Orçamento Organizado
Mais de 200 mil ribeirãopretanos possuem contas atrasadas ou estão endividados; nesse cenário, especialista esclarece a importância de estabelecer uma boa educação financeira
A instabilidade econômica que se acentuou no país em 2015 é considerada um obstáculo de grande porte para que os brasileiros alcancem a saúde financeira, planejem investimentos ou direcionem parte da renda obtida para garantir uma vida estável no futuro.
O cenário econômico impacta, diretamente, na inadimplência dos brasileiros, que chegou a 63,2 milhões em abril deste ano. Já em Ribeirão Preto, no mesmo mês, o índice aumentou 10,4% ante 2018. Isso significa que mais de 260 mil ribeirãopretanos têm alguma conta em atraso, segundo a instituição financeira Serasa Experian.
Tudo isso reflete nas possibilidades de investimento da população: menos renda é sinônimo de menos investimento. O Raio X do Investidor Brasileiro, publicado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, apontou que menos de 10% dos habitantes do País investiram o dinheiro no ano passado. Para Edgard Monforte Merlo, professor de Economia de Empresas (FEARP/USP) e pesquisador sobre gestão na América Latina (PROLAM/USP), experiente na área financeira e de planejamento empresarial, o percentual de investidores brasileiros ainda é pequeno em razão de alguns motivos: o baixo crescimento da economia diante da crise, o alto índice de desemprego e as taxas pagas aos pequenos investidores, que, ainda, são reduzidas quando comparadas às taxas dos financiamentos.
Na entrevista a seguir, Edgard discute a situação do Brasil, assim como dos ribeirãopretanos e elenca algumas possibilidades para o melhor planejamento financeiro e redução de despesas desnecessárias.
Atualmente, levantamentos mostram que menos de 10% dos brasileiros investiram o dinheiro no ano passado. O ribeirãopretano pode melhorar esse índice?
Se observarmos a população brasileira como um todo, veremos que, de fato, o percentual de investidores ainda é pequeno. Algumas razões para isso são: o período de relativa recessão em que a economia cresceu muito pouco e o desemprego ainda é um problema a ser enfrentado, o endividamento, que, muitas vezes, afeta a estrutura toda de uma família e, finalmente, as taxas pagas aos pequenos investidores ainda são reduzidas quando comparadas às taxas dos financiamentos, o que desestimula essa ação. O brasileiro não desenvolveu o hábito de se planejar para o futuro. Neste caso, a educação financeira é essencial para mudar o comportamento e a postura diante das finanças, ou seja, a atitude das pessoas é parte visível do processo de tomada de decisão acerca de determinada compra ou quitação de contas e dívidas. Por outro lado, a informação é uma pitada extra neste processo, entretanto, não tem o poder de alterar o processo, que caso esteja inadequado, continuará culminando no endividamento. Mudança de postura é tudo nesta questão.
Segundo Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as dívidas ou contas em atraso dos brasileiros, de modo geral, aumentaram neste ano de 23,1%, em fevereiro, para 23,4%, em março. Em Ribeirão Preto o cenário se repete?
Os índices nos mostram duas características: o endividamento ainda é elevado e está relativamente estabilizado nesse alto patamar. Ribeirão Preto, por sua vez, apresenta números mais atenuantes, que tem sido maior em cidades com elevado número de indústrias, entretanto, a situação da população da cidade não foge à do cenário nacional, onde temos baixa em setores importantes da economia como a construção civil e o comércio, que também tem sofrido com o desempenho econômico recente e a baixa no poder aquisitivo dos ribeirãopretanos.
De acordo com dados de 2019, 256.447 moradores de Ribeirão Preto possuem algum tipo de débito, ou seja, quase metade da população tem dívidas a pagar. Como evitar o acúmulo dessas dívidas?
É importante considerar dois aspectos: existe uma série de gastos que podem ser reduzidos, com um melhor planejamento financeiro e redução de despesas desnecessárias e, por outro lado, existem dívidas que muitas vezes são contraídas por razões maiores, como desemprego, questões de saúde, imprevistos, etc. Essas apresentam maior dificuldade de reorganização, pois exigem ações que nem sempre estão totalmente sob o nosso controle. Sobre as dívidas que podemos controlar, a primeira ação é montar um rígido controle do orçamento pessoal, separando de um lado as receitas (salários, recebimentos diversos) e de outro todas as despesas (aluguel, supermercado, escola, combustível, cartão de crédito, plano de saúde, etc.). Ao visualizar todas as despesas, podemos identificar onde é possível haver redução de gastos.
