O sabor artesanal

O sabor artesanal

Com consumidores exigentes e fábricas comprometidas com a entrega de um produto de alta qualidade, setor cervejeiro movimenta o mercado de Ribeirão Preto

A cerveja é considerada paixão nacional. Seja pelo sabor, pela capacidade de aplacar o forte calor ou por estabelecer na mente uma associação quase que instantânea a momentos de descanso, de descontração, de sociabilização e de celebração, essa bebida fermentada, há anos, ocupa o posto de favorita dos brasileiros no segmento alcoólico. Segundo pesquisas de mercado, o consumo anual gira em torno de 62 litros por habitante. Essa estatística, que até parece baixa se comparada a dos líderes do ranking mundial — República Tcheca, com 143 litros, Áustria, com 108 litros, e Alemanha, com 107 litros — mostra, na verdade, uma importante mudança de comportamento que a população vem apresentando nos últimos anos: a quantidade ficou em segundo plano, enquanto a qualidade se tornou prioridade. 

A valorização das sensações e a busca incessante pelo novo levaram muitas pessoas para o universo das cervejas artesanais, ou gourmets, que fogem dos padrões pré-determinados de fermentação e de maturação das grandes indústrias. Foi o que aconteceu com Luís Eduardo Nascimento. Ao realizar um intercâmbio, o supervisor de manufatura descobriu que a experiência com a bebida poderia ser bem mais prazerosa e enriquecedora do que a que estava acostumado. “Tinha o hábito de consumir apenas produtos industrializados até ir para Toronto, no Canadá, em 2012. À época, aqui no Brasil, essa tendência ainda não tinha estourado, mas, lá, já existiam vários brewpubs, ou seja, bares que fabricam a própria cerveja. Todas as sextas-feiras, eu e um grupo de amigos escolhíamos um lugar para provar um rótulo diferente. Constatei que esse campo é muito vasto, além do que eu imaginava. São, literalmente, inúmeras opções, com estilos para todos os gostos e harmonizações. Essa vivência me transformou. Aprendi a, de fato, degustar a bebida e compreendi que há um longo caminho até que ela chegue ao meu copo”, descreve Luís Eduardo. 
“Sigo comprando as marcas tradicionais, mas, hoje, não fico sem um rótulo artesanal na minha geladeira”, afirma Luís Eduardo
O supervisor trouxe todo esse interesse na bagagem quando voltou ao Brasil. Quanto mais tinha acesso às informações, mais queria se aprofundar no tema. “Entendi que cada cerveja artesanal tem uma história única, baseada na seleção dos ingredientes, na técnica utilizada e no conceito elaborado pelo mestre cervejeiro. Esse contexto dá um sabor especial à bebida, gera curiosidade e faz o custo benefício valer a pena. Sigo comprando as marcas tradicionais, mas, hoje, não fico sem um rótulo artesanal na minha geladeira”, afirma. O envolvimento foi tão grande que Luís Eduardo começou a ler blogs e assistir a vídeos na internet. Adquiriu um livro com detalhes do processo, pesquisou receitas, entrou para a confraria Bearded Buffaloes e, juntamente com dois amigos, investiu em um equipamento de fabricação caseira. Passou do posto de apreciador para o de produtor. “Fiz uma cerveja que foi servida na minha festa de casamento”, lembra o supervisor. Eventualmente, o grupo marca presença em bares e eventos de Ribeirão Preto. 

Não é todo mundo que, assim como Luís Eduardo, aventura-se a assumir o controle das panelas. No entanto, a sede por conhecimento e o fascínio genuíno pela bebida são características comuns entre esses consumidores. Impulsionado por eles, o mercado na cidade cresce e se fortalece. A Cervejaria Colorado foi uma das principais responsáveis por disseminar essa cultura por aqui. O fundador, Marcelo Carneiro, veio do Rio de Janeiro e logo encontrou uma maneira de compartilhar o amor que nutria pelo universo cervejeiro. Inaugurou, em 1996, um brewpub, na Avenida Independência, que servia oito tipos de chope. Depois de conquistar o público e uma série de premiações, em 2005 os negócios foram ampliados e as cervejas passaram a ser vendidas em garrafas. Desde então, a empresa continua em franca evolução. Parte do grupo Ambev, a Colorado conta com novas, amplas e modernas instalações. 
Rudson explica que a marca usa ingredientes tipicamente brasileiros e testa misturas inusitadas em busca de sabores exclusivos
O local abriga a Nano, um espaço para estudos, pesquisas e experimentação de receitas. “O nosso grande diferencial é abusar da brasilidade. Não existe nenhum receio em testar misturas e gostos exclusivos. Enquanto muitas pessoas se apegaram ao puro malte, trazendo a impressão errada de que uma cerveja feita apenas com água, malte e lúpulo é melhor do que outras, a Colorado apostou na originalidade e mostrou que uma boa bebida usa esses ingredientes e muitos outros, alguns antes impensáveis, como mel, rapadura, graviola, caju, café, mandioca e castanha do Pará, por exemplo”, comenta Rudson Ferdinando, gerente de marketing da marca. 


