O prazer do tempo livre

O prazer do tempo livre

Diante da rotina estressante da vida moderna, algumas buscam a realização pessoal em atividades prazerosas, sem compromisso com o sucesso ou retorno financeiro

Em um mundo cada vez mais caótico, com cobranças extremas e nível de estresse elevado, é essencial relaxar e desprender-se de problemas que se acumulam no dia a dia. Procurar uma atividade que traga prazer parece ser uma ótima forma de reabastecer a energia. Especialistas recomendam que, para ter uma vida feliz, é preciso buscar algo que traga satisfação pessoal, sem nenhum compromisso com o sucesso ou o retorno financeiro. O hobby, que pode ser traduzido como um passatempo, significa cultivar ações que proporcionem prazer individual, desenvolvidas em tempo livre, praticadas constantemente e com muita dedicação.

Desde muito cedo, a tinta é boa companheira de Paulo Lapini. O diretor superintendente da faculdade Moura Lacerda, professor de administração e artista plástico nas horas vagas, começou a tomar gosto pelas artes ao visitar galerias na juventude e, desde então, seu universo é rodeado de pinturas que revelam a expressão de um artista apaixonado pelo que faz. Em um ateliê nos fundos de casa, revelou que utiliza a pintura para aliviar o estresse, sempre junto com uma boa música clássica. Quando começa a praticar seu hobby, não quer mais parar. “Uso a pintura como válvula de escape e relaxamento. Certa vez, comecei a pintar um quadro às 7h e terminei às 22h. Não parei porque me envolvi muito”, comentou o professor. Premiado em segundo lugar na Semana de Portinari, o artista pretende pintar 30 telas e doar toda a renda obtida com a venda desses quadros à APAE de Ribeirão Preto. “Quando estou diante das telas, transporto-me para o quadro, como se eu estivesse lá. Imagino a paisagem, a fumaça, a árvore. Arte é vida. A vida é uma grande arte”, declara.

Apesar do sonho de se tornar piloto de avião, a vida reservou para Sílvio Tucci Júnior a tarefa de cuidar dos pacientes do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. O chefe da divisão de Urologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) nutre paixão, também, pela fotografia, viajando pelo mundo em busca de lugares que farão parte de sua imensa coleção de memórias. Após a conclusão de um curso no New York Institute of Photograph e muita leitura para se aprimorar no assunto, viu a paixão por esta arte crescer cada dia mais. “Adoro colocar a câmera na mochila, bater perna e explorar detalhes. Gosto do aspecto estético e das memórias. Viajo duas, três vezes quando abro o arquivo de uma foto, mas é difícil descrever o sentimento”, elucida o médico.

“Adoro colocar a câmera na mochila, bater perna e explorar detalhes”, afirma o médico

A professora de inglês Renata Brancaleoni começou a praticar montanhismo há cerca de 10 anos. De lá para cá, caminhar com uma mochila, levando apenas o essencial e desbravando lugares pelo mundo se tornou uma atividade prazerosa. Segundo ela, o esporte é ideal para compartilhar experiências com outras pessoas. “É um desapego do dia a dia. Fazer montanhismo é sair da zona de conforto”, completa. Renata já percorreu regiões como Dolomitas e Gran Paradiso — parte italiana dos Alpes — cruzou a fronteira do Vietnã e China, na região de Sapa, fazendo trekking. Com caminhadas de longa distância, cumpriu o percurso de Santiago (Espanha) e a Via Francígena — antiga estrada percorrida na Idade Média pelos peregrinos da França até Roma, na Itália. Caminhou, também, de St. Bernard, passando pela Suíça, até Siena, na Itália. “Sinto uma sensação de liberdade indescritível. É como se os detalhes fizessem mais sentido. É um esporte de superação não só física, mas psicológica também. Às vezes, penso que não darei conta, mas o limite está muito além do que penso”, destaca a professora.

“Fazer montanhismo é sair da zona de conforto”, declara Renata

Natália Moreno também gosta aventura. A gerente administrativa de uma agência bancária em Ribeirão Preto começou a se interessar pelo paraquedismo há cerca de quatro anos, em um evento realizado na cidade. Um amigo a convidou para saltar pela primeira vez e, poucos meses depois, fez curso para aprender mais sobre o esporte, que trouxe inúmeros benefícios a sua vida pessoal e profissional. “Muitas pessoas me perguntam qual é a sensação. Diria que é algo completamente diferente de qualquer outro sentimento, uma mistura de liberdade, desafio, felicidade e superação. Quando fiz o primeiro salto, um amigo me alertou que o maior perigo seria ficar viciada no esporte, e foi justamente o que aconteceu. O paraquedismo já faz parte de minha vida, não consigo ficar sem”, enfatizou.