A imposição social acerca de padrões de vida adequados contribui para esse endividamento da população?
Para uma categoria social que busca reconhecimento social por meio de um padrão de vida e de consumo, em um período de crise isso pode contribuir para o endividamento. Existem diversos tipos de consumidores, dos mais precavidos aos mais ousados, impulsivos e inconsequentes ou até pragmáticos. Assim como a lista de adjetivos é extensa, os motivos que os levam a adquirir determinados produtos, também. Dessa forma, é possível afirmar que quem compra algo tem um propósito — seja sentir-se melhor e mais valorizado, concretizar um sonho, reafirmar a identidade ou simplesmente atender às necessidades básicas do dia a dia. É a luta do “ser” contra o “ter”, em que, muitas vezes, o consumo serve como ferramenta para reforçar traços individuais. Sendo assim, a imposição social pode pautar o comportamento do consumidor.
Mesmo diante do avanço tecnológico e das ferramentas que possibilitam o acesso à informação sobre mercado financeiro e de investimentos, hoje em dia, é uma dificuldade da maioria dos brasileiros ter consciência financeira?
O controle financeiro começa por uma atitude pessoal de tentar reorganizar as despesas em função das receitas. Isso impõe sacrifícios pessoais os quais, muitas vezes, as pessoas têm dificuldades em assumir. Atualmente, existe uma série de aplicativos para celulares que ajudam na organização das receitas e despesas financeiras. De acordo com os dados do IndEF, 60% da população, independentemente do nível de escolaridade, sexo, idade e renda, apresenta níveis de educação financeira total que variam entre 5,1 e 7. É preciso repensar o papel e o peso da informação sobre a saúde financeira da população e que tipo de educação financeira as pessoas precisam. Quando se fala em consciência financeira, é preciso levar em conta questões como urgência, impulso, espera, prematuridade e adiamento de contas.
Em sua opinião, qual a idade ideal para despertar nas crianças e nos jovens uma consciência econômica saudável e de que forma fazer isso?
Desde o ensino fundamental, a criança necessita ser estimulada a tomar consciência das consequências de seus gastos. Muitas vezes, medidas simples, como atribuir uma mesada e mostrar para a criança a necessidade de saber usá-la, já são um bom começo. É importante que as crianças aprendam o valor do dinheiro ainda pequenas. Isso fará com que elas se tornem adultos responsáveis em relação às finanças pessoais. Entretanto, é válido observar a faixa etária, bem como o desenvolvimento cognitivo de cada uma. Em alguns casos, estimular a ter um cofrinho com moedas, ou brincar de jogos que envolvam o dinheiro, é uma ótima maneira de despertar esse olhar para as finanças.
Faltam políticas públicas e educacionais que estimulem nas pessoas, desde a infância, essa consciência?
Sem dúvida, o ensino e a discussão desses temas em salas de aula ainda são recentes. Vivemos em uma sociedade que valoriza muito o consumo e as pessoas são estimuladas a consumir para desfrutar de bens que, muitas vezes, têm um papel simbólico. É necessário um esforço para que fosse iniciado nos últimos anos do Ensino Fundamental e durante o Ensino Médio, por exemplo, o preparo a noções financeiras para despertar nos jovens a compra planejada, economia para estimular o conhecimento sobre mercado de investimentos, etc. A estabilidade econômica passa pelo desenvolvimento educacional e, também, pela melhoria geral da economia. Espero que consigamos caminhar nessa direção.
Atualmente, a transformação social e das relações exige dos mais jovens uma melhor organização do dinheiro e da aplicação?
Existem pressões nos dois sentidos: os jovens têm mais ferramentas para sua organização financeira, mas também sofrem os efeitos de uma propaganda de consumo muito intensa. Acredito que uma educação financeira baseada no comportamento e no exemplo dos adultos para as crianças seja uma forma de estimular, desde pequenos, tanto o planejamento financeiro a curto, médio e longo prazo, quanto o comportamento de compra e de aquisição. Em qualquer idade é importante dar o exemplo. Se devidamente instruída desde a infância, independente do tipo de imposição social, a criança terá consciência acerca do dinheiro e o quanto vale uma vida estável. Afinal, a segurança e o bom relacionamento com as finanças pessoais também podem trazer saúde emocional para qualquer ser humano.
Texto: Cristiane Araujo Fotos: Luan Porto