Os desafios da gestão no futebol

Os desafios da gestão no futebol

Um papo sobre futebol com o presidente do Botafogo de Ribeirão Preto, Gustavo Assed Ferreira

Apesar de ribeirãopretano, o professor de Direito Gustavo Assed Pereira passou boa parte dos anos acadêmicos fora de sua cidade natal. Mas bastou começar a dividir sua agenda profissional entre a capital e Ribeirão Preto, em 2009, para que o torcedor do Botafogo voltasse ativamente para o Conselho Deliberativo do Clube, de onde é membro desde a década de 90. Depois de ocupar outras funções junto ao grupo, tornou-se presidente do Conselho e, como tal, passou a ocupar a presidência do Clube do coração na renúncia da gestão passada.

Ao lado do amigo e vice-presidente Rogério Barizza e da diretoria atual, Gustavo confirmou que concorrerá à permanência no cargo nas eleições que acontecerão em breve. Neste bate-papo com o empresário Val del Lama, o presidente revela as ações que já estão em andamento e os projetos que pretende ver realizados no futuro, incluindo o retorno do Pantera ao cenário nacional do futebol.

Val: Como surgiu a paixão pelo Botafogo?
Gustavo: Essa paixão nasceu comigo, está na genética. Venho ao Estádio Santa Cruz desde 1973, com um ano de idade, trazido pelos meus pais. Minha mãe já vinha desde 1954, quando tinha nove anos. Meu pai, vindo de Altinópolis, em 1963, também se tornou frequentador assíduo. Por consequência, passei a maior parte dos meus domingos vindo ao estádio ou viajando para assistir ao Botafogo. Então, é impossível não gostar.

V: Imaginou que um dia passaria a ocupar a cadeira máxima do Clube?
G: Não, mas fui levado a isso. Voltei a Ribeirão Preto, em 2009, depois de ter passado alguns anos só visitando a cidade para ver os jogos e a família, mas morando fora. Quando passei a ter minha segunda residência fixa aqui, em 2009, voltei a atuar mais junto ao Conselho Deliberativo, de onde sou membro desde a década de 1990. Quando ingressei no cargo de professor da Faculdade de Direito no campus ribeirãopretano da USP, fui assumindomais funções por influência do meu amigo Gerson Engracia. Primeiro, tornei-me advogado da mesa do Conselho e, depois, acabei lançando minha candidatura. Posso dizer, portanto, que ele é meu padrinho.

V: Você fazia parte da chamada “turma do fosso”?
G: Mais ou menos. Foram as investidas do Gerson que me aproximaram da diretoria do Clube e passei a conviver mais com o Conselho, sobretudo com o Rogério Barizza, que era do marketing da gestão passada, com quem sempre compartilhei muitas opiniões. De fato, não conseguíamos aceitar o estado em que o Botafogo vivia, nos últimos anos, apesar das pessoas ajudarem muito e serem abnegadas pelo Clube. Ainda assim, víamos problemas administrativos e organizacionais sérios e nos unimos muito no apoio ao time para que ele se salvasse no ano passado. Isso gerou uma amizade, uma parceria muito grande entre o Rogério, eu e nosso grupo de trabalho atual. Saindo daquela situação, pensamos que deveríamos arregaçar as mangas e ir trabalhar. Isso ficou decidido quando a diretoria anterior achou por bem renunciar.

V: O que já deu para sentir nesse pouco tempo de trabalho?
G: Toda a nossa diretoria se surpreendeu um pouco com a quantidade de coisas importantes  por fazer. A situação financeira que o Clube vive, que é muito difícil, cheia de dívidas, também me surpreendeu. Tivemos que acertar dívidas sérias de campeonatos passados, além do que se imaginava. Pagamos processos caros dos jogadores Índio e Max — só esses dois custaram ao Botafogo R$ 600 mil, que não estavam no planejamento. Apesar disso, acho que estamos conseguindo superar. Em termos organizacionais, acho que a situação é ainda pior. Encontramos muito a ser feito pela organização interna. O Botafogo não tinha, por exemplo, fluxo de trabalho. As pessoas tinham uma função A, mas exerciam a função A, B e C. Conseguimos aumentar o quadro de funcionários com um planejamento bem feito e colocar cada um para fazer aquilo para que foi contratado.

