O traço humanista de Niemeyer

O traço humanista de Niemeyer

A obra de Niemeyer também está presente em Ribeirão Preto

O final de 2012 se constitui num marco do fim de um ciclo genial de criação na arquitetura moderna, com a morte de Oscar Niemeyer, no dia 5 de dezembro. Da mesma maneira que o arquiteto contribuiu com projetos que se transformaram em referência arquitetônica em vários lugares dentro e fora do Brasil, deixou sua assinatura em Ribeirão Preto, ao projetar a Unidade II – Campus do Centro Universitário Moura Lacerda, em 1972.

À época, conta o reitor do Centro Universitário, Oscar Luiz de Moura Lacerda, o arquiteto vivia em Paris, devido a problemas de ordem política. Ao ler sobre os feitos de Niemeyer em Brasília, o pai de Oscar Luiz, Oscar de Moura Lacerda, decidiu convidá-lo a realizar o projeto, mesmo estando Niemeyer na França, de onde aceitou o convite. “Tínhamos a possibilidade de utilizar, para a construção do campus, um outro terreno que foi oferecido a meu pai, na zona leste da cidade”, recorda. Ao saber sobre as possibilidades de local, Niemeyer optou pela área atual, pensando na necessidade de expansão futura do campus, em função das exigências práticas de cursos como o de Agronomia.

Com o falecimento do pai, foi Oscar Luiz quem deu continuidade à construção do Campus, fator que o levou a se encontrar com Niemeyer mensalmente, no Rio de Janeiro, onde o arquiteto mantinha escritório, após o retorno de Paris. O reitor do Centro Universitário relata que Niemeyer dividia uma sala com cinco ou seis assistentes.

Esta foi apenas uma das ocasiões em que testemunhou a humildade de Niemeyer.  Quando o arquiteto entregou o projeto da Biblioteca do campus, Oscar Luiz percebeu que se o mantivesse no formato original, teria que usar luz artificial a maior parte do tempo. Ao comentar esse detalhe com Niemeyer, o arquiteto perguntou qual era a sua sugestão para solucionar o problema. “Propus que levantássemos a cúpula de claraboias em cerca de 50 centímetros para melhorar a qualidade de ventilação e de iluminação. Imagine, um arquiteto do nível dele se prontificar a discutir com alguém que não tinha formação adequada, ouvir e se propor a considerar a observação”, afirma. 

Da mesma forma, o empresário pôde conhecer o lado generoso e humano do arquiteto: indagado se podia colaborar com o planejamento do curso de Arquitetura, fez à Instituição a doação do projeto, por ele elaborado para a criação de um curso de Arquitetura e Urbanismo, na Argélia. A filosofia de ensino do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Moura Lacerda foi doada por Niemeyer, que designou um dos membros integrantes de sua equipe para acompanhar a implantação do curso. “Percebeu-se pelo esboço que Niemeyer não visava a obra, mas o objetivo da obra. Para ele, um projeto tinha que ter um significado mais social do que de execução de um plano de trabalho”, ressalta. A ênfase dada na grade denunciava claramente o espírito humanitário do arquiteto. O reitor ainda ressalta que é nesse sentido que muitos enfatizam o caráter socialista de Niemeyer e de seu legado — a preocupação em propiciar, através de seus projetos, o desenvolvimento social.

Oscar Luiz conta que muitas características exaltavam os traços de genialidade do arquiteto. “Niemeyer era uma figura ímpar, alegre, afável, humilde e com uma capacidade fora do normal para lidar com as coisas”, enfatiza. Para o reitor do Centro Universitário, o campus do Moura Lacerda evidencia o caráter visionário de dois homens: do arquiteto, cuja obra sempre esteve à frente de seu tempo, e de seu pai, Oscar,  que soube reconhecer em Niemeyer alguém capaz de projetar, há 40 anos, edificações que, por sua funcionalidade e finalidade,  tornaram-se perfeitamente adequadas às demandas do futuro.

Uma visão atual
Para o reitor do Centro Universitário Moura Lacerda, Oscar Luiz de Moura Lacerda, a carta escrita por Oscar Niemeyer a respeito da elaboração do Programa de Ensino do curso de Arquitetura e Urbanismo resume o caráter inovador do arquiteto

“Meu caro Oscar Luiz de Moura Lacerda:
Atendendo sua solicitação, elaborei com meu companheiro Ubirajara Brito, um programa para a escola de Arquitetura dessa universidade.
Nele, certas disciplinas serão dadas em função do trabalho nos ateliês, o que as torna mais práticas, mais ligadas aos problemas e programas do mundo atual.
Acreditamos que o sistema proposto estabelece diretrizes novas para o aprendizado da arquitetura e, por esta razão, pretendo, como presidente do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Unesco, apresentá-lo como minha primeira contribuição às atividades daquele organismo internacional.

Agradecendo sua confiança, Oscar Niemeyer”

 

 

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