O que o ano novo reserva
Especialistas de diversas áreas apontam com propriedade os rumos que Ribeirão Preto deve tomar em 2013
A despeito de todas as superstições que marcam a virada do ano, nada melhor do que planejar e traçar metas para colher resultados positivos ao final do ciclo que acaba de começar. Com os ânimos renovados, é hora de arregaçar as mangas para ver cumprido cada item elencado como prioridade para 2013.
No âmbito pessoal, predominam as promessas em torno da famosa dieta, da atividade física necessária para melhorar a qualidade de vida, de abandonar velhos vícios ou de tornar a poupança mais gorda para, finalmente, realizar um sonho. No entanto, por mais que as metas individuais sejam importantes, são as questões coletivas que determinam o surgimento de uma sociedade mais harmônica e justa. Por isso, é preciso abrir os olhos para as necessidades compartilhadas por todos os cidadãos e cobrar a realização de metas que beneficiem a todos.
Diante do cenário brasileiro, é possível apontar como devem se comportar diversos segmentos que implicam diretamente na vida de cada habitante de Ribeirão Preto. Com uma dezena de temas em mãos — política, economia, saúde, educação, segurança, meio ambiente, agronegócio, comércio, construção civil e mercado automotivo —, a Revide ouviu diversos especialistas para saber o que se pode esperar para a cidade em 2013.
Na política, a perspectiva é de continuidade, de acordo com a avaliação do cientista político Luiz Rufino. “Nos primeiros 100 dias de governo, vamos constatar mais do mesmo. A prefeita vai assumir o novo mandato com a imagem pronta. A Câmara dos Vereadores, que deveria fiscalizar, ser um freio, está cooptada com o Executivo. Portanto, Ribeirão Preto deve continuar com a tradicional forma de fazer política”, afirma Rufino.
O cientista político explica que, hoje, o Brasil — e isso se reflete em Ribeirão Preto — vive uma “democracia autoritária”, pois há uma subversão dentro da legalidade democrática. Faz-se uma pesquisa de diagnóstico para traçar estratégias, mas nada é efetivamente aplicado e comunicado. A distribuição do secretariado, por exemplo, nada mais é do que a partilha do bolo, segundo Rufino, sem a criação de um quadro técnico, como deveria ser. Dessa forma, o cientista político não vê uma racionalização democrática, o que acredita que deva acontecer somente em 20 ou 40 anos. “Por outro lado, o governo municipal tem o PT, do governo federal, na base de apoio, o que representa uma boa oportunidade para incrementar os cofres públicos”, analisa.
Do ponto de vista da oposição, não lhe parece que vá haver muita consistência. “Poderia haver uma oposição de verdade, mas não vejo isso. É preciso criar uma estratégia montada com comunicação, mas isso não acontece na prática”, pontua o especialista.
Esse cenário estagnado precisa mudar, se houver a intenção de oferecer uma educação de qualidade em Ribeirão Preto, segundo a doutora em Educação Escolar e professora do Programa de Mestrado em Educação do Centro Universitário Moura Lacerda, Alessandra David. Uma das necessidades que a professora percebe no sistema educacional ribeirãopretano é a realização urgente de concurso público para a direção das escolas municipais. “A prática já é adotada em municípios bem menores do que o nosso, onde estão conseguindo uma gestão mais democrática das instituições, o que é crucial, a meu ver, para a elevação do nível do aprendizado e da participação da comunidade nos problemas relativos à escola”, afirma a especialista.
Outra questão que se impõe, conforme Alessandra, é a resolução do impasse para a instalação da escola técnica de nível superior. “A iniciativa traria uma ampliação na oferta de cursos em áreas até então inexistentes no município, possibilitando novas oportunidades para a população estudantil”, destaca, acrescentando que a instalação também contribuiria para alavancar o status de “cidade universitária” que Ribeirão Preto conquistou em razão das instituições de ensino superior estabelecidas no município.
