. Então tenho de fazer uma música que seja popular, mas que carregue algumas camadas para que dure no tempo”, explica Jeneci.

Sereno e atencioso Marcelo Jeneci ouve as perguntas com atenção e responde sem pressa, sem alterar o tom de voz. Como músico independente Jeneci sabe bem o que quer. E ao contrário de outros músicos do cenário independete, o compositor quer ver as suas músicas sendo veículadas nos veículos de grande abrangência, mais especificamente a TV. “O acesso a uma grande mídia depende muito do que a pessoa tem pra oferecer e do objetivo dela e se isso realmente interessa a ela. Tem muitas bandas do circuito indie rock que não precisam disso, não querem isso e também não fazem uma música que é capaz de chegar num lugar de tanta divulgação. E o que me interessa é exatamente esse lugar”, confessa.

Novo espaço
Atualmente, o cenário independente da música brasileira ganhou um forte aliado. O Canal Brasil lançou recentemente o programa “Evidente” que vai ao ar toda quinta feira às 21 horas. “A ideia do programa é óbvia: a safra atual de videoclipes de artistas independentes brasileiros é tão boa quanto a qualidade da música que eles produzem. Há uns seis ou sete anos atrás, clipes independentes eram sinônimo de coisa mal feita. Mas, desde uns três ou quatro anos não é mais assim. Várias bandas se lançam por causa de seus videoclipes fantásticos, mas simplesmente não são veiculados na TV. Se olharmos a quantidade de visualizações que estes clipes têm na internet, dá pra sacar que a TV anda ‘comendo mosca’. Então, diante de tantas evidências de qualidade e audiência, resolvemos criar o ‘Evidente’”, explica Karla Oldane, assistente de direção do programa. 

Momento favorável
Sobre a dificuldade dos músicos independentes, Jeneci acredita que já houve um momento mais difícil.Na opinião de Marcelo o momento é favorável, embora ele acredite que cada esfera de profissional musical apresente a sua dificuldade. O compositor cita os festivais que vem acontecendo pelo Brasil nos últimos anos. “O circuito Fora do Eixo é um bom exemplo e um bom começo, principalmente se houver um acordo honesto em relação a rodar pelos palcos que eles oferecem, mas remunerando de alguma forma quem está ali apresentando o seu trabalho”, ressalta Jeneci.

Lançamento
No grande mercado musical há uma periodicidade nos lançamentos de músicas inéditas. Marcelo Jeneci se mostrou cético com relação à essa obrigatoriedade, e diz que, na esfera em que ocupa, não há uma agonia de querer ter um conteúdo novo a cada fim de ano. Segundo o músico o tempo entre os lançamentos deve ser mensurados pela importância e pela força do que cada artista tem pra dizer. 

“As produções de Gusttavo Lima, Michel Teló e alguns outros têm uma velocidade muito maior, mas também se propõem a serem descartados mais rapidamente, pois eles geram uma velocidade de informação que tem a ver com o mercado deles. Eu vou ficar mais seis meses com o ‘Feito pra acabar’ e lanço o próximo disco no começo do ano que vem, assim completarei dois anos de disco. Acho que dependendo do trabalho em questão as pessoas acabam comprando mais discos dentro desses dois anos e acabam revendo os shows cada vez mais e sem falsa modéstia é o que eu percebo que acontece com meu primeiro trabalho. Ele chegou pra grande mídia no momento em que foi lançado e ao invés de sumir meses depois, ele foi criando público e foi materializando o que eu sou. O meu tronco é popular e os galhos têm esse desejo de sofisticação. Então, assim que saiu do lance de chamar a atenção da crítica especializada, ele foi indo para o lugar dele, que é o lugar que eu quero chegar, que é o povo brasileiro”, conclui.

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Texto: Bruno Silva
Fotos: Divulgação

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