Segundo pesquisas de mercado, o consumo anual de cerveja pelos brasileiros é de 62 litros por habitante



A Cervejaria Colorado foi uma das principais responsáveis por disseminar a cultura cervejeira por Ribeirão PretoAtualmente, os rótulos da Colorado são: Gabiru, Cauim, Appia, Indica, Demoiselle, Vixnu, Ithaca, Berthô, Cauim 016, Eugênia, Nassau e Murica. O portfólio foi enriquecido com a Ribeirão Lager, uma homenagem à cidade onde tudo começou.   
Outra referência na área, a Pratinha nasceu da união de duas paixões de José Virgílio Braghetto Neto: o método artesanal de fazer cervejas e a tecnologia. Em 2010, após retornar de uma temporada na Singularity University, no Vale do Silício, o empresário desenvolveu o projeto embrionário do Beer Hack Lab, ambiente voltado para a criação das receitas cheias de personalidade. “Esse é um segmento fascinante, que nos possibilita trabalhar com uma matéria-prima viva, em constante evolução. É um amor antigo, que foi se desenvolvendo a ponto de se transformar em negócio”, revela o diretor. Em funcionamento desde 2017, a fábrica tem 18 rótulos, sendo alguns deles sazonais. A capacidade total de produção é de 120 mil litros ao mês. Destaque para a Culotte de La Duchesse, lançada sempre em edição limitada, que levou o título de melhor cerveja das Américas na Copa Cervezas de Américas — campeonato realizado em outubro do ano passado, no Chile. Porter, Porteira e Portão, Conclave e Capricó também foram premiadas em outras ocasiões.

As receitas cheias de personalidade da Pratinha são desenvolvidas no Beer Hack Lab Entre os dias 30 de maio e 2 de junho, a Pratinha participou do Mondial de La Bière, em São Paulo, onde apresentou, oficialmente, a mais recente novidade: a Magic Booze, uma cerveja instantânea. A bebida, ultraconcentrada, vem em sachês individuais e fica pronta com a adição de copo de água com gás gelada. Segundo José Virgílio, o sucesso das cervejas artesanais entre os consumidores é algo relativamente fácil de se explicar. “As pessoas, em geral, estão mais conscientes em relação à procedência da cerveja, a qualidade, ao modo como é produzida e como é consumida. Por isso, produtos como os nossos estão em alta. Estamos inovando, aprimorando nossos métodos, cada vez mais sustentáveis, e nossas receitas. O público, inclusive, tem permissão para interferir nesse processo. Por meio do aplicativo Beer Hack App, os consumidores nos enviam sugestões que são devidamente avaliadas”, declara. 
Para José Virgílio, o universo cervejeiro é um amor antigo que se transformou em negócio


Ribeirão Preto ostenta o título de "terra do chope" e nova geração faz jus ao nome


