Os primeiros da história
Por meio de uma rápida retrospectiva, é possível compreender como o pioneirismo contribuiu para que Ribeirão Preto se tornasse uma referência regional em diferentes setores
Na definição do dicionário, pioneiro é quem abre caminhos, antecipando-se a algo ou a alguém. O termo costuma ser utilizado como sinônimo de desbravador, de precursor, de vanguardista e, mais recentemente, tem sido bastante associado ao universo do empreendedorismo. É sair da zona de conforto, mudar, inovar, enxergar possibilidades, criar oportunidades e transformá-las em realidade, colhendo os frutos e assumindo os riscos por explorar um campo até então desconhecido. De certa maneira, é fazer história. O desenvolvimento de uma cidade como Ribeirão Preto que, em 2019, completa 163 anos, baseia-se nesses primeiros passos, pois eles motivam os próximos e assim por diante.
A própria origem do município comprova essa teoria. “A organização fundiária ligada ao assentamento das primeiras famílias na região, parte delas vindas de Minas Gerais, teve início bem antes da doação de terras para constituir o patrimônio destinado à construção de uma capela em homenagem a São Sebastião. Essa iniciativa de seis fazendeiros contribuiu para a formação e a ampliação do vilarejo, já que atraiu mais residentes. O dia 19 de junho de 1856, data da referida doação, acabou sendo considerada a data oficial de fundação da cidade”, relata o professor, historiador e pesquisador José Antônio Lages, autor do livro “Ribeirão Preto Revisitada”.
A capela que consta no acordo foi erguida e elevada à matriz. Diante da necessidade de ampliação, as obras de um segundo templo começaram em 1866 e foram concluídas em 1870, no terreno onde hoje fica a Praça XV de Novembro. No fim dos anos 1900, depois que as torres ruíram, a população se mobilizou para edificar uma nova igreja, finalizada em 1918. O prédio em questão é a atual Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto.
Ainda na parte de urbanização, há uma forte probabilidade, segundo Lages, de que o Ipiranga seja o bairro mais antigo do município. À época, era chamado de Barracão de Cima, para se diferenciar do Barracão de Baixo, o bairro dos Campos Elíseos. “Nesse aspecto, existe uma controvérsia. Algumas pesquisas defendem que o primeiro bairro teria sido o Santa Cruz, denominado, a princípio, de Santa Cruz do José Jaques, o seu primeiro morador. Em outra possibilidade apontada nos estudos, o bairro República, região entre a Avenida Caramuru e a margem direita do Ribeirão Preto, aparece como pioneiro”, explica o professor. Já quanto a primeira grande avenida não há dúvidas. “Certamente, foi a Avenida Saudade, com 1.300 metros de comprimento, no fim da década de 1910”, relata o historiador.

A obra “Ribeirão Preto Revisitada” também menciona a abertura do primeiro parque, o Bosque Municipal Fábio Barreto, e a inauguração do primeiro prédio verticalizado, o Edifício Diederichsen, que se tornou um dos símbolos da modernização experimentada pela cidade. Construído em 1936, com a inovadora técnica do concreto armado e seguindo os conceitos do estilo arquitetônico art-déco, o empreendimento possui seis pavimentos além do térreo e, desde o início, teve uso misto, abrigando lojas, serviços, cinema, hotel, Café Única e o famoso bar Pinguim. “O Diederichsen foi o primeiro edifício alto do interior do Estado de São Paulo”, acrescenta Adriana Silva, pesquisadora do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC). Esse intenso progresso pode ser sentido, ainda, em outras áreas.
Economia
Até por volta de 1870, Ribeirão Preto tinha uma economia de subsistência. Havia o predomínio de trocas com vilas próximas. A primeira fonte de renda a se destacar entre os moradores foi a criação de gado, mas esse segmento logo perdeu espaço para a cultura cafeeira, que, diante do clima propício e das terras férteis, ganhou força. No início da década de 1920, o município foi o maior produtor de café do estado de São Paulo, ostentando altos índices de exportação, principalmente para o mercado europeu. O produto chegou a responder por 90% da arrecadação monetária da região. As lavouras, que dominaram a paisagem, trouxeram a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e, com os trens, vieram várias famílias, incluindo os imigrantes, gerando aumento demográfico, desenvolvimento expressivo e muitas riquezas.

Juntamente com as plantações, pequenas indústrias, estabelecimentos comerciais e pontos de serviços também funcionavam pela cidade. Com a quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929, o café entrou em declínio e essa diversificação de atividades foi ainda mais estimulada. “Nesse período de transição, tivemos uma próspera policultura, com destaque para o algodão”, lembra Lages. Em seguida, o município retornou à monocultura, dessa vez, com a cana de açúcar e o setor sucroalcooleiro imperando. No âmbito industrial, a cidade, diferentemente de Sertãozinho e Franca, por exemplo, teve atuação discreta e não alcançou expressividade. “Talvez as cervejarias Antarctica e Paulista possam ser citadas como as duas únicas indústrias de grande porte instaladas em Ribeirão Preto”, completa Lages.

