Os atributos da liderança

Os atributos da liderança

A formação de líderes, o treinamento de alta performance e a felicidade são alguns dos temas que estiveram em pauta na entrevista que Maurício Abravanel fez com Jamil Albuquerque

O presidente do Master Mind para o Brasil e para mais oito países de Língua Portuguesa, Jamil Albuquerque, é referência no desenvolvimento de lideranças. Com mais de 25 anos de carreira, realizou inúmeros estudos e pesquisas sobre o tema, adquirindo conhecimento para aprofundar a metodologia criada pelo pensador Napoleon Hill. Hoje, Jamil dirige uma rede de ensino composta por instrutores qualificados que promovem treinamentos presenciais e palestras focadas na alta performance.
Autor de livros como “A arte de lidar com pessoas” e coautor de “A Lei do Triunfo para o Século XXI” e “Líder com mente de mestre”, o especialista auxiliou muitas pessoas a descobrirem e a lapidarem seus verdadeiros potenciais, conquistando, assim, resultados acima da média. Nesta entrevista, Jamil responde a questões sobre a aplicabilidade da liderança nos mais diversos aspectos. As perguntas foram feitas pelo sobrinho do empresário Silvio Santos e também diretor-regional do SBT RP e do SBT Central, Maurício Abravanel, um interessado no assunto. Confira a entrevista.

Maurício: Recentemente, você participou de um evento na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, onde esteve muito perto daqueles que consideramos grandes líderes mundiais. Como foi essa experiência?
Jamil: Foi bem interessante, pois tive a possibilidade de entender melhor o significado da liderança global. Passei três dias participando de um seminário sobre geração de empregos dignos à população. A ONU funciona como um acordo diplomático exemplar, o primeiro governo mundial que deu certo. Todas as outras tentativas foram trágicas, sangrentas, cruéis e malsucedidas. Percebemos que líderes despreparados podem levar países a experiências insanas, como foi o caso da Alemanha, que culminou na grande catástrofe que foi a Segunda Guerra Mundial. Criaram a ONU, justamente, para evitar que isso acontecesse novamente. O grande segredo dessa instituição é que, ao dar as diretrizes, ela não interfere na soberania das nações. As lideranças criam conceitos que alteram o futuro, não só das nações, mas da humanidade inteira. É fascinante ver como as realidades são modificadas com a presença dessa figura humana chamada líder.

Maurício: Qual é a diferença entre um líder do país que compõe a ONU e um líder de uma empresa, por exemplo, aqui no Brasil?
Jamil: Na verdade, existem três níveis diferentes da liderança: governamental, empresarial e social. A governamental é o leme, dá direção para os outros. Se o rumo for impreciso, todos podem acabar no lugar errado. Durante o seminário na ONU, ouvi muito sobre governos corruptos, excessivamente burocráticos e inoperantes. Já os líderes empresariais são os que produzem riquezas que sustentam o governo. Às vezes, uma empresa forte pega um líder fraco e vai à falência. Temos muitos exemplos de grandes conglomerados que fracassaram por escolher condutores despreparados. Em outros casos, temos líderes vorazes até demais, que passam por cima de tudo e de todos para atingirem suas metas. Cabe ao governo criar regras para direcionar essa ação. Nesse choque do rochedo contra o mar, as regras e a produção de riquezas, estão as vítimas do sistema. Aí surge a necessidade dos líderes sociais: ONGs, igrejas e clubes de serviços que cuidam desses que se acidentam no meio do caminho. Ou seja, a figura do líder é importante em todos os aspectos.

Maurício: Os líderes nascem com esse dom ou é algo que se pode aprender?
Jamil: Os ingredientes da liderança estão presentes em cada um de nós, mas para desenvolvê-los é necessário ter iniciativa e atitude. Qualquer conhecimento pode ser ensinado, desde que a pessoa esteja realmente aberta e disposta a aprender. Descobrir as potencialidades e adotar uma nova postura é um processo de transição que pode trazer momentos de dor. Surge o frio na barriga, o medo e a ansiedade. Nessa hora, muitos desistem e preferem voltar ao estágio anterior, um ambiente já conhecido. Portanto, é possível desenvolver a liderança, desde que se tenha disposição, força de vontade e determinação.

