O país num “touch”

O país num “touch”

Em plena ascensão no Brasil, o mercado de smartphones e tablets também ajuda a consolidar um novo comportamento

Não é preciso ser um observador muito atento para perceber: em lugares de muito movimento, da fila do banco à mesa de bar, são muitas as pessoas ocupadas com os smartphones e tablets realizando as mais diversas ações. Seja para quem precisa enviar e receber importantes e-mails ou apenas atualizar as informações das redes sociais, os dispositivos móveis estão cada vez mais presentes na vida do brasileiro.

De acordo com dados pesquisados pela consultoria IDC Brasil, especialista em Tecnologia da Informação e Telecomunicações, o mercado nacional de tablets cresceu 127% em 2012, em relação ao mesmo período do ano anterior. O desempenho alcançado coloca o país na 10ª posição entre os maiores mercados do mundo. Somente no terceiro trimestre do ano passado, foram comercializadas 769 mil unidades do dispositivo no país. A expectativa é que, até 2013, sejam vendidos 5,4 milhões de aparelhos por aqui.

Os analistas da consultoria garantem que os tablets já se consolidaram no topo da lista de desejos dos consumidores brasileiros e estão tomando o espaço antes ocupado pelos computadores pessoais, que apresentaram queda nas vendas no mesmo período. A pesquisa ainda aponta que, mais importante do que o sistema operacional desses dispositivos, o preço é o fator mais determinante na hora da compra.

O IDC também pesquisou o mercado de smartphones e verificou que, apesar de ter havido uma queda de 15,3% no volume de aparelhos celulares vendidos no país, o número de smartphones comercializados aumentou cerca de 65% em relação ao mesmo período do ano anterior. No primeiro semestre do ano passado, o desempenho foi ainda melhor, atingindo 77% de crescimento em comparação a 2011. Isso significa que os celulares inteligentes estão ganhando espaço e atraindo a atenção dos usuários dos chamados “feature phones”, aparelhos que permitem acesso à internet, às redes sociais e aos sistemas de mensagens instantâneas, mas sem um sistema operacional específico. Até 2015, conforme preveem os especialistas, 57% dos celulares no Brasil devem ser smartphones.

Economista e professor da Faculdade de Administração da FEA-RP, da USP de Ribeirão Preto, Edgar Monforte Merlo acredita que a colaboração no processamento do alto volume de dados que fazem parte do dia a dia da atualidade é um dos fatores que impulsionam a venda de smartphones e tablets. A observação ajuda a explicar o motivo pelo qual 60% dos usuários consideram esses aparelhos indispensáveis. É o que aponta o estudo global AdReaction 2012, desenvolvido pela Millward Brown, parceira do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBOPE). O levantamento acrescenta que dois terços desse montante se consideram mais eficientes por utilizarem tablets e smartphones. Segundo os analistas responsáveis pela pesquisa, as facilidades oferecidas por esses aparelhos vão ao encontro das necessidades de mobilidade e de conexão rápida do mundo de hoje.

Para o professor da FEA, esses aparelhos devem ganhar ainda mais espaço no mercado nacional. “A relativa queda nos preços colaborou para o crescimento do volume desses aparelhos móveis no Brasil. Acredito que essa queda será ainda mais acentuada nos próximos tempos. Assim, os consumidores que não estão preocupados em saírem na frente quando o assunto é tecnologia, terão o acesso aos equipamentos facilitado”, finaliza Edgar.

A comunicação dos novos tempos
Apesar das facilidades que os aparelhos móveis proporcionam, permitindo acessar a internet, compartilhar dados e comunicar com quem está longe, há quem critique o distanciamento de quem está perto que essas novidades tecnológicas provocam. Em casa, reunir-se na sala e, apesar disso, isolar-se no universo da tela dos tablets e smartphones já não é uma cena rara. No happy hour com os amigos, postar a foto da reunião, às vezes, é mais urgente do que o bate-papo.

