Olhar insubordinado

Olhar insubordinado

Com o olhar aguçado para perceber as nuances da vida, Eliane Brum relata os caminhos que percorreu entre o jornalismo e a literatura para contar as histórias dos esquecidos


Gaúcha de Ijuí. Eliane Brum começou a carreira, em 1988, no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, onde trabalhou por 11 anos. Também foi repórter especial da revista Época, em São Paulo, por 10 anos. A partir de 2010, passou a trabalhar como freelancer para produzir grandes reportagens e matérias especiais. Escreve uma coluna quinzenal no site do jornal global El País. Desde que enveredou pela literatura já publicou seis livros, cinco de não ficção e um romance. “A Vida que Ninguém vê” ganhou o prêmio Jabuti 2007 de melhor livro reportagem. Também já participou de coletâneas de crônicas, contos, ensaios e da produção de documentários.

A jornalista escritora também se tornou uma defensora da causa amazônica. Nas palestras que faz no Brasil e no exterior mostra os riscos que a destruição da floresta estão trazendo para o equilíbrio ambiental. Eliane Brum ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. Durante sua passagem por Ribeirão Preto, na 15ª edição da Feira Nacional do Livro, a escritora Eliane Brum foi entrevistada pelo jornalista Murilo Pinheiro.

Murilo – Como despertou o seu interesse pelo jornalismo?
Eliane: A minha aproximação com o jornalismo veio por acaso, a partir de necessidades que eu ia tendo. Foi um processo de trajetória. Quando eu estava cursando a faculdade de jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), percebi que eu não ia ser jornalista. Não conseguia me imaginar fazendo perguntas para alguém, pois sempre gostei de olhar e escutar, mas não de fazer perguntas aos outros. Meu gosto pela profissão surgiu apenas no último semestre do curso, quando conheci o professor Marques Leonam. Com ele aprendi mais do que técnicas de redação. Descobri a paixão pelo ofício de contar histórias e logo a primeira que escrevi, durante o estágio que fiz com ele, rendeu o primeiro de muitos prêmios que colecionaria ao longo da minha carreira. Aprendi que com um bloquinho e uma caneta eu posso entrar em qualquer lugar do mundo.

Murilo: Você ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. Como foi o primeiro prêmio de jornalismo?
Eliane: A minha primeira reportagem veio por meio de uma matéria sobre as filas que a gente entra desde que nasce até morrer: “Esperando na fila da existência”. O resultado veio depois, quando a minha amiga Simone Lopes escreveu a matéria no Primeiro Set Universitário, um concurso entre as faculdades de comunicação social no sul do país, entre os estados do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Este foi o meu primeiro prêmio de jornalismo. A recompensa era um estágio no jornal Zero Hora, onde fiquei por 11 anos.

Murilo: Desde o começo, você procurou outro viés do jornalismo. Fazer as matérias que ninguém fazia, olhar para o lado que ninguém olhava. Quando colocou em prática o jornalismo que fugia dos padrões tradicionais da notícia?
Eliane: Comecei a fazer o que tinha vontade, onde o meu olhar me puxava de uma forma intuitiva. Sempre fui uma repórter de “desacontecimentos”. Esse jornalismo que se chama de mídia tradicional deixa muita gente de fora da história contada, ou seja, muitas pessoas ficam de fora da narrativa. A minha escolha foi diferente. Decidi contar a vida dos não contados, a história dos invisíveis, a história dos proscritos, daqueles que vivem à margem da narrativa e daqueles que nunca seriam notícia para os padrões do jornalismo. Revelo os “desacontecimentos” que habitam cada pessoa, mostrando o extraordinário da vida comum.

Murilo: Com esse direcionamento para trabalhos alternativos, a sua fonte de renda vem dos livros ou ainda do jornalismo?
Eliane: A única remuneração fixa que tenho hoje é a minha coluna no El País. Com o que ganho nesta coluna, pago as minhas contas. O dinheiro que recebo para fazer palestras, participar de festivais literários, como a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, uso para financiar meus projetos de reportagem. Assim, a verba é bancada por mim mesma. Aos poucos, os projetos viram livros e documentários.

Murilo: Qual sua avaliação sobre a situação da imprensa nacional com as demissões, fechamentos de publicações e queda nas publicidades?
Eliane: A reportagem não está em crise. O que está em crise é o modelo de negócio.

Infelizmente, a imprensa não vai voltar a ser o que já foi no passado A questão é: como faremos para financiar as reportagens? O grande diferencial será a pessoa que conseguir reforçar o diferente. No jornalismo, se não houver reportagem, ele perde a razão de ser. Se o jornalismo for enveredar pelas notícias rápidas que abastecem os portais e algumas revistas, já perdeu, pois o seu único diferencial é a reportagem.