Mercado em expansão

Os ribeirãopretanos fazem jus à fama de que sabem apreciar — e fabricar — uma boa cerveja. Não é à toa que a cidade ostenta, há anos, o título de “Terra do Chope” (lembrando que o chope é uma cerveja que não passa pelo processo de pasteurização e não é armazenada em garrafas, mas sob pressão, em barris, o que garante algumas particularidades em relação ao sabor, à cremosidade e à durabilidade). Ao que parece, a nova geração de cervejeiros está comprometida a dar continuidade a essa reputação. É o caso de Fábio Antônio e Tio Limongi. “Uma série de fatores nos levou a empreender no ramo. O primeiro deles é que somos loucos por essa bebida. Além disso, estamos em uma cidade que conta com uma cultura cervejeira muito forte e um clima absolutamente favorável. Para completar, tínhamos a nosso favor todo o know-how e a experiência do Tio, que construiu uma carreira premiada como mestre cervejeiro na Argentina”, relata Fábio. Os dois são proprietários da SP 330.
Tio e Fábio apontam a Califonication e a Last Kiss como destaques do portfólio
Completando três anos de funcionamento em 2019, a cervejaria dobrou a capacidade produtiva inicial, alcançando, hoje, uma média de 6 mil litros por mês. Durante esse período, a marca se consolidou comercializando apenas barris de chope, com o predomínio de um estilo bem específico nas receitas. “Gostamos muito do estilo americano. A nossa cerveja mais famosa é a Califonication, uma American India Pale Ale (IPA), seguida pela Last Kiss, uma Premium American Pilsen. Temos os rótulos sazonais, como Psycho Killer Imperial IPA e This is England NEIPA. Estamos no início da nossa trajetória, mas já conquistamos três medalhas em concursos importantes, sendo duas de bronze (Concurso Brasileiro em Blumenau 2017) e uma de ouro (South Beer Cup 2018)”, detalha Tio. A partir deste ano, a Californication, a Last Kiss e também a Supertition American Pale Ale poderão ser adquiridas em garrafas de 500 ml. O objetivo é, a cada dois meses, lançar estilos sazonais com um volume limitado. “Esse é um mercado que está em plena expansão e, mesmo assim, ainda tem um enorme potencial de crescimento. As expectativas são as melhores”, afirmam os empresários. 
Segundo Joice, é inegável que o setor de cervejas artesanais vive um momento especial
De acordo com a sommeleire e cervejeira Joice Joly Buzatto é inegável que o setor vive um momento especial. “O método artesanal de produção de cerveja é uma verdadeira arte, uma alquimia que nos abre inúmeras possibilidades. Por meio dessa ciência repleta de variáveis, conseguimos extrair diferentes aromas de maltes e de lúpulos, adicionar adjuntos como frutas, flores e especiarias, testar combinações de gostos como azedo, ácido, doce e amargo e realçar toques amadeirados, vínicos e até frisantes. As empresas de Ribeirão Preto estão experimentando e sabem exatamente como explorar essas nuances de sabor, atingindo resultados surpreendentes e agradando um público diversificado”, descreve Joice. 

A empresária é sócia da Maltesa, que começou como uma boutique de cervejas em 2013. O negócio logo criou asas e alçou voos mais altos. “Trabalhar com os produtos de outras marcas era, sem dúvida, muito prazeroso. Desempenhando essa atividade, adquiri bastante conhecimento na área. No entanto, sempre tive o sonho de desenvolver o meu próprio rótulo”, confessa. A loja, então, foi transformada em uma cervejaria ao estilo tap room, com um bar anexo a fábrica. Mensalmente, são produzidos algo em torno de 4 mil a 6 mil litros nos estilos American Lager, América Pale Ale, Índia Pale Ale e Witbier. A venda das bebidas — nas torneiras do bar e nos barris — tem aumentado mês a mês e a tendência é que essa comercialização fique ainda mais intensa a partir de agora, já que a cervejaria, em parceria com a Cigana, de Jaboticabal, colocou no mercado o primeiro rótulo em lata, com o nome de “La Belle Otero”. 

A fábrica da Cervejaria JOPS produz três tipos de chope e seis rótulos engarrafadosQuem também leva a bebida a sério e contribui para movimentar o mercado é a Cervejaria JOPS. “Para atender os clientes de acordo com o padrão de qualidade que os serviços de gastronomia na cidade exigem, tínhamos que nos preparar. Investimos em uma estrutura com tecnologia de ponta e em profissionais capacitados. Fizemos inúmeros testes, aprimoramos sistemas e inauguramos a fábrica, em 2016. Foi uma decisão acertada. A aceitação tem sido excelente”, comenta o diretor de marketing, Sebastião Pereira. São três tipos de chope e seis rótulos engarrafados em produção: JP, Al-JOPS, Elvis, Ribeer, Mannheim e Black-Hops. “Os produtos são feitos com insumos cuidadosamente selecionados, com opções tanto para quem prefere um sabor mais suave, quanto para os que não abrem mão do aroma e do amargor das verdadeiras cervejas alemãs”, enfatiza. A representante do estilo pilsen nessa lista, a Mannheim, foi premiada na Copa Cervezas de América. “A cerveja é uma bebida que combina perfeitamente com o ribeirãopretano. Por isso, estamos tão confiantes na expansão desse ramo”, finaliza. 

