Os relacionamentos no divã
Sexóloga e doutora em Psicologia, Vanessa Monteiro Cesnik-Geest compartilha sua leitura sobre os relacionamentos amorosos estabelecidos na atualidade
A chegada de sexto mês do ano anuncia que está próximo, no Brasil, o Dia dos Namorados. Em 12 de junho, véspera do dia dedicado a Santo Antônio, o casamenteiro, os casais apaixonados costumam dedicar atenção especial um ao outro. A ocasião é ideal para celebrar o amor, que, mais do que nunca, pode acontecer das mais diversas formas e nos mais variados ambientes. Segundo a sexóloga e doutora em Psicologia, Vanessa Monteiro Cesnik-Geest, as relações amorosas da atualidade são mais livres, e aí está sua grande vantagem. Por outro lado, essa liberdade na hora de estabelecer vínculos ou de desfazê-los pode gerar a construção de relacionamentos superficiais, sem a profundidade que chega com o tempo, com o autoconhecimento e a intimidade com o outro.
Casada há dois anos, depois de oito de namoro, com o fisioterapeuta Guilherme Bernardo Geest, Vanessa ressalta que ainda há, sim, muito espaço para o estabelecimento de relacionamentos duradouros e que um dos grandes segredos para isso, na sua leitura, é a sinceridade de cada indivíduo, especialmente em relação às expectativas com o relacionamento.
Por que escolheu a Psicologia como formação?
A minha escolha pela Psicologia não foi tão fácil. Eu tinha uma ideia bem vaga do que era ser psicóloga. Na época do vestibular, sentia um desejo de fazer Psicologia, mas sem ter certeza. Para se ter uma ideia, na UNICAMP, como não tem curso de Psicologia, eu prestei Química, porque já tinha feito Curso Técnico em Química e eu gostava. Fiz um ano e meio de faculdade de Química até perceber que não era aquilo que eu queria. A escolha final pela Psicologia acabou surgindo por comparação porque, na época da Química, eu passava muito tempo dentro de um laboratório sozinha mexendo com experimentos. Tinha duas angústias nessa época: sentia falta de estar com pessoas no meu dia a dia e de entender a mente e o comportamento das pessoas, que me encantavam. Quando decidi abandonar a faculdade, participei de cursos de imersão terapêuticos e de psicoterapia. Quando vi os terapeutas trabalhando, senti um preenchimento tão grande e percebi que era realmente aquilo que queria. Foi assim que escolhi a Psicologia com mais certeza, voltei a fazer cursinho até passar no vestibular. Foi o curso de Psicologia da USP que me trouxe a Ribeirão Preto.
As relações humanas estão entre seus principais materiais de trabalho?
Totalmente. Como psicóloga, as relações humanas são meu foco. Busco entender como a pessoa se relaciona com ela mesma e com as outras do mundo dela — relacionamento afetivo, social, profissional e familiar. Hoje, meu foco é ainda maior na parte de relacionamento afetivo, por conta do meu trabalho como Sexóloga também.
Genericamente, como você definiria as relações amorosas comuns no século XXI?
As relações amorosas hoje em dia são mais livres. Antigamente, existiam muitas regras morais de relacionamento que acabavam prendendo uma pessoa ao relacionamento amoroso, mesmo que ela não estivesse feliz. Então, o que acabava mantendo as pessoas juntas não era necessariamente afeto, admiração ou gostar de passar um tempo junto, mas, sim, uma cobrança externa. Isso existe muito ainda hoje, mas vem perdendo cada vez mais espaço. As pessoas tendem a ficar em um relacionamento amoroso apenas se fizer muito sentido para elas. Aquele ditado “antes só do que mal acompanhado” vale mais agora do que antes. Como a “oferta” de relacionamentos está maior por conta da tecnologia (com aplicativos de encontros bem fáceis), acaba encorajando as pessoas a se arriscarem com uma nova pessoa e não ficarem com aquela que já perceberam que não combina.
Quais são as características da contemporaneidade que ajudam a definir como os relacionamentos se estabelecem na atualidade?
As pessoas estão mais conectadas com quem elas são de verdade, com o tipo de vida que querem ter, com o tipo de pessoa que querem compartilhar a vida. Essa é uma característica que pode ser boa ou ruim. Ela pode ser boa quando tira a pessoa de um relacionamento abusivo, que trazia sofrimento excessivo para ela; e pode ser ruim porque, às vezes, vemos algo na pessoa que não gostamos e já nos distanciamos dela sem nem dar tempo de conhecê-la com profundidade para saber se realmente os valores principais estão alinhados ou não. Muitas vezes, o medo da intimidade faz com que as pessoas acabem fugindo de um relacionamento mais duradouro, com compromisso maior. Na intimidade, vemos a pessoa como ela é e ela nos vê exatamente como somos: com qualidades e defeitos. Isso, às vezes, assusta, até porque são características que, normalmente, não postamos nas redes sociais. Quando isso vai para a polaridade oposta, sai do conservadorismo rígido para um troca-troca de relacionamentos que acaba deixando um sentimento de vazio, o que também não é bom.
