O traço como linguagem

Através do cartum, da ilustração ou da caricatura, Cláudia, Fabiana e Wilian dão seu recado com crítica, humor e criatividade

A importância do traço é conhecida desde que o “homo sapiens” começou a externar o desejo de se comunicar. Impressas nas rochas e nas paredes das cavernas, as pinturas rupestres (por volta de 40.000 a.C.) iniciaram um processo de comunicação que se tornaria cada vez mais elaborado com o passar dos anos. Foi por meio do traço que gerações, umas após as outras, contaram os conhecimentos e as tradições que ajudariam a construir a história.

O traço não serve apenas para contar, mas também para fazer rir, criticar e abrir portas fantásticas que introduzem os pequenos na complexa rede da comunicação. É com esses traços que Wilian Gaspar, caricaturista, Cláudia Lúcia Cabrera Kfouri, caricaturista, chargista e ilustradora, e Fabiana Salomão, ilustradora, emprestam ao mundo sua ótica particular.

Fora do expediente de trabalho, a função do diretor de arte Wilian é fazer rir. Suas caricaturas já são famosas na França, na Austrália, em Portugal, na Croácia, na Itália e na Espanha, países que começou a desbravar em 2005, inscrevendo seus trabalhos em salões de humor. Tudo começou como uma brincadeira. “Aos 13 anos, fiz a reprodução de uma imagem e, com o passar do tempo, comecei a aperfeiçoar cópias de desenhos. Quando desenhava amigos e professores, vi que tinha dom para a caricatura e passei a me especializar”, relata.

No Brasil, o cartunista já participou de salões no Rio de Janeiro, em Ribeirão Preto, Ituverava e Sertãozinho. Recebeu menções honrosas do Rio de Janeiro, mas percebeu que no exterior a aceitação de seu trabalho é maior. “Em 2008, na França, fiquei entre os seis primeiros colocados. Passei 15 dias no país e vi que a pessoa com um dom artístico é muito valorizada. Aqui não se tem muito crédito ou possibilidades”, diz.

A perspicácia em perceber detalhes do rosto que se destacam e um bom conhecimento em atualidades são fundamentais para quem pretende se dedicar ao cartum, já que é preciso estar antenado às celebridades do momento. Para o cartunista, a arte é o resultado da união do traço com a ideia, mas uma visão bem-humorada do mundo também faz parte. “Sou sarrista. Desde pequeno tenho facilidade para perceber os traços que se destacam nas pessoas. Também tenho memória fotográfica”, acrescenta o cartunista. Segundo ele, o humor é importante para despertar a consciência crítica e perceber o que ocorre na realidade.

Uma das coisas que chamou a atenção de Wilian Gaspar na comuna francesa Saint-Just-le-Martel, onde ficou hospedado enquanto participava de um dos salões, foi a associação que o prefeito, um desenhista, fez da arte com a cidadania: todas as placas da cidade são feitas utilizando o cartum. “Esta é uma forma de manter viva essa forma de arte. A internet chegou muito agressiva e temos tem que ter o bom senso de preservar essa expressão de arte”, ele ressalta.

Concursos e salões
A ribeirãopretana Cláudia Kfouri mudou-se para São José do Rio Preto aos dois anos. Destaque em concursos e salões do humor com ilustrações, caricaesculturas e charges, as atividades que da artista em outras áreas, apesar da veia cômica, são absolutamente sérias. Graduada e pós-graduada pela Unesp, lecionou nas áreas de literatura e comunicação visual em faculdades de São José do Rio Preto e região, mas sem deixar o humor de lado. Ilustradora e chargista no jornal Diário da Região, participava de salões de artes, tendo sido premiada.

Em 2006, mudou-se para São Paulo para trabalhar na reitoria da Unesp, desenvolvendo estudos e estratégias para integrar o aluno de escola pública à universidade pública. Aproveitou o fato de estar na maior capital cultural do país para aprender mais sobre arte. “Fiz cursos de pintura e gravura em metal no Instituto Tomie Ohtake com os artistas Fernando Vilela, Odilon Moraes e Cláudio Vasques”, conta Cláudia.

Em abril de 2010, participou do IV Concurso de Ilustração da Folha de S. Paulo e foi contratada como ilustradora das colunas do Caderno Mercado, mas também ilustra revistas e capas de livro.
Na área artística, conquistou o Prêmio Câmara dos Vereadores no 37º Salão de Humor de Piracicaba (2010), com a caricaescultura de “Diego Rivera e Frida Kahlo”; o segundo lugar no 16° Salão de Humor de Ribeirão Preto, com a caricatura de Fernanda Montenegro (2009); e a Grande Medalha de Bronze no Salão de Artes de São José do Rio Preto (2007), com a série de gravura em metal “Ritual do Tempo”.

