Olhar sobre a América Latina

Olhar sobre a América Latina

Coordenadora do curso de Relações Internacionais da Unaerp, professora e especialista Carolina Silva Pedroso explica razões e consequências da crise socioeconômica da Venezuela

A doença holandesa (dutch disease, em inglês), é um conceito econômico que se refere ao crescimento excessivo do setor de recursos naturais de uma economia às custas do declínio do setor industrial de um mesmo país. Com uma economia pujante, fortemente pautada nas suas riquezas naturais, como a exploração e exportação do petróleo, a Venezuela prometia ser uma potência na América Latina.

Vislumbrado pelas reservas de petróleo, o país passou a depender estruturalmente do recurso, esquecendo os investimentos em indústrias e agricultura. 
Com a maior crise de sua história, a Venezuela passa por dificuldades políticas, econômicas e sociais, que se arrastam por mais de uma década.

Na entrevista a seguir, a professora Carolina Silva Pedroso, doutora em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP/Unicamp/PUC-SP) e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Unaerp, explica os motivos da crise venezuelana e as consequências que tal situação causa na própria Venezuela e em outros países do mundo, como o Brasil. 

A crise socioeconômica da Venezuela vem desde 2010, com a escassez de produtos e de alimentos no país. O que ocasionou esse cenário?

A falta de produtos advém de um problema crônico da economia venezuelana, que é a alta dependência de um só produto: o petróleo. Tal condição surgiu em meados do século XX, em que esse produto se sobrevalorizou no mercado internacional e fez com que qualquer outro setor produtivo da Venezuela fosse desinteressante economicamente, uma vez que explorar petróleo era muito menos custoso e arriscado do que outra atividade econômica.

Foi nesse contexto que as indústrias venezuelanas, que já eram pouco desenvolvidas, foram deixando de existir ou voltando a sua atividade para o setor petroleiro. Da mesma maneira, o setor agrário e pecuário foi se desvanecendo, até praticamente desaparecer. Por este motivo, a Venezuela tornou-se, principalmente depois da década de 1970, quando o preço do petróleo explodiu, extremamente dependente das importações de alimentos, pois deixou de produzi-los internamente.

As políticas econômicas e sociais do chavismo, representadas por Chávez e Maduro, podem ser consideradas causas do surgimento da crise na Venezuela?

Não. As políticas sociais foram muito importantes para reduzir a enorme desigualdade social do país, que, mesmo em momentos de bonança petroleira, possuía altos índices de miséria e pobreza. Já as políticas econômicas não foram capazes de reverter a já existente dependência do petróleo, ao contrário, acabaram reforçando essa condição. Para piorar, os governos chavistas entraram em rota de colisão com o setor privado e o país tornou-se ainda mais dependente do Estado em termos econômicos. Em resumo, as políticas econômicas chavistas não podem ser consideradas a causa da crise, porque a razão principal já existia antes (dependência do petróleo), mas sem dúvidas elas tornaram a situação ainda mais grave.

Quais problemas foram gerados por conta dessa opção da Venezuela de não ter diversificado exportações?

O maior problema é que a falta de diversificação não é fácil de ser revertida, requer recursos estatais, um setor privado proativo, vontade política e tempo de maturação.  Outra consequência tem sido a alta inflação e a desvalorização cambial, dois índices que distorcem completamente os preços e, portanto, o poder de compra da população. Muitas vezes, quando pensamos em um país em crise, a primeira imagem que vem à mente é a de uma pobreza generalizada, porém a mais fidedigna é uma brutal diferença entre uma maioria acachapante da população vivendo em condições subumanas, enquanto uma parcela ínfima goza de muitos privilégios. Esse é o quadro da Venezuela hoje.

Passando à crise política da Venezuela, que começou em 2015, e chega ao conflito mais recente, entre Nicolás Maduro e Juan Guaidó. Por quais razões a presidência da Venezuela está sendo contestada?

Juan Guaidó foi eleito em 2019 como presidente da Assembleia Nacional, que é o parlamento da Venezuela. O que o levou a se autoproclamar presidente é a interpretação da Constituição que prevê que em caso de vacância da presidência da República, o presidente do parlamento acumula os dois cargos, desde que comprometido a convocar eleições gerais em um mês após a autoproclamação.

Na visão de Guaidó e seus apoiadores, a presidência de Maduro é considerada nula, porque teria havido fraude eleitoral na sua reeleição, em 2018. Assim, Maduro para eles é um “usurpador”, pois manteve-se no cargo, mesmo sem legitimidade. Já os chavistas afirmam que as eleições foram limpas, transparentes e, portanto, legítimas, colocando na situação de “usurpador” a figura de Juan Guaidó, que não convocou novas eleições no prazo previsto pelo mesmo artigo da Constituição que embasou sua autoposse. Apesar do embate, quem de fato detém o poder político — e isso engloba controle de fronteiras, comando das Forças Armadas, gerenciamento da economia — é Nicolás Maduro. 

