OS HOMENS GOURMET
Profissionais ou amadores, os homens mostram destreza para pilotar fogões e panelas. As receitas são temperadas com criatividade e variedade de ingredientes

Escolher cuidadosamente os ingredientes, fazer a combinação correta, preparar os pratos com precisão, investir nos temperos e conseguir a perfeita harmonia entre sabores e aromas. Depois de tudo pronto, ainda é preciso montar um prato esteticamente tão apetitoso quanto a receita.
Cozinhar sempre foi arte. Apesar das raízes históricas apontarem os homens como grandes mestres da gastronomia desde a antiguidade, até pouco tempo atrás, a culinária era uma tarefa desempenhada, predominantemente, pelas mulheres.
Aos poucos, de maneira sutil, eles foram se aventurando, novamente, quebrando pré-conceitos e conquistando, definitivamente, um espaço na cozinha. A expressão — homens gourmet — define bem esta vocação.
Muitos homens encaram o desempenho na cozinha como um hobby, uma terapia. É o caso de Alcindo Manzano Ferreira que descobriu o talento para a culinária com um empurrãozinho do destino.
“Na época da faculdade, saí da casa dos meus pais para morar em uma república. Alguém precisava assumir o fogão para que os outros não morressem de fome, principalmente, nos finais de semana. Na ausência de interessados, acabei me candidatando ao cargo. No começo foi um horror. Lembro de uma vez que tentei fazer steak russo flambado com vodka. Queimei as duas sobrancelhas”, recorda Alcindo.
Hoje, trabalha como médico radiologista e tem uma agenda repleta de compromissos. Mesmo assim, encontra um tempinho para cozinhar. “Gosto de fazer desde o trivial para o dia a dia às receitas mais sofisticadas para ocasiões especiais. Pelo menos uma vez por semana, lanço um desafio próprio a ser superado”, revela o médico.
Os risotos e as massas caseiras são algumas especialidades. A família e os amigos estão sempre a postos para degustar as criações de Alcindo.
Animado com aptidão para a gastronomia e os elogios, Alcindo procurou uma escola especializada e aperfeiçoou a técnica. “Queria trabalhar mais rápido, de forma mais eficiente e obter melhores resultados. As aulas me ajudaram a atingir estas metas. Modifiquei a minha forma de cozinhar em muitos aspectos e fiquei feliz com os resultados”, comenta o médico. O curso que Alcindo frequenta é promovido pelo Espaço Gourmet.
Silmar Marcelo Mica Júnior foi quem trouxe esse modelo de negócio, fundado há oito anos em Curitiba,para Ribeirão Preto. “Prestei consultoria para a matriz. Fiquei encantado com o conceito inovador da escola, oferecer conhecimento em ambiente agradável e descontraído. Por isso, decidi abrir uma franquia”, revela. Outro ponto decisivo para que Silmar investisse nesse projeto foi sua identificação com o tema. Formado em Administração de Empresas, o empresário gosta muito de cozinhar nas horas vagas e pretende se tornar um chef de cozinha em breve.
Na escola, o número de representantes masculinos cresceu, significativamente, mas ainda há uma leve vantagem para as mulheres entre os inscritos.
“Os homens se matriculam no curso ‘Chef de Cuisine’, voltado à profissionalização. Adotamos um método que ensina desde a base até as práticas mais modernas. Isso permite que até os leigos acompanhem perfeitamente o conteúdo. Porém, ultimamente, muitos alunos estão buscando as aulas rápidas e pontuais. Entre os módulos mais procurados estão a Cozinha Trivial, o Festival de Risotos e a Cozinha Portuguesa”, avalia Silmar.
Ainda segundo o empresário, os homens costumam ser reservados no início, mas logo se rendem e assumem o posto à frente do fogão. “Eles são empenhados e rigorosos, o que contribui para o êxito”, completa.
Carlos Eduardo Stocco levou o interesse pela culinária tão a sério que abandonou o curso de Direito no terceiro ano para se graduar em Gastronomia.
