O poeta do design
Roque Frizzo consegue ir além da beleza e da funcionalidade, criando móveis que carregam histórias e despertam a emoção
Natural de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Roque Frizzo é especialista em ter boas ideias e dar forma a elas. As coleções assinadas pelo arquiteto e designer são verdadeiras obras de arte, aclamadas pela crítica e disputadas pelo público. De certa maneira, é fácil entender a razão de tanto encantamento. Além da questão estética e da funcionalidade, o artista consegue contextualizar a peça, elaborando um conceito cheio de simbolismos e de poesia. Assim, uma poltrona se torna muito mais do que um móvel feito para se sentar. O objeto passa a contar uma história, cria identificação com o consumidor e tem a capacidade de emocionar. Em visita recente a Ribeirão Preto para divulgar um de seus lançamentos, a mesa Serra Pelada, o renomado profissional conversou com a também designer, Laura Wadhy Benedini Gabriel, da Casa de Família Móveis. Em um bate-papo descontraído, o artista falou sobre os bastidores do processo criativo, os elementos que o influenciam e os projetos que se destacaram ao longo da carreira.
Laura: Antes de entrar para o universo da arquitetura e do design, você cursou Biologia. O que te levou a fazer essa troca?
Roque: O desenho sempre foi parte importante da minha vida. Desde muito pequeno, fazia histórias em quadrinhos e diversas ilustrações. Como eu tinha alguns biólogos na família, circulava por esse universo, diariamente, e acabei me interessando pelo assunto. Antes mesmo de entrar para a faculdade, participava informalmente de atividades de campo com os alunos da Universidade de Caxias do Sul. Eu era uma espécie de mascote para a turma. Surgiu, então, o desejo de unir essas duas áreas que eu tanto gostava: decidi que seria ilustrador de livros de Botânica. Iniciei o curso, mas, por causa do Serviço Militar, parei no segundo semestre. Esse tempo fora me fez perceber que o caminho que eu tinha escolhido, talvez, não fosse o melhor para mim. Nessa mesma época, comecei a trabalhar para uma marcenaria, desenvolvendo projetos para arquitetos e decoradores. Acabei me identificando bastante com a profissão. Foi aí que desisti da Biologia como carreira acadêmica e, aos 22 anos, fui para a faculdade de Arquitetura.
Laura: Assim como aconteceu com a Biologia, teve alguém na sua família que o influenciou a seguir por essa vertente mais artística?
Roque: No ramo do design não. Minha família tem artistas ligados à área da música. Meu pai e irmão tocavam saxofone, minha mãe e irmã cantam em coral e eu sou baterista.
Laura: Como começou a sua relação com a Saccaro?
Roque: Enquanto ainda frequentava a faculdade, ganhei um concurso nacional de jovens talentos da arquitetura. A sede da Saccaro fica na minha cidade, Caxias do Sul, e a notícia de que um estudante local tinha vencido a competição chegou ao conhecimento dos diretores da empresa. Eles me chamaram para uma conversa e logo veio o convite para atuar no ramo de design mobiliário e desenhar para a marca. O desafio era imenso: tinha que montar uma coleção com a madeira de reflorestamento como matéria-prima. A minha primeira peça é a poltrona Cielo, de 1998. Ela marca o meu nascimento na Saccaro.
Laura: Você tem um carinho especial por essa peça?
Roque: Com certeza. Eu adoro essa poltrona. Tenho uma na minha casa, inclusive. A palavra “cielo” é céu em italiano. Essa criação tem um significado muito forte, mas não vou contar para vocês, pois é algo extremamente pessoal, que prefiro guardar só para mim.
Laura: Depois do sucesso que a Cielo conquistou no mercado, continuou trabalhando com a Saccaro ou a relação com a marca teve idas e vindas?
Roque: Desde o contato inicial, nossa parceria foi constante. A Saccaro possui um estúdio próprio, dentro da fábrica, e conta com alguns designers autônomos, como eu, que também prestam serviço para a marca. As demandas são direcionadas de acordo com o nosso perfil, já que cada profissional tem uma aptidão maior para lidar com um tipo de móvel, com um tema ou com um material específico. A cada semestre, lançamos uma coleção.
Laura: Na parte de Arquitetura, você tem algum projeto que seria compatível com a Cielo no design?
Roque: As minhas realizações na Arquitetura não são tão significativas quanto no design. No meu portfólio, tenho projetos que gostei muito de fazer e outros dos quais me arrependo bastante. Isso é normal em todas as carreiras. Passamos por fases de aprendizado, de amadurecimento. Depois, a gente olha para trás e pensa com espanto: ‘como é que eu pude fazer algo assim?’. Ainda bem que tenho alguns trabalhos dos quais me orgulho. Um deles é um prédio que projetei, logo que me formei, em 2002: o Iandé Residencial, em Caxias do Sul. Outro é o prédio onde está a loja da Saccaro, também em Caxias. São obras realmente diferenciadas.