Segundo Franco Aurélio Rodini Garcia, professor de psicologia do Centro Universitário Moura Lacerda, esse comportamento é típico de quem está diante de uma novidade. “Quando a TV se popularizou, as pessoas também temiam que, com ela, havia chegado o fim do diálogo na família. Mas isso acabou se suavizando com o tempo”, avaliou o especialista. Além disso, Franco destaca que a qualidade do convívio presencial e do diálogo depende de uma série de fatores.

O que não se pode negar é a relativização das distâncias que esses dispositivos proporcionam. Além de aproximar pessoas que estão longe, os smartphones e tablets abrem infinitas possibilidades de informação. “Criou-se uma necessidade inédita, de ter todas as informações na palma da mão, independente da qualidade”, acrescenta. Nesse aspecto, é preciso estar atento ao exagero. “Tudo é compartilhado, de notícias de interesse público a ações banais do cotidiano. Por isso, as pessoas terão que aprender a discernir o que é importante para elas ou não”, finaliza o psicólogo.



Tecnologia no DNA

Temple Run 2 Subway Surf
Para a nova geração, os dispositivos móveis não são nenhum mistério. É o que acontece com os gêmeos Lívia e Elias Tazinafo Nasser e com Jade Prandi Gola, de 12 e 11 anos, respectivamente. Para eles, entender como utilizar cada ferramenta presente nos tablets e smartphones é natural. Jogos como Temple Run 2, Snake e Subway Surf são facilmente desvendados com as pontas dos dedos. “Usamos os tablets para jogar, mas passamos a maior parte do tempo nas redes sociais”, garante Lívia. Na escola, os celulares ficam de fora, mas os tablets podem entrar. “Eles ficam na mochila, mas podem ser usados para pesquisa se o professor autorizar”, conta Jade. Nos intervalos, tornam-se o centro das atenções. Os amigos compartilham fotos e até fazem vídeos de entrevistas uns com os outros. Tudo, claro, é compartilhado. Para controlar os excessos, o trio conta com a orientação — e as broncas — dos pais. “Eles sempre falam quando estamos passando dos limites, quando é hora de parar para estudar ou fazer outras atividades”, conta Elias, que adora jogar tênis e de sair com os amigos.

 

Conteúdos na palma da mão

Wikipedia TED Evernote Waze

Com dois smartphones e um tablet, o consultor em TI da SETI Business Tecnology, Thiago Carvalho, pode ser considerado um “heavy user”, termo utilizado para quem passa 24 horas do dia conectado aos dispositivos móveis — e utilizando esses recursos. “Tenho como hobby acompanhar notícias sobre esse segmento. Sou adepto dos smartphones desde 2008 e dos tablets desde 2010. Para mim, eles são uma excelente fonte de conteúdo”, argumenta o profissional em tecnologia. No dia a dia, os aparelhos ajudam Thiago a manter os e-mails em dia, a organizar a agenda e a listar tarefas. Além disso, o consultor mantém alguns livros no tablet e está sempre em busca de notícias. “Recomendo o aplicativo TED, que é gratuito e recheado de excelentes palestras, curtas e diretas. A galera reunida nesse grupo realmente tem conteúdo e propostas reais de mudança. É indispensável”, avalia. O aplicativo oficial da Wikipedia, Evernote, ideal para quem “clipa” conteúdos da internet, e Waze, um GPS social e interativo, também estão entre os apps recomendados por Thiago. Entre as novidades do mercado, o especialista destaca o Surface Pro, da Microsoft, que deve chegar, em breve, ao Brasil. “O aparelho é um híbrido de tablet e de ultrabook e traz um sistema operacional compatível com o software do PC. Isso significa que ficará mais fácil gerar qualquer tipo de conteúdo, atividades que ainda realizo no notebook”, explica Thiago.