Avançando significativamente nessa linha do tempo, a inauguração de um complexo de compras e de entretenimento, em 5 de maio de 1981, representa a consolidação da vocação da cidade para o comércio e para a prestação de serviços. Para muitos, parecia improvável que um estabelecimento desse gênero pudesse se firmar tão longe do centro urbano, já que o local escolhido para o empreendimento foi um terreno na área rural, na zona sul. A estratégia, no entanto, mostrou-se acertada. O RibeirãoShopping abriu as portas com 100 lojas, duas salas de cinema e uma praça de alimentação. Hoje, o espaço está inserido em uma movimentada região da cidade, já passou por nove expansões e recebe mais de 10 milhões de frequentadores por ano.
Saúde
Não há informação do dia exato, mas a Santa Casa de Misericórdia é apontada como o primeiro hospital fundado na cidade, por volta de 1896, como Sociedade Beneficente de Ribeirão Preto. A ideia foi trazida de Portugal por um grupo de entusiastas com o objetivo de disponibilizar um serviço de qualidade na área da saúde à população carente da região. A princípio, os pacientes recebiam os cuidados médicos em um simples casarão. Com a demanda por atendimentos se multiplicando em ritmo acelerado, a estrutura ficou pequena e defasada. A Prefeitura, então, doou um terreno para ampliação do prédio. Em 1902, Padre Euclides Gomes Carneiro assumiu a provedoria e buscou ajuda para aprimorar o funcionamento da instituição. Com as irmãs salesianas na direção, em 1910, a Sociedade foi renomeada como Santa Casa de Misericórdia.

Ano após ano, o complexo acompanhou a evolução do município, expandindo, organizando e modernizando as instalações e os métodos de gestão. A Santa Casa continua em atividade e, atualmente, conta com 254 leitos, 250 médicos credenciados, 250 médicos residentes e especializados, além de 1.060 funcionários. A média mensal é de 18 mil atendimentos, 1.600 internações, 800 cirurgias e 1.500 atendimentos na Unidade de Urgência e Emergência. A instituição ainda recebeu, recentemente, o selo de acreditação da Organização Nacional de Acreditação (ONA).
Cultura

A cena cultural também teve extrema importância na história de Ribeirão Preto. Por isso, não poderia ficar de fora da lista. O Teatro Carlos Gomes faz parte desse legado. Construído com recursos oriundos da produção do café, o espaço foi inaugurado em 7 de dezembro de 1897, com a ópera Il Guarany, do maestro Carlos Gomes, que emprestou o nome para que o teatro fosse batizado. O prédio, imponente, tinha capacidade para 400 pessoas na plateia, além do palco para apresentações, sala de recepção e de bailes. “O Teatro Carlos Gomes foi construído antes até do que o Teatro Municipal de São Paulo, que é de 1911”, enfatiza Adriana. Na era de ouro, administrado por François Cassoulet, promoveu grandes shows, festas e diversas apresentações nacionais e internacionais.

Em 8 de outubro de 1930, aconteceu a estreia do Theatro Pedro II. Com capacidade para 1.588 pessoas, o local rapidamente conquistou o posto de principal casa de espetáculos da cidade. “Ribeirão Preto ganhou o título de Capital da Cultura exatamente no período histórico em que tivemos os dois teatros em funcionamento. A cidade era vista como a petit Paris, ou pequena Paris”, descreve a pesquisadora. O Teatro Carlos Gomes foi demolido em 1946. Em seu lugar, atualmente, está a Praça Carlos Gomes. Já o Theatro Pedro II, depois de muitos percalços e de um amplo trabalho de restauração, continua sendo referência cultural e cartão postal do município, recebendo renomadas companhias e sendo o centro de acontecimentos políticos e sociais.
Educação
Os registros comprovam que o ensino começou por meio de classes particulares. As aulas eram ministradas por professores e professoras em suas próprias residências. A Câmara Municipal regulamentava esse processo. O primeiro grupo escolar foi criado em 1892, por iniciativa de Luiz Pereira Barreto e do Senador José Guimarães Júnior, e é a atual Escola Estadual Guimarães Júnior. Fundada em 1º de junho de 1924, por um grupo de idealistas, profissionais de saúde, intelectuais e educadores locais, liderados por Lourenço Roselino, a Sociedade Escola de Pharmácia e Odontologia de Ribeirão Preto foi a primeira instituição de Ensino Superior da cidade. Em 1928, a Sociedade passou a ser denominada Associação de Ensino de Ribeirão Preto (AERP).
Um capítulo mais recente
Depois dessa viagem a alguns momentos importantes do passado, vale a pena fazer uma breve análise de Ribeirão Preto no tempo presente. Por meio desse exercício simples, é possível constatar que a cidade está em constante evolução, mantendo o pioneirismo entre as principais características. Ano após ano, mais novidades surgem, são consolidadas e contribuem para a qualidade de vida dos moradores.