O que dizem as urnas

O que dizem as urnas

Cientista político Luiz Rufino avalia o cenário eleitoral que determinou a reeleição de Duarte Nogueira em Ribeirão Preto

As eleições de 2020 foram marcadas por protocolos atípicos, em função da pandemia de Covid-19. Máscaras, álcool em gel, debates sem plateia e uma série de exceções determinaram a campanha política, que, em Ribeirão Preto, teve seu fim com o resultado do segundo turno das eleições, em 29 de novembro. Reeleito prefeito, Duarte Nogueira (PSDB) conquistou 63% dos votos válidos. Embora tenha saído vitorioso pela maioria nas urnas, Nogueira não foi a escolha da maioria: o número de pessoas que não se posicionaram na cidade (entre votos anulados, brancos e abstenções) ultrapassou o do candidato vitorioso, sendo 197.352 ante 154.428 votos. “É como se nesse momento os eleitores resolvessem ficar calados. O silêncio das urnas levanta suspeitas e até insegurança, especialmente para o vencedor”, avalia o cientista político Luiz Rufino, que, na entrevista a seguir, discorre sobre o cenário ribeirãopretano e avalia o resultado das eleições municipais de 2020.

Como você observou a disputa entre Duarte Nogueira e Suely Vilela no segundo turno das eleições em Ribeirão Preto?

Excluindo os votos brancos, nulos e abstenções, Duarte Nogueira obteve 63% dos votos válidos contra 37% de Suely Vilela numa eleição marcada pelo uso da máscara, do álcool gel, de debates sem público — às vezes sem candidato, numa campanha curta e com um alto índice de abstenção que superou a votação de Nogueira. Ausentes, somados aos votos brancos e nulos, correspondem a mais que o dobro dos votos de Suely. A verdade é que o pleito municipal não empolgou quase ninguém e ainda despertou a desconfiança dos eleitores, tendo em vista os ataques de hackers ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a demora nas apurações do primeiro turno e as dúvidas lançadas sobre a vulnerabilidade de um sistema que não é auditável.

O que a vitória de Duarte Nogueira na reeleição representa para a cidade?

Entre o candidato que já era conhecido e a candidata desconhecida pela maioria dos eleitores, os ribeirãopretanos cautelosamente optaram pelo primeiro — ao menos, Nogueira é um “mal” já conhecido. No entanto, é preocupante o fato de a abstenção superar a votação de Nogueira e que ausentes, somados aos brancos e nulos, correspondem a mais que o dobro da votação de Suely.

A abstenção em Ribeirão Preto subiu entre o primeiro e segundo turno. No primeiro, já havia sido recorde. No segundo, o número aumentou. Isso pode significar falta de confiança na política?

É como se nesse momento os eleitores resolvessem ficar calados. O silêncio das urnas levanta suspeitas e até insegurança, especialmente para o vencedor. Tudo leva a crer que a maioria dos eleitores se colocaram na defensiva, pois não encontraram nos postulantes a cadeira do Palácio Rio Branco a qualidade de alguém, de um partido, no qual os eleitores pudessem exprimir-se verdadeiramente.

A soma de abstenções, votos nulos e votos em branco superou a quantidade de eleitores que votaram no prefeito eleito na disputa do segundo turno em Ribeirão Preto. Como isso pode impactar o mandato do prefeito eleito?

Talvez seja o momento de Duarte Nogueira se preocupar com o que esses eleitores pensam a seu respeito e a respeito da política. Um político depende da opinião alheia e nada ganha ao negligenciar a maneira como as pessoas o veem. Para quem pretende um futuro político, não é aconselhável considerá-lo garantido nas condições de alta rejeição que Nogueira administrou em seu primeiro mandato. Quando um político não se preocupa como as pessoas o veem, está deixando que os outros decidam isso por ele. 

A Câmara Municipal teve parte renovada: foram reeleitos 14 vereadores e oito terão o primeiro mandato. Como deve se configurar a relação do Legislativo com o prefeito nesse segundo mandato?

A configuração, a priori, das legendas que compõem o novo mandato da casa do povo tende para uma Câmara bem mais fragmentada dentro dos espetros ideológicos. Em política não existe uma cartilha a ser seguida, pois sendo da razão prática, cabe ao executivo a tarefa de compreender que os sistemas políticos seguem um padrão de ajustes nos erros cometidos no primeiro mandato. 

Para o Legislativo, três candidaturas coletivas foram eleitas. Como você vê esse modelo?

Do ponto de vista legal ainda não possui validade. Do ponto de vista moral, todo mandato tem por princípio a representatividade e isso não é nem de direita nem de esquerda, é quase que orgânico. Um vereador deve representar a coletividade de votos que ele obteve. Contudo, no plano ético, a socialização do mandato conduz a substituição do cidadão como portador de direitos e deveres por um coletivo ainda sem direitos e deveres garantidos pela legislação. As consequências desse ajuste na ferramenta de representação pode gerar colaboradores que venham a tomar decisões sem o risco das consequências das mesmas, simplesmente por não colocarem a própria pele em risco.

Na capital, Bruno Covas, candidato apadrinhado pelo governador João Doria, venceu Guilherme Boulos, liderança de esquerda. O que essa vitória representa para o estado?

Tanto no caso do Covas em São Paulo, assim como o de Duarte Nogueira, em Ribeirão Preto, demonstram a hegemonia de mais de 20 anos no poder. Assim como a manutenção de quadros do PSDB para a disputa do governo do Estado em 2022. 

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