O não-voto virtual
Grupos nas redes sociais criticam políticos, apontam denúncias, convocam manifestações e influenciam em eleições e ações de detentores de mandatos. Em Ribeirão, os principais alvos são os vereadores
A maioria das convocações de manifestações populares que empurraram os deputados federais para a aprovação da admissibilidade de tramitação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) foi feita por meio de redes sociais. Vários grupos utilizaram, principalmente, o Facebook para se comunicar com os possíveis manifestantes, muito embora outras formas de divulgação tenham sido realizadas, como “pedágios” em semáforos, distribuição de panfletos, carreatas e até carros de som. O grande impulso, no entanto, veio das redes, com
multiplicação garantida de informações.
Trazendo esse universo para os municípios, no caso das eleições para prefeito e vereador, as redes também são utilizadas por grupos para mostrar que o trabalho no setor público não é bem feito. São apontados equívocos do Executivo e falhas do Legislativo. Muitas vezes, a votação de um projeto polêmico ganha divulgação para que os internautas possam saber a posição dos vereadores em relação ao assunto. Em Ribeirão Preto, vários grupos utilizam a internet para influenciar eleitores na hora do voto — com o protesto dos políticos, claro.
Há pelo menos dez grupos e/ou movimentos que conseguem maior alcance em função do número membros ou de fãs, no caso das fan pages. Na eleição de 2012, os dois principais mexeram com a cabeça de eleitores que frequentam as redes. Um dos mais antigos deles, “Por uma Ribeirão Melhor”, teve as ações iniciadas em 2011 e parte de seus membros chegou a assinar um pedido de comissão processante contra o ex-vereador Oliveira Júnior, que acabou cassado em outubro daquele ano, graças a pedido também da Subsecção de Ribeirão Preto da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). De 2012, o Movimento Panelaço “infernizou” a vida de vereadores e colaborou para que o número de cadeiras fixado para esta legislatura permanecesse 22, e não 27, como previa a primeira emenda à Lei Orgânica do Município.
Outros grupos nasceram pelas mãos de antigos membros do “Por uma Ribeirão Melhor”. A maioria tem como foco a crítica às ações dos políticos na busca de renovação, principalmente no Legislativo. O “Movimento Troque Todos” é um deles. Com uma fan page no Facebook, o grupo tem quase 5,9 mil curtidas. A criação ocorreu em 2012, com o nome Troque os 20 Vereadores. Como o número aumentou para 22, transformou-se no Troque Todos. “Nosso foco maior é a Câmara, mas também miramos o Executivo. O público-alvo é o eleitor, a quem pretendemos esclarecer e mostrar que o povo é o patrão e os políticos, os servidores”, diz Paulo Lourenço, administrador do grupo. Ele também busca conhecimento pela Lei de Acesso à Informação para publicar na página do Facebook.
Em setembro do ano passado, o grupo passou a coletar assinaturas contra o aumento dos subsídios dos vereadores, aprovado no ano passado para vigorar a partir de 2017. Com o reajuste, o subsídio bruto de cada vereador passa de R$ 10,8 mil para R$ 13,8 mil. Já foram coletadas cerca de 13 mil assinaturas em atos realizados no calçadão, e em manifestações ocorridas na cidade pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em um dos protestos, o grupo também apontou as denúncias contra desvios na merenda escolar.
Quatro grupos
Egresso do “Por uma Ribeirão Melhor”, Wanderson Silva hoje administra quatro grupos no Facebook. “Por uma Ribeirão Mais Justa e Melhor”, “Movimento Troque os 22 Vereadores de Ribeirão”, “Movimento Reage Ribeirão” e o “Todos por Ribeirão” são monitorados por ele. Juntos, os grupos reúnem mais de 6,3 mil membros. “Comecei por indignação, por estar revoltado com tudo que acontece na política”, afirma Wanderson, que já sofreu ameaças veladas em função das publicações do grupo. “Já me disseram para ter cuidado e olhar bem com quem estou mexendo, mas não passou disso. Há sempre quem reclama ou, pelo menos, pede para “pegar leve””, acrescenta.
Cláudio Müzel também é um ex-administrador do “Por uma Ribeirão Melhor” que, agora, administra o grupo “Bronca”, que tem 2.716 membros. Ele conta que a criação foi para oferecer um espaço onde as pessoas pudessem reclamar de quem quisessem, inclusive nos políticos. “Era para ser todo tipo de bronca, inclusive das relações de consumo, mas como a moda é falar mal de político, as broncas são contra eles. O espaço para outras questões, no entanto, continua aberto”, afirma. Ele acredita que a somatória dos grupos pode influenciar bastante nas eleições e em decisões políticas, em função da pressão da divulgação.
Administrador do grupo de maior representatividade na cidade, o Por uma Ribeirão melhor (mais de 10 mil membros), Wilson Santos faz questão de assegurar que não emite qualquer opinião no espaço coletivo. Ele modera o que será postado para garantir que não haverá injúria e difamação nas postagens. Até porque ex-administradores do grupo já tiveram que responder a ações judiciais em virtude de publicações feitas. Ele lembra como principais feitos do grupo a denúncia contra o ex-vereador Oliveira Júnior e a “briga” contra o aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), em 2012. “Deu um respaldo grande ao grupo, que ganhou notoriedade e foi bastante procurado. Hoje, temos quase 10,3 mil membros, mas a participação ativa deve ficar em torno de 8% a 10%”, afirma Wilson Santos. Ele comenta que, em ano eleitoral, as postagens se transformam em vulcões, de tão quentes e
polêmicas. “Se fosse filtrar mesmo, excluiria de 70% a 80% dos posts, mas, geralmente, peço para a pessoa mudar, moderar um pouco nos comentários”, afirma.