Maurício: Você é uma referência consolidada na área. Em vez de se projetar nos grandes meios de comunicação de massa e se tornar uma espécie de celebridade, optou por construir uma rede com profissionais bem formados, que pudessem difundir, com excelência, os ensinamentos de Napoleon Hill através da metodologia Master Mind. Com isso, sua imagem ficou preservada e, em alguns lugares, seus instrutores são mais reconhecidos que você, o criador desse projeto. Isso te incomoda de alguma forma?
Jamil: Saber lidar com a vaidade é um grande desafio, mas, para ser sincero, não me incomoda nem um pouco. Pelo contrário, fico muito orgulhoso. Um mestre só é um mestre quando o discípulo o suplanta, senão ele é apenas um simples passador de informações. O Master Mind já esteve no Brasil na década de 70, concentrado nas mãos de uma pessoa só e acabou esmorecendo. O bom de conhecer o passado é que ele nos ajuda a construir um futuro melhor. Portanto, sabendo da história, optei por um caminho diferente. Montei um time de especialistas realmente fortes que, em qualquer canto desse país, pudesse representar o Master Mind, os ensinamentos de Napoleon Hill e a nossa metodologia com propriedade, intensidade e entusiasmo. Felizmente, isso já virou uma realidade. De Manaus a Pelotas, a nossa marca tem o mesmo vigor. Por isso, cada vez que um deles realiza um treinamento, sinto-me bem representado.

Maurício: No Brasil, vivemos, atualmente, uma instabilidade política e econômica. A crise é uma oportunidade para o surgimento de novas lideranças?
Jamil: Com certeza. As adversidades podem trazer à tona novos líderes, capazes de mudar o rumo da própria vida, das empresas, da cidade e até de uma nação. Hoje, vivemos uma crise política, de aparência e de expectativa. Não é uma crise real.  Mesmo assim, é uma boa oportunidade para aqueles que estão preparados se destacarem e conquistarem espaço.

Maurício: Recentemente, você iniciou a expansão do Master Mind no exterior. Esse momento de especulações e de inseguranças em torno do nosso país tem afetado essa sua empreitada em mercados internacionais?
Jamil: O Master Mind cobre 23 Estados com uma atuação efetiva e ótimos resultados. Daí surgiu a vontade de ultrapassar os limites e ir além, levando nossa metodologia para outros países de Língua Portuguesa, ampliação devidamente autorizada pela Fundação Napoleon Hill. Esse desejo me motivou a cruzar o Atlântico e implantar uma sede em Portugal. Internacionalizar uma marca nesse cenário é um desafio tremendo, quase um atrevimento. O preço da ousadia e do pioneirismo é sempre alto, não só financeiramente, mas também emocionalmente e culturalmente.

Maurício: O sistema padrão de Napoleon Hill está presente no mundo todo, mas você o aprofundou, elaborando treinamentos presenciais dedicados a cada etapa do universo empresarial e até pessoal. Em Portugal, encontrou diferenças culturais e conceituais significativas? Teve que promover adaptações na metodologia?
Jamil: Por causa da nossa colonização, somos muito parecidos, mas, conforme você se aproxima, as diferenças aparecem. A mentalidade portuguesa é geométrica, cartesiana. Já o brasileiro adotou o gerúndio como estilo de vida. Ações em movimento, sem uma conclusão determinada, predominam: “estou passando”, “estou vendo”, “estou analisando”. Temos a leveza e a alegria do samba. Em contrapartida, a musicalidade deles é baseada no fado, na melancolia, na solidão, na distância e na saudade. Contextos distintos que acabam refletindo no comportamento e na cultura da população. Consequentemente, dentro da sala de aula, encontramos algumas barreiras iniciais. Estamos em fase de ajustes para que a nossa mensagem seja compreendida da melhor maneira possível.

Maurício: Você também é um autor renomado, com seis obras publicadas. Esse material será republicado na Europa?
Jamil: Sim. Assinei contrato com uma editora e cinco, desses seis livros, serão lançados, no prazo de um ano, no circuito comercial de Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor Leste e São Tomé e Príncipe. No Brasil, esses títulos, somados, já venderam mais de 300 mil cópias.

