Os meandros da arte
Dante Velloni convida o amigo e ex-aluno Nilton Campos a contar sua trajetória
Em uma época em que quase não há espaço para a contemplação, e o entretenimento está ao alcance de todos pelo toque dos dedos, não é fácil tirar as pessoas do apelo da televisão e do computador e atraí-las a um museu. Se essa realidade pode ser observada nas grandes capitais, não surpreende que ocorra em Ribeirão Preto, onde esse tipo de instituição não pertence ao repertório cultural da maioria da população.
Com o intuito de discutir questões como esta, duas pessoas que são referências no meio reuniram-se para um bate-papo: o professor e artista plástico Dante Velloni e o arquiteto, também artista, colecionador e diretor do Museu de Arte de Ribeirão Preto Pedro Mauel-Gismondi (MARP), Nilton Campos.
De um lado, o mestre, que fez brotar no pupilo o gosto pelas artes e conhece por dentro, como expositor e como apreciador, o funcionamento de um museu. De outro, o aluno, que viu sua paixão aflorar a partir das aulas de Plástica de Dante, e se entregou a esse universo, irremediavelmente, passando de observador a artista, a questionador e a diretor de museu.
Amigos há 30 anos, Dante conduz o ex-aluno a uma viagem de volta ao tempo. Nesse caminho, Nilton resgata sua trajetória, que, em muitos momentos, confunde-se com a história do MARP. O reencontro foi acompanhado pela jornalista Carla Mimessi.
Dante: O que o levou a se tornar diretor do MARP?
Nilton: Na faculdade, comecei a realmente me envolver com arte. Já tinha procurado cursos na área, mas foi na sua disciplina de Plástica que me envolvi, comecei a desenvolver exercícios e a me descobrir. Iniciei a faculdade de arquitetura em 1984 e, dois anos depois, fiz minha primeira exposição, com os poucos desenhos que tinha. Sabia que este era um compromisso importante, mas tudo era muito novo. Eu tinha que trabalhar e a faculdade era em período integral. Além disso, havia questões complexas de mudança de vida. Sua profissão, para mim, era uma incógnita, além da vontade de ter suas obras. Vi um cartaz de uma exposição sua e, na mesma hora, quis muito aquele trabalho do cartaz. Mais tarde, consegui compra-lo em um bazar, o que foi muito marcante. Devo a você o meu primeiro envolvimento concreto com a arte. Outro fato que colaborou foi o estágio no Museu Histórico e de Ordem Geral e no Museu do Café, em 1987. Ali, começamos a pesquisar, fazer um planejamento e propor um programa de catalogação do acervo. Foi interessante e sedutor esse período, pois um museu histórico sempre encanta quem tem contato pela primeira vez.
A carta assinada por você, como coordenador do Salão de Arte de Ribeirão Preto (SARP), convocando as pessoas a participarem da Comissão Organizadora do Salão de Arte de 1992 também foi importante. Fiz parte dessa primeira comissão e comecei a entender melhor a administração pública e a participar mais da Secretaria da Cultura. Em 2000, compreendi melhor, especificamente, o que era um acervo público: criamos um livro comemorativo dos 25 anos do SARP com todas as obras premiadas nas edições anuais. Tirar cada uma da moldura — as obras que eram intocadas, pois não tinha acompanhamento técnico — foi uma atitude corajosa. Montamos uma equipe de higienização do acervo para a exposição do núcleo inteiro, fizemos pesquisa, projeto gráfico e revimos toda a catalogação, com os dados existentes desde o primeiro ano.
Dante: Quando você passou a atuar, administrativamente, no MARP?
Nilton: Isso aconteceu em 2002, mas já trabalhava, voluntariamente, junto a Alcebíades Junqueira, diretor do Museu, fazendo assessoria na programação e cuidando da expografia, da programação visual, do projeto gráfico e da montagem das exposições.
Dante: Você sentiu diferença ao sair de um trabalho informal para ocupar um cargo administrativo?
Nilton: O primeiro impacto foi me ver à frente de um museu, o que achava impossível. Quando há uma situação nova, há certo desconforto até em relação à equipe, da qual, até então, eu era somente um colega, envolvido com os mesmos trabalhos. A ideia inicial de ter que abandonar minhas atividades em arquitetura, que adoro, para assumir o MARP foi outro impacto — estava envolvido com projetos importantes junto ao meu sócio, Gabriel Figueiredo. Ao final, foi possível conciliar as duas entidades. Além do mais, estava tão envolvido com o Museu que não diria não, apesar da insegurança.
Dante: Quais foram suas expectativas quando soube que assumiria o MARP?
Nilton: Na gestão de Alcebíades e de Cristiana Viana Calil, Gabriel e eu atuávamos como consultores discutindo pauta, agenda, não era especificamente um trabalho técnico, eles encaravam como algo maior. Acredito que a confiança deles serviu como uma preparação para que eu passasse a estar à frente do museu.
