O perigo está no ar
Ribeirão Preto tem um caso confirmado e outros 15 suspeitos de sarampo. De acordo com especialistas, a volta da doença no município passa por fatores como fluxo migratório, falha de cobertura vacinal
Após 22 anos da última grande epidemia de sarampo em Ribeirão Preto, a cidade voltou a registrar casos da doença. Em 2019, a cidade tem confirmado um caso de sarampo e outros 15 suspeitos — seis crianças e nove adultos. O primeiro registro neste ano foi o de uma criança, de 1 ano, que, a princípio, teve o quadro clínico pouco sugestível. “Os primeiros exames realizados mostraram que não era sarampo. Mesmo assim, foi enviada a sorologia para São Paulo e lá foi constatado sarampo, mas, como estávamos em dúvida, pedimos uma contraprova. Porém, o Estado resolveu que não a faria, por conta do número de casos registrados em São Paulo. Então, é um caso confirmado, mas sem muita certeza, pois o quadro clínico não era típico e a sorologia inicial não era de sarampo”, declara Sandro Scarpelini, Secretário da Saúde de Ribeirão Preto.

A partir de então, foi adotada uma nova medida: casos suspeitos serão considerados como confirmados. Esse novo critério é estabelecido quando há um grande número de casos de um determinado tipo de doença. “Nós paramos de fazer controle sorológico, pois é desperdício de dinheiro. Já que o quadro parece ser de sarampo e, no momento, está tendo muitos casos da doença no estado, pressupõe-se que é isso mesmo e trataremos como se fosse”, diz Scarpelini. Apesar disso, o número ainda está longe de representar uma nova epidemia no município. Por conta da situação, Ribeirão Preto não receberá campanha de vacinação — ao contrário da capital paulista, que já está em estado epidêmico —, em vez disso, contará com ações de bloqueio.
Essa medida de bloqueio foi a mesma utilizada para combater a doença em 1997, quando a cidade enfrentou a epidemia, e ela se resume ao contato pessoal. A conduta realizada nos 15 casos suspeitos foi de procurar os contactantes —pessoas que tiveram contato com os pacientes —, checar a vacinação dessas pessoas e, na dúvida, reforçar a vacina. Ainda assim, o Secretário da Saúde ressalta que não há motivo para desespero. “Era esperado que chegassem casos de sarampo em Ribeirão Preto, por conta do fluxo que nós temos na cidade. Só de imaginar a quantidade de ônibus que chega e vai a São Paulo, podemos ter uma noção desse fluxo. Então, não tem muito como impedir”, informa.
Além do fluxo de pessoas que a cidade recebe, outros fatores podem ter sido cruciais para a volta da doença. A imunização contra o sarampo é uma forma de proteção e faz parte do Programa Nacional de Vacinação. Hoje em dia, as crianças tomam a primeira dose no primeiro ano de vida, ao completar 12 meses, e a segunda dose é tomada aos 15 meses, por ocasião do recebimento da vacina tetra viral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela). Então, até 29 anos, todas as pessoas deverão ter duas doses da vacina. A partir dessa idade, o Ministério da Saúde recomenda outra dose da vacina. Porém, segundo Sandro Scarpelini, algumas pessoas, que têm idade entre 15 e 29 anos, podem ter tido uma falha na cobertura vacinal. “Algumas dessas pessoas podem ter tomado somente uma dose, pois, quando a doença começa a sair do foco, a própria população acaba deixando a preocupação de lado e não se cuida adequadamente. Então, existe essa janela, que pode aumentar o número de casos”, aponta.