V: Dá para perceber um olhar empresarial, bem profissional.
G: Devemos pensar dessa forma. Apesar do Clube ser uma Associação e, portanto, não ser uma organização empresarial, ainda é uma organização econômica. É preciso cuidar do fluxo de caixa, do balanço, do endividamento, dos investimentos, etc. É por isso que o pensamento empresarial é importante. Precisamos nos organizar internamente e valorizar a marca do Clube. Trata-se de uma marca de 95 anos tradicional e hegemônica na região. O Clube precisa refletir a pujança característica da região ribeirãopretana.

V: Isso pode ser evidenciado na boutique do Pantera, certo?
G: Nossa boutique vende muito e agora vem sendo toda redesenhada para atender melhor ao nosso torcedor. Pelo trabalho brilhante do Carlo Filipini e de sua equipe, teremos uma boutique completa, com 150 m², grande, bem servida, pronta para receber o torcedor, que também pode comprar na loja virtual, no ar há alguns meses.

V: Envolver-se com o Clube mudou sua visão do futebol?
G: Já tive muitas experiências administrativas, sobretudo em universidades privadas, e conhecia os problemas. Como presidente do Conselho, tinha uma noção clara do que iria enfrentar, assim como o Rogério, o vice-presidente. Apesar de ter uma visão menos romântica do futebol, ainda comemoramos um gol aos 46 minutos do segundo tempo exatamente do mesmo jeito, com absoluto desespero. Outra coisa que eu descobri é que acordo em sobressalto em dia de jogo, não importa qual seja o campeonato. Isso é pior no dirigente do que no torcedor, pois carregamos muita pressão. Quando o jogo acaba, parece que eu estava em campo.


V: Como ficam os cartolas nesse meio que está se profissionalizando?
G: É normal dentro de uma associação ter os cargos honorários. No entanto, eles têm que ser executados por profissionais contratados. O profissionalismo significa que você tenha um efetivo gerente administrativo, um financeiro que traga balanços corretos, uma equipe de comunicação que trabalhe de forma integrada. Uma das primeiras medidas tomadas no Botafogo foi colocar marketing, relações públicas e assessoria de imprensa para trabalharem juntos. Dessa forma, a comunicação do Clube evoluiu muito. Isso também foi feito no setor administrativo e está sendo implantado na categoria de base.

V: Como o Botafogo é visto hoje nas federações?
G: O Clube sempre foi visto como o gigante adormecido, que vive seus altos e baixos de uma maneira muito candente. A Federação Paulista, particularmente, tem uma visão muito particular de cada presidente. Mas na capital prevalece essa impressão de que o Botafogo é um Clube grande do interior, mas que está fora do cenário nacional há algum tempo. Por isso, precisamos voltar rápido para lá, o que significa retornar à Série C em 2014.

V: Já é possível admitir que o Botafogo está garantido na Série D?
G: Falta muito pouco. O Botafogo só não consegue a vaga se três clubes que não têm calendário chegarem às quartas de final ou se o Linense ganhar todos os seus jogos e o Botafogo não fizer nenhum ponto e, ainda assim, o Penapolense conquistar seis pontos em nove a serem disputados, o que é bem difícil. Como estamos tão perto da vaga da Série D, já começamos a planejar.

V: Você acha que será possível manter a base desse time?
G: Antes, há uma preliminar nesse processo, que é a eleição. Nosso mandato é um “tampão”, mas o Rogério, eu e nossa diretoria temos a pretensão de continuar. Estamos formando nossa chapa para isso. Acredito que teremos pelo menos mais uma chapa na disputa, ao que parece, e vamos em busca do voto do nosso conselheiro, que é soberano. Se outra chapa for eleita, entregaremos o Clube bem saneado para que o trabalho possa ser realizado. Se o Conselho Deliberativo do Botafogo nos der esse voto de confiança, poderemos manter o Marcelo Veiga, a comissão técnica e a espinha dorsal desse time. Com pouco mais de metade do que investimos no Campeonato Paulista, unindo nossa prata da casa, conseguiremos subir. É mais difícil se classificar para a Série D do que subir na Série D e é mais difícil subir na Série D do que na Série C. Por incrível que pareça, conforme se caminha para a Série B, a dificuldade diminui. Agora, o Botafogo dá o passo mais difíci para voltar ao cenário nacional de fato, na Série B.