Laura: Como é o seu processo criativo? Quando está desenhando, o que fica em primeiro plano, forma ou função?
Roque: É a mesma coisa de perguntar o que vem antes, o ovo ou a galinha. Forma e função são essenciais em uma peça, independente da ordem em que elas aparecem no processo criativo. Tenho alguns mecanismos que uso para me inspirar a cada novo trabalho. O primeiro deles é a fotografia, uma das minhas maiores paixões. Fico olhando as imagens na internet de forma aleatória e elas vão me abastecendo de informações. Para mim, uma imagem vale mais do que um bilhão de palavras. O produto também tem que ter trilha sonora. O que estou ouvindo no momento, seja algo mais calmo ou mais agitado, tem um impacto direto na produção. A música me ajuda bastante na elaboração e na apresentação do conceito da peça, etapas que exigem um toque mais poético. Viajar é o terceiro elemento da minha lista. Conheço o mundo inteiro e estive em contato com uma diversidade cultural impressionante. Vir para Ribeirão Preto, ir para o Nordeste do Brasil ou visitar a Europa são experiências que enriquecem meu acervo de referências. Porém, não são apenas as viagens físicas que contam. A mente, por si só, também tem o poder de nos transportar para lugares inimagináveis. Tenho coleções que levam um pouco das características dos destinos que eu, de fato, visitei. Outras foram baseadas em impressões que tive a distância ou até mesmo em delírios da minha imaginação.
Laura: Poderia nos citar um exemplo?
Roque: A Coleção Noronha foi criada na Ilha Bela. Foi lá que eu mergulhei pela primeira vez e tive a oportunidade de contemplar o fundo do mar. Nunca fui até Fernando de Noronha, mas, como Ilha Bela não é tão conhecida no exterior, fica mais fácil comunicar a um estrangeiro que aquela peça que ele está vendo foi inspirada em Noronha. Não que um lugar seja melhor do que o outro. Longe disso, é uma questão puramente estratégica. Desenho para uma marca que tem uma abrangência internacional. Tenho que pensar que o produto vai para todas as partes do globo e que as pessoas precisam compreendê-lo. O móvel deve passar uma mensagem e despertar um sentimento de identificação no cliente.
Laura: Então as suas peças, além da estética e da funcionalidade, contam uma história?
Roque: Sim, essa é a minha proposta. Não trabalho simplesmente com mesas, poltronas, bancos e sofás. O design tem o poder de revelar a história de cada peça. As minhas carregam essa essência no DNA, possuem nome e sobrenome. Lembro que, na época da faculdade, os professores sempre falavam do conceito do projeto. Não dava muita atenção às explicações, queria apenas desenhar. Hoje, consigo entender como essa parte da criação é essencial, o quanto ela valoriza o produto. A mesa Canavial é a primeira peça onde essa minha intenção ficou mais evidente. Foi uma série limitada, de apenas 30 peças, que se tornou um verdadeiro divisor de águas na minha trajetória.
Laura: Qual é a história dos bastidores da mesa Serra Pelada? O que ela tem para nos contar?
Roque: No mercado do design, nós lidamos com demandas. Quando solicitam um trabalho, a marca determina o produto que ela quer, o material que deve ser utilizado e a proposta comercial estabelecida. Na maioria das vezes, esse briefing vem bem detalhado. Entretanto, de tempos em tempos, recebemos uma encomenda com o tema livre. Criar algo sem saber para onde ir é uma tarefa extremamente difícil. Na concepção das coleções anteriores, como a Cobogó, a Canavial e a Noronha, a relação entre o homem e a natureza era predominante. Por isso, comecei a pesquisar imagens sobre o assunto, sem saber ao certo o que estava procurando. Encontrei umas fotos aéreas do desmatamento da Amazônia. Quando os tratores passam para arrancar as árvores, usam correntes que deixam no solo o formato de um anel. Minha experiência na arquitetura logo vinculou essa cena com curvas de nível. De repente, aquele horizonte amplo se reduziu e o produto se materializou na minha mente: uma mesa em formato de cone. Peguei o primeiro papel que vi pela frente, um boleto de pagamento, e fiz o croqui. Mas até aí, era apenas uma mesa em formato de cone. Eu precisava de um contexto.
Laura: De onde veio a ideia de contextualizar a mesa com a Serra Pelada?
Roque: O desenho parecia, de certa forma, com um buraco. Listei os mais famosos do Brasil e então veio o link com a Serra Pelada, que foi completamente escavada pelos garimpeiros até ser interditada. Não estive no local, mas ele, de alguma forma, chegou até mim. Assim, o ciclo se fechou. O tampo de vidro é o lago que se formou na região por causa da perfuração do lençol freático. O tipo de madeira escolhido, o multilaminado de pinus, também é cheio de simbolismo. Como você pode ver, o processo de criação não é linear. É uma somatória de fatores que acontece das maneiras mais surpreendentes e inesperadas possíveis. Nesse caso, o catalisador foi a foto da Amazônia, que me remeteu a Serra Pelada. Com o caminho a seguir definido, estudei um pouco mais e encontrei as belas fotos de Sebastião Salgado e o documentário de Vitor Lopes, que me auxiliaram na construção do conceito final. Às vezes, demoramos dois, três meses no desenvolvimento de uma peça, mas a conclusão leva apenas 10 minutos.
