O tempo a seu favor
Saber administrar a passagem dos anos, tirando vantagem da experiência adquirida e conseguindo acompanhar as tendências do mercado, é uma capacidade de grande valor no mundo corporativo
Os dados oficiais mais recentes disponíveis sobre o universo corporativo brasileiro não apontam para o caminho da durabilidade. De acordo com uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base nos números de 2010, quase metade das empresas abertas no país — 48,2% — não ultrapassam o terceiro ano de vida. Em números exatos, dos 464.700 negócios abertos no Brasil em 2007, 223.885 fecharam as portas até 2010. De acordo com o mesmo levantamento, 99% das empresas que encerraram suas atividades eram de pequeno porte.
Inúmeras são as tentativas de explicar as razões que levam a essa realidade. De acordo com o Sebrae, que presta serviços de apoio ao micro e ao pequeno empresário, a falta de planejamento e o descontrole na gestão desses negócios estão entre os principais motivos de fechamento. Desenvolver um plano de negócios e estudar todos os aspectos de seu funcionamento podem ser bons pontos de partida para quem está pensando em empreender. Manter um bom nível de alerta para os fluxos de caixa e de tarefas da empresa também são dicas valiosas.
Diversos especialistas já se debruçaram sobre empresas de longa duração ao redor do mundo para desvendar o que as leva a desenvolver uma boa relação com a passagem do tempo. Autor do best seller “A escola dos deuses”, o especialista italiano Stefano Elio D’Anna destaca que as empresas da atualidade, de forma geral, estão durando menos porque faltam a elas propósitos atemporais. É extremamente importante, ainda, atrair colaboradores comprometidos e entusiasmados, no lugar dos funcionários movidos pelo medo e pelas dúvidas que foram comuns em outros momentos históricos.
Uma dose de conservadorismo financeiro, apurado senso de identidade e atenção ao ambiente externo estão entre outros fatores fundamentais, na leitura de Arie De Geus, autor de “A empresa viva: como as organizações podem aprender a prosperar a e se perpetuar”. O executivo salienta que as empresas que conseguem antecipar os movimentos do mercado saem em larga vantagem frente aos concorrentes.
Para Danny Miller, professor na École des Hautes Études Commerciales de Montreal e na University of Alberta, no Canadá, as empresas mais longevas possuem mais pontos marcados nos seguintes quesitos: continuidade, comunidade, conexão e comando. O primeiro diz respeito a ter um foco relacionado a um propósito econômico e social. Comunidade leva a pensar em valores claros e bem definidos, capazes de formar um grupo coeso. A conexão se refere a alianças sólidas com públicos externos, enquanto o comando diz respeito aos líderes dessas empresas.
Diferenciais na crise
Todos os cidadãos já perceberam, na prática, que a economia brasileira vive um momento crítico. De acordo com o atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, a crise registrada, neste ano, pode ser a maior sentida no Brasil desde que o Produto Interno Bruto (PIB) passou a ser medido, nos anos de 1920 — superaria, inclusive, os efeitos sentidos após a quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929.
Entre os números que ilustram a gravidade do problema estão a queda do PIB per capta se aproximando de 10% em menos de três anos e as taxas de desemprego crescendo, atingindo marca também próxima de 11% da população — entre os jovem, a porcentagem dobra. No entanto, o próprio ministro ressalta que, a partir de agora, os investidores devem reaparecer aos poucos.
No entanto, o país não pode parar enquanto o cenário econômico não muda. Aliás, passar por momentos de crise garantindo os menores impactos possíveis e até aproveitando as oportunidades que surgem em períodos semelhantes estão entre os diferenciais das empresas que têm a durabilidade como característica. Para quem precisa buscar informações nesse sentido, não faltam dicas em livros, em sites e em cursos especializados.
Uma rápida busca na internet abre um amplo leque de possibilidades. Entre as primeiras dicas para sobreviver a períodos de turbulência econômica está a redução de custos e o gerenciamento criterioso das contas da empresa. Rever o plano de negócios também pode ser uma boa medida, assim como avaliar de que maneira agregar diferenciais ao produto ou ao serviço oferecidos. A crise também costuma ser uma boa chance de profissionalizar os processos internos e enxugar a estrutura, caso se verifique que ela está superdimensionada. Ao contrário do que muitas vezes acontece, não se deve abrir mão da comunicação e da divulgação do negócio. Foco, objetividade e rapidez no diagnóstico e na resposta ao mercado também são fundamentais.
De acordo com o professor doutor Alberto Borges Matias, fundador da FEARP/USP e professor titular em Finanças da mesma instituição, as crises econômicas sempre ocorreram e vão continuar a existir. “As empresas duradouras, no Brasil e no mundo, encontram meios de suplantá-las”, garante Matias, que também atua junto a programas de graduação, mestrado acadêmico e profissional, doutorado e MBAs. Segundo o especialista, as expectativas para o Brasil a partir de 2018 são bastante positivas. O professor pontua que, mesmo atualmente, existem boas oportunidades de negócio. Acompanhe a entrevista completa abaixo.