Dante: Como arquiteto, colecionador e artista, teve dificuldade em subordinar questões a orientações políticas, financeiras, de gestão?
Nilton: A relação com o secretário da época, Galeno Amorim, era muito boa. Ele depositou muita confiança em nossa equipe. No ano seguinte, em 2003, tinha muita vontade de realizar todos os projetos possíveis — chegamos a fazer mais de 40 no ano.
Dante: Que projeto fez você ficar apreensivo no início?
Nilton: Superamos vários desafios, como criar uma sistemática de exposições e normatizá-las; criar o Conselho Consultivo do Museu, fundamental para que o MARP ficasse amparado em relação às suas decisões e ao acervo; fazer o regimento interno; fundar a Associação de Amigos do MARP para ter recursos extras à Secretaria de Cultura, entre outras ações. A última funciona por meio da colaboração da sociedade civil, com doações diretas, e promove eventos para levantar recursos, pois somente as contribuições não bastam para suprir gastos urgentes, que não podem aguardar licitação, como goteiras em um prédio centenário. Se não tivéssemos a Associação, enfrentaríamos problemas bem maiores. Organizamos o MARP para tocá-lo de forma mais profissional. Mas há dificuldades que persistem, como não ter os técnicos necessários trabalhando no Museu. Nós solicitamos, mas ainda não conseguimos. Nossa equipe se restringe a poucas pessoas não especializadas. Adriana Guimarães e eu tentamos nos qualificar, fazendo, inclusive, curso de restauro de pinturas por cinco anos. Incialmente, tínhamos uma ajuda de custo da Prefeitura de Ribeirão Preto. O curso foi finalizado em São Paulo e tivemos que viajar, por nossa conta.
Dante: Esse conhecimento foi compartilhado com a equipe do Museu?
Nilton: Sempre passamos aos funcionários as noções de conservação de obras de arte. Temos consciência de que é preciso profissionalizar, qualificar a equipe, entretanto, não conseguimos colocar isso realmente em prática por falta de tempo: ou nos dedicamos ao acervo ou à administração do Museu.
Dante: Quantas pessoas fazem parte da equipe?
Nilton: Somos dois técnicos, a Adriana e eu, e também administramos todos os projetos. Realizamos uma exposição atrás da outra, montamos uma já pensando nas próximas e fechando a agenda do ano seguinte. Para dar conta da demanda do MARP, temos a Tauana Piteli, que faz o trabalho administrativo e o recebimento das obras de arte; a Maria Regina Filipin Luz, que trabalha no administrativo; o Sérgio Nunes, que realiza a manutenção e dá apoio ao educativo. A Cláudia Zaparolli, que também atua na administração, está cuidando do arquivo, especialmente, da parte documental do museu, uma ação inédita. Contamos, também, com o trabalho de vigias e monitores. Tentamos criar uma sistemática e dedicar pelo menos um dia da semana ao acervo.
Dante: Quantas obras existem no MARP e o que a administração pública pode fazer para dar mais autonomia e eficiência à equipe, inclusive, em relação à Casa da Cultura?
Nilton: São mais de 1200 obras. A gerência dos vários museus é um desafio para a Prefeitura e para a Secretaria da Cultura. Esta questão não é um problema só no MARP, mas, principalmente, dos museus do interior, que geralmente têm uma equipe pequena, verbas insuficientes e pouca estrutura física. Para crescermos, precisaríamos de uma equipe técnica e suprir as lacunas exigidas no dia a dia. O próprio secretário, Alessandro Maraca, fala abertamente que está tranquilo em relação ao andamento Marp porque ele funciona, o que ocorre também graças ao apoio da Associação de Amigos do Museu (MARP).
Dante: O estabelecimento de um orçamento e de um organograma para o Museu poderia ser uma saída?
Nilton: Sim, mas as verbas que a Secretaria disponibiliza para os projetos do MARP estão garantidas todos os anos, elas tramitam normalmente via Prefeitura. Verbas extras não existem e o MARP consegue realizar projetos importantes devido ao reconhecimento conquistado fora da cidade, que faz com que nossas parcerias sejam cada vez mais fortes. Acabamos de realizar duas exposições simultâneas com o apoio do Sistema Estadual de Museus, em parceria com o Paço das Artes de São Paulo e com o MIS de São Paulo, sem nenhum custo ao município. Pela diferença que o MARP faz no cenário artístico do interior, conquistamos a credibilidade do Sistema Estadual de Museus, que força as instituições da capital a serem parceiros. Já realizamos projetos em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, com a Pinacoteca, com o Museu Lasar Segall, entre outros. Isso faz a diferença e é consequência do trabalho que desenvolvemos há anos.
Dante: Além das exposições sistemáticas do cronograma, há alguma de destaque prestes a acontecer?