Maurício: Em uma grande empresa, encontramos colaboradores que realizam tarefas cotidianas que, muitas vezes, são menosprezadas por não se enquadrarem na parte de gestão. Para as pessoas que ocupam esses cargos, pensar em liderança também é importante?
Jamil: Com certeza. Agregar conceitos de liderança fará bem não só para o colaborador em si, mas para toda a empresa. Se você fizer o porteiro, a faxineira, o entregador de correspondências, entre outros, enxergarem o resultado do trabalho deles no processo como um todo e não apenas a tarefa realizada isoladamente, terá em mãos um negócio com grandes chances de sucesso. O exemplo mais bonito e ilustrativo dessa situação foi protagonizado por Lyndon Baines Johnson, vice-presidente dos Estados Unidos, na década de 60. Após assumir a presidência, por conta do assassinato de John Kennedy, um dos primeiros compromissos oficiais do político foi uma visita a NASA. Assim que chegou, com um jeito bonachão de fazer amigos, cumprimentou a faxineira e perguntou qual era a função dela ali. Ela olhou nos olhos dele, deixou a espinha ereta e respondeu: “eu ajudo a levar o homem à Lua”. Essa resposta repercutiu pelo mundo de maneira significativa. Tivemos a oportunidade de ver uma instituição inteira voltada para o alto desempenho, lutando pelos mesmos propósitos e compartilhando da mesma filosofia.

Maurício: Fazer com que as pessoas enxerguem o todo não é uma missão fácil. No Brasil, particularmente, as leis trabalhistas não colaboram para isso. Pelo contrário, influenciam negativamente. Por causa de análises equivocadas, as pessoas são condicionadas a manter sua visão restrita nas próprias tarefas. Ir além, acumulando funções, é visto como exploração. Até que ponto uma reforma trabalhista pode ajudar a reverter esse quadro?
Jamil: O excesso de proteção é o que mais entrava a evolução do Brasil. Somos muito pouco inovadores por conta disso. Realidade bem diferente da dos Estados Unidos. Sou professor convidado da Universidade da Califórnia, no campus de San Diego. Lá, visitei uma empresa de tecnologia que, em menos de 30 anos de atuação, possui 11.500 patentes registradas. É difícil de acreditar, mas apenas uma empresa americana possui um número maior de patentes do que o alcançado pelo Brasil inteiro. Proteção demais acaba, na verdade, desprotegendo. A pessoa deixa de crescer, assim como a empresa, a cidade e a nação. É preciso promover reformas trabalhistas que tirem de vez essas amarras.

Maurício: Temos também lideranças próximas do nosso convívio no aspecto social e governamental, como os vereadores de Ribeirão Preto. Você reconhece algum dos nossos representantes na Câmara como um líder natural?
Jamil: É importante ressaltar que a urna não cria líderes. Ela é um ventre que consolida o líder outorgado pelo verdadeiro dono do poder: o povo. Entre os 22 vereadores, encontramos nomes fortes. Alguns se candidataram a deputados e tiveram votações expressivas. Há, ainda, vereadores com vários mandatos consecutivos. Se manter no posto não é uma tarefa para amadores, ainda mais em uma cidade tão extraordinária como Ribeirão Preto. Portanto, dentro da Câmara Municipal, temos sim líderes preparados, inclusive para assumir cargos ainda maiores.

Maurício: Um político outorgado pelas urnas, ou seja, com votação expressiva, precisa, além de liderar, manter boas relações com outros líderes? Ele precisa de apoio externo e de aliados ou consegue desenvolver um trabalho de destaque sozinho?
Jamil: Posso dizer que líderes treináveis vão mais longe. Existem pessoas que pensam estar prontas, cegam-se pela própria vaidade e ficam estagnadas. Quem reconhece que pode aprender mais, e procura, em si mesmo e no outro uma forma de enriquecer os conhecimentos, tem chances maiores de crescer e de se manter ativo no poder. Esse é o líder talentoso. Recentemente, vi uma mensagem do Silvio Santos que se enquadra bem nesse assunto. Ele disse que, quando saímos de casa para realizar uma atividade, sempre queremos acertar, nunca falhar, mas, se o erro acontecer, temos que estar dispostos a tirar lições valiosas dele. Os políticos que procuram um mentor, que realizam treinamentos de liderança, que se preparam para superar as adversidades que surgem pelo caminho são os que conquistam destaque. Diversos vereadores, deputados e até senadores da República passaram pelo nosso programa Master Mind.