Natalia garante que o paraquedismo já faz parte da sua vida

Saúde mental

Bordini afirma que, há muito tempo, sabe-se que a ocupação — preenchimento do tempo da existência — com algo que tenha alguma finalidade é muito positiva para o bem-estar, tanto mental quanto físico, pois se ocupar com o que traz prazer proporciona um equilíbrio existencial. Executar tarefas que não implicam em ganhar dinheiro, ter sucesso ou vencer é extremamente benéfico. “Não podemos tirar a importância de um hobby no dia a dia, como se apenas aquilo que produzimos tivesse relevância. A noção de produtividade está ligada a uma cultura fundamentalmente mercantilista. O hobby é prazer, portanto, precisa fazer parte da nossa existência”, acrescenta. 

O psicólogo tem como hobby tocar violino. Começou a estudar música aos 6 anos, e na adolescência, integrou a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, além de ter sido bolsista do Festival de Inverno em Campos do Jordão. Quando se formou em Psicologia, passou a adotar o que antes era profissão como um hobby. A pedido de amigos, ainda participa de eventos e concertos. “Tocar me distrai da parte chata da vida. É o lugar onde não tenho compromisso com aquilo que o mundo espera de mim. Este é meu compromisso comigo mesmo”, reforça André.

É comum associar a velhice a estar sentado em um sofá ou em frente à TV. Porém, para uma vida saudável, os bons hábitos devem ser cultivados frequentemente, mantendo corpo e mente ativos. Só neste ano, o professor de administração e ciclista Antônio Marcelo Brandão participou de mais de 20 provas, subindo em dezenas de pódios.  Aos 60 anos, comprova que a idade não é obstáculo para conquistar metas. “Para ser saudável, é preciso também ter resultado. Atualmente, na vida profissional, existem muitas frustrações por objetivos que não são alcançados. Quando se pratica um esporte em nível de competição, a frustração é descarregada. Sempre que se cumpre uma meta no esporte, a satisfação compensa todos os tropeços”, continua. 

Brandão já participou de mais de 20 provas somente neste ano, que o levou a superar limites

Curiosidade

Alguns idosos neozelandeses decidiram investir em um passatempo inusitado. Em vez de praticarem esportes, meditação, dança ou leitura, decidiram construir um “Clube de Caixões” para amenizar a solidão na terceira idade. Eles se reúnem com frequência para conversar e dar risada, enquanto constroem seus próprios caixões. A enfermeira Katie Williams montou um grupo na garagem de casa em 2010. “O clube proporciona aos idosos momentos de alegria, como ouvir música e tomar um bom chá”, comentou Katie ao jornal britânico “The Guardian”. A ideia se espalhou por todo país e várias cidades da Nova Zelândia, agora, contam com clubes semelhantes.



Ocupando o tempo

Segundo André Bordini, psicólogo e psicoterapeuta, especialista em análise existencial pelo Instituto de Psicologia Fenomenológica do Rio de Janeiro, quando as pessoas se dedicam a algo fora da dimensão profissional, a vida fica mais enriquecedora. Atividades como teatro, esportes, artes, fotografia e literatura tendem a complementar a experiência existencial, diante da extrema exigência do mundo contemporâneo. “É preciso ganhar muito dinheiro, estar sempre bem, ser feliz, ter família, amar e ser amado, fazer sucesso. A vida é muito pesada. Além disso, nunca fomos tão livres para fazer escolhas. Talvez estejamos ansiosos, justamente, porque a liberdade traz consigo um leque de possibilidades que, às vezes, distrai, confunde e angustia”, avalia o especialista.

Segundo André, dedicar-se a algo fora da dimensão profissional torna a vida mais enriquecedora

Relatos de um pintor

“Criar é uma vocação profunda que brota da imensidão da alma do ser humano. É através da pintura que penetro profundamente na essência das coisas até extrair-lhes um raio de luz, buscando seu íntimo significado e obtendo as reais formas. Pintar a natureza é expressar os sentimentos despertados por ela, é através da força da alma que me integro ao universo das cores quando executo minhas obras. Não me preocupo com estilismo, pois a cada tela que crio, deixo minha imaginação correr livremente entre imagens e cores, em um estado de espírito calmo, pois tentar definir estilo é para meu ser acorrentar a liberdade e a criatividade. Meu objetivo nesta existência é lançar sementes nos campos indefinidos do futuro para que o artista de amanhã tenha como meta não ele próprio, mas algo superior a si mesmo.” Paulo Alencar Lapini.



Texto: Bruna Romão

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