Instruções direto na tela

  

O empresário Alexandre Nogueira, de 56 anos, comprou seu primeiro smartphone há seis anos e logo percebeu que o aparelho poderia ser um poderoso aliado. Sua integração às novidades foi natural, guiada pela intuição. “Não foi difícil aprender a usar todas as funcionalidades desses aparelhos, pois as instruções estão disponíveis na própria tela. Com muita curiosidade e boa vontade, logo entendi de que maneira poderia usar esses aparelhos no meu dia a dia”, relata Alexandre, que também adotou o tablete em sua rotina. Durante o trabalho, os dispositivos móveis ajudam a tornar palestras e apresentações mais dinâmicas e interativas. Já em casa, o tablet e o smartphone tonam as horas de lazer mais prazerosas. “Costumo buscar músicas mais antigas, que não se encontram mais nas lojas, através da internet. Em casa, raramente ligo o computador, pois tudo o que eu preciso está ali, na ponta dos dedos”, acrescenta o empresário. No entanto, Alexandre garante que impõe alguns limites para evitar os exageros. “Quando saio com a minha família, todos nós guardamos nossos aparelhos celulares para que a conversa e a convivência sejam preservadas”, afirma.


Android ou iOS?

Fabricados respectivamente pelo Google e pela Apple, esses são os sistemas operacionais que dominam os aparelhos mobile vendidos no Brasil e no mundo. Somados, estão presentes 91,1% dos smartphones comercializados no último trimestre de 2012 — Blackbarry e Windows Phone praticamente dividem a fatia do mercado restante. Enquanto o iOS é uma exclusividade do iPhone, o Android pode ser encontrado em uma série de aparelhos, fabricados tanto pela Sansung quanto pela Motorola.

Diversos especialistas já traçaram comparativos na tentativa de eleger o melhor, mas a conclusão é parecida. Tecnicamente, os dois sistemas operacionais são bem equivalentes, com pequenas vantagens para um ou para outro em determinados quesitos. No mercado desde 2007, o iOS sistema operacional tem maior capacidade de armazenamento de arquivos em nuvem, enorme velocidade de reconhecimento de comandos e navegabilidade superior. Os aparelhos da Apple ainda ganham no volume de aplicativos disponíveis e na quantidade de acessórios. No entanto, há um empate técnico quando os assuntos são segurança, design, tela, câmera e teclado. Já em relação à transferência de arquivos, personalização e preço, os aparelhos que levam o Android estão na vantagem. O que mais vale, portanto, é a empatia desses sistemas operacionais com cada usuário.

Os apps do momento

Entre os culpados pelo sucesso dos smartphones estão os aplicativos. No Brasil, este mercado cresceu 83% de 2011 para 2012, impulsionado especialmente pela disponibilidade de jogos. O enorme salto colocou o país na sexta posição entre os maiores usuários, e o segundo maior quando desconsiderados os países asiáticos — perdendo apenas para a Rússia. No entanto, os aplicativos pagos continuam em baixa por aqui. A cada 100 apps baixados, apenas 5,4 são pagos.

Entre os aplicativos que viraram mania, dois merecem destaque. Ao permitir aos usuários tirar uma foto, aplicar um filtro e compartilhar o resultado, o Instagram conquistou o público. Este aplicativo foi desenvolvido pelo brasileiro Mike Krieger, em parceria com o norte-americano Kevin Systrom e está disponível tanto nos smartphones iOS quanto Android. O compartilhamento das imagens publicadas pode ser sincronizado com diversas redes sociais, como Facebook, Twitter e Foursquare.

Outro app utilizado por milhares de pessoas é o Whatsapp, que já contabilizava 10 bilhões de mensagens diárias em agosto de 2012. O aplicativo permite a troca de mensagens instantâneas, via smartphones, tanto de texto quanto em formato de vídeos, fotos e mensagens de áudio. O Whatsapp permite, ainda, a criação de grupos de conversas, o que facilita, muitas vezes, a comunicação entre amigos ou colegas de trabalho.

 

Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian e Ibraim Leão
Diagramação: Lucas Chaibub

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