Maurício: Você foi secretário do Governo em Ribeirão Preto. Conseguiu aplicar toda a sua metodologia e obteve o êxito que esperava ou percebeu que, mesmo muito preparado, em alguns momentos, a vida traz perguntas que as técnicas acabam não respondendo?
Jamil: Estive à frente do Governo por mais de três anos. Foi uma experiência memorável. Durante esse período, superamos vários desafios, como CPIS, o Palácio do Rio Branco sendo sitiado e a cassação da prefeita, entre outras crises agudas. Eu fazia parte do núcleo rígido que tinha que tomar as decisões. Em todos os grandes embates da liderança governamental em que estive presente, mesmo em momentos de pequenas derrotas, na somatória geral, saímos vitoriosos. Isso só foi possível graças a nossa preparação, a nossa estrada, a nossa habilidade de gerir conflitos e de lidar com o contraditório. Prezávamos pela diplomacia. Ouvíamos todos os lados e ponderávamos o que seria melhor para a cidade e para a população. Portanto, naquele momento, coloquei em prática os ensinamentos, a experiência e os conhecimentos que acumulei ao longo dos anos e esses recursos me foram de grande valia.

Maurício: Aprendeu algo novo com a política?
Jamil: Aprendi muito com a vida pública. Graças a ela, entendi que é preciso pensar em todos antes de tomar uma decisão, desde o grande empresário que gera cinco mil empregos e é o maior pagador de impostos da região, até a dona Maria que mora na favela, na beira do esgoto.

Maurício: Para finalizar, gostaria de saber se o conceito de liderança também pode ser aplicado a algo mais abstrato, como a felicidade. As pessoas precisam de um líder para conquistar essa sensação de contentamento, seja pessoal ou profissional?
Jamil: A felicidade é um conceito amplo e subjetivo. De certa forma, o ser humano precisa de uma figura que o oriente na busca desse sentimento, que passe a segurança de que estamos no caminho certo. Pode-se estar contente até mesmo diante de uma grande dificuldade. A história do povo judeu é um exemplo. Eles ficaram mais de 1.900 anos sem ter um território, mas nunca se perderam, nem esmoreceram. Definiram um dia específico, o sábado, para se dedicar à religião em qualquer lugar do planeta. Assim, mantiveram as crenças e valores vivos. Como conseguiram? Através dos ensinamentos do livro sagrado, de onde emergiam as figuras de Abraão, Moisés, Davi, Salomão e José, estrelas que os guiavam na jornada da vida. O profeta ia até o alto da montanha, recebia as informações de Deus e as retransmitia para o seu povo. O líder é como um profeta contemporâneo. Tem que se preparar, aprimorar os conhecimentos e enxergar mais longe para, depois, dividir isso com a família, a empresa, a cidade e a nação. Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil entre 1956 e 1961, só teve a ideia de tirar a capital do país do Rio de Janeiro e levá-la para o Planalto Central por causa de uma viagem que fez para o Egito, quando estudava Medicina. Os egípcios fizeram essa mudança de forma bem-sucedida e, ao ser eleito, Kubitschek decidiu replicar a ideia por aqui. Primeiro ele alargou os horizontes, voltou e contribuiu para a evolução do Brasil e para a felicidade de muitos brasileiros.

UM PENSADOR CONTEMPORÂNEO

“Conhecer Jamil é conhecer um pensador contemporâneo. Cada frase dele traz contida em si um novo ensinamento. Jamil é um homem especial, capaz de transformar um simples encontro em um prazeroso ato filosófico. Nesta entrevista que tive a honra de conduzir, o leitor poderá apreciar um momento de reflexão deste professor de líderes e constante empreendedor de vidas. Os temas foram variados. Partindo dos aspectos da liderança, falamos também de política e chegamos a uma sintética análise da busca pela felicidade. Convido você, leitor, a relaxar em sua poltrona e embarcar conosco nesse delicioso ato, que é o ato de pensar”
Maurício Abravanel, sobrinho do Silvio Santos e diretor regional do SBT RP e do SBT Central

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Julio Sian
Agradecimento: Livraria da Travessa

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