O silêncio de Dárcy Vera
Em 5 de dezembro, a ex-prefeita de Ribeirão Preto foi interrogada durante 90 minutos, mas se recusou a responder a várias questões dos promotores e do juiz, mas atendeu aos questionamentos da defesa
As primeiras perguntas dirigidas pelos promotores do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) à ex-prefeita de Ribeirão Preto, Darcy Vera, não tiveram resposta: “A senhora recebeu algum valor de Maria Zuely? Quanto no total? Quando ou em quantas vezes? De que forma?”. As questões foram dirigidas à Dárcy no dia 5 de dezembro, em depoimento no Fórum de Ribeirão Preto. “Essas são as questões que a sociedade de Ribeirão Preto quer que sejam respondidas”, emendou Frederico de Camargo, promotor do Gaeco, após o término da leitura do interrogatório.
Dárcy Vera preferiu se apoiar no direito constitucional de não responder às questões levantadas pela acusação ou pelo juiz da 4ª Vara Criminal de Ribeirão Preto, Lúcio Alberto Eneas da Silva Ferreira, responsável pelo julgamento dos investigados na Operação Sevandija. A ex-prefeita está detida, preventivamente, desde o dia 19 de maio, na Penitenciária Feminina de Tremembé.
Com uma postura firme, Dárcy iniciou o depoimento interrompendo o juiz enquanto ele perguntava sua idade. “Com todo respeito ao senhor, aos promotores do Ministério Público e aos outros advogados aqui presentes, só vou responder às perguntas feitas pelos meus advogados”, antecipou a investigada. A declaração se confirmou na prática, uma vez que Dárcy respondeu apenas às perguntas feitas pela advogada Maria Cláudia de Seixas — algumas similares às questões levantadas pelos promotores do Gaeco.
Quando quebrou o silêncio, afirmou ser inocente das acusações feitas pelo Ministério Público de que teria participação no esquema de recebimento de propina para liberação dos honorários advocatícios de Maria Zuely Librandi. “Com os R$ 7 milhões que me acusam de ter recebido, você acha que ia precisar de empréstimo? Que não teria quitado minha casa?Que eu teria de ir de ônibus a São Paulo toda semana estudar, para fazer a minha pós-graduação? Ia de carona. Minhas filhas iam morar de aluguel em um apartamento perto da faculdade, em que uma delas dorme na sala? Eu trabalhei tanto e olha a situação em que eu estou. Eu tinha uma vida simples” afirmou Dárcy.
Entretanto, a ex-prefeita admitiu que recebeu R$ 120 mil de Maria Zuely, assessora jurídica da Secretaria da Casa Civil durante a gestão de Dárcy. O dinheiro, de acordo com a advogada de defesa, seria fruto de um empréstimo. “Essa situação começou porque houve uma época em que foi divulgado que fiquei três meses sem pagar a conta de água da minha casa. A Maria Zuely veio até mim e se dispôs a pagar a conta. Eu recusei, já que não paguei a conta por mero descuido meu, e não por falta de dinheiro, mas Zuely afirmou que poderia procurá-la quando precisasse. Depois disso, ela me viu reclamando que deixei atrasar o pagamento do cartão de crédito, em um momento que realmente estava apertada, e me disse que emprestava porque já fazia isso com outras pessoas. Eu aceitei, pois meu nome corria o risco de ser contestado”, afirmou Dárcy, que declarou ter recebido a quantia em repasses de R$ 5 mil, R$ 10 mil e R$ 20 mil, feitos em dinheiro.
Constrangida
Essa foi a primeira vez que Dárcy Vera admitiu ter recebido o suposto empréstimo. De acordo com a investigada, o fato foi ocultado por se sentir constrangida em admitir que passava por dificuldades financeiras. “Fiquei com muita vergonha. Não sabia o que fazer”, declarou Dárcy, que afirmou que no dia 4 de dezembro, recebeu um escrevente cobrando o pagamento de débitos atrasados referentes ao financiamento da casa em que morava. A visita aconteceu na cadeia feminina de Ribeirão Preto, onde aguardava a audiência. Após dar a resposta aos promotores, foi questionada sobre o motivo de não ter declarado o empréstimo de Maria Zuely no Imposto de Renda, como fez em outras situações. Ela não respondeu.
Ataques ao delator
Como tem sido praxe nos depoimentos do processo que investiga o suposto esquema de pagamento de propina para a liberação dos honorários advocatícios de Maria Zuely Librandi, Dárcy Vera também fez críticas ao ex-presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Ribeirão Preto, Wagner Rodrigues.
A ex-prefeita acusou o servidor de ter mentido na colaboração acordada com o Ministério Público e lamentou estar presa em razão das informações prestadas pelo sindicalista. “A delação já foi comprovada que foi mentirosa. Enquanto eu estou presa, longe da minha família e das minhas filhas, o delator está solto”, declarou a ex-prefeita, que ainda disse que só se reunia com Wagner Rodrigues para discutir assuntos envolvendo o dissídio dos servidores e que nunca se encontrou com o delator ao lado de Sandro Rovani, Marco Antônio dos Santos e André Hentz para discutir a divisão da suposta propina.