Alessandra espera, por fim, que a gestão municipal trate a educação como área prioritária no governo, que não meça esforços para investir em setores considerados essenciais. “Um dos principais focos deve ser a faixa etária de 0 a 6 anos, que requer escolas de tempo integral que não sejam meramente assistencialistas, mas que ofereçam conteúdos escolares significativos para o efetivo aprendizado, especialmente das camadas menos favorecidas da população, que mais precisam de uma educação de qualidade para uma verdadeira inclusão social”, explica.
Tais ações poderiam contribuir substancialmente para o desenvolvimento social e refletiriam diretamente em questões relacionadas à segurança pública, que apresenta perspectivas paradoxais, segundo Sérgio Kodato, professor de psicologia social da USP de Ribeirão Preto e coordenador do Observatório da Violência e Práticas Exemplares. De um lado, são boas porque a proximidade da Copa do Mundo, em 2014, e as eleições para os cargos majoritários indicam que os candidatos à reeleição, como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e a presidente, Dilma Rousseff, terão que dar respostas efetivas à criminalidade e à onda de violência e vingança circular que ocorrem entre o crime organizado e as instituições policiais. “As previsões são de investimentos maciços em aumento salarial, contratação de efetivos em volume substancial, polícia inteligente, articulada e equipada com tecnologia, sem corrupção. Justiça que funcione e não que ‘solta bandidos’”, ressalta o especialista.
Em contrapartida, Kodato propõe analisar dados econômicos. Segundo ele, o Produto Interno Bruto (PIB) deve aumentar em 2% ou 3%, no máximo. “Se levarmos em conta que, em 10 anos, a população brasileira não só cresceu em 12,3%, mas ampliou a rede de oportunidades, de consumo, de demandas por acesso a serviços e a bens duráveis, o PIB indica menor produção”, afirma. O que implica em menos dinheiro e economia a todo vapor, mais frustração, dor, doenças, drogas, armas, crime organizado e o imaginário do medo — ou seja, a sensação de impotência e de insegurança frente à aproximação da violência e do crime.
O especialista destaca, ainda, que a região deve receber investimentos expressivos, já que os índices de homicídios e de outros delitos em 2012 chegaram a níveis alarmantes. Como nos crimes que foram combatidos prontamente pela polícia ou nos quais as vítimas foram socorridas em tempo hábil houve a colaboração do vizinho que flagrou o ato e o comunicou prontamente pelo número 190, Kodato arrisca mais uma previsão. “A segurança pública deve ser gerida e conquistada coletivamente. O medo e a insegurança devem ser prevenidos coletivamente. Prevejo para 2013 que a comunidade da região irá reconstruir a boa vizinhança, os vínculos comunitários, e trabalhar muito em benefício do bem comum e do futuro, que já chegou. Afinal, o vizinho pode salvar nossas vidas e acredito que vamos cultivar essa solidariedade”, acrescenta.
Apesar do pessimismo de Kodato em relação aos indicadores econômicos, o professor titular do Departamento de Economia da FEARP-USP, Rudinei Toneto Junior, encara com otimismo as perspectivas da área econômica. Para o Brasil, o especialista calcula um crescimento significativamente melhor em 2013, próximo de 4% ao ano. “Esta melhora será uma recuperação natural dos dois anos seguidos de baixo crescimento e da reação da economia, tanto ao conjunto de incentivos dos últimos anos — câmbio mais desvalorizado, forte redução das taxas de juros e desonerações tributárias — quanto à possibilidade de um cenário externo mais favorável”, complementa.
Para Ribeirão Preto, Toneto destaca que o setor sucroalcooleiro deve ter um desempenho mais favorável, gerando mais renda para a região e impactando positivamente na economia do município. A área da saúde, em especial a indústria farmacêutica e de equipamentos médico-hospitalares, também impulsionará a economia. “Essa fatia do mercado deve ter um desempenho favorável, tanto em função da demanda crescente por serviços de saúde, associados a ganhos de renda, envelhecimento populacional e maiores gastos públicos, como, principalmente, pelo forte estímulo oferecido pelo governo com a priorização de compras de fornecedores nacionais”, complementa.