A crise social, econômica e política no país é uma das razões pelas quais há um intenso êxodo de venezuelanos para outros países da América Latina, incluindo o Brasil?

Sem dúvidas. A Venezuela, historicamente, é um país receptor de imigrantes. Essa é a primeira vez na história do país em que uma crise migratória torna-se uma realidade tão concreta. É difícil precisar quantos migraram efetivamente para o Brasil, porque boa parte dos que entram usam o país como porta de entrada para outros destinos culturalmente mais afins à Venezuela, como Peru, Equador, Argentina e Chile. Dados do IBGE apontam que teriam entrado mais de 120 mil venezuelanos no Brasil, mas não necessariamente todos ficam aqui. Segundo a ACNUR, agência para refugiados da ONU, o número de venezuelanos migrantes está em torno de 4 milhões. Considerando que o país tem em torno de 28 milhões de habitantes, é uma estimativa expressiva e quase se iguala à crise migratória da Síria — país que, de fato, vive uma guerra civil há mais de uma década. 

Além da crise migratória, a situação venezuelana causa quais outros impactos no Brasil e no mundo?

E quais as posições do Brasil em relação à crise na Venezuela? Além da questão migratória, o país tinha potencial para ser um importante fornecedor energético, sobretudo após sua entrada no Mercosul. Ademais, no caso da nossa relação bilateral, o mercado venezuelano era extremamente favorável aos nossos produtos. A posição do Brasil, desde o governo de Temer, tem sido de se posicionar contra o regime de Nicolás Maduro, o que nos descredenciou como possíveis mediadores para um diálogo entre as partes.

Já com o governo Bolsonaro, a situação se complicou mais, porque, além de adotarmos uma posição oficial contrária à Maduro e, portanto, de reconhecimento de Guaidó, o Brasil chegou a flertar com posicionamentos dos Estados Unidos, que defendiam uma possível intervenção militar na Venezuela. É importante ressaltar que a saída da crise é benéfica para nós, tanto pela proximidade geográfica, quanto em termos mercadológicos, por termos uma economia complementar à venezuelana. Contudo, incitar, ainda que sutilmente, uma via não pacífica de resolução de controvérsias, pode ter um resultado ainda mais danoso para o Brasil. 

Há expectativa de que a situação econômica da Venezuela melhore?

Não. Por ser uma crise estrutural, a saída passa por mudanças muito profundas, tanto na parte econômica, quanto na parte política, o que, na atual conjuntura, mostra-se cada vez mais difícil de alcançar. Muitos analistas apontam que a Venezuela só deve voltar a ser o que era antes da crise, isto é, uma potência regional com uma classe média consolidada, em 30 ou 40 anos.

Quais as áreas de atuação dos estudos conduzidos pelos profissionais das Relações Internacionais?

E qual a importância das RI tendo em vista os diferentes acontecimentos internacionais, como a crise venezuelana? As Relações Internacionais são uma área multidisciplinar que formam um profissional alinhado com a realidade cada vez mais complexa da globalização, ou seja, com uma base sólida em Economia, Ciência Política, História, Direito, que permite ao internacionalista atuar tanto nos setores público, privado e no terceiro setor. Um dos campos mais frutíferos para o profissional de Relações Internacionais é a intermediação entre o público e o privado, o que se chama de Diplomacia Corporativa ou Relações Institucionais, auxiliando empresas e entidades a lidar com o setor público, buscando melhores oportunidades e vantagens.

No caso da crise venezuelana, por exemplo, o internacionalista pode auxiliar tanto na diplomacia tradicional, representando os interesses públicos brasileiros e auxiliando na construção de pontes de diálogo, como no desenvolvimento de estratégias para aproveitar o que hoje é considerado um ‘problema’: a vinda de imigrantes. Tal situação só é considerada um problema porque tem sido mal gerida, há inúmeros estudos que mostram que países — nas esferas pública e privada — que realizam a gestão da imigração têm ganhos econômicos comprovados com a vinda de pessoas estrangeiras. O profissional de RI pode atuar tanto na identificação desse potencial quanto no delineamento de estratégicas, até adaptação desses imigrantes, por meio de consultorias culturais, auxiliando na parte de documentação e também de assimilação à realidade local. 

Como você enxerga Ribeirão Preto no âmbito das Relações Internacionais?

Ribeirão Preto é uma cidade de importância econômica bastante destacada e recebemos, todos os anos, um número crescente de empresas e investidores estrangeiros interessados em aumentar seus negócios na região. Por isso, observamos uma demanda ascendente de profissionais de Relações Internacionais, capazes de auxiliar as empresas locais na internacionalização de suas operações, seja no âmbito da importação, exportação ou ambos. A visão ampla e, ao mesmo tempo, aprofundada dos internacionalistas se torna cada vez mais importante e, nesse sentido, acredito que o setor privado de Ribeirão Preto já percebe que não dá mais para ignorar a realidade internacional. 

Texto: João Pala
Fotos: Luan Porto

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