O som daqui

O som daqui

Em diferentes vertentes e estilos, os músicos da cidade consolidam seu espaço no cenário nacional. Muitos deles colecionam experiências em grandes festivais e até fora do Brasil

A música está entre a enxurrada de novas informações que recebemos a cada segundo no dia a dia. Apesar de o espaço musical ser limitado, de tempos para cá, a autenticidade e a irreverência dos novos artistas chama a atenção e, por isso, têm aberto espaço para que as vozes sejam ouvidas. Dos toca-discos ao choro do violão, a produção musical dos artistas de Ribeirão Preto é vasta.

Tocando juntos há 18 anos, Pedro, JP e AJ Barrionovo colocaram a Kilotones em destaque em poucos meses

A paixão pela arte que produzem e o interesse por outras questões que envolvem a carreira musical são um ponto em comum e, para os irmãos Barrionovo, que formam a banda Kilotones, esse conhecimento foi essencial para dar certo. “Antes de lançar a música, o artista tem que se preocupar com o conceito, com seu público, com a assessoria de imprensa, com o marketing, ou seja, precisa ter uma visão holística do negócio. O músico sabe como a carreira dele acontece”, explica o baterista Pedro. “Hoje em dia, é preciso conhecer toda a parte da produção e de pós-produção”, completa JP, guitarrista da Kilotones.

Ameslari lançou seu primeiro EP neste ano e sempre se divertiu com a música

Os irmãos estendem seu trabalho de produção a outros artistas, como Ameslari, que estreou com o show “Start” e com um EP composto por ele neste ano. Daniel Pinheiro, a voz por trás de Ameslari, decidiu que sua vocação profissional era para a música e embarcou na carreira assim que saiu do Ensino Médio. “De certa forma, sempre soube que queria isso para a minha vida. Quando estava no colegial, tocava com os amigos, tínhamos um cover do Pearl Jam e, depois, começamos a fazer som autoral. Eu me divertia muito com aquilo, ainda mais na época do colegial com aquele estresse todo e aquela pressão. Desde então, percebi que é disso que realmente gosto”, explica Ameslari.

No cenário feminino, além da troca de experiências, a união é uma forte característica. O projeto Sêla, idealizado pela cantora e comunicadora Camila Garófalo, é um impulsionador de carreiras de várias mulheres da música pelo Brasil. “A ideia é criar espaço no mercado fonográfico para as mulheres, seja nos palcos, nos bastidores ou no território digital, por isso, criamos o mulhernamusica.com.br. Queremos ser parceiras, uma aceleradora musical, uma consultoria para carreiras de mulheres incríveis”, explica Camila. Além de dar o respaldo às artistas, a Sêla também é provedora de shows e eventos com nomes como Tiê, As Bahias e a Cozinha Mineira, Raquel Virgínia, Tássia Reis e outras cantoras.

Apaixonada por música desde a infância, Verônica Ferriani coleciona, hoje, 120 shows em 13 países só com o primeiro disco. O marco inicial da carreira profissional aconteceu aos 22 anos, quando terminava o curso de Arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). “Foi no final da faculdade que comecei a estudar música de verdade. Eu sempre estudava violão, gostava de tocar, mas achei que este seria um hobby, uma atividade paralela, como sempre foi para os meus pais”, explica Verônica. Logo na produção do primeiro disco, descobriu-se também compositora, o que impulsionou seu trabalho no último disco, “Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio”, de 2013, e no disco mais recente, que será lançado em maio deste ano.

Formada em 2013 pelos amigos Daniel, Lucas, Guilherme, Charles, Otávio e Osvaldo, a Canaviera mistura ritmos brasileiros e letras que falam do cotidiano do interior, como a vida do boia-fria. Já a Tuff Grrls, dupla de seletoras de discos formada por Joice Massuda e Mariana Gimenes, traz o empoderamento das mulheres através dos discos e da música como mensagem principal, desde sua formação, há dois anos.

Trabalho e inspiração



A paixão pela arte vem de berço para alguns músicos, mas a perseverança é uma característica crucial para garantir que o trabalho seja ouvido. O Choro da Casa surgiu da iniciativa de um grupo que tocava samba junto. “Comecei a colocar os choros no repertório, no meio do samba, e a turma começou a gostar muito”, conta Alexandre Peres, um dos mentores. Daí para frente, a turma foi crescendo e se mantendo, até chegar ao primeiro festival. Hoje, apresentam-se semanalmente na esplanada do Theatro Pedro II com clássicos e composições próprias de choro. 

