Os ensinamentos do golfe
João Roberto, Umberto e Henrique: três gerações da mesma família que são apaixonadas pela modalidade

Os ensinamentos do golfe

Segundo os praticantes, o esporte é muito mais do que uma atividade física ou um hobby: com regras baseadas em disciplina, honestidade e respeito, o jogo é um formador de caráter

O golfe é um dos esportes que mais cresce no Brasil. Estima-se que, nos últimos dez anos, o número de jogadores subiu de 12 mil para 25 mil. Homens e mulheres, de todas as idades, têm se rendido aos encantos da modalidade. Para quem vê de fora, talvez seja um pouco difícil compreender as razões de tanto interesse, afinal, o jogo parece ser bem fácil: basta executar algumas tacadas para encaçapar a bola no buraco, certo? Errado. O golfe é extremamente complexo e desafiador. Há uma série de regras a serem cumpridas e o praticante deve ter ciência de cada uma delas, não só na parte técnica, mas no quesito etiqueta. Sim, porque, além de ser um ótimo exercício físico, que combate o sedentarismo e previne diversas doenças cardiorrespiratórias e musculoesqueléticas, e uma excelente opção de lazer para curtir com a família e os amigos, esse esporte transforma o campo em uma verdadeira sala de aula.

Os fundamentos do golfe foram norteados pelos valores da boa educação. Um praticante não pode fazer absolutamente nada que atrapalhe o outro. Deve respeitar os horários e os espaços, deixando o ambiente apto para o próximo jogador utilizá-lo. Na hora das tacadas, o silêncio tem que ser mantido, já que, para colocar a estratégia em prática e realizar o movimento com exatidão, é preciso concentração e foco. Para completar, a honestidade é essencial para quem quer entrar nesse universo, pois a pessoa é responsável por sua própria marcação. O que vale, em uma competição, é a palavra. Esse conjunto de princípios, segundo José Roberto Carvalho, é o ponto forte da modalidade. “O golfe é um esporte que deixa o praticante fanático. Traz benefícios em todos os sentidos, especialmente nesse aspecto da educação, de como moldar a nossa personalidade para um bom convívio em sociedade. Nenhuma conduta equivocada é permitida. Se você não seguir as regras, é penalizado no ato. Essas lições valiosas que aprendemos no campo, levamos para a vida”, descreve o empresário. 

José Roberto iniciou os treinos aos 55 anos e, hoje, aos 70, tem um único arrependimento: não ter começado antes. “Sempre pratiquei tênis e futebol. Um problema nos meus pés fez com que eu parasse essas atividades por completo. Nessa mesma época, o Ipê Golfe Club estava sendo fundado aqui em Ribeirão Preto. Decidi, então, experimentar e foi amor à primeira vista”, recorda. Com as instruções de um professor, logo encontrou sua maneira de jogar. “O golfe me trouxe autoconhecimento, autocontrole e disciplina, tirando toda a minha agitação e ansiedade. Elevou a minha qualidade de vida. Fiz muitos amigos aqui no clube. Tive a oportunidade de jogar nos principais campos do mundo. Já fui para diversos destinos na América do Norte, na Europa e na Ásia. Desde que assumi o cargo de conselheiro da Associação Brasileira de Golfe Sênior (ABGS), fiquei ainda mais envolvido. Tenho até um grupo de whatsapp para comentar as partidas, além de organizar as viagens e os torneios”, confessa José Roberto. A paixão é tanta que acabou contagiando outros membros da família.

Umberto Biagi Carvalho não demorou a seguir os passos do pai. Depois de lesionar o pé em uma partida de futebol, aos 29 anos, o empresário também se identificou com o golfe. “Estava em fase de recuperação e só podia caminhar. Meu pai estava animado, falando bastante sobre o jogo. Resolvi acompanhá-lo e, daquele dia em diante, nunca mais parei. Quando você entende a dinâmica e domina os movimentos, a simples prática nos finais de semana já o fazem evoluir. Isso acontece naturalmente, o que é perfeito para quem, assim como eu, tem pouco tempo livre. Mais do que um jogo físico, o golfe é um esporte que desenvolve a capacidade de raciocinar, de analisar as situações e de criar estratégias para superar os obstáculos que o campo nos impõe. Sou o meu maior adversário e esse desafio, de ter que ultrapassar os meus limites, é o que mais me fascina”, enfatiza Umberto. Hoje, aos 44 anos, ele atua como diretor administrativo do Ipê Golfe Club. 

Com apenas nove anos, Henrique Rigo Carvalho representa a terceira geração da família no esporte. Espelhou-se no pai e no avô para dar as primeiras tacadas. “Com uns três anos, eu já vinha para o campo. Assistia só a parte final da partida. Como mostrei interesse, os dois me incentivaram. Entrei na escolinha com seis anos, gostei e quis continuar. Moro bem pertinho do clube e venho aqui todos os dias. Estou me dedicando porque, em breve, vou participar de um campeonato e quero ter bons resultados. Estou muito empolgado”, adianta Henrique.