Em sua construção artística, humor e seriedade criam uma mistura homogênea, pois ao se fundirem pelo olhar da artista compõem uma concepção diferenciada do universo. “Trabalhar com humor requer uma ótica que alcança o detalhe. Temos que conhecer o lado sério para tratá-lo com humor e ironia”, define. Trabalhando o humor por meio do inusitado, do inesperado, do grotesco e da ironia, tenta surpreender o espectador. “Vivemos em um mundo de situações programadas e sem graça. O desenho gráfico de humor tenta sair desse esquema, fazendo as pessoas rirem da própria situação, como se colocasse o bobo da corte no lugar do rei”, explica.

A artista também escreve contos, poemas e roteiros de peças de teatro, mas no momento está mais voltada à caricaescultura e à ilustração. “Escrever é mais intimista, transporta o autor para outros mundos; fazer os bonecos é mais tenso, exige trabalho manual; a ilustração é mais alegre, condiz com um estado de espírito mais positivo. Todas essas formas de arte me dão prazer em algum momento”, explica.

Segundo a caricaturista, para se comunicar vale tudo, dependendo do que se pretende despertar: o visual chama mais atenção de imediato, mas o meio verbal é mais questionador e crítico. Com a caricaescultura, a ilustração e a caricatura a artista consegue unir os dois.

Poderosa ferramenta, capaz de quebrar as regras sociais, o humor tem a capacidade de perverter o convencional. Mas, segundo Cláudia, a profusão de salões do humor e valorização do humor gráfico na internet contribuíram para que ele perdesse parte de seu caráter contestador. “O Salão de Piracicaba nasceu da necessidade de sacudir os pensamentos dominados pelo autoritarismo da época. Hoje, se por um lado há mais espaço para profissionais da área, a caricatura tem mais força do que a charge e o cartum”, justifica Cláudia.

Reconhecida dentro e fora do país, a ilustradora Fabiana Salomão constrói universos até então apenas imaginado por autores da literatura infanto-juvenil, como Luís Fernando Veríssimo e Ana Maria Machado. Universos que percebeu que poderia explorar ao conhecer o trabalho de uma amiga que vivia às voltas com a versão infantil de Airton Senna, o “Seninha”, nos estúdios do piloto. Na época, a artista plástica frequentava os bancos da Faculdade de Belas Artes de São Paulo. “Fazia artes plásticas, mas não sabia bem o que queria. Por acaso, tudo caminhou para a ilustração infanto-juvenil. Acabei me dedicando e me apaixonando a esse universo”, ressalta.

Fabiana é de Ituverava, mas sempre viveu na grande São Paulo e, mesmo atuando na área, em uma grande editora, partiu para o Canadá em busca de aprendizado e de novas perspectivas. em 2004, mudou de rota e de vida, vindo para Ribeirão Preto, onde começou outra viagem: o encontro consigo mesma e com a espiritualidade. “Aqui, tenho feito uma descoberta após a outra. Percebi que meu trabalho amadureceu muito e tenho mais tempo para os meus projetos”, destaca. A vivência profissional flui naturalmente, após 16 anos na área: já tem um nome e é procurada pelas editoras e autores. “Já posso selecionar os textos que ilustro. Com o reconhecimento, vieram os grandes escritores”, ressalta.

Segundo Fabiana, a autenticidade é fundamental em seu trabalho devido às mudanças no conceito de ilustração e de arte, em que não se busca apenas a beleza e a perfeição. “A ilustração na literatura infanto-juvenil está ligada à expressão artística. O mercado exige criatividade e os que se destacam têm estilo próprio”, explica.

Como ela define, o humor é uma característica quase intuitiva do traço, que passa para o papel “astral e movimento”. A busca pela excelência traz fases estressadas e sensíveis, contrabalanceadas por seu humor puro, infantil. “Tenho a impressão de que não amadureci em alguns aspectos, daí minha identificação com a literatura infanto-juvenil”, revela. Os leitores também se encontram nas ilustrações de Fabiana, afinal, o visual é a forma mais agradável de introduzir o mundo das letras aos pequenos. “Auxilia demais. A impressão mais remota da mente da criança é a linguagem visual. Enquanto a leitura ainda não está muito apurada, o peso da imagem é muito grande”, afirma. Essa concepção faz com que os ilustradores já sejam reconhecidos como coautores: uma confirmação dessa tendência da importância da ilustração são os livros-imagem.

O livro “A Garota Judia”, ilustrado por Fabiana, recebeu o Prêmio Areté de melhor ilustração infanto-juvenil e clássico “Peter Pan” rendeu a ela o prêmio de melhor ilustração no concurso “30 melhores livros infantis, da revista “Crescer”, em 2010. Este ano, a ilustradora pretende lançar o primeiro livro totalmente escrito e ilustrado por ela, pela Editora Globo, imprimindo a magia do conto em um ofício que já é o de encantar.

Quem quiser conhecer um pouco mais a obra desses artistas pode acessar https://fabianasalomao.blogspot.com/; https://claudiakfouriblog.blogspot.com e www.gasparcaricaturas.blogspot.com

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Carolina Alves
Ilustrações capa: Fabiana Salomão

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