O Pet e a saúde

O Pet e a saúde

Para acompanhar os cuidados dos animais de estimação dentro de casa a Medicina Veterinária não para de evoluir

Não é de hoje que os bichos de estimação vêm conquistando um lugar de destaque nas famílias que optam por inclui-los no dia a dia. Prova disso é o próprio mercado pet, que cresce exponencialmente há alguns anos. Clínicas, lojas e até hotéis, entre outros endereços prestadores dos mais diversos serviços, surgem a cada dia em vários cantos do país, e em Ribeirão Preto não é diferente. A pluralidade do segmento comprova, também, que esses bichos são tratados com todo o cuidado pela família. Muito mais do que animais de estimação, cães e gatos, principalmente, têm se tornado verdadeiros membros da casa: possuem seu canto próprio ou dormem com os donos, ganham presentes em datas especiais e outros mimos dignos de um ente querido, o que, de fato, são.  

De acordo com Daniela Mosna Xavier, veterinária da Clínica Univet, é possível identificar dois perfis dominantes quando se fala em apaixonados por animais de estimação. “O primeiro é composto por casais ou famílias com filhos que buscam nos pets, além de companhia e de diversão, uma forma de ensinar ou dividir responsabilidades; já o segundo é formado por pessoas que moram sozinhas e desejam a companhia de um cão ou de um gato”, pontua a veterinária. 


Em ambos os casos, o envolvimento com os animais é cada dia maior, assim como a preocupação com a saúde dos pets. Nesse cenário, a medicina veterinária não deixa a desejar, a começar pelo número de veterinários: segundo dados levantados no ano passado, o país é campeão no ranking de especialistas, totalizando 84 mil atuando em 50 áreas — 30 mil profissionais só Estado de São Paulo. O mesmo crescimento se verifica em relação ao número de cursos — o Brasil é novamente recordista possuindo 190 escolas superiores, que lançam no mercado de trabalho cinco mil novos profissionais ao ano. E a tendência é continuar se desenvolvendo, já que o aumento na comunidade pet chega a 8% por ano. Para se ter uma ideia da dimensão desse número, o de crianças varia de 0,5 a 1,0%.  


Ainda assim, trabalho não falta, especialmente para quem busca atualização constante. De acordo com Mussi Antônio de Lacerda (dir.), clínico e cirurgião veterinário desde 1980, a evolução da especialidade nesse período foi incrível. “Não apenas o mercado se desenvolveu. Viu-se, também, uma revolução tecnológica e científica, que só veio a agregar valor aos profissionais, representando reforços importantes, desde o momento do diagnóstico dos animais até os tratamentos mais complexos”, aponta o especialista. 

Entre outros pontos desse processo, o veterinário Rodrigo Cezar Sanches (acima) inclui, ainda, o estreitamento da tríade proprietário-paciente-veterinário. “Essa relação, quando construída com base na confiança, só tem a contribuir para o bem-estar e a qualidade de vida dos pets”, garante o especialista, que integra a equipe da Univet, ressaltando, também, a evolução dos equipamentos diagnósticos, fundamentais para esse avanço. Já Andressa Marco, veterinária da Marcovet, faz questão de evidenciar a evolução da profissão em sua característica mais humana.

“Os veterinários estão cada dia mais dedicados aos animais, especialmente porque eles acabam se tornando pacientes assíduos, permitindo a consolidação de uma relação mais aprofundada com toda a família”, acrescenta o profissional. Este aspecto é reforçado, também, por Elaine Buseli (esq), diretora clínica da Endovet. “Hoje, realizamos consultas de rotina, sem esperar por um episódio médico. Essa característica nos atribui um papel como o de um ‘pediatra’ veterinário”, acrescenta a especialista. 

Mais foco no atendimento

Tantas mudanças no perfil das famílias e na relação estabelecida com os animais de estimação impactaram diretamente na medicina veterinária, que foi se tornando cada dia mais especializada. Por isso, levar os pets ao dermatologista, ao oftalmologista, ao endocrinologista, e assim por diante, já não soa tão estranho quanto se poderia imaginar. A lista de especialidades é longa, mas o objetivo de todas elas é o mesmo: prestar um atendimento mais focado à solução dos problemas do mundo pet.  

Desse universo, Mussi de Lacerda faz questão de destacar a cardiologia, especialidade que  objetiva cuidar não apenas do coração dos animais, mais de todo o sistema cardiovascular dos bichos. “Entre as maiores demandas estão o tratamento das arritmias, de patologias estruturais do coração, congênitas ou adquiridas, entre outras doenças”, pontua o veterinário. Para um diagnóstico correto, é preciso combinar exame clínico a exames complementares, como eletrocardiogramas e ecocardiogramas. “No entanto, é importante ressaltar que a medicina preventiva é o melhor caminho para garantir longevidade e qualidade de vida”, reforça Mussi, que é pós-graduado em homeopatia. 

Mestre em cirurgia veterinária e com cursos diversos em imagens, entre outros, Rodrigo Cezar Sanches reforça, justamente, a importância da evolução do setor de imagem diagnóstica. “Também não dá para deixar de fora o intensivismo (CTI e UTI), que ajudaram a garantir mais tempo para o tratamento dos pets”, acrescenta Rodrigo, que é formado desde 1999. 