O campo

Apontado como um dos melhores do país, o campo do Ipê Golf Club é cercado pela natureza. Localizado bem ao lado de uma área de preservação permanente, o terreno, de 30 alqueires, tem uma topografia privilegiada, com barreiras como lagos, árvores e bancos de areia, por exemplo. Esses obstáculos dificultam a conclusão do percurso e, consequentemente, instigam os jogadores. “Embora possam parecer iguais, já que todos são estruturados com 18 buracos — de três, de quatro ou de cinco tacadas —, cada campo de golfe é único. O nosso, particularmente, é de alta qualidade, maduro e confortável para bater. Por ser estreito, demanda atenção redobrada, já que a chance de penalização é maior”, explica Enoch. O cuidado minucioso e contínuo, executado por especialistas capacitados, também foi essencial para que o campo conquistasse tanto destaque entre os apreciadores do esporte.  

Além do desafio, o fechamento da mata proporciona uma bela vista e um clima agradável para encarar a partida, que dura, em média, quatro horas. “Estar em meio ao verde eleva a nossa energia. Muitas vezes, recebemos a visita de macacos e podemos contemplar uma infinidade de espécies de pássaros”, revela o presidente do clube. Esse conjunto acaba atraindo, tanto os jogadores amadores, quanto os profissionais. “As pessoas adoram jogar aqui. Por isso, nosso calendário anda movimentado. Em junho do ano passado, foi realizado o XVI Torneio Aberto de nosso clube, que teve uma procura significativa. Tanto que fizemos até uma lista de espera, sendo que o campo comporta de 114 a 120 jogadores. Em breve, sediaremos o torneio Juvenil do Estado de São Paulo e estamos trabalhando junto à Federação para realizar o 1º Aberto Brasileiro em Ribeirão Preto”, finaliza Enoch. 

O jogo

No golfe, vence o praticante que terminar o percurso de 18 buracos em um menor número de tacadas (modalidade stroke play) ou quem ganha o maior número de buracos (modalidade match play), tudo dependendo do handicap. Para jogar, é preciso compreender o conceito de par, que é a média de tacadas para embocar a bola em um determinado buraco. Há buracos de par três, quatro e cinco (curtos, médios e longos, respectivamente). Ou seja, quando o jogador emboca a bola em três tacadas em um buraco de par três, fez o par do buraco. A soma dos pares dos 18 buracos é o par do campo, que, geralmente, é 72.

Representatividade feminina

Maria Isabel Botelho Gomes pratica golfe há, aproximadamente, 15 anos. “Meu marido começou a jogar logo que o clube foi inaugurado aqui em Ribeirão Preto e, passado algum tempo, resolvi experimentar também”, recorda. Desde então, tornou-se uma frequentadora assídua do campo. Além dos treinos, participa de torneios dentro e fora do clube. “Eu gosto de tudo: do desafio constante, da busca permanente por um desempenho melhor, da convivência com outras pessoas e do campo, sempre tão lindo. São muitos elementos que, juntos, fazem do golfe um esporte especial”, declara. 
Em um universo predominantemente masculino, Maria Isabel confirma que o interesse das mulheres pela modalidade tem aumentado. “As mulheres e as crianças ainda formam uma parcela pequena do total de jogadores, mas, pouco a pouco, esse grupo vem crescendo e se solidificando”, ressalta. A jogadora reforça que o esporte tem sido mais divulgado no Brasil e, hoje, com os inúmeros canais esportivos das Tvs por assinatura, é possível acompanhar os grandes torneios que acontecem ao longo do ano com muita facilidade, o que acaba estimulando as pessoas a procurarem o golfe, independente da idade ou do gênero. 

Em um universo predominantemente masculino, Maria Isabel confirma que o interesse das mulheres pela modalidade tem aumentado

Atualmente, Maria Isabel exerce a capitania feminina do Ipê Golfe Club. “Esse posto foi criado, justamente, para organizar e animar as mulheres. Existe uma agenda anual composta de torneios que têm como objetivos incentivar a prática do esporte e promover o entrosamento da equipe feminina dentro do próprio clube. Lançamos alguns desafios pontuais, que agitam a competição. Repasso às jogadoras, também, o calendário da Federação Paulista de Golfe, com torneios promovidos em outros locais. Muitas vezes, formamos um grupo e participamos. Procuro estar sempre à disposição para resolver qualquer problema e, caso não seja possível, entro em contato com o Capitão do clube, Nazir Nehemy, que me orienta quando necessário”, finaliza.

Sobre o Ipê Golfe Club

Fundado em 1999, por um pequeno grupo de jogadores que queria ter um lugar adequado na cidade para praticar o esporte, o Ipê Golfe Club inaugurou os primeiros nove buracos em 2001. Dois anos depois, os outros nove, completando os 18. Atualmente, o espaço é frequentado por quase 300 associados. “Lá no início, não imaginávamos que o clube se transformaria em algo expressivo para a população de Ribeirão Preto”, confessa o presidente, Enoch de Paula. O crescimento motivou uma série de aprimoramentos na estrutura. “Para atender melhor o associado e seus dependentes, estamos em uma fase de expansão da área social e das dependências esportivas. A ideia é oferecer opções de lazer para toda a família. Já temos prontas as quadras de tênis. Há, ainda, planos para construir uma academia e uma piscina”, adianta Enoch.

“Lá no início, não imaginávamos que o clube se transformaria em algo expressivo para a população de Ribeirão Preto”, confessa Enoch



Texto: Paula Zuliani | Fotos: Luiz Cervi

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