Outro agravante são as campanhas antivacinas, ressaltado pela diretora do Departamento de Vigilância em Saúde, Luzia Márcia Romanholi Passos. “O sarampo havia desaparecido da nossa epidemiologia. O Brasil assumiu a eliminação da doença e havia conseguido o certificado que comprova isso. No estado de São Paulo, entre os anos de 2001 e 2010, houve apenas quatro casos confirmados da doença. Porém, a partir desse período, o panorama mundial da doença começou a mudar. Essa mudança tem grande ligação com o movimento antivacina, que ocorreu de forma mundial. Isso fez com que muitas pessoas deixassem de se vacinar, fazendo com que o vírus voltasse a circular de forma epidêmica. Por conta disso, hoje, nós temos sarampo nos cinco continentes. A doença está sendo reintroduzida”, ressalta Luzia.
Vacinação
Em Ribeirão Preto, 36 postos de vacinação têm as doses contra o sarampo disponíveis para toda a população. No Estado de São Paulo é preconizada a vacinação em duas doses para quem tem de 1 ano até 29 anos. Já para os nascidos a partir de 1960, é indicada somente uma dose. Segundo a recomendação da Secretaria Municipal da Saúde, por conta do risco do surto vivido no estado, as pessoas devem procurar o posto de saúde para um profissional verificar a carteira de vacinação. “Nós pedimos para que as crianças que já estão com mais de 15 meses, mas não tomaram a segunda dose, que as mães levem para receber a vacina. A recomendação é de que todos olhem a carteira de vacina, tanto crianças quanto adultos. Todo mundo precisa estar vacinado, caso contrário, podemos ter uma circulação maior da doença no município”, comentou Luzia.
Por conta das duas doses, ainda nos primeiros 15 meses, o número de casos de sarampo em crianças é menor do que antigamente. Scarpelini afirma que a cobertura vacinal, em Ribeirão Preto, nos últimos anos, tem ultrapassado os 100%. Então, praticamente, todas as crianças tomaram as doses necessárias de sarampo. Assim como Scarpelini, a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde, também busca tranquilizar a população, alertando que a vacina de sarampo é altamente eficaz. “A vacina contra o sarampo possuí uma soroconversão de 97%. Além disso, em virtude do bloqueio que está sendo feito, as pessoas estão sendo revacinadas. Como o vírus do sarampo tem uma infectividade alta, nós damos aquela dose de reforço para que a pessoa que já estava vacinada ative suas células de memória e melhore sua resposta imune”, reforça Luzia.
Casos no Estado
Em todo o Estado de São Paulo, já são 633 casos, sendo 484 somente na capital. Santos tem 22 casos, Santo André, 19, Guarulhos e Fernandópolis têm 18 cada e São Bernardo do Campo, 14 casos. Em Sertãozinho, na Região Metropolitana de Ribeirão Preto, já são três casos confirmados da doença. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, entre os pacientes, há uma criança de 1 ano e outras duas com menos de 1 ano. A Secretaria informa, ainda, que em todos os casos já foram adotadas as medidas de bloqueio. Além dos registros já confirmados, o município investiga outros cinco casos suspeitos. Entre eles, estão duas pessoas adultas, uma criança de 13 anos e uma criança de, também, 1 ano.
Em relação à doença, a Prefeitura Municipal de Sertãozinho relata que não eram registrados casos na cidade há, pelo menos, nove anos. Os dados mais concretos estão sendo levantados pela Vigilância Epidemiológica da cidade por meio do sistema nacional de informação.

O que é?
Sarampo é uma doença viral que, na maioria das vezes, é benigna e tem ciclo de poucos dias. O sintoma inicial é de virose, febre, coriza, tosse e vermelhidão em partes do corpo. A doença é altamente transmissível e, entre os vírus trabalhados em epidemiologia — ramo da Medicina que estuda os fatores relacionados à difusão e à propagação de doenças —, é considerado com alta taxa de infectividade. A transmissão ocorre por vias respiratórias: ao falar, ao tossir e ao espirrar. Por conta disso, o sarampo é uma doença rapidamente contagiosa.

É melhor garantir
Manuel do Nascimento Freitas Rodrigues, morador de Ribeirão Preto que foi até a UBDS Sumarezinho — mais conhecida como Cuiabá — conferir seu cartão de vacinas, acredita que a imunização é de suma importância. “Eu acho muito importante irmos até o posto, tomar vacina e conferir nosso cartão para ver se está tudo em dia. Com esse movimento antivacina, ultimamente, vem aparecendo várias doenças novas, então temos que nos prevenir”, afirma. Rodrigues ressalta, ainda, que, sem a vacina, as chances de contrair sarampo são grandes.
“Tem muita gente que acredita que a vacina não previne nada, mas elas estão erradas. A vacina evita muita doença. O sarampo mesmo, se você não se vacinar, há grandes chances de se contaminar”, opina Manuel.
Texto: João Camargo