Quais são as características primordiais de um empreendedor que pretende criar um negócio duradouro?
Alberto: Os empreendedores brasileiros surgem, tradicionalmente, de duas áreas: são engenheiros que descobriram um determinado produto e investem nessa produção ou são representantes comerciais que descobriram determinado segmento de mercado e investem nele. Em ambos os casos, a forte deficiência é a do conhecimento financeiro. Este é o grande investimento necessário.
Que cuidados, no momento de sua elaboração, facilitam o desenvolvimento de negócios longevos?
Alberto: Planejamento.
Os brasileiros são reconhecidamente empreendedores. Quais características culturais os tornam propensos a ter o próprio negócio?
Alberto: O brasileiro é alegre, positivo e tenta sempre olhar o mundo com boas expectativas. Esta visão facilita o empreendedorismo.
Ao mesmo tempo, é também elevado o número de empresas fechadas anualmente. Por quais razões isso acontece?
Alberto: Isso é natural no mundo inteiro. Como nós, as empresas têm seu ciclo de vida, normalmente, inferior ao ciclo de vida de seus empreendedores. O Sebrae tem ajudado muito na preparação dos empreendedores para ampliar a vida útil dos negócios.
Como o empresário brasileiro deve se comportar em um momento em que a palavra “crise” é uma das mais pronunciadas diariamente? O efeito psicológico negativo gerado contamina a economia?
Alberto: As crises contaminam as pessoas, os clientes e os empresários, mas geram a necessidade de sobrevivência, a necessidade de criar novos produtos e serviços, de atender a novos mercados, de enxergar as oportunidades que se abrem.
Atualmente, o país enfrenta uma grave crise econômica e política. Na sua leitura, foi a deterioração econômica que agravou a crise política ou o inverso?
Alberto: Economia é ciência política. A política pode intervir na economia de forma positiva ou negativa. Estamos vendo os efeitos práticos da segunda opção.
Quais fatores provocaram a atual crise econômica?
Alberto: Juros excessivamente elevados, retração dos mercados de crédito empresarial, comercial e da construção civil, elevação da carga tributária e incompetência governamental.
A crise brasileira tem algo a ver com uma desaceleração da economia mundial ou são situações distintas?
Alberto: A crise nacional foi produção genuína brasileira. Nada tem a ver com a situação internacional. Aliás, só existem três países com queda no PIB: Rússia, Ucrânia e Brasil.
O atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, declarou que essa é a pior crise econômica desde que o PIB brasileiro começou a ser medido. O senhor concorda com essa afirmação?
Alberto: Sim. Nesses dois anos temos uma queda conjunta de quase 9% do PIB e de mais de 10% da produção industrial. É uma crise muita séria.
Quais fundamentos econômicos devem ser retomados para que o país saia da crise?
Alberto: Política Fiscal, na busca de superávit, com redução das despesas públicas; política monetária, com redução dos juros e expansão do crédito; política cambial sem interferência governamental, notadamente nas operações de swap e hedge; política de rendas sem interferência do governo na definição de salários.
Que aprendizado pode ser retirado dessa experiência?
Alberto: É preciso entender que ou a sociedade controla o Estado Brasileiro (União, estados, municípios e estatais) ou o Estado Brasileiro destruirá a sociedade.
Quais medidas o senhor gostaria de ver colocadas em prática?
Alberto: Geração de boas expectativas.
Quais são as suas projeções para a economia brasileira, principalmente em relação ao tempo de recuperação da atividade econômica?
Alberto: Em 2016, teremos queda de quase 4% do PIB e queda de quase 6% na produção industrial; em 2017, prevejo um aumento do PIB e da Produção industrial entre 0% e 1%; em 2018, teremos o início da recuperação. Desde já, espero maior equilíbrio da taxa de câmbio, favorecendo as exportações e a competividade industrial no mercado interno.
A empresa mais antiga do mundo

Fundado em 718, depois que o mestre budista Taicho Daishi teve a revelação em sonho da existência de uma fonte de água com poderes restauradores em uma aldeia no sudoeste do Japão, o local batizado de Houshi Ryokan, tem muito de lenda. Com 1.298 anos de história, sob o comando do 45º descendente de seu idealizador, o misto de hotel e spa comporta 450 hóspedes, que costumam ser recebidos com a tradicional cerimônia do chá e um quimono de algodão. A longevidade do lugar deve muito aos valores milenares mantidos vivos, ao mesmo tempo em que eram modernizadas as suas ferramentas administrativas. No contexto japonês, isso significou a travessia de ordens econômicas, políticas e sociais totalmente distintas.