Obesidade Infantil
Seguindo a série de entrevistas interativas do portal, Heloisa Bettiol, doutora em Pediatria pela FMRP-USP, responde a perguntas sobre "Obesidade Infantil"
Seguindo a série de entrevistas realizadas pelo portal, com a ajuda dos internautas, convidamos à leitura das respostas às dúvidas sobre o tema "Obesdidade Infantil". As perguntas que recebemos foram encaminhadas para serem respondidas pela médica especialista Heloisa Bettiol, doutora em Pediatria pela FMRP-USP e pós-doutorada pelo King’s College London. Se você tem casos de crianças obesas na família ou quer apenas se informar melhor sobre o tema, acompanhe a seguir.
Qual o limite de peso para uma criança, como os pais podem saber se ela está obesa ou é apenas uma "fase" passageira do desenvolvimento?
Não existe um valor fixo de limite de peso para uma criança, pois como ela está em processo de crescimento, tanto o peso como a altura vão variar ao longo do tempo, dentro de uma faixa que pode ser considerada aceitável de acordo com a idade e o sexo da criança. Para que o peso esteja adequado para uma determinada criança ele deve ser proporcionado para a sua altura. Uma maneira prática de se avaliar essa proporcionalidade é utilizar a curva do índice de massa corporal (IMC). Ele é calculado dividindo-se o peso (em kg) pela altura (em metros) elevada ao quadrado; o valor resultante é colocado na curva do IMC de acordo com a idade e sexo. A criança que estiver acima de determinado valor definido nessa curva em cada idade é considerada obesa. A grande limitação do IMC é que ele não separa o que é gordura do que é massa magra, ou seja, os componentes do peso da pessoa que correspondem aos músculos, ossos, órgãos, água. Mas se o valor do IMC for excessivo, para a maioria das pessoas representa mesmo excesso de gordura (a ao ser para os grandes atletas, que tem IMC alto às custas do desenvolvimento muscular). Existem algumas fases do processo de crescimento em que ocorre aumento da gordura corporal da criança, como no final do período gestacional, o primeiro ano de vida, de 5 a 6 anos de idade e na adolescência; se a criança ganhar muito peso nessas fases, terá maior chance de manter-se obesa durante toda a vida. A idéia de que uma criança gordinha na idade pré-escolar ou escolar acaba emagrecendo naturalmente na adolescência, quando fizer o estirão da puberdade, infelizmente não é verdadeira para a maioria das crianças. Uma criança gordinha tem grande chance de se manter gordinha a vida toda, se nada for feito para mudar esse percurso.
Qual deve ser o procedimento dos pais ao notar que o filho está obeso?
Os pais devem ficar atentos para os principais fatores que favorecem o aparecimento da obesidade. Em 95% dos casos o excesso de peso acontece devido a um desequilíbrio entre a quantidade de energia ingerida e a energia gasta; essa é a chamada obesidade primária. Os outros 5% dos casos são devidos a doenças genéticas ou endocrinológicas, a obesidade secudária. Existem fatores que começam a agir ainda dentro do útero, como os bebês que nascem pequenos porque sofreram algum atraso do desenvolvimento intra-uterino; esses bebês são “programados” dentro do útero para economizarem energia, para sobreviver dentro daquele ambiente uterino que está hostil, e quando nascem e são alimentados em excesso, ganham muito peso e acabam tendo mais facilidade para engordar nas outras fases da vida. Também os bebês que nascem muito pesados tem mais facilidade para se manterem pesados ao longo da vida. Os pais devem ficar atentos também para os hábitos alimentares dos filhos, se estão comendo muito aqueles alimentos que são calóricos e com baixo valor nutricional, como salgadinhos de pacotes, lanches, bolachas, doces, frituras, etc. Se a criança se alimentar dessa forma e não fizer atividade física adequada, ficar muitas horas assistindo TV, no computador ou jogando vídeo-game, terá mais chance de engordar. Ainda, existem situações estressantes na vida das crianças que as levam a desenvolver compulsão alimentar como uma maneira de aliviar a angústia que essas situações causam. Assim, os pais devem observar se a criança come muito devido a ansiedade, tristeza, falta de adaptação na escola e com os amigos, ou outras situações que as deixam estressadas e angustiadas. E também os pais devem prestar atenção aos seus próprios hábitos alimentares e de vida, pois se eles mesmos gostam de comer alimentos muito calóricos e não fazem atividade física, é isso que seus filhos vão aprender a fazer no dia-a-dia.
Se os pais são obesos e não percebem que a criança também está fora de peso, o que fazer?
Essa é uma situação muito comum e delicada, pois para reverter esse quadro é necessário o envolvimento de toda a família. As crianças compartilham características dos seus pais que são geneticamente adquiridas, entre elas o do ganho excessivo de peso, como o que se denomina de “tendência para engordar”. Assim, se nenhum dos pais é obeso, temos 7 a 8% de chance de desenvolver obesidade ao longo da vida; se um dos pais é obeso, a chance sobe para 40%, e se os dois são obesos vai para 80%. Por isso a obesidade se manifesta mais facilmente quando existe a predisposição genética para ganhar peso e um ambiente favorável para esse ganho. Contudo, a criança compartilha não só os genes com os seus pais, mas também é com eles que aprende os hábitos alimentares, a se exercitar, a ter hábitos saudáveis ou não. Se a família é obesa mas não se percebe dessa forma, é função do pediatra alertar para esse problema e tentar sensibilizar a família, para evitar que a obesidade da criança continue evoluindo.
Como a obesidade infantil pode influenciar no desenvolvimento da criança? Quais as conseqüências da obesidade infantil?
A obesidade pode trazer sérias conseqüências tanto para a vida atual como para a vida futura. As crianças obesas muitas vezes são vitimas de bullyng por parte de colegas e mesmo de adultos, sendo ridicularizadas, preteridas em esportes coletivos, o que pode afetar a sua auto-estima e sua capacidade de relacionamento com outras pessoas. Elas tendem a ser mais altas e terem a maturação sexual mais cedo do que as crianças da mesma idade, o que às vezes podem levar a problemas de adaptação em seu grupo. Elas podem desenvolver problemas ortopédicos, principalmente nos joelhos e tornozelos, que tem que sustentar o excesso de peso; hipertensão arterial, dislipidemias (excesso de colesterol e outras gorduras no sangue) e diabetes tipo II (aquele que geralmente aparece no adulto), que são fatores de risco para doenças cardiovasculares (infarto do coração e derrame cerebral). Podem ainda desenvolver problemas de sono, esteatose hepática (acúmulo excessivo de gordura no fígado que pode evoluir para cirrose). Crianças obesas tem grande chance de se tornarem adultos obesos.
Qual o tratamento para obesidade infantil?
O tratamento da obesidade infantil envolve mudanças de hábitos de alimentação e de estilo de vida, envolvendo toda a família e não só a criança obesa, e também a detecção de fatores emocionais que podem estar contribuindo para que a criança coma muito. Os pais tem que se conscientizar que não adianta exigir da criança que ela tenha comportamentos que eles mesmos não tem, como o de comer alimentos mais saudáveis e praticar atividade física. A criança deve ser estimulada a escolher e experimentar alimentos menos calóricos, como frutas, legumes e verduras, fazer as refeições adequadas a cada três horas, não ficar muito tempo sem comer, disciplinar o consumo de refrigerantes e guloseimas e reduzir o consumo dos alimentos muito calóricos. É importante frisar que não existem alimentos proibidos, mas ela terá que aprender a controlar a ingestão dos alimentos mais calóricos. Deve também ser estimulada a ser mais ativa, participar de brincadeiras de correr, jogar bola, andar de bicicleta, nadar, caminhar, etc.
Propaganda influencia na alimentação das crianças e conseqüentemente no ganho de peso?
Influencia muito, pois as crianças são estimuladas a consumirem alimentos calóricos de baixo valor nutricional, que contém muito sal e muita gordura para aumentar a durabilidade. O grande problema é que muitas vezes esse tipo de alimento passa a ser a alimentação habitual da criança, que deixa de comer alimentos saudáveis para se alimentar prioritariamente desses produtos, o que favorece o ganho excessivo de peso.
Como fazer quando parentes (avós, tios, etc) enchem a criança de doces, refrigerantes, etc?
Os pais devem assumir a educação dos filhos e não permitir que os parentes interfiram, mesmo que estejam com a melhor das intenções. É comum dizer que os avós tem até o direito de “estragar” os netos, mas para isso tem que haver um limite. Os pais devem deixar claro para os parentes que são eles, pais, que definem os limites para a alimentação do filho, principalmente se a criança já é obesa, dialogando com a família sobre as conseqüências desastrosas que podem acarretar para o futuro da criança.
Qual a maior dificuldade do tratamento de uma criança obesa, já que ela será privada de alimentos que está habituada?
O tratamento da obesidade não é fácil em qualquer idade, pois envolve mudança de hábitos que tem que ser levados por toda a vida, para evitar o “efeito sanfona” (emagrece, engorda, emagrece, engorda mais ainda...). Na verdade a criança não será totalmente privada dos alimentos que está habituada, mas terá que aprender a controlar a ingestão dos alimentos mais calóricos. Eventualmente terá que abandonar o consumo de um ou outro item, se houver contra-indicação maior para isso, como alimentos com muito sal se já estiver hipertensa. Ela deve ser estimulada a participar da elaboração de pratos saudáveis, experimentar alimentos saudáveis novos, principalmente aqueles que ela acha que não gosta mesmo sem nunca ter provado. E toda a família tem que colaborar, pois a dieta balanceada vai ser adequada mesmo para quem não tem problemas com o peso.
Qual um cardápio ideal de alimentação infantil?
No início da vida o melhor alimento para a criança é o leite materno, exclusivo até os seis meses e complementado com alimentos saudáveis a partir de então, podendo se manter até os dois anos de idade. Quando não é mais possível manter o leite materno, até um ou dois anos é recomendado o uso de fórmulas infantis, cuja composição é quantitativamente mais parecida com o leite materno. Deve-se postergar a introdução de alimentos industrializados com certeza para depois de um ano de idade, mas o ideal é que fosse para depois de dois anos. Assim, bolachas, refrigerantes, sucos artificiais, iogurtes, macarrão instantâneo (tipo “miojo”), enlatados, embutidos, chocolates, achocolatados, café, balas, doces industrializados, nada disso deve ser oferecido a menores de um ano, preferencialmente somente após os dois anos. E, depois disso, a criança só deve consumir esses alimentos em ocasiões excepcionais, e não como rotina da sua alimentação. Ela deve ser estimulada desde cedo a consumir frutas, legumes e verduras sob diferentes formas de preparo, para que se habitue com diferentes sabores e texturas e prefira esses alimentos a outros menos saudáveis.
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