Segundo Sebastião, a linha contempla todos os gostos, dos mais suaves aos mais intensos

MAIS CERVEJARIAS LOCAIS

Invicta

Fundada em 2011 pelo mestre cervejeiro Rodrigo Silveira e pelo empresário Ismael Joaquim da Silva, a Invicta produz 60 mil litros por mês. A marca conta com 12 rótulos próprios, além de seis feitos para a Velhas Virgens e de sete para a 2cabeças. A Invicta fechou uma parceria com a cervejaria Urbana, de São Paulo, com quem já produziu mais dois rótulos. De toda a linha, destaque para a 1000 IBU (que é o nível de amargor da bebida).

Klaro

A Cervejaria Klaro está em atividade desde 2004. De origem goiana, a marca possui três fábricas: em Goiânia, em Catalão e em Ribeirão Preto. A produção estimada é de 500 mil litros ao mês. Além do Klaro Chopp Pilsen, carro-chefe da marca, fabrica outros três estilos: Klaro chopp black, Cooler Klaro de vinho e o Klaro puro malte — esse último comercializado em garrafas e latas. A Cervejaria Klaro possui, ainda, a marca Astúria, linha de cervejas especiais. 

Lund

Nasceu da junção de duas paixões do casal Yussif Ali Mere Júnior e Dalva Ali Mere: cervejas artesanais e empreendedorismo. Após pesquisa com especialistas do Brasil e do exterior, eles montaram a primeira unidade fabril da cervejaria em 2008. Os rótulos em linha são: Pilsen, Wit Bier, Weizen, Pale Ale, Munich Dunkel, American Pale Ale e India Pale Ale, além dos produtos sazonais. Agora, a marca é gerenciada pela holding BGF Alliance.

Weird Barrel

“Brewpub”: bar que fabrica a própria cerveja e vende apenas no local. Comandada pelos sócios Rafael Moscheta e o João Becker desde 2015, produz cerca de 3 mil litros por mês. Dentre as mais de 30 cervejas lançadas desde a abertura da casa, está a premiada Naughty GROG, black IPA envelhecida em barril de rum, com 7,8 de teor alcóolico e 45 IBU. A Bad LUCK também chama a atenção com receita que leva morangos, amoras, framboesas e pitangas.

Walfänger

A Cervejaria Walfänger disponibiliza, atualmente, sete estilos de cervejas típicas da Alemanha: as linhas Clássica, composta pela Doppel Bock, Weizen e Helles, e a Trigênios, com os rótulos Albert (German IPA), Sebastian (Düsseldorf Altbier) e Sigmund (Vienna Lager), além da German Pilsner. Todas as cervejas seguem à risca a Lei de Pureza Alemã, por meio da qual só é permitida a utilização de água, malte, lúpulo e levedura na formulação.

NA AGENDA

Algumas cervejarias promovem tours guiados pelas fábricas, compartilhando informações e curiosidades sobre o processo de produção artesanal. Cada marca tem regras próprias e pacotes à disposição dos interessados, mas, normalmente, o passeio é finalizado com uma degustação dos principais rótulos da casa. Para quem quer otimizar o programa, é possível percorrer várias cervejarias no mesmo dia com a Rota da Cerveja Hop On - Hop Off. A sexta edição do evento foi realizada no dia 27 de abril e levou cerca de 100 pessoas a seis cervejarias locais: Invicta, Krug Bier, Point SP 330, Walfänger e Colorado. “Nosso objetivo é incentivar famílias e amigos a conhecerem e prestigiarem as cervejarias artesanais da cidade com comodidade e segurança”, explicam Thiago Alves e Thiago Zacharias, diretores da Livre Acesso Turismo e organizadores do tour. O transporte é feito por dois ônibus que circulam a cidade respeitando um itinerário pré-definido, mas cada participante pode personalizar a rota, escolhendo as cervejarias que quer visitar. 

Texto: Paula Zuliani | Fotos: Ibraim Leão e Julio Sian

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