Integrante do Choro da Casa e do Ginga Ligeira, Alan Silva tomou gosto pela música ainda quando criançaAlan Silva, um dos músicos que participa da roda, conta que sempre gostou do som do violão brasileiro. “Desde criança eu escutava meu avô ouvir no rádio seus boleros e sambas. Ouvia aquele violão e pensava ‘isso é bonito demais!’. Na época, como eu não tinha conhecimento nenhum, decidi estudar violão. Comecei por conta própria, mas depois tive aulas com um professor. Quando disse que queria aprender aquele violão solo das músicas, fui para Tatuí estudar o instrumento erudito no conservatório, uma área bem diferente do choro e do violão popular”, declara o músico. Depois de formado, o compositor se encontrou no choro.

Alan também lidera o grupo Ginga Ligeira, em que toca suas próprias composições. Neste ano, lançará o primeiro CD, “Vamo que vamo”, com a participação de Alessandro Penezzi. Alexandre, que também está nos grupos Flor de Aguapé e Rabo de Gato, interessou-se pelo choro já aos 21 anos. “Estudando música, fui entendendo que o choro é a escola do músico brasileiro. Se esses profissionais querem tocar música nacional, têm que passar por isso. Então, optei por este caminho”, completa Alexandre.

Mentor do Choro da Casa, Alexandre Peres estuda o ritmo desde os 21 anosAmeslari, que lançou e produziu seu primeiro EP este ano, compõe desde os 12 anos. “Sempre gostei de cantar, mas quando comecei a tocar, passei a compor. Eu cantava brincando mesmo, sempre gostei, mas entrei no coral Minaz em 2011, mais ou menos. Lá, tive o primeiro contato com aulas e com a técnica”, explica Ameslari. A iniciativa de produzir um disco logo de cara foi dele, que encontrou os irmãos Barrionovo para produzi-lo, e posteriormente, os músicos que integram sua banda, que conheceu através do professor de piano, atual tecladista da banda.

Com referências fortes no rock internacional, Ameslari sempre achou mais fácil compor em inglês. “Talvez por causa das bandas que eu escutava, muitas internacionais, talvez por achar que combine mais com o meu som”, explica o cantor, que tem, entre as referências, Beatles, Elton John e The Killers, mas também aprecia novos artistas do pop e do eletrônico, como Avicii e Kygo, além de dance e rock progressivo. Em um futuro próximo, não descarta a possibilidade de incluir novos ritmos nas composições.  “Gosto muito da percussão, se vier uma ideia boa que se encaixe nisso, daria para explorar”, explica ele.

Os irmãos Barrionovo, a propósito, tocam juntos há 18 anos. “Começamos com outra banda. Um dia, percebemos que tínhamos esgotado todas as possibilidades. Tocamos nas melhores casas, em festas iradas”, conta JP. “Tínhamos um trabalho autoral, mas quando realmente paramos para pensar na mensagem que queríamos passar, além da linguagem e tudo, passamos a entender o que viria a ser a Kilotones”, explica Pedro. Segundo AJ, o vocalista, até mesmo o público com que gostariam de se comunicar contribuiu para construir a identidade da banda. 

Com todas as decisões tomadas, os três partiram para a composição do primeiro álbum, “Campo Minado”. Na produção e mixagem, contaram com a participação de Paulo Vaz e Leonardo Ramos, da banda capixaba Supercombo. “O Paulo é de Ribeirão Preto também. Ficamos nos conhecendo quando eu cursava Jornalismo e ele Publicidade na mesma universidade. Paulo tocava em uma banda chamada A Gatalógica. Passaram-se os anos e eu comecei a acompanhar de perto o Supercombo. Um dia, fomos a São Paulo para outra reunião, entramos em contato com ele e perguntamos se nos receberia para ouvir nossas músicas. Na hora ele topou”, comenta JP.

O disco traz uma visão humana sobre a sociedade e a observação do mundo em volta. A inspiração para fechar o conceito do disco, segundo JP, veio de Eduardo, um amigo virtual. “No decorrer da conversa pela internet ele dizia que éramos a única banda em que ele conseguia enxergar com uma logomarca. Depois de meses, descobrimos que ele era cego”, conta JP. Assim também surgiu a ideia do título do álbum em braile.

Quando a banda tinha apenas um mês, fez inscrição para participar do João Rock e, apesar de não vencer o concurso, ganhou visibilidade nacional com um videoclipe. Mais tarde, com dez meses de estrada, a Kilotones foi selecionada para tocar na edição brasileira do Lollapalooza, momento que os músicos consideram como uma virada. Em 2018, tocarão pela primeira vez no João Rock, no palco Fortalecendo a Cena.