Longe dos filhos
A ex-prefeita de Ribeirão Preto também lamentou o fato de estar longe dos filhos, que, segundo a acusada, estão em estado deplorável, o que comprova sua inocência. Isso porque a situação seria diferente se ela tivesse recebido R$ 7 milhões, como acusa o Gaeco. “Qualquer pessoa pode escrever que recebeu propina, mas o rastreamento [de dinheiro] de vocês [Ministério Público] vai mostrar. O delator tem que dizer como foi que ele fez. Eu estou presa por causa de uma delação mentirosa. Estou longe da minha família. Corro risco de não ir à formatura da minha filha. O delator mentiu e está solto e eu aqui, presa”, disse.
Acordo dos 28,35%
Sobre o acordo para a reposição salarial dos vencimentos dos servidores que tiveram perdas com o Plano Collor, no início dos anos 1990, Dárcy Vera afirmou que este foi “um presente de grego” deixado pela gestão anterior, do ex-prefeito Welson Gasparini. O acordo já estabelecido determinou que o município iria ressarcir a categoria, mas ela afirmou que seria o desejo de qualquer prefeito rever o acordo. “Uma dívida gigantesca, inviável para o município, mas, como era uma decisão judicial, tinha que se cumprir”, declarou a ex-prefeita, que disse que em nenhum momento participou da negociação dos honorários que deveriam ser pagos a Maria Zuely, pois, segundo ela, se tratava de um assunto a ser resolvido entre o Sindicato e a advogada. “Quando peguei o documento para assinar, eu chamei o Marco Antonio para ver se estava tudo certo e ele me respondeu positivamente”, afirmou Dárcy Vera.
“Meia verdade”
Ao fim do interrogatório, o juiz do caso, Lucio Alberto Enéas da Silva Ferreira, afirmou que estranhou o comportamento de Dárcy, de não responder às perguntas feitas pela promotoria. Isso porque, por ter uma carreira política, deveria saber a importância do debate de ideias. No entanto, frisou reconhecer que este é um direito constitucional. “Desse jeito não chegaremos à verdade. Fica meia verdade. Precisamos deste debate”, lamentou o juiz ao fim do interrogatório.
Petição contra agente da PF
Os advogados de defesa dos réus da Operação Sevandija entraram com uma petição conjunta na 4ª Vara Criminal de Ribeirão Preto por conta de uma suposta parcialidade de um dos agentes da Polícia Federal que participou as investigações. A petição foi protocolada no dia 4 de dezembro. O documento pede o reconhecimento da parcialidade do agente, cuja esposa atuou como assessora jurídica na Companhia Desenvolvimento Econômico de Ribeirão Preto (Coderp), no período dos contratos investigados. Por isso, os advogados pedem ao juiz que retire do processo informações que tenham sido elaboradas pelo agente.
“Dentre os argumentos apresentados, consta a evidência de que a esposa do referido agente atuou juridicamente em um dos contratos investigados. Outro ponto que mereceu destaque foi o fato de o referido agente da PF não informar aos seus superiores a existência de um óbice pessoal seu para atuar na investigação”, aponta parte de nota assinada pelos advogados. Sobre esta situação, a Polícia Federal informou que instaurou um procedimento disciplinar para apurar as acusações feitas. Por meio de nota, a PF diz que não se pronunciará, embora afirme que investiga a informação.
As perguntas que o Gaeco fez:
Recebeu dinheiro de Maria Zuely? Quanto? Quando e quantas vezes? De que forma? Direto das mãos de Maria Zuely? Onde?
Qual era a posição do ex-secretário Marco Antonio dos Santos sobre o pagamento dos honorários?
Havia prioridade dos pagamentos?
No último mandato (2013 – 2016) a senhora acumulou dívidas particulares? Quanto? Com o quê?
Nesses quatro anos, quais foram os gastos que a senhora fez? Comprou carros, terrenos, casas ou fez viagens?
A residência onde a senhora reside é própria ou alugada? Foi adquirida quando? Por quanto?
Neste período, alguém era dependente da senhora? Pagava escola?
O que sabia a respeito do acordo dos 28,35%?
Tinha conhecimento do pleito de Maria Zuely?
Sabia da resistência do Sindicato?
Da posição do Wagner a respeito?
A senhora pedia a Maria Zuely ou ela que oferecia?
Maria Zuely, algum dia, negou empréstimo?
Maria Zuely nunca pediu favor para influenciar na liberação dos honorários?
Como seria pago o empréstimo?
Por que precisava deste empréstimo?
Por que o empréstimo não foi depositado em conta?
Foi dada alguma garantia ou contrato?
O empréstimo constou na declaração de Imposto de Renda?
O que tem a dizer sobre a lista encontrada no escritório de Sandro?
Quem que apresentou os termos de acordo para a senhora e como o assunto foi tratado?
Consultou alguém antes de assiná-lo?
Houve alguma dúvida a respeito?
Houve alguma resistência para assiná-lo?
Alguma condição para assiná-lo?
Onde foi e quem estava presente na assinatura do acordo?
O que foi conversado entre os presentes na ocasião?
Texto: Leonardo Santos