Murilo: Houve alguma história que mudou sua vida?
Eliane: Na minha vida, tudo acontece a partir de histórias que eu vou contar. Como a questão de tempo que me levou a sair da redação, pois eu precisava aprender a viver segundo os meus próprios termos e saber qual era o meu tempo. Durante o momento que trabalhei com reportagem na Época, abordei a questão da morte. Aquela morte diferente da que a imprensa cobre, de balas perdidas, de acidentes de trânsito, de assassinatos, terremotos e catástrofes, de modo geral. Eu queria contar a morte silenciada na época histórica. O senador francês Jean-Pierre escreveu um livro muito importante sobre o assunto. Ele chamava de morte envergonhada a que se passa dentro de hospitais, ou seja, é a morte da maioria. Eu tinha decidido acompanhar alguém com uma doença incurável até o fim, mas não tinha noção do que isso significava. A minha mudança aconteceu a partir da história de Ailce de Oliveira Souza. Ela era uma merendeira que tinha tido uma vida dura, trabalhado muito. Naquele momento de sua vida, estava curtindo as aventuras, mas sua vida foi interrompida por um câncer incurável. No instante em que nossos olhares se encontraram no meio da sua sala, eu me coloquei numa situação impossível: minha vida estava amarrada à sua morte. Eu não poderia desejar nunca que essa reportagem acabasse. Ao mesmo tempo, desejava que ela acabasse o mais rápido possível. Fui ficando cada vez mais ansiosa para me libertar de um contato com a morte, tão cotidiano e radical que estava impossibilitando a minha própria vida. Ao mesmo tempo, fingia que nunca acabaria. De certo modo, eu e ela éramos duas fingidoras. Ela, na posição de personagem de uma vida, eu como narradora de uma história cujo fim era o fim da vida dela. Enquanto o câncer a devorava por dentro, nos quase quatro meses em que estivemos juntas, eu, que raramente adoeço, colecionei três gripes, uma virose, uma sinusite, uma crise de bronquite alérgica e, durante dois dias, fiquei prostrada, sentindo os sintomas dela.

Um dia a Ailce me disse uma frase que marcou a minha vida inteira. “Quando eu tive tempo, eu descobri que o meu tempo tinha acabado.” Esta frase dá conta de um monte de situações. Além de todas as questões que me trouxe, passei a me confrontar com o tempo. A morte me deu a possibilidade de pensar sobre a vida e o pensar sobre a vida é o pensar sobre o tempo. Fui capaz de perceber a dimensão do que ela havia me dado. Ninguém confiara em mim tanto quanto ela. Eu escreveria sua história e ela estaria morta. Pela primeira vez, o personagem principal de uma reportagem – por premissa, não por acidente – não estaria vivo para lê-la. Ailce se entregara inteira em minhas mãos de escritora.


Murilo: O jornalismo está indo para o universo on-line? O impresso vai diminuir, será praticamente extinto?
Eliane: É isso que estamos testemunhando. A internet nos permite recuperar o espaço necessário da reportagem de profundidade, com entrevistas que são respeitadas pelo tamanho com respostas longas e aprofundadas. Passei a vida inteira ouvindo que leitor gostava de ler textos curtos, mas, hoje, eu tenho dados que comprovam que tenho audiência, tempo de permanência e compartilhamentos. As pessoas leem textos longos e de profundidade. É um momento de crise, mas as entrevistas longas estão ressurgindo e estão sendo recriadas. Hoje, o jornalismo é o protagonista deste momento com a narrativa importante de reportagem, pois ele só sobreviverá se valorizar a reportagem.

Murilo: Fale sobre o seu ultimo livro publicado “Meus desacontecimentos – a história da minha vida com as palavras”.
Eliane: “Desacontecimentos” foi um livro que surgiu com a crise das palavras. Fui escrever meu primeiro romance por causa dessa experiência da morte. Depois de trabalhar dois anos sobre o assunto, eu me dei conta de que precisava de algo para expressar. Fui buscar a palavra escrita para me salvar e isso me permitiu ter um corpo para viver e para morrer.

Murilo: As pessoas estão utilizando as mídias sócias para se informarem. Hoje, qualquer pessoa é uma espécie de editor de conteúdo. Dependendo da publicação, ela pode se multiplicar. Como você vê essa relação do jornalismo e das mídias digitais em relação à informação?
Eliane: Estamos vivendo um momento de transição, onde as pessoas nunca leram tanto como nos dias de hoje, mas os boatos se confundem com notícias. Os leitores não sabem se o que está escrito é realmente verdade ou apenas uma mentira. E o jornalismo tem a responsabilidade de passar a credibilidade ao leitor, por meio da verdade. Muitas vezes, os portais de imprensa publicam notícias rápidas e fáceis, sem fazer a checagem. Na competição pelo número de acessos, para divulgar primeiro, o jornalismo está se enterrando, pois ele perde a sua diferença que é a checagem. O trabalho do jornalista é passar ao público noticias com qualidade que foram investigadas e conferidas antes de serem publicadas.

Murilo: Qual a abordagem que faz em palestras como a da Feira do Livro de Ribeirão Preto?
Eliane: Em Ribeirão Preto, a palestra foi dividida em três partes. Na primeira, falei resumidamente sobre a minha trajetória, questões de linguagem e os meus livros publicados. Na segunda parte, abordei sobre uma questão específica que tenho trabalhado na reportagem, um manifesto a Amazônia e as mudanças climáticas. Encerrei com a leitura da minha crônica “A menina quebrada”, que se refere a uma carta para Catarina, a minha afilhada, que descobriu que até as crianças quebram.

Murilo: Você foi mãe muito jovem, aos 15 anos. Como foi esta experiência?
Eliane: A vantagem de ter uma filha aos 15 anos é que me deu a noção de que eu precisava construir a minha vida com responsabilidade. Foi muito difícil, dilacerante, principalmente no começo da minha carreira, mas tudo foi superado. Atualmente, a Maíra tem 33 anos, é psicanalista e mora em Porto Alegre.

Murilo: Como foi a sua participação especial de compilação de reportagens especiais sobre os Médicos sem Fronteiras, no livro “Dignidade”?
Eliane: Em 2011, os Médicos Sem Fronteiras iriam completar 40 anos. Para celebrar a data, fui convidada, entre os escritores de várias partes do mundo, para conhecer os projetos da organização. Viajei à Bolívia para conhecer a doença de chagas, pois o país tinha a maior prevalência de chagas no mundo, ou seja, 70% dos habitantes eram infectados pela doença. Encontrei moradores em casas de palhas de barros com lampiões. Ao anoitecer, centenas de barbeiros caem sobre as pessoas, infectando os habitantes. Durante o período em que fiquei na Bolívia, conheci uma menina de 11 anos, com o nome de Sônia. Menina linda, mas com os olhos de velho. Quando encontramos uma criança com os olhos de velho é porque aconteceu um crime com ela.

E o crime que ocorreu com Sônia é todos os dias ela pensava na morte. A família dela podia morrer. Ela podia morrer. Viver com a morte é o que a deixava com os olhos de velhos. Quando fui me despedir para retornar ao Brasil, Sônia pegou em meus braços e disse: “não me deixe morrer”. Tenho um pacto com as pessoas. A entrevista é para contar a história para o mundo, mas, aquele momento de transformar o silêncio de Sônia em narrativa foi difícil. Percebi ali que contar a sua história para o mundo, como eu disse que faria, não seria suficiente para salvar sua vida. De volta a São Paulo, tive o meu primeiro confronto com a impotência. Não conseguia escrever e nem me alimentar. Foi difícil entender que contar a história dela era insuficiente, mas era também o possível. E o possível é pouco e muito ao mesmo tempo.

O olhar humano de Eliane Brum
Não conhecia a Elaine Brum pessoalmente, mas de longe acompanho a sua carreira desde o começo. Um amigo que temos em comum falava sobre o seu espírito inquieto, dentro da redação do jornal, sempre procurando um ângulo diferente para contar a notícia. Li algumas de suas reportagens no jornal Zero Hora e na revista Época. Li dois dos seis livros que publicou, “A Vida que Ninguém Vê” e o “Olho da Rua”. A passagem da jornalista e escritora pela Feira do Livro propiciou esse encontro e esta entrevista. O jornalismo e a literatura possuem o dom de aproximar mundos aparentemente distantes, mas como a própria Eliane Brum costuma dizer em suas palestras “a singularidade de nossas histórias nos une.” Ficamos um pouco mais humanos quando reconhecemos nossos dramas e fraquezas na história do outro. Quase todos os seus trabalhos possuem o mesmo DNA, a mesma marca registrada de dar voz aos desconhecidos, aos anônimos e aos esquecidos. Os mendigos de Porto Alegre que dormiam nos esgotos da cidade e os últimos 115 dias da paciente terminal de câncer são algumas das histórias que contou. A jornalista não conta histórias pela metade, procura sempre fazer relatos inteiros, pungentes, para que a dimensão dos dramas humanos não escape pela falta de detalhes. As histórias que a escritora conta fazem parte da sua vida. Pela sua verve muito latente, parece que os casos ocorreram na semana passada e não há quatro ou cinco anos atrás. Seu dom para escrever já foi reconhecido com os diversos prêmios nacionais e internacionais que ganhou, mas talvez o grande diferencial da sua narrativa seja outro. No decorrer da sua carreira, seu olhar descobriu que atrás de cada história existe um ser humano. Isso está faltando no mundo de hoje. É como se o médico não enxergasse só o paciente, mas a pessoa que está a sua frente. É como se o jornalista nunca esquecesse que o entrevistado é um ser humano. É como se o balconista descobrisse que o cliente não é importante só pela compra, mas pelo seu valor como ser humano. O mundo teria uma evolução enorme se as pessoas descobrissem esse olhar que a Eliane dissemina nos textos que publica. Murilo Pinheiro, Jornalista

Texto: Laura Scarpelini
Fotos: Julio Sian e Luiz Cervi

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