Interior em poema



A Canaviera foi formada no final de 2013. Antes disso, seus integrantes se conheciam por tocar juntos em projetos não autorais. “Tínhamos vontade de criar um projeto autoral em busca de uma sonoridade singular, misturando elementos rítmicos da MPB à formação tradicional de uma banda de rock, com bateria, baixo elétrico e guitarras distorcidas”, explica o vocalista Daniel Boldrin. Nas letras, o cotidiano de figuras do interior paulista, como o boia-fria, é expresso em verdadeiras poesias. “São situações vividas, observadas ou supostas por nós. Por isso, a referência ao cotidiano das pessoas, dos personagens e de fatos típicos do interior. São como causos, ora como desabafo, ora apenas como poesia”, explica Daniel. Nas melodias, a mistura de ritmos brasileiros resulta em originalidade. “A principal ideia é fazer um repertório dançante. Por isso, usamos ritmos tradicionais, como vanerão, maracatu, baião, bolero, arrocha, samba e outros, misturados às bagagens musicais de cada integrante”, explica o vocalista. O primeiro EP, lançado em 2014, foi produzido por Rômulo Ramazini e custeado com cachês dos shows feitos pela banda. Em 2017, foi lançado um álbum completo ao vivo, gravado no deck da Mansão Galo Bravo, em parceria com o MGB Studio. Neste ano, foi feita uma coletânea com os trabalhos já produzidos e mais três singles.

A voz da mulher



Foto: Mari RosaFormada em Jornalismo e Publicidade, Camila Garófalo sempre sonhou em ser cantora. O conhecimento adquirido como comunicadora foi aplicado à música. “Aos poucos, passei a vender meus próprios shows e a entender o processo de agenciamento artístico. Por ter trabalhado em alguns veículos de comunicação escrevendo sobre música e cultura, também me aproximei naturalmente do universo de assessoria de imprensa. Agora, o momento é da Sêla, instituição de mulher na música a que pretendo me dedicar para o resto da vida. Entendi que, com esse projeto, posso colocar em prática todos os meus sonhos: cantar e articular”, revela a cantora.

Quando se mudou para São Paulo, aos 17 anos, para estudar Comunicação, Camila se abriu para o mundo. “Passei a entrevistar outras artistas e a descobrir que eu poderia estar do outro lado da caneta”, brinca Camila. Antes, ela só tinha se apresentado entre amigos. Paralelamente à produção, divulgação e composição da própria carreira, Camila comanda a Sêla, uma aceleradora musical para novas artistas e para as que já estão na caminhada há algum tempo. “Gosto de ouvir novidades, gosto do que está sendo feito nesse instante. Por isso, estou de olho em várias artistas através das nossas redes e de outras conexões, como o WME, o Sonora e o Distúrbio Feminino. Em grande parte, essas artistas chegam a mim. A ideia é desenvolver uma logística para que todo mundo receba a atenção que merece. No momento, meu objetivo é aprender mais sobre os negócios da música para continuar criando oportunidades a todas”, completa a comunicadora. 

Com referências no jazz, no samba e na MPB, Verônica Ferriani lança seu terceiro disco em 2018

Verônica Ferriani começou a se apresentar como cantora na banda de Chico Saraiva em meados de 2003. “Estreei no palco do Sesc Pompeia, um teatro dos sonhos, que eu conhecia como arquiteta, já que admirava o trabalho de Lina Bo Bardi”, lembra-se Verônica. Com a experiência adquirida junto à banda, percebeu que precisava se apresentar mais como cantora e passou a marcar presença em muitas rodas de samba, que estavam em evidência na época. “Conheci a Beth Carvalho e o Moacir Luz, que me ajudaram muito no começo da carreira me convidando para projetos muito legais.No Rio, toquei muito no circuito da Lapa, que era bem forte em 2008. De cara, conheci algumas pessoas muito especiais”, explica a cantora. A vivência no samba, aliada a outras referências, como jazz e MPB, possibilitou a composição do primeiro álbum. Não demorou para que se apresentasse no Japão e em Israel ao participar de editais como o Novas Vozes do Brasil. Daí para frente, Verônica não parou mais de compor e de desbravar o mundo.

