O ponto mais altos das américas
Confira os relatos e as imagens da escalada, realizada entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013
O engenheiro ribeirãopretano Gabriel de Souza Berestinas alcançou o cume do monte Aconcágua, o ponto mais alto das américas no dia 9 de janeiro. Confira os relatos e as imagens da escalada, realizada entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013.
- Qual foi o momento mais difícil da expedição?
Gabriel: “Nesta expedição tiveram muitos momentos difíceis. A exaustão física e psicológica é muito grande, o que nos dá força é a união que o grupo acaba desenvolvendo e a paisagem que vai ficando mais bonita com a subida. Houve dias em que caminhamos 32km com tempo quente e seco, pouca água e encostas cheias de pedras e poeira. Tiveram noites em claro dentro da barraca, com temperaturas de -10 a -15 graus e ventos de 40 a 60km/h batendo na barraca como se alguém tentasse rasgá-la. Tiveram trechos de subida muito íngremes, que davam a impressão de que iríamos cair de costas, carregando mochilas de 15 quilos e botas duplas pesando 3 ou 4 quilos em cada pé, o que dificulta o equilíbrio. Mas sem dúvida, o dia de ataque ao cume, foi de longe, o pior deles. Após 11 dias de expedição, nossas forças já esgotadas, há alguns dias sem banho, sem ter uma boa refeição e com o psicológico bem cansado, encontrar forças para sair da barraca neste dia foi muito difícil. A saída para o ataque ao cume parte do acampamento Cólera, a 5.950 metros acima do nível do mar, onde o vento e o frio castigam durante a noite inteira. Dormir é quase impossível sem sentir a falta de ar. Acordamos às 2 horas da manhã e iniciamos os preparativos para o longo dia. Vestir-se, montar a mochila e tentar se alimentar, algo difícil de se fazer porque o estômago já não aceita mais nada. Tudo que se faz tem de ser em um ritmo muito lento, porque a falta de oxigênio não permite movimentos mais rápidos. Então, às 5 horas, partimos com uma equipe de sete pessoas rumo ao cume, sendo cinco integrantes do grupo brasileiros (já que dois, dos sete, já haviam desistido antes desta data), um guia brasileiro e um guia argentino. Às 6h50, chegamos à primeira parada, chamada de ‘Plaza Independência’, a 6.300 metros. Neste momento, dois integrantes estavam passando mal e bem desanimados, mas com o apoio do grupo e um pouco de ‘balas de energético’, conseguiram continuar a caminhada. No final da passagem do ‘El Gran Acarreo’, passagem lateral da montanha para chegar a ‘La Cueva’, a 6.650 metros, um dos integrantes brasileiros começou a passar mal, com indícios de ‘Mal de Altitude’, vômito, dores de cabeça e perda de equilíbrio, e teve de iniciar a descida de volta. O restante do grupo e eu paramos no inicio da temida Canaleta para comer algo e nos hidratar, neste momento, com todos já muito cansados, era possível ver o cume a pelo menos 3 ou 4 horas a nossa frente. Naquele ponto, o raciocínio já estava muito debilitado, mesmo assim, a ânsia de chegar ao cume tomava conta do corpo liberando energia para continuarmos. Após uma longa, cansativa e lenta subida, às 14h34 minutos do dia 09/01/2013, chegamos ao cume do Monte Aconcágua, a 6.962 metros acima do nível do mar, o ponto mais alto das Américas. Ficamos cerca de 15 a 20 minutos no topo, com um misto de choro, risos e sentindo cada vez mais a altitude consumir nossa mente e corpo. É incrível como o corpo vai parando de funcionar pela falta de oxigênio! Durante a volta, tivemos mais dois integrantes com início de mal de altitude e muita dificuldade para nos manter em pé e caminhar. Chegamos exaustos de volta ao acampamento Cólera, aproximadamente às 22h00 horas, totalizando 17 horas de caminhada árdua, sem oxigênio e há dias sem uma boa refeição, mas no final, voltamos com um sentimento de desejo realizado e, sem dúvida, trazendo em nossas memórias, imagens e sentimentos inesquecíveis”.
- Houve algum momento em que passou pela sua cabeça não completar a escalada?
Gabriel: “Durante a subida do acampamento Plaza Canadá, a 5.050 metros, para Nido de Condores, 5.380 metros, após uma horrível noite sem dormir, muito frio e cansado com uma mochila de 15 quilos, achei que não conseguiria e pensei em desistir. Muitas coisas passam pela cabeça durante este momento, então você acaba lembrando de pessoas importantes na sua vida e do incentivo dado por elas, e como elas reagiriam caso desistisse. Nessa hora, já por último na fila, uns 15 metros atrás do grupo, conheci um senhor, montanhista Argentino, apelidado de ‘Tchetcho’, uns 55 anos aproximadamente, que me deu muitas dicas sobre a montanha e me fez esquecer o cansaço e continuar caminhando, sem dúvida foi uma ajuda psicológica muito boa”.
- O que viu de mais surpreendente?
Gabriel: “No acampamento base ‘Plaza de Mulas’, a 4.200 metros, existe um senhor chamado Miguel Doura, Argentino, montanhista e artista plástico, com vários prêmios pelo mundo, que detém o título no Guiness Book como o proprietário da galeria de Artes mais alta do mundo, pintando maravilhosos quadros até mesmo no cume do Aconcágua”.
- Foi necessário usar algum equipamento especial? (Balão de oxigênio, por exemplo)
Gabriel: “Foi necessário o uso de óculos para alta montanha, botas duplas para baixa temperatura, roupas especiais de pluma de ganso, luvas do tipo pinguim, jaquetas e calça corta vento, roupas estas difíceis de serem encontradas em nosso país. As barracas, fogareiros e isolantes térmicos, são especiais para uso em montanha. Não é necessário o uso de balão de oxigênio, contudo, se carrega medicamentos como o Diamox para amenizar o mal da montanha, caso alguém sinta os sintomas, como foi o caso de um dos integrantes”.
- Pra quem pretende fazer uma viagem como a sua, qual dica você dá?
Gabriel: “Primeiramente, uma viagem como esta não pode ser planejada como uma viagem qualquer, vai exigir um pouco mais de tempo e dedicação. No meu caso em particular, a preparação começou um ano antes. Para começar, um bom plano de treinamento físico é importante. Corrida, natação e musculação ajudam muito, mas não são suficientes, ao meu ponto de vista, é necessário mais. Como o Brasil não tem montanha alta para treinos, algumas travessias podem servir como preparo. A Serra Fina, Itaguaré – Marins, Teresópolis – Petrópolis, entre outras, vão ajudar não só o preparo físico, como também o psicológico. Subir montanhas como Agulhas Negras, Pedra da Mina, Pico da Bandeira também vale”.
- Qual e onde será a sua próxima aventura. Já tem algo em mente?
Gabriel: “Ainda nada definido, mas tem outras montanhas do circuito sete cumes (a mais alta de cada continente), que pode ser minha próxima aventura, talvez o Kilimanjaro, ou o trekking no campo base do Everest”.
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Texto: Bruno Silva
Fotos: Arquivo Pessoal