V: O Botafogo já revelou grandes craques no passado. De que maneira retomar essa tradição?
G: O primeiro passo é fazer nosso último seguro obrigatório e enviar o projeto, que já está montado, para certificar nossa base. O Botafogo precisa ser oficialmente um clube formador de atletas. Isso vai acontecer nas próximas semanas e, com isso, selaremos a nossa base, o que garantirá de uma certa forma o retorno sobre o investimento. Assim, teremos condições de, em primeiro lugar, ter bons jogadores para disputar os campeonatos; em segundo, ter uma fonte de receita importante e, em terceiro lugar, trazer investidores para dentro do Botafogo.


V: Em relação às parcerias do Clube com escolinhas e outros esportes, qual a intenção?
G: São três fatores importantes. Alguns esportes não olímpicos são feitos como posicionamento de marca. O Botafogo conseguiu uma sinergia muito grande unindo-se ao Challengers, de futebol americano, já que o esporte está ganhando visibilidade no cenário nacional. Além disso, as parcerias com outros esportes, especialmente com esportes olímpicos, revelam uma intenção clara de receber o benefício da nova lei de refinanciamento fiscal. Há um projeto de Lei do deputado Vicente Cândido, do PT de São Paulo, com o apoio do presidente da Federação Paulista e vice-presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, que deve ser convertido em Medida Provisória ou em Projeto com Urgência Urgentíssima. A lei pretende fazer uma revisão de até 90% das dívidas fiscais e previdenciárias dos clubes, desde que eles tenham um certo número de esportes amadores e invistam em bolsas para atletas. Para isso, nossa diretoria de esportes, capitaneada pelo Henrique Dias, já tem o projeto montado para que, assim que a lei for promulgada como tal ou que a MP entre em vigor, possamos pedir o novo refinanciamento. O terceiro braço são as escolas: atrair jovens atletas de Ribeirão Preto e região para a categoria de base e formar novos botafoguenses.

V: Existe algum projeto futuro para trazer empresários para dentro do estádio?
G: O Botafogo tem alguns problemas endêmicos, criados nos últimos 15 anos, que precisam ser resolvidos. Temos a preocupação de viabilizar o Clube a longo prazo. Em alguns anos, obviamente, passaremos o bastão. Se formos eleitos, e a diretoria que assumir lá na frente precisa ter condições de tocar o Botafogo. Para isso, precisamos trazer o empresariado cada vez mais para dentro do Clube, mas ele só irá aderir a projetos imobiliários no entorno ou em outros se sentir credibilidade na diretoria, valorização da marca e sucesso dentro de campo.

V: Como você concilia sua atividade no Botafogo com a carreira?
G: Esse é um sofrimento grande, não só meu, mas de toda a diretoria. É incrível como o Botafogo gera carga horária de trabalho diário. Mas nos esforçamos para compor a agenda. A única preocupação é com a saúde, mas nada que check ups periódicos não resolvam. Além disso, tenho uma família em Ribeirão Preto que me apoia e uma esposa fantástica. A Paula, que além de esposa é minha melhor amiga, ajuda muito. Temos duas casas, uma aqui e outra em São Paulo. Ela cuida de tudo e, apesar de trabalhar em São Paulo, está sempre comigo, inclusive nos jogos, apoiando e me ajudando naquilo que não consigo fazer por conta do Clube. Tanto ela quanto minha família sabem o tamanho desse desafio, assim é a família de todos os membros da nossa diretoria. Isso explica porque aguentamos trabalhar tanto.



Paixão compartilhada
“A admiração pelo Gustavo surgiu no momento em que percebi que dividimos a mesma paixão pelo futebol e, principalmente, pelo Botafogo de Ribeirão Preto. Jovem e cheio de energia, ele se dispôs a encontrar espaço na sua agenda profissional para compor, com espírito empreendedor, uma diretoria com vontade de mudar e de levar o Clube de volta para o cenário nacional. Somente por sua coragem, já merece ser prestigiado. O profissionalismo empenhado em sua gestão no Botafogo já está evidente.”
Val del Lama, empresário


Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Carolina Alves

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