Ao longo de sua trajetória musical, trabalhou ao lado de pessoas de destaque. “Meu primeiro disco, com regravações de Paulinho da Viola, Gonzaguinha e outros compositores, foi produzido pelo Bid, que é bastante conhecido pelo trabalho com o Nação Zumbi. Quando parti para o meu disco autoral, já tinha um parceiro de muitos anos, o Marcelo Cabral, que trabalhou, por exemplo, com Metá Metá, Passo Torto e Criolo. Esse meio, na verdade, é um mundinho. Eu mesma gravei nos dois primeiros discos do Criolo junto com a Juçara Marçal. O meu primeiro disco foi produzido pelo Gustavo Ruiz, irmão da Tulipa Ruiz, um grande produtor junto com o Cabral. Quem produz o novo disco é o Diogo Strauss”, explica Verônica. O novo trabalho, segundo a cantora, trata do “não saber” e da calma necessária para compreender que não se pode explicar tudo na vida.

No primeiro álbum autoral, o tema era o amor sob a ótica da mulher. “Gosto muito de escrever no papel de mulher. Apesar da complexidade da questão de gênero, aprecio desse lado mais feminino na forma de dizer, dessa mulher independente, que vive o amor de outra forma. Essa foi a minha ideia. Brinquei com a vida amorosa de uma única mulher e passando por vários papéis”, explica Verônica.

Quando se conheceram em um evento de reggae, Joice Massuda e Mariana Gimenes ainda não tinham em mente a criação da Tuff Grrls. Na época, tinham em comum a paixão por discos e colecionavam apenas obras nacionais. “Quando começamos, só tocávamos repertório nacional feminino, como Elis Regina e Gal Costa”, conta Joice. “A Tuff Grrls surgiu da ideia focar nos vocais femininos. Foi mais fácil seguir a trilha da música brasileira, que já colecionávamos”, completa Mariana.

No entanto, a música jamaicana sempre foi uma paixão em comum para elas. O gosto pelos ritmos e pelas letras de militância começaram a falar mais alto, principalmente, pela influência da dupla sãocarlense Sound Sisters. “Já gostávamos muito dos bailes de soundsystem quando surgiu um evento em São Carlos com o primeiro sistema de som do Brasil, o Sound Sisters. A partir daí, estabelecemos uma parceria para trazer o sistema de som para Ribeirão Preto”, relembra Joice.

Com vários tipos de música jamaicana no repertório além do reggae, como ska, dancehall e rub a dub, destacam que os seletores são diferentes dos DJs. “O DJ é diferente, pelos equipamentos. No caso do seletor, a música vem do soundsystem, originário da música jamaicana. É tocado, por exemplo, com uma vitrola só. No momento da troca do disco, que leva um tempo, um mestre de cerimônia aproveita para passar uma mensagem”, destaca Joice.

Para elas, o trabalho não se resume a tocar. “Nossa apresentação acontece mais nas periferias, uma oportunidade de dialogar através da música com as mulheres e com as meninas”, declara Joice. “Como mulher e como mãe, acho que o espaço da música tem que ser ocupado pelas mulheres, assim como todos os espaços dedicados à arte. Existem muitas artistas, que precisam se unir e aparecer mais”, conclui Mariana. O som daqui ecoa por todos os cantos. 

Flor do cafezal  

Fernanda Marx nasceu em uma família envolvida com a música. “Minha família sempre foi muito artística, o que me fez ter contato com a música desde criança. Meus pais sempre me apresentaram canções dos artistas que eles gostavam e me levavam aos shows que aconteciam em Ribeirão Preto”, conta Fernanda. Aos 13 anos, ao acompanhar a amiga Renata Gabaldo a um teste para o Coral Minaz infantil, decidiu participar também e entrou para o coro. “Em 2009, fui convidada para integrar a banda Missionários do Blues, como backing vocal e solista. Neste mesmo ano, passei a ser convidada para participações em shows de bandas como Balaco, Srta. Zirma e outras. Aparecendo mais por outros palcos, as pessoas começaram a me perguntar por que eu não tinha uma banda e não seguia uma carreira solo. A minha resposta era porque não me sentia preparada, apesar de já estar no palco há muito tempo”, revela Fernanda. Em 2012, sentiu-se pronta para subir no palco e lançou seu primeiro show, “Flor de café”. Em 2017, lançou seu primeiro álbum, “Innove”, com composições de Lucas Oliveira, Evandro Navarro, Chico Gaspar, David Barral, Rogério Shareid e do integrante da banda Monobloco, Pedro Luís, além de Moyseis Marques e Kiko Dinucci, do Metá Metá.

Texto: Tainá Colafemina

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