Entre os mais jovens, a influência do mundo virtual nas relações transportadas para a vida real traz quais consequências?
O mundo virtual tem muita influência nos relacionamentos amorosos hoje em dia, principalmente, na questão do controle social. Antes das redes sociais não dava para saber o que a pessoa estava fazendo, pensando ou curtindo. Hoje, tem métrica para tudo. Eu consigo saber quantas curtidas um post teve, quem são as pessoas, quem vê meu perfil (ou o do crush) com mais frequência. Daí o nível de controle que as pessoas conseguem ter em relação à vida alheia é muito grande, chega a ser assustador. A individualidade e privacidade acabam perdendo espaço e esses fatores são muito importantes para um relacionamento amoroso. Além disso, tudo fica urgente e instantâneo. Antes, alguém mandava uma carta e esperava por semanas para ter resposta. Mesmo um telefonema permitia falar com uma pessoa de cada vez. Hoje não. Atualmente, consigo conversar com várias pessoas ao mesmo tempo pelas redes sociais e quando isso acontece, querendo ou não, essa conversa acaba sendo mais superficial do que se eu estivesse falando com uma pessoa só, uma vez que o clima de cada conversa é diferente. Não dá para manter tudo isso ao mesmo tempo e se entregar por completo. Então, as pessoas acabam acostumando com interações mais superficiais, que dão mais sensação de vazio. A tecnologia é boa porque dá esperanças de encontrar pessoas mais parecidas e alinhadas comigo, mas, ao mesmo tempo, traz mais superficialidade nas relações. O bom mesmo é achar o caminho do meio.
Ainda que a sociedade tenha ganhado novos contornos, imediatistas e temporários, há quem deseje estabelecer vínculos amorosos?
Existem muitas pessoas que buscam estabelecer vínculos amorosos hoje em dia, mas por vários fatores acabam se distanciando desse compromisso. Grande parte ainda fala que, apesar de estar “por aí” com relacionamentos mais temporários, está procurando alguém para estabelecer um compromisso mais duradouro.
Ainda há espaço para relações duradouras?
Com certeza há muito espaço para relações duradouras. A partir do momento que você encontra uma pessoa com quem compartilha seus valores mais importantes (mesmo que um deles seja liberdade) é comum as pessoas quererem ficar mais tempo com ela. É assumir que, por ser livre, posso escolher estar com aquela pessoa por mais tempo. As pessoas costumam dizer que ou você é livre ou você tem um relacionamento duradouro, e isso não é verdade. É possível ter um compromisso sem perder a autonomia de decidir o que é melhor para você na sua vida. Sem colocar a decisão da sua vida na mão do outro.

Como driblar as dificuldades do dia a dia para permanecer ao lado do mesmo par?
O primeiro passo é saber que aquela pessoa não vai preencher todas as suas expectativas e necessidades e você também não vai preencher todas as expectativas e necessidades dela. Vejo muita gente que acredita que amor significa querer ficar grudado o tempo inteiro, não poder sair com amigos e família sem a presença do(a) parceiro(a). No entanto, o amor não suporta tanto tempo de prisão. Saber mesclar o tempo que o casal passa junto e o tempo que cada um passa e sonha individualmente é um desafio a ser driblado. Outro ponto importante é a sinceridade do que cada um espera do relacionamento. Vejo muitos casais que começam a sair, o homem diz que está apaixonado mesmo sendo mentira, a mulher diz que não quer relacionamento sério mesmo sendo mentira. O que acaba acontecendo é que as pessoas brigam porque mentiram sobre as expectativas que tinham sobre o relacionamento. Se você está saindo com alguém somente pelo sexo e não para ter um relacionamento afetivo e isso fica claro desde o começo, a outra pessoa pode escolher estar com você ou não baseada nessa verdade. Agora, se você sai com alguém sabendo que quer só sexo e diz que está procurando “a pessoa ideal”, mesmo sendo mentira, você vai criar expectativas nessa pessoa que são irreais. A sinceridade, nesse caso, é essencial para alinhar os objetivos e os projetos de vida de duas pessoas. Quando uma ou outra se sente aprisionada, alguma coisa está errada. O pilar da sinceridade em relação ao que cada um quer do relacionamento é essencial.