De fato, Ribeirão Preto ocupa uma posição privilegiada entre os municípios brasileiros quando o tema é saúde — além de estar entre as 30 cidades mais ricas do país, segundo dados do IBGE, e de possuir um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) similar ao de países como Reino Unido e Itália. “Na saúde, se compararmos com a média das cidades paulistas, possuímos 40% mais leitos e 20% mais médicos por habitante. Registramos, ainda, uma mortalidade infantil 30% inferior à média nacional”, acrescenta Alexandre Nicolella, professor de economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto FEARP/USP.
Observando os indicadores de saúde e os projetos propostos pela Prefeitura de Ribeirão Preto, Nicolella acredita que haja aumento da cobertura da Atenção Básica de Saúde em 2013, partindo de 32% para valores em direção à meta de 50%. Com essa ampliação, as filas das UBDS devem diminuir. “Espero, também, que seja consolidado o sistema para otimização dos leitos hospitalares, que seja ampliado o Serviço de Atendimento Domiciliar e que a atenção farmacêutica seja personalizada”, afirma o especialista, apostando também na expansão da atenção odontológica.
Impulso ao desenvolvimento
Entre os pilares da economia do município, está o agronegócio. Para este setor, as apostas do especialista Roberto Fava Scare são positivas. Professor de Marketing da FEA-RP/USP e pesquisador do setor, Scare estima uma safra melhor para a cana de açúcar, com aumento de produtividade decorrente dos investimentos na área agrícola nos últimos anos. Um fato marcante de 2013, segundo ele, é a diminuição das queimadas graças ao aumento da mecanização e à adoção de tecnologias no campo.
No caso dos produtores de hortaliças, deve-se notar a enorme pressão que o desenvolvimento imobiliário tem exercido sobre o cinturão verde do município. “Esses produtores têm ficado cada vez mais espremidos entre a cana e o avanço da cidade, em áreas que valorizaram muito e que sofrem o assédio do setor. Neste sentido, os órgãos públicos, principalmente a Prefeitura, devem garantir políticas de distribuição destes produtos”, sugere o professor.
Para Scare, o principal desafio para o produtor, dos fornecedores de cana aos produtores de hortaliças, é a profissionalização. O cenário da região de Ribeirão Preto é promissor, sem dúvida alguma. Porém, a maior pressão de custos e o crescimento das exigências sociais e ambientais vêm acompanhados da necessidade de ser mais produtivo e mais lucrativo. “O produtor deve ter na cabeça a busca por eficiência, não somente nos aspectos relacionados à produtividade, mas também atento à gestão do seu negócio rural”, ressalta o especialista.
Outro grande responsável pelo crescimento da cidade é a construção civil, que, segundo Dirceu Tornavoi de Carvalho, diretor técnico da Mercadotecnia, deve ganhar novos rumos em 2013. “Acredito que a zona Leste da cidade estará em destaque, apesar de não excluir o crescimento e a valorização da zona Sul, mas de forma menos acelerada”, aposta o especialista. Isto porque o sul da cidade recebeu cerca de 70% dos investimentos do setor nos últimos cinco anos e já possui empreendimentos com preços bastante elevados. Com isso, o vetor Leste deve despontar no mercado, recebendo um investimento maior do que o registrado até agora. “A inauguração do viaduto e a duplicação da Henry Nestle colaboram para isso, pois facilitam o acesso. O local ainda conta com bastante espaço para urbanização e os preços, tanto de terrenos quanto de imóveis, são bem mais competitivos”, lista Tornavoi. Segundo ele, o volume de construções residenciais deve ser o mais significativo, mas a área também vai atrair comerciantes e prestadores de serviço para suprir a demanda que, consequentemente, vai crescer. “Algumas empresas do setor constataram essa realidade e já estão desenvolvendo projetos na área. A tendência é que isso fique mais intenso nos próximos meses”, acrescenta o especialista.