“Estava sempre olhando minha vó ou minha mãe, enquanto elas preparavam nossas refeições. Desde pequeno isso me atraía. A cozinha era o cômodo mais movimentado da casa e criava uma integração gostosa. Quando estava prestes a me tornar advogado, tive certeza de que aquele não era o meu caminho, a minha vocação. Acabei me encontrando na gastronomia. É encantador ter o poder de transformar alimentos normais em pratos que despertem o prazer visual e gustativo nas pessoas. Para isso, precisamos de imaginação, percepção e bom senso. Uma mistura errada ou um alimento inadequado podem provocar um verdadeiro desastre”, enfatiza Carlos.
Depois de trabalhar em vários restaurantes, em outubro de 2012, Carlos assumiu a gerência operacional do Empório Bonami.
O espaço é repleto de produtos diferenciados, muitos deles exclusivos no mercado de Ribeirão Preto, um atrativo e tanto para quem gosta de inovar nas receitas.
“Sou muito criterioso na seleção dos ingredientes que trazemos. O consumidor local tem bom gosto, é exigente, adora comer bem e cozinhar também. Basta olhar para o tanto de sacadas gourmet instaladas nos empreendimentos atuais para confirmar isso”, pontua o gerente. Com um mix variado, o empório recebe vários visitantes ao dia.
Segundo Carlos, o número de clientes do sexo masculino aumentou. “Hoje em dia, noto que há umenvolvimento maior do homem com a culinária. Além disso, eles estão se arriscando mais, ousando nas combinações, o que é bem positivo”, finaliza Carlos.
Chefs em ação
Formado em Ciências Contábeis e bacharel em Direito, Danilo Campos mostrava destreza na cozinha. Mesmo sem nenhum estudo ou experiência profissional, tinha uma noção de gastronomia. Foi aí que surgiu a ideia de abrir um negócio próprio.
“A culinária é uma paixão. O cozinheiro consegue criar o que quiser, da maneira que achar melhor. É uma forma de exercitar a criatividade irrestritamente. Por isso, decidi unir o útil ao agradável: trabalhar na cozinha e utilizar minha formação dentro da área financeira”, explica Danilo.
Assim, nasceu o Angá. A palavra de ordem no restaurante é misturar: gastronomia mundial com regional, moderna com clássica, fácil com difícil.
“Nunca reproduzo uma receita já existente. Altero, substituo, tiro, junto, diminuo e aumento ingredientes. Só testando para saber o resultado final. Se for bom, incluímos no cardápio. Os estudos dão uma boa base para inventar sabendo que no final tudo dará certo”, comenta Danilo, que decidiu voltar à escola e terminar o curso de gastronomia ainda este ano.
Famoso pelos pratos feitos em fogo baixo, que demoram dois, três dias para ficar prontos com sabor aprimorado, também é reconhecido pelo desempenho na panificação.
O chef frisa que, assim como qualquer outra profissão, o cotidiano na cozinha é árduo e exige dedicação. “Já fiquei 17 horas ininterruptas cozinhando. Temos nossos momentos de prazer e os de sacrifício. Entretanto, nunca temos uma rotina definida e isso é instigante”, conclui.
Danilo Prado traçou um caminho diferente até consolidar seu nome no mercado. Ingressou no meio quando tinha 16 anos e foi aprendendo tudo na prática.
Atualmente, à frente do Gion Culinária Japonesa, afirma que todo o esforço vale a pena. “Ainda mais quando o cliente fica satisfeito. Isso não tem preço. É um sentimento de missão cumprida. Sem a opinião deles, nada seria válido. Quando faço o combinado de especialidades, por exemplo, levo o prato pessoalmente, explico cada sushi, quais ingredientes foram utilizados, os temperos e a forma como deve ser degustado”, declara. Esse contato é essencial para que o trabalho continue evoluindo sempre.
Quando questionado sobre as características necessárias para quem quer se tornar um bom chef, ele não titubeia. “Primeiro temos que conquistar o respeito e a confiança da equipe pelo trabalho, não pelo que somos. Depois, o primordial para qualquer profissional: amor, doação, paciência e competência. Temos que dominar várias técnicas para poder transmitir ao grupo, saber liderar sem impor, sem dar ordens. Tratar todos com dignidade. Também é preciso cuidado em cada detalhe da confecção do prato, desde a compra da matéria prima até a louça utilizada”, lista.
Danilo faz tudo isso de forma natural e tranquila, realizado e feliz por ser um expert naquilo que mais gosta de fazer: cozinhar.
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Julio Sian
Produção de Moda: Marcela Versiani e Mel Cândido
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