Esta é uma das principais demandas trazidas ao seu consultório no atendimento a casais?
A principal demanda que encontro no atendimento a casais é a culpabilização da outra pessoa. É vir no consultório para falar como a outra pessoa é ruim para ela ou fez algo que a machucou; para falar como a outra pessoa estava errada em relação ao que aconteceu. A parte mais difícil do relacionamento amoroso é se dar conta de que algo em mim abre a possibilidade da outra pessoa fazer aquilo que me machuca. Que, no fundo, graças a eu ser como eu sou, abre o convite para a outra pessoa fazer o que ela faz de ruim. É como uma tomada e um plug. Se eu reclamo que sempre encontro uma pessoa com um “plug de 3 pinos”, preciso olhar pra mim e perceber o formato da minha “tomada 3 pinos”. Para eu mudar o comportamento da outra pessoa em relação a mim, preciso antes mudar o meu comportamento. Esse é o maior desafio e a maior demanda de consultório quando envolve casais.
De acordo com a sua experiência clínica, que outras questões são comuns?
Outras questões comuns são relacionadas a problemas sexuais. Dificuldades de ter relações sexuais prazerosas com o parceiro ou parceira, diminuição do desejo ou também vivências traumáticas anteriores que impedem da pessoa se soltar na vida a dois com tranquilidade. É um tipo de problema que raramente as pessoas comentam por aí por ser um assunto que normalmente é evitado ou trazido apenas em forma de brincadeiras e cobranças.
O sexo é um ingrediente importante no estabelecimento desse vínculo?
A forma como o casal vivencia a sexualidade é um ingrediente muito importante para o vínculo do casal. Quando eu falo isso, não estou dizendo que as pessoas precisam ter relações sexuais tantas vezes por semana para serem felizes. A ideia é que as pessoas busquem formas de prazer mútuo durante a vida. Seja com abraços, beijos, carícias e também com a relação sexual em si. Vejo muitos casais que nem conversam direito, nem se beijam de língua mais e querem que, na hora de ir para o quarto, magicamente o desejo sexual surja. Quando falamos de sexualidade fluindo com intimidade, o vínculo fica muito mais forte, dentro do respeito e da alegria de estar ali junto. Sem as cobranças de “ter que” fazer isso ou aquilo. Isso vale para os homens e para as mulheres. Existem muitas cobranças de todos os lados em relação à sexualidade hoje em dia. Não sei se você sabe, mas há um hormônio chamado ocitocina que tem o apelido de “hormônio do vínculo” ou “hormônio do amor”, responsável por criar um vínculo e uma empatia entre as pessoas. Esse hormônio é liberado no corpo quando uma mulher amamenta um bebê (e que ajuda no vínculo mãe-bebê) e também durante o orgasmo. Então, uma relação sexual prazerosa, que chega ao orgasmo, ajuda no vínculo entre as pessoas até biologicamente falando.
Esse assunto ainda é um tabu?
Com certeza esse ainda é um assunto tabu. Nas minhas palestras e formações que dou nessa área, ouço pessoas com vergonha de falar de sexualidade ou presas em regras e cobranças que acabam afastando as pessoas, como, por exemplo: “mulher que tem orgasmo é puta”, “homem que não tem ereção não gosta de mulher”, entre outras crenças limitantes que aprendemos ao longo da vida. Esses tipos de crenças restritivas acabam atrapalhando as pessoas de se relacionarem com leveza e o tabu impede as pessoas de conversarem e esclarecerem as situações.
Foi por isso que surgiu o projeto “Falando Naquilo”? Em que ele consiste?
Sim. Quando as pessoas têm algum problema ou conflito com a sexualidade, logo buscam um profissional da Psicologia ou da Medicina para pedir ajuda. O problema é que a faculdade de Psicologia e de Medicina não ensinam sobre sexualidade para os alunos (até mesmo por causa da complexidade do tema). O resultado era que tinham muitas pessoas precisando de ajuda e procurando profissionais que também não sabiam como auxiliar. Percebi essa demanda e juntei aquilo que estudei no meu doutorado aqui na USP (que foi na área da sexualidade), junto com o que aprendi na especialização em sexologia e na prática clínica para criar uma maneira mais simples de abordar um assunto tão importante. O projeto começou com treinamentos para profissionais da saúde, mas hoje também atuo com formação e palestras por todo o Brasil em escolas (com pais e professores), empresas, hospitais e também faculdades.
Tem planos de expandir essa ideia também para o público em geral?
Sim. Comecei com os profissionais da saúde porque a replicação do conhecimento seria mais rápida, mas o próximo passo é também ajudar o público em geral em suas dúvidas e desafios pessoais sobre o tema da sexualidade.