Nilton: Para 2015, pretendemos realizar uma edição especial dos 40 anos do SARP.
Dante: O Museu tem um trabalho de educação, em que jovens são recebidos em visitas monitoradas. Como funciona?
Nilton: Como não há uma pessoa específica para coordenar o projeto educativo do Museu, acabo assumindo essa função. Todas as segundas-feiras, reúno a equipe de estagiários e tentamos desenvolver o melhor atendimento possível às turmas. Isso acontece há anos e a gente percebe uma grande mudança na formação desses estagiários: vários já viraram artistas por conta da experiência no MARP; outros que tomaram rumos diferentes, sempre que voltam ao Museu agradecem pelo estágio. Esse projeto é bacana porque forma monitores e público, uma de nossas principais metas. Temos, também, há mais de cinco anos, uma parceria com a Fundação para o Desenvolvimento da Educação, através da qual levamos diariamente ao Museu 160 crianças — o Estado paga o ônibus e o lanche.
Dante: Por que um Museu respeitado nacionalmente e elogiado por críticos como Tadeu Chiarelli é pouco prestigiado pela comunidade ribeirãopretana?
Nilton: O esvaziamento do público não é só um problema do MARP, mas de todos os museus. Mesmo nas exposições da capital, a visitação não é tão grande. Esse cenário muda quando são feitas exposições tipo ‘espetáculo’, que têm um apelo diferenciado. Além disso, as pessoas têm mais orgulho de falar que foram à Pinacoteca do que dizerem que visitaram o MARP. Temos mais de sete exposições anuais, mas pouco frequentadas. Com a visita dos estudantes, temos feito a diferença, formando público, aos poucos. Quando vemos um menino que visitou a mostra durante a semana voltar no final de semana com os pais, percebemos que estamos fazendo a diferença.
Dante: A arte contemporânea, com o uso de uma linguagem, muitas vezes, hermética, não distancia o público das exposições? Não seria interessante também mostrar obras com linguagem mais acessível ao público?
Nilton: Ficamos com receio de certas exposições, achando que o público poderia não absorver alguns conteúdos, o que, às vezes, acontece, mas, a relação do público com a produção contemporânea de arte é sempre muito estimulante e os resultados acabam nos surpreendendo.
Dante: Isso não ocorre mais diante de obras extravagantes ou interativas, até pela curiosidade gerada?
Nilton: Sim. A exposição da Língua Portuguesa realizada no início deste ano, propunha alguns núcleos interativos. A visitação foi excelente, a interação foi grande e o projeto trouxe um público novo para o Museu. O que faz a diferença na absorção da obra pelo público é o tempo que a pessoa permanece dentro do museu. Uma pergunta inicial, simples, feita pelo monitor, como: ‘o que você está vendo?’ pode fazer toda a diferença ao visitante, pois dá início a uma leitura da obra que pode chegar às suas ‘camadas’ mais profundas. O olhar rápido de quem passa é diferente daquele dado por alguém que fica pelo menos uma hora dentro da exposição. Aí a formação realmente acontece. Outro problema é que, hoje, as pessoas querem informações rápidas, já olham as obras em busca de respostas: se a obra é abstrata, ela quer chegar a uma figuração e pergunta ao monitor o que o artista pretende com a obra. Essa resposta não existe. O importante, na maioria dos projetos de arte, é tirar a pessoa de sua zona de conforto, fazê-la refletir sobre o que está sendo apresentado.
Dante: Qual é a sua concepção ideal de museu?
Nilton: Uma instituição que tenha recursos e autonomia para desenvolver seus próprios projetos, que tenha condições de estabelecer importantes parcerias, podendo contar com uma equipe compatível com suas demandas, tendo como meta a formação de público, a conservação e difusão de seu acervo e de outros.
MENINO CURIOSO
“São 30 anos passados desde 1984, o primeiro ano do curso de Arquitetura e Urbanismo do Moura Lacerda, nas primeiras aulas da disciplina Plástica, da qual eu era responsável. Logo no início, os alunos mais envolvidos com o conteúdo da disciplina e mais dispostos às descobertas da orbe e da urbe começam a se destacar pelo interesse, pela habilidade e pela criatividade. Em meio a esses talentos, apresentei-me acessível, confiável e disponível. Entre vários outros bons alunos dessa turma, destaca-se um menino curioso, atento e cândido ao mesmo tempo: Nilton Campos, arquiteto, artista e diretor do Museu de Arte de Ribeirão Preto há 12 anos. À frente do MARP, Nilton, meu querido amigo, dá excelente sequência ao trabalho dos seus antecessores, Bibi Junqueira, Regina Rennó e Marcelo Guarnieri, os quais pavimentaram esse árduo caminho no qual se confrontam o sonho estético-cultural e a realidade político-administrativa.”
Dante Velloni, artista e professor.
Texto: Carla Mimessi
Fotos: Júlio Sian