Aprovações selecionadas
Paulo Arruda foi um dos fundadores do grupo hoje moderado por Wilson Santos. Agora, sua atividade se voltou para a administração do grupo “Ribeirão Merece Coisa Melhor”, que tem pouco mais de 3 mil membros. “Recebo de 10 a 20 pedidos por dia de pessoas que querem participar do grupo. Aprovo 2 ou 3. Principalmente em anos eleitorais, há muitos perfis falsos querendo espaço em grupos de discussão. Há muita gente da Prefeitura de Ribeirão Preto que tenta participar”, comenta Paulo. Ele conta que, para aceitar um novo membro, avalia se a pessoa tem amigos e se tem postagens no perfil. Mesmo depois que aceita, modera com cuidado as postagens. “Há pessoas querendo detonar. Verifico com cuidado antes de aprovar a postagem”, destaca.
O grupo “Por uma Eleição Limpa” surgiu no período eleitoral de 2012, com a intenção de ser um canal para acompanhar denúncias e orientar o eleitor na sua escolha. Foi criado, também, com o intuito de oferecer um espaço para que os denunciados pudessem se defender de acusações, difamações e injúrias. “O grupo é propositivo e serve para manifestações onde as verdades possam superar as mentiras de candidatos e de eleitores. Há, no entanto, postagens que saem do propósito. Mesmo assim, deixo o grupo aberto, filtro o que é possível e deixo bem claro que quem escreve é o responsável pela publicação”, afirma Eduardo Viana, administrador do grupo.
Nas redes e nas ruas
O Movimento Panelaço foi bem além das redes sociais. Por várias vezes, protestou nas ruas e nas galerias da Câmara Municipal. No final de 2013, integrantes de um protesto chegaram a invadir o plenário e os vereadores tiveram que deixar o local rapidamente. As principais manifestações foram contra o aumento do número de vereadores, mas ocorreram outros atos por motivos diferentes.
Integrante do Panelaço desde seu início, em 2012, o professor de história Jonas Paschoalick acredita esses grupos interferem na decisão do eleitor, principalmente o do “voto volante”, ou indeciso. “As críticas influenciam o voto e até ajudam a formar o perfil de quem está na Câmara, mas o sistema eleitoral, que permite coligações e listas abertas, faz com que o impacto não seja grande. Ao analisarmos os votos de 2012, chegamos à conclusão de que 86% dos eleitores não votaram nos vereadores eleitos”, aponta. Para ele, outro fator que favorece as eleições são os vícios políticos, com nomeações que favorecem os que já detêm mandato. “Há uma estrutura de arranjos que vincula o voto de muitas pessoas a empregos públicos”, garante.
Propaganda antecipada
A atuação nas redes sociais pode ser caracterizada como propaganda contrária antecipada. A análise é do coordenador da Comissão de Direito eleitoral da OAB de Ribeirão Preto, Luiz Eugênio Scarpino Júnior. O advogado defende que se um candidato não pode pedir voto, também não se pode indicar o não-voto. “Se eles (internautas) se limitarem a fazer uma análise crítica das ações do mandato, tudo bem. O que pode ser propaganda antecipada negativa é a indicação: ‘Não vote em A, não vote no candidato B’. Assim como um político não pode pedir voto, alguém não pode pedir para que não se vote nele”, afirma. O advogado defende defende a atuação crítica dos grupos. “Assim como parlamentares podem divulgar as ações desempenhadas em seus mandatos, grupos podem criticar as decisões dos políticos, sem ofensas pessoais e sem pedir que não se vote nos criticados”, explica o especialista.
Nas redes sociais
O Movimento Panelaço foi bem além das redes sociais. Por várias vezes, protestou nas ruas e nas galerias da Câmara Municipal. No final de 2013, integrantes de um protesto chegaram a invadir o plenário e os vereadores tiveram que deixar o local rapidamente. As principais manifestações foram contra o aumento do número de vereadores, mas ocorreram outros atos por motivos diferentes.
Integrante do Panelaço desde seu início, em 2012, o professor de história Jonas Paschoalick acredita esses grupos interferem na decisão do eleitor, principalmente o do “voto volante”, ou indeciso. “As críticas influenciam o voto e até ajudam a formar o perfil de quem está na Câmara, mas o sistema eleitoral, que permite coligações e listas abertas, faz com que o impacto não seja grande. Ao analisarmos os votos de 2012, chegamos à conclusão de que 86% dos eleitores não votaram nos vereadores eleitos”, aponta. Para ele, outro fator que favorece as eleições são os vícios políticos, com nomeações que favorecem os que já detêm mandato. “Há uma estrutura de arranjos que vincula o voto de muitas pessoas a empregos públicos”, garante.