Outra especialidade bastante solicitada no mundo animal é a ortopedia, área de atuação deTiago Marco (dir), da Marcovet. “Na maioria dos casos, as doenças ortopédicas são passíveis de tratamento, mas seu sucesso está intimamente ligado ao diagnóstico rápido e ao tratamento imediato”, explica o veterinário. Segundo ele, a longevidade dos animais tem resultado, também, no surgimento de novos desafios para os especialistas. “Todas as pesquisas caminham na direção de garantir bem-estar aos amigos de pelos”, reforça Tiago. 

É também por garantir mais longevidade aos animais — e pela melhora dos equipamentos de diagnóstico — que a oncologia, na visão de Daniela Mosna Xavier, vem sendo cada vez mais necessária nesse universo. “É entre os cães e gatos idosos que o câncer mais aparece e a busca por tratamento por parte das famílias têm impulsionado a evolução da especialidade”, informa, acrescentando que os mais diferentes tipos de câncer podem atingir os animais. “É importante frisar que qualquer nódulo deve ser investigado”, finaliza.  

Bem mais próxima do dia a dia dos bichos de estimação está a especialidade de Leandro Zaine, a nutrição. “A área desenvolveu-se bastante graças à indústria de rações, cuja segmentação também contribuiu para garantir um grande ganho na saúde e na longevidade dos pets”, explica. Segundo o especialista, ainda falta consciência de que a alimentação adequada é a melhor forma de cuidar do animal, especialmente quando este está tratando outros problemas de saúde. Mais uma vez, é a orientação profissional que pode fazer a diferença. “O especialista está apto a solucionar todas as dúvidas da família sobre o que pode e o que não pode na hora da refeição, assim como em relação à quantidade e balanceamento adequados”, salienta Leandro. 
 

A medicina veterinária através do tempo

Em 2011, a Medicina Veterinária completou 250 anos: em 1761, Claude Bourgelat  criou a primeira escola da profissão no mundo, em Lyon, na França. Mas, desde que os animais passaram a ser domesticados, surgiu a necessidade de tratá-los.  

De acordo com o Conselho Federal de Medicina Veterinária, a história da profissão é bem antiga: o Papiro de Kahoun, encontrado no Egito, em 1890, descreve métodos de tratamento, prognóstico e diagnóstico em várias espécies animais, datados de 4000 a.C.. Outros documentos sugerem que a prática da Medicina Animal remonta a 2000 anos a.C., em regiões da Ásia e da África, do Egito à Índia Oriental. Os códigos babilônicos de Eshn Unna (1900 a.C.) e de Hammurabi (1700 a.C), já fazem referência à remuneração e às responsabilidades dos “Médicos dos Animais”. 

As primeiras curas de bichos, na Europa, foram atribuídas aos gregos, no século VI a.C.: as pessoas que exerciam essa função ocupavam cargos públicos e recebiam a designação de hipiatras. Há registro, também, de pesquisas sobre doenças animais realizadas por romanos. Já o primeiro tratado enciclopédico é originário de Bizâncio (hoje Istambul) e data de meados do século VI, já na era cristã: o “Hippiatrika”, feito com a contribuição de diversos autores,  tratava da criação dos animais e suas doenças. O documento reunia 420 artigos, dos quais 121 eram de autoria de Apsirtos, considerado o pai da Medicina Veterinária no mundo ocidental, a partir dos helenos.
Os princípios fundamentais de uma Medicina Animal racional foram estabelecidos na Espanha, no reinado de Afonso V de Aragão, e culminaram na criação do “Tribunal de Proto-albeiterado”, pelos reis católicos Fernando e Isabel, constituído com o intuito de examinar os candidatos ao cargo de “albeitar”, denominação derivada do EB-EBB-BEITHAR, nome de origem árabe do mais famoso médico de animais da Espanha. Na Europa, antes da criação das primeiras escolas de Medicina Veterinária, o que ocorreu a partir da iniciativa de Claude Bourgelat , os que exerciam empiricamente a Medicina Animal eram denominados Marechais-ferradores, nos países latinos; Rossartz, na Alemanha, e Ferries, na Inglaterra. A partir da segunda escola de veterinária do mundo, a Escola de Alfort, em Paris, fundada em 1766, outras foram criadas  em Viena, (1768), Turim (1769), Copenhagen (1773) e outras localidades. No final do século XVIII, havia 19 escolas, entre elas, 17 em pleno funcionamento. 

Manipulados para os pets

O uso de medicamentos manipulados para tratamento dos animais de estimação já é uma realidade há mais de uma década, período em que os veterinários vêm aderindo, cada vez mais, a esse recurso, capaz de atender às necessidades dos pets de maneira personalizada. À frente da Fórmula Animal, a farmacêutica homeopataChristiane Tin Carlini Kohn explica que nem sempre ministrar um medicamento é tarefa fácil para os donos dos bichinhos. “Na tentativa de resolver o problema, é comum fracionar ou solubilizar o comprimido, o que nem sempre é uma prática segura ou recomendada, podendo comprometer o tratamento”, acrescenta. Além de permitir a associação de mais de um fármaco na dose correta, a manipulação possibilita o desenvolvimento de medicamentos em formatos variados, como biscoitos, pasta oral, xarope ou gel, facilitando a aplicação. “Podemos, também, associar sabores diferenciados que agradam ao paladar do animal, como carne, frango e até chocolate”, destaca Christiane, reforçando que tudo isso dependerá das necessidades de cada bicho. Segundo a especialista, é importante ressaltar que os animais não devem ser medicados sem a prescrição de um veterinário.

 

 

 

* Publicado em 30/10/2014

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