O que estamos ensinando à nova geração?
Natural de Colina, Fernanda Gontijo Jorge é especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e presta atendimento também em Ribeirão Preto
Os conhecimentos que vêm sendo apresentados em congressos, assim como minha própria experiência no consultório, vêm me mostrando que nunca houve uma geração de crianças e de adolescentes tão triste quanto a atual. O crescente número de suicídios entre os grupos mais jovens é um dado de realidade que ajuda a comprovar a conclusão dos pesquisadores. Certamente, essa tristeza toda, que chega à depressão, está vinculada à postura dos pais, diante de uma sociedade imediatista e consumista.
Os filhos e alunos da atualidade estão viciados em receber um número excessivo de estímulos para sentir certo prazer, o que gera crianças e adolescentes intolerantes e superficiais. Para reverter essa tendência, é preciso que se discuta a maneira como a educação desses jovens está sendo conduzida — especialmente em casa, mas também nas escolas.
Crianças e adolescentes precisam ser estimulados a se aventurar, a ter contato com a natureza, a se encantar com a astronomia e a deixar um pouco de lado a TV, o tablet e os smartphones. É necessário incentivar que eles aceitem estímulos longos, profundos e estáveis, diferente daqueles encontrados nas redes sociais, por exemplo. Isso só é possível quando nós, na condição de pais, também conseguimos desconectar um pouco, principalmente aos finais de semana, e nos dedicarmos, fundamentalmente, aos filhos. Durante a semana, reservar o espaço possível na rotina para dedicar à família — mesmo que sejam 15 minutos, mas de forma íntegra — também ajuda a estabelecer uma relação mais saudável com as crianças e os adolescentes, o que, certamente, irá refletir na forma com que eles se relacionarão com o mundo no futuro.
Para criar intimidade com os filhos, os pais devem cruzar seu mundo com os deles, e não apenas atuarem como manuais de regras a serem obedecidas. Não creio que seja o melhor caminho, também, apenas criticar comportamentos e apontar falhas. É preciso deixar que as crianças entendam que os pais também erram, fracassam, enfrentam dores, etc, mas aprendem a lição e seguem em frente. Sendo exemplos, os pais ajudam os filhos a criarem arquivos saudáveis poderosos em sua mente, memórias capazes de levar crianças e adolescentes a trabalhar dores, perdas e frustrações. Do mesmo modo, parabenizar os acertos e as atitudes inteligentes também tem um efeito extremamente positivo.
Nesse novo conceito, não cabem, também, escolas que seguem modelos antigos, cartesianos, focadas apenas em ensinar raciocínio e pensamento lógico, sem se ocuparem das habilidades sócio-emocionais. Bom ter cuidado, ainda, com o excesso de aulas e de atividades agendadas. É preciso reservar tempo para as brincadeiras, para exercer a criatividade e para ficar à toa também — por que não? Hoje em dia, as crianças são bombardeadas por informações por todos os lados, nem sempre acompanhadas de conhecimento. Nesse sentido, limites devem ser estabelecidos.
Tudo isso começa no amadurecimento emocional dos próprios pais, que precisam entender o real sentido e a responsabilidade que esse papel exige. Aquietar a própria mente e buscar o equilíbrio emocional pode ser um bom caminho para colaborar para a reversão da triste tendência já verificada, de ter uma sociedade formada por crianças e por jovens tristes.
Foto: Lidia Muradás