Laura: Qual foi a reação dos diretores da Saccaro quando você apresentou o projeto?
Roque: Eles adoraram. Esse suporte que a empresa dá para o profissional é essencial. A Serra Pelada é uma mesa de grandes dimensões. São 3,2 metros por 1,30 metros, vários anéis e um tampo de 160 kg de vidro. É complicado encontrar pessoas motivadas a realizar algo dessas proporções. A Saccaro tem essa visão diferenciada, investe na ousadia e confia no talento da equipe. Não adianta nada o designer sonhar e idealizar uma peça se ele não encontrar alguém para tirá-la do papel.
Laura: Você desenha à mão ou utiliza os recursos tecnológicos?
Roque: O desenho é um ingrediente muito importante nesse processo. Todos os elementos que citei anteriormente, como a música, as viagens, a fotografia, são materializados através dessa forma de comunicação que é o desenho. Sou de uma geração que entrou na faculdade com grafite, nanquim e papel vegetal, e saiu com um mouse. Peguei justamente a transição do tradicional para o tecnológico. É uma fase complicada, porque você não domina muito bem nem um método, nem o outro. A evolução foi rápida e essa modernidade trouxe vários benefícios. Por exemplo, na primeira viagem internacional que fiz a convite da Saccaro para conferir tendências, em 1999, não tinha máquina digital, celular, filmadora e tablet. Voltei com a mala lotada de catálogos das empresas que visitei. Era a única maneira de me apropriar daquele conhecimento. Hoje, quando vou a uma feira ou mostra de design, não preciso me preocupar. Tudo o que eu vi no evento está devidamente registrado e disponível na internet. Antes desses, as pesquisas eram difíceis, mas, talvez, mais precisas. Agora, é tudo muito difuso, a uma velocidade tremenda. Resumindo: esses recursos trouxeram vantagens inegáveis ao nosso modo de trabalho, porém, para mim, a essência da criação continua a mesma, intacta. Sou um profissional moderno, que ainda desenha à mão.
Laura: De vez em quando acontece aquele apagão? A inspiração some?
Roque: Com certeza. De vez em quando uma nuvem negra resolve parar bem em cima da sua cabeça e a criatividade simplesmente desaparece. Tentar montar um projeto na marra não dá certo. É preciso dar uma pausa, respirar, fazer outra atividade e as ideias fluem melhor. A poltrona Moebius foi um caso desses. Estava em um momento de pouca produtividade e precisava desenvolver uma peça que veio bem especificada pela marca. Eles queriam um ninho, com um visual despojado e repleto de referências já estabelecidas. Mesmo assim, não conseguia fazer absolutamente nada. Passaram-se meses e as cobranças vieram, o que é normal, visto que trabalhamos com cronogramas. A indústria não pode parar e esperar até que você tenha uma grande inspiração. Um dia, peguei algumas tiras de EVA, comecei a trançá-las e surgiu o tão esperado ninho. Levei a maquete imediatamente para o diretor comercial e deu certo. Já aconteceu, também, de ter que abortar um projeto em andamento. Não posso querer que as pessoas se encantem por um produto que nem eu mesmo, que criei, gosto. Temos que ter muito cuidado com isso, já que a nossa obra é a nossa imagem.
Laura: O design está mais acessível, mais presente na nossa vida?
Roque: Sim. O mercado brasileiro, antes completamente restrito, foi aberto para o exterior e o público se esbaldou. Em contato com outras culturas, passou a valorizar conceitos diferentes, que não prestava atenção até então, como o design. Há décadas, já tínhamos profissionais muito competentes nesse ramo, mas não existia tanta divulgação, tanto esclarecimento. Hoje, os consumidores, dos mais variados tipos, conseguiram entender que os produtos com design são singulares, pois estão ligados a valores e não a preços. As peças têm durabilidade ímpar, pois o cliente não quer se desfazer algo tão especial. É uma questão de apego, de afeto. Os móveis viram até herança familiar, passando de pai para filho. Isso é o mais valioso para mim, essa perpetuação do nosso trabalho.
Laura: Qual é a sensação de ter uma peça premiada mundialmente?
Roque: Encaro as premiações como um reconhecimento do meu trabalho. Às vezes, acertamos em cheio em uma criação, o que acaba chamando a atenção do público e da crítica especializada. Claro que é muito gratificante receber elogios e saber que as pessoas gostam do que você criou, mas esse não é meu foco. Não produzo as minhas peças pensando nos concursos ou nos elogios que vou receber. Quando isso acontece, é algo natural, o que me deixa muito feliz.
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Ibraim Leão