De acordo com Edgard Monforte Merlo, integrante do Departamento de Administração da FEARP, o segmento automotivo também deve continuar impulsionando a economia da cidade. Segundo ele, em 2012, embora o governo tenha mantido a redução do IPI, aconteceu um esgotamento do estímulo de compra, pois grande parte dos consumidores já havia trocado de automóveis aproveitando esse incentivo anteriormente. “No entanto, o crescimento da economia do país deverá ser melhor e a demanda por automóveis continuará em alta. Com perspectivas otimistas — a meu ver, o PIB deve crescer em média 3% —, o mercado deve registrar um aumento real de 3% a 6% nas vendas de veículos”, explica Merlo, destacando, ainda, a entrada de novas montadoras no mercado. “A concorrência deverá aumentar a pressão por produtos com melhor qualidade e mais garantias, propiciando ganhos aos consumidores de todas as faixas de renda”, avalia o especialista, estimando que o mercado automotivo de Ribeirão Preto deverá apresentar um crescimento real superior ao nacional, podendo atingir até 9% em relação às vendas de 2012.
Já o comércio do município, assim como na maioria das cidades brasileiras, precisa se transformar para acompanhar as mudanças no perfil consumidor contemporâneo. Isto porque, de acordo com o professor e pesquisador da Unaerp, Ricardo Donegá, a classe C, grande consumidora dos últimos tempos, está se tornando mais exigente. Ao mesmo tempo, as classes A e B tendem a consumir fora, inclusive, do país. “Minha aposta é na qualificação e na especialização do comércio. Quem investir na formação de seus colaboradores, transformando-os em verdadeiros consultores de negócios, sairá na frente”, aponta Donegá. No setor gastronômico, a especialização e o investimento no serviço ficam ainda mais evidentes, já que, diante da concorrência e do nível crescente de exigências do público, os restaurantes precisam estender o horário de funcionamento, variar ainda mais o cardápio, entre outras ações.
O consumo e a necessidade globalizados também são características que podem ser melhor exploradas pelo comércio. “Se antigamente vender roupas de neve em Ribeirão Preto era um plano para loucos, hoje já poderia ser considerado, pois cada dia mais brasileiros viajam ao exterior. Ou seja, as necessidades dos consumidores já não dependem de sua localização geográfica”, esclarece o especialista, apontando, também a interação virtual como forte tendência para os próximos anos. A vitrine na web se tornou ainda mais necessária com a popularização da internet e, mais recentemente, dos smartphones, que possibilitam pesquisar preços, comparar produtos e até consumir on-line.
Mais do que uma aposta, Sonia Valle Walter Borges de Oliveira, professora da Universidade de São Paulo, faz uma recomendação para encarar com mais efetividade os problemas de Ribeirão Preto em relação ao meio ambiente. Em 2013, a especialista acredita que o foco para tratar desse assunto deve ser a educação ambiental. Segundo ela, os principais desafios da cidade são o consumo exagerado de água, o déficit arbóreo e o descarte do lixo e de resíduos sólidos. “A água é uma questão bastante urgente, já que a retirada desse bem é superior à capacidade de reposição do Aquífero Guarani, o que pode gerar um colapso no atual sistema de abastecimento municipal”, alerta a professora. Já o déficit arbóreo gera as “ilhas de calor”, com diferença de até dez graus na temperatura na área central, por exemplo, quando comparada à região da USP. “A arborização pode reduzir esse fenômeno, garantindo maior conforto ambiental”, avalia Sonia. Na questão do lixo, a especialista destaca uma necessidade ainda maior de envolvimento da população. Descentralizar o sistema, criar a cultura de separação do material reciclável dentro das residências, aumentar o número de “ecopontos” de coleta, treinar e dar apoio aos catadores são algumas das ações recomendadas. “A população deve exigir condições para participar do processo. É preciso informar onde estão os ecopontos, quem são os responsáveis por cada etapa do